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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

26
Fev10

Não vou

Bruno Vieira Amaral

 

Eu também tive o meu momento Sartre. Quando, pela primeira vez, me foi outorgado um prémio literário, pensei de imediato na forma mais extravagante de recusá-lo. Um comunicado, o silêncio, uma acção terrorista durante a cerimónia de entrega. Nada disto. No dia fatal, lá estava eu, a minha timidez e, na cadeira ao lado, o meu tio. Primeira lição: prémios literários em escolas secundárias dos subúrbios atraem pouca atenção. Para além dos vencedores e de uma esforçada professora de português, estariam os derrotados e, à porta, uma contínua impaciente para lavar a sala. E o meu tio. Os escolhidos foram chamados para declamarem os respectivos poemas. A grande vencedora foi uma rapariga a quem a vida não parava de maltratar e que, consequentemente e sem remorsos, se vingava na poesia. O poema era sobre tristezas várias e creio que mencionava um namorado ou talvez fosse uma sopa de legumes. Os poemas misturavam noções frágeis da poesia de Florbela Espanca e, mais do que prémios, mereciam uma intervenção da Segurança Social. Houve aplausos da plateia. Eu, a suar toda a minha adolescência, antecipava o doloroso momento de declamar as minhas pobres rimas. Sublinho que ganhei na categoria de poesia popular. Esta associação fez-me temer por um futuro literário em jogos florais, quadras em azulejos e taças de tinto sorvidas em tascas tristes. O subtil ironista, que eu julgava ser, era, aos olhos do corpo docente, apenas um pantomimeiro de bairro social, um artista de vaudeville das barracas, um António Aleixo dos pobres (mesmo sabendo que António Aleixo também era um António Aleixo dos pobres). O que podia o meu ouvido popular, desabituado de livros e erudições, contra o confessionalismo patético de uma rapariguinha acabadinha de perder a virgindade para um jogador da bola? Nada. E lá fui chamado. Não respondi. Chamaram-me novamente. Novamente ignorei a chamada. “Não está aqui o Bruno Vieira?” Cedi. Afinal, por muito embaraçosa que fosse a situação, eu estava ali. O meu tio olhou-me e o olhar tinha escrito “não me envergonhes”. Levantei-me. “Podes vir ler o teu poema?” “Não vou”. Raros terão sido os objectores de consciência a proferir um “não vou” tão convicto, tão cheio da superioridade moral de que só as grandes causas nos podem insuflar. “Mas não queres ler o teu poema?” E eu, um bocadinho mais humilde, como se um imaginário pelotão de fuzilamento tivesse desaparecido revelando a prosaica realidade de contínuas e apagadores, professoras e cheiro a sonasol verde, balbuciei um “não” que agora era mais “terei todo o gosto em ouvir o meu poema na sua bela voz, as palavras que imaginei a vencerem a leve resistência dos seus lábios”. Sorte que a mulher era horrível e tais devaneios não me atravessaram o espírito. “Mas não queres mesmo ler?” E a cada insistência a minha determinação esvaía-se um pouco mais, empapada em suor e calcinada pela bola de fogo que me queimava o estômago, abrindo caminho até ao esófago e jorrando num largo, abundante e apoteótico vómito que se substituiu ao “não” definitivo que me preparava para suspirar. A contínua, a única que não tinha sido anestesiada pelos vapores da má literatura, apressou-se a limpar os restos do meu almoço e da pouca poesia que, desde aquele dia, me abandonou.

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