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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

15
Jan09

Touro Brando

Bruno Vieira Amaral

 

É o melhor filme de boxe da história do cinema. Não tem uma única cena no ringue mas isso não interessa. Os bons filmes de boxe nunca são sobre boxe. Tem a cara de Marlon Brando (e a cara de Brando merecia uma biografia à parte da biografia do homem) e isso quer dizer que desde o contorno dos lábios à melancolia das pálpebras pesadas sobre os olhos, até mesmo o nariz, demasiado imperial para um estivador, demasiado perfeito para um pugilista (apesar de partido), não há ali nada que não contribua para a sensação de força bruta porém triste que emana de Terry Malloy.

Os críticos de Eliz Kazan acusam o filme de ser a justificação moral da denúncia. E não podemos negar que o contexto dá outra dimensão ao filme. Mas não é essa dimensão a mais importante. O mais importante é o caminho para a redenção de Malloy. Um homem que perde de propósito no ringue e que tem de recuperar a dignidade na rua, no cais. Na cena final, o padre (Karl Malden, o nariz mais feio do celulóide) não conta até dez mas insta Malloy a levantar-se. Urge et ambula. E ele levanta-se e anda. É dessa forma que ele prova que não é um inútil, um vadio. É assim que ele se redime dos erros do passado mas também da denúncia da qual se envergonha. Ao oferecer-se em sacrifício em vez de fugir, Malloy renasce.

"You don’t make up for your sins in church. You do it in the streets." São as primeiras palavras que se ouvem em Mean Streets. Quando em 1999, perante uma Academia dividida, foi atribuído o Óscar honorário a Kazan, Scorsese foi um dos mais efusivos nos aplausos. O seu Touro Enraivecido tem muito boxe. E tem De Niro, herdeiro de Brando. E tem La Motta, avatar de Malloy, embora mais violento e menos amável. Enquanto La Motta desconfia do irmão, Malloy é traído pelo irmão. Enquanto que La Motta agride a mulher há uma cena no filme de Kazan que demonstra a ambiguidade da personagem de Brando: quando ele arromba a porta da casa de Edie (a então neófita Eva Marie Saint) e, por breves instantes, não sabemos se o que acontece atrás da parede é amor ou morte. É o momento em que Malloy revela a sua violência até então camuflada pela tristeza e pela falta de ambição. E é, ao mesmo tempo, o momento em que Malloy revela o seu amor por Edie. Um amor que não sabe bater à porta.

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