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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

12
Jan09

Um filme de vez em quando

Bruno Vieira Amaral

 

O buraco entre gerações filmado como um western crepuscular. Sem cowboys. Só crepúsculo. Bogdanovich, meio pedante, meio filho à procura do pai, dizia que este era o seu filme fordiano. E era. Sobretudo na personagem de Ben Johnson (um dos elementos da trupe de Ford), o dono do cinema onde se exibirá a última sessão porque os jovens não resistem ao canto da sereia televisiva. Sam é o cowboy num filme sem cowboys. Aquele que obriga os jovens a engolir a palavra que é tudo aquilo que eles não têm: decência. Não a decência dos bons costumes mas a decência da honra. A decência que o jovem Sonny (Timothy Bottoms) demonstra quase no final, quando recolhe o corpo de Billy, em magnífica Pietà fraternal. Sonny é o centro moral do filme. É ele a ponte entre gerações. É ele que Sam escolhe como herdeiro. É com ele que a quarentona Ruth redescobre o fulgor juvenil. É a ele que Lois (Ellen Burstyn, “a mãe” dos anos 70 em O Exorcista e Alice já não mora aqui) confessa o seu grande amor. É ele o jovem retratado com uma generosa luz. O mais humano. O mais “velho”. Duane (Jeff Bridges) é um estouvado. Jacy (Cybill Shepperd), a musa de uma cidade de província demasiado pequena para a sua ambição, demasiado cruel para os seus sonhos, é o vértice fatal (para ela mais do que para os outros) do triângulo, símbolo da juventude frívola e inconsequente. Há quem opte pela facilidade de dizer que “A Última Sessão” é um filme sobre a perda da inocência. Não é. É sobre o deitar fora essa inocência, como se fosse um estorvo. Despi-la como Jacy despe a sua virgindade na piscina. “A Última Sessão” é um filme sobre a passagem do testemunho de uma geração para outra. Valoriza-se o legado mais do que a inovação, a tradição mais do que a rebeldia, o permanecer mais do que o partir. Sonny é quem fica. Duane e Jacy partem. Cada um para a sua guerra. Sonny é Bogdanovich. Sam é Ford. Quando a New Hollywood já se instalara, Bogdanovich não lhe compôs a marcha triunfal. Fez a elegia da velha ordem, da qual o realizador se via como herdeiro directo e dilecto. Não foi o primeiro dos “modernos”. Foi o último dos clássicos.


 

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