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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

05
Out10

Uma maçã

Bruno Vieira Amaral

Como seria bom vê-la comer uma maçã, os dentes de fera cravados na polpa do fruto, um grande pedaço triturado, uma película de sumo a molhar-lhe os lábios, um pássaro pousado no chafariz, só isto, ser Verão assim, todo o Verão no calor insuportável da tarde, na sombra pobre, uma velha a caminhar, os pés arrastados nas três da tarde, os pés líquidos a desfazerem-se nas horas, eu longe da vida real, da realidade dos outros, que caminham sobre uma estrada construída para os seus pés reais, para as suas vidas cheias de certezas e de ar, um emprego, uma rotina rotineira, constante, imparável, como um rio negro de afogados de sorrisos lívidos, peixes estúpidos, uma corrente contínua de lama sem margens, um rio só rio, sem nenhum refúgio, sem gente sólida que nos deite a mão, um emprego, essa âncora, relatórios de vendas, objectivos, o café amargo da máquina, horários, encomendas, guias de remessa, facturas, depósitos, uma chamada a desoras, um problema, uma falha de energia, algo concreto que exige resolução, resolver, agir, acabar uma chamada, fazer outra, Antunes, ouve, vê se me resolves o problema, estamos outra vez sem luz, perdem-se vendas, objectivos, etc., ok, Antunes? Vê lá se me tratas daquilo, pá, os miúdos? Ok, diz-me qualquer coisa depois, grande abraço, Antunes. Antunes, tão real, electricista, homem de coisas concretas, circuitos, botões, filhos, grande Antunes, pá, quem é o Antunes? Sabias que o Antunes teve um acidente, é verdade, há duas semanas que está no hospital, aquilo está mau, já o operaram umas cinco ou seis vezes, um médico, a revirar o Antunes, a corrigir-lhe as ligações, os circuitos, nada a fazer, o melhor é substituir o Antunes, outro Antunes para o lugar do Antunes, para o lugar de electricista, oferecemos salário compatível, empresa de grande dimensão, precisa-se de pai, mal-humorado, que leve os miúdos à bola, distante q.b., um pai visto que o Antunes não se vai safar e aquelas crianças precisam de um pai urgentemente, a mãe sozinha não dá conta delas, o Antunes morreu, coitado do Antunes, os velórios são uma merda, a mulher, a mãe, vá lá que ainda podemos ir lá para fora fumar um cigarrinho em memória do Antunes e em memória do Antunes fumamos outro cigarrinho, enquanto nos rimos de qualquer coisa que o Antunes Morto já não sabe, o Antunes Morto já não sabe de nada, vaidade, tudo é vaidade, pois é, lá voltámos ao Antunes, lembras-te quando íamos à bomba comer uns couratos, o Antunes, lembras-te, o que é que ele dizia, sempre a meter-se com o gordo da bomba, Pobre Antunes Morto, uma anedota, eis o que sobra de ti, Antunes, tudo o que pensaste e sentiste, tudo isso é pó, o que fica é o que disseste ao gordo da bomba, é isso que fica, a tua lápide, uma anedota de mármore, até te esquecermos Antunes, até. Eras tão real, tão real, com a tua mala de ferramentas, um homem-ofício, a tua mala de ferramentas, o teu desembaraço, a tua agilidade, tudo isso é uma cara fria de morto, um corpo duro de morto, o homem da funerária vem com o recipiente de vinagre porque já deitas cheiro, Antunes, já cheiras, e agora és este odor a vinagre, a morte terá sempre este odor a vinagre, a desinfectante, por amor de Deus, Antunes, tão mal que cheiras, o teu corpo com tanta pressa de apodrecer, de ser húmus, de ser nada, do ventre da tua mãe saíste, a mãe que te chora, a mãe que aspirou o teu odor morno e feliz de criança, a mãe que te esfregou o nariz nos refegos de criança, a mãe que agora sente o vinagre e a podridão, a podridão que ela pariu, a tua mãe, Antunes, a tua mãe pariu um morto, morreste há tanto tempo, morreste na hora longínqua em que alguém te pensou, morreste, hoje, às três da minha tarde, sentado na praça vazia de Julho.

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