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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

15
Abr10

McKenna

Bruno Vieira Amaral

Tem 83 anos. Mantém aquele olhar que fez dele o actor que a miudagem adorava em filmes como “O incorrigível celerado”, “Divertimentos debaixo de uma segurança social” e “Silogismos mornos: regresso a Antioquia”. Cedric Stuart Mckenna recebe-nos em sua casa em roupão. “Olá, acabei de alimentar o Chavez, o meu pit bull”. Depois, repete a frase que o tornou famoso: “You chose the wrong ass to play with, sir” com o seu piscar de olho característico. Por baixo do rímel, continua a ser um machão.

 

A casa, desenhada por Frank Loyd Wright nos anos 30, é motivo de orgulho para o lendário Reverendo McIntire da série “Pagarás o dobro”. “Bons tempos. Naquela altura, as pessoas viam-me na rua e pediam-me ajuda, conselhos, drogas. Eu dizia-lhes sempre: “A vida é dura para os oftalmologistas sem coração”. Não podemos deixar de sorrir ao ouvir a frase com que o Reverendo terminava todos os episódios e que de acordo com o autor, Evan Hunter, não queria dizer nada. “Escrevi-a para ver o McKenna a fazer figura de parvo”, foram as últimas palavras de Hunter.

 

Entramos na sala. Ao centro, uma fantástica mesa de mogno chinês decorada com fruta de plástico da I Dinastia Ming. “Querida, as bananas são Ming ou Chi-Huang?” “Stu, não existe nenhuma dinastia Chi-Huang.” Parece que é uma espécie de partida que McKenna gosta de pregar aos convidados. “Estava quase a acreditar, ein? Ein ou hem? Ah, ah! Bolas! Ah, Ah ou ih, ih? Filho, o grande problema é que quando envelhecemos todas as maneiras de rir são igualmente ridículas.” Di-lo com o tom de Marco António da versão televisiva da peça de Shakespeare “Júlio César”. “O Mankiewicz não gostava de mim. Escolheu o Brando. Um gajo fraquito. Sempre detestei o Método. Uma vez até apareci num talk-show com uma camisa que dizia “Lee Strasberg cheira mal dos pés”, o que por acaso até era mentira”. Um conversador de primeira.

 

Observo a tapeçaria na parede. Parecem divindades gregas. “Juno?”, pergunto eu. “Sim e ao lado dela Fred Flinstone de cabeça para baixo”. Um fartote. Procuro desviar o assunto para aquilo que me interessa. “Vai perguntar-me sobre a história do activismo gay? Não se envergonhe; é isso que toda a gente quer saber. Isso, se eu fui para a cama com Rock Hudson e qual o maior lago de água doce do mundo.”

 

Nos anos 70, McKenna atravessou uma fase complicada. Irascível no plateau, foi acusado de esbofetear um ganso durante as filmagens de Nils Holgerson. Os espectadores também já estavam cansados do Reverendo (a série, no entanto, continua a ser um sucesso em França; em 1992, McKenna foi agraciado com a Legião de Honra por Mitterrand. “La vie est dure pour les ophtalomologues sans coeur”, disse um emocionado presidente gaulês na cerimónia). McKenna deixou a mulher, experimentou drogas e, no auge do desespero, filiou-se no Partido Republicano. É por essa altura que McKenna aparece pela primeira vez em manifestações pelos direitos dos homossexuais. As palavras de ordem “Gay is good”, “Gay power” foram substituídas por outras mais provocadoras “We need causes”, “Fight for the right to fight for rights”. “Bem, sabe, eu sempre me preocupei muito com essa gente. George Cukor disse-me um dia que uma pessoa não escolhe aquilo que é. Certo, disse-lhe eu, afastando a mão dele da minha perna, mas nenhum homem é obrigado a dar beijinhos a outro”.

 

Pergunto-lhe se ainda considera Richard Dean Anderson o maior actor do mundo. Responde-me com um sorriso e tenta agredir-me com uma estatueta hindu. C. S. McKenna pode não ter a mesma pontaria mas será sempre o “transeunte abespinhado”.

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