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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

29
Out10

Guarda-chuva

Bruno Vieira Amaral

O anúncio falava de uma empresa de ambiente jovem, informal e descontraído. Procurava pessoas enérgicas e criativas. Assustei-me com a ideia de trabalhar ao lado de maratonistas do brainstorming, capazes de aguentar horas a despejar ideias com aquele ritmo imperturbável e quase autista dos corredores de fundo quenianos. Também pensei que me podiam calhar sprinters da criatividade, daqueles com cérebros anabolizados que atiram hebdomadariamente uma ideia genial para logo se recolherem num estado meio abúlico e distante. Pedi ao meu corpo e ao meu espírito que me proporcionassem a energia e a criatividade que tantas vezes me tinham abandonado à sorte da minha retórica. O ramo de actividade era incerto. Creio que estava relacionado com toques de telemóvel ou serviços de valor acrescentado. Imaginei um escritório colorido onde os papéis, carimbos e agrafadores tinham dado lugar a ideias que circulavam, impúdicas, de um jovem recém-licenciado para outro. Imaginei os meus futuros colegas a inalar o fumo sagrado da criatividade numa orgia de irreverência, juventude e do ânimo vigoroso que possui os trabalhadores que ingenuamente se dizem “realizados” ou fascinados com um inesperado seguro de saúde ou substanciais ajudas de custo. Enfim, imaginei um ambiente febril de pulsão sexual mal direccionada.

 

No dia da entrevista choveu muito. Apresentei-me sem gravata mas com um chapéu-de-chuva preto, o único que eu tinha, que me fazia menos enérgico e menos criativo do que o exigido. Aquele artefacto, que só devia servir para me proteger da chuva, lançou sobre mim uma nuvem de formalidade grotesca. Talvez as pessoas criativas e enérgicas não se importem de apanhar chuva, distraídas que estão a amamentar ideias revolucionárias. Eu, educado por uma avó para quem o guarda-chuva era quase um amuleto religioso, prefiro chegar seco e decente a uma entrevista, embora correndo o risco de parecer demasiado engomado. Tudo menos a pneumonia que a minha avó brandia como uma espada sobre a minha cabeça. Não restem dúvidas: naquele dia, com aquele guarda-chuva, eu estava muito velho. Mandaram-me entrar num gabinete. Sentei-me sem saber onde pôr o guarda-chuva. Acomodei-o entre o meu braço e o da cadeira e aguardei que me viessem entrevistar. Chegaram duas senhoras informais e eu levantei-me apressadamente deixando cair o guarda-chuva. Um puro reflexo cerebral fez-me ver as parecenças do guarda-chuva com uma bengala. As senhoras olharam-me como se no chão não estivesse um guarda-chuva mas o meu braço direito ou um cão-guia subitamente fulminado por um ataque cardíaco. A minha experiência social é limitada. Tenho um amigo preto e outro com uma deficiência motora. Creio que já falei com um comunista. As duas entrevistadoras pareceram-me lésbicas, mas reconheço que é uma opinião sustentada por anos de consumo de pornografia e dois ensaios de Susan Sontag. Fizeram-me perguntas e eu respondi. Falei sobre a minha experiência profissional (segurança, gerente de uma bomba de gasolina) e os olhares desconfiados das entrevistadoras, fufas d’um cabrão, logo adquiriram um brilhozinho sarcástico, os lábios retorcidos, as mãos a revirar o curriculum cinzento, outra vez o guarda-chuva em equilíbrio precário. Pediram-me para descrever em inglês uma viagem que tivesse feito ao estrangeiro. Enrolei-me em trips, journeys e, desconfio, voyages, a Barcelona, I went to the Picasso Museum, I saw A Sagrada Família e o caralho, isto enquanto dava um jeito ao guarda-chuva, não fosse ele cair com redobrado estrépito e atrapalhar a narração gaguejante da minha aventura turística. Rematei com um I enjoyed a lot suado, francamente débil. As fufas estavam claramente a divertir-se. “Diz aqui que gosta de escrever”, atirou uma delas enquanto a outra olhava para mim, cúmplice das palavras (a velha história do good cop, bad cop, versão dykes on bikes). Mesmo em empresas enérgicas e criativas, quando alguém descobre que escrevemos, o melhor que pensa de nós é que somos malucos. Num quadro favorável a coisa pode evoluir para a compaixão cristã. Normalmente, estagna num desprezo sobranceiro. Como posso esquecer o bom professor de História Contemporânea que me perguntou paternal, jdanovista e retoricamente “você escreve uns poemas, não é verdade?”. O bom professor a fazer dos meus maus hábitos poéticos um canudo e a enfiar-mo recto acima. E lá estava eu outra vez: “Então, o menino gosta de escrever umas coisas, não é?” Sai-se a fufa d’um cabrão com “Mas escreve o quê? É tipo um diário?” E riram alarvemente o riso enérgico e criativo das fufas que nas empresas enérgicas e criativas são responsáveis pelo recrutamento de gente enérgica, criativa e sem chapéus-de-chuva. Cona da minha mãe, por que me pariste cobarde? Fiquei ali a explicar-me, a ruminar justificações como se houvesse ali alguém interessado em obter aquela informação. A entrevista acabou. Despedi-me desmesuradamente, quase agradecido por tamanha humilhação, um verme. Quando saí do edifício, uma chuvinha chuvinhava. O guarda-chuva ficara para trás e para trás ficou, como o soldado dispensável de um exército escorraçado. O exército era eu.

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