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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

09
Jul14

7700: 6'40''

Bruno Vieira Amaral

A goleada de ontem começou no dia 17 de Julho de 1994, em Pasadena, no momento em que um tal de Roberto Baggio, o mais brasileiro de todos os jogadores em campo naquela tarde, falhou o penalty que fez do Brasil tetra. “Ganhamos as três primeiras Copas jogando o que se passou a chamar de futebol-arte. Depois, perdemos a de 82, praticando um futebol que encantou o mundo, e ganhamos a Copa de 94 jogando um futebol que não era o nosso. Lembramos a escalação do timaço de 82, mas não tão facilmente a de 94. [...]Na verdade, desde 1986 que não temos uma Seleção que nos orgulhe, jogando bonito e sendo competitiva.” Quem escreveu isto foi Walter de Mattos Jr., editor do Lance! Não acredito que tenha sido necessário o massacre alemão para que os brasileiros chegassem a esta conclusão. O Mineirazo era um desastre escrito nas estrelas. Mais exactamente, nas duas últimas estrelas que os jogadores da canarinha orgulhosamente ostentam nas camisolas. A reboque dos grandes talentos individuais que nunca deixou de produzir e de uma ideia de organização que se resume a pôr no meio-campo dois tractores – uma marca do nefasto Parreira e que Scolari nunca renegou – esperando que a sua presença intimidadora liberte os génios lá da frente, o Brasil venceu dois campeonatos do mundo nos últimos 20 anos. Chegou para silenciar os críticos e para criar a ilusão de que o mundo de futebol teria sempre a decência de acompanhar o ritmo do Brasil para não causar embaraços ao país do jogo bonito, como um jovem que refreia o passo quando na companhia de um ancião. Esse tempo acabou ontem. Com decência, mas sem misericórdia. Com respeito pelas belas camisolas dos brasileiros, mas sem o respeitinho que inibiu chilenos e colombianos. A Alemanha, tal como a Espanha de há quatro anos, encontrou uma forma de organização colectiva capaz de potenciar as qualidades – e são tantas – dos seus elementos. O Brasil não o conseguiu fazer quando foi campeão em 94, não o conseguiu fazer quando foi campeão em 2002, e também não o conseguiu fazer em 98, 2006 e 2010. E nestes vinte anos, quantos génios não vestiram aquela camisola – Romário, Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo? Mas as desculpas apareceram sempre: o colapso de Ronaldo, o brilhantismo de Zidane, o frango de Júlio César. Havia sempre um pormenor para justificar a derrota do único detentor legítimo do ceptro. Em todos estes campeonatos do mundo alguém se lembra de uma exibição do Brasil contra grandes selecções em que os brasileiros tenham demonstrado 1/3 da superioridade que a Alemanha exibiu ontem? O problema do Brasil tem sido pensar as equipas em função dos carregadores de piano. Inverteu-se a lógica: os mais importantes são os mais limitados porque permitem que os génios se destaquem. Por isso, o Brasil tem jogado nestes vinte anos como duas equipas numa só: a equipa dos que defendem e a equipa dos que atacam, salvas pela capacidade individual de alguns jogadores especiais para preencher o espaço entre as duas. O que se viu ontem foi uma equipa partida, sem ligação, com um abismo entre os que defendiam e os que atacavam. Para agravar as coisas, os que defendiam, defendiam mal; os que atacavam, atacavam pior; os que defendiam queriam atacar mas prejudicavam a equipa; os que atacavam queriam defender mas não sabiam como. Os dois tractores do meio-campo tinham pavor de ter a bola nos pés. Mesmo que fossem craques já teriam dificuldade em combater a organização alemã, mas sendo fernandinhos era crueldade pedir-lhes que recebessem a bola, controlassem e distribuíssem. Olhava-se para a Alemanha e via-se a facilidade que qualquer jogador do meio-campo tinha em pegar na bola e avançar ou pegar na bola e fazer um passe de trinta metros. Ninguém tinha medo da bola. Aqueles 6’ 40’’ em que o Brasil sofreu quatro golos – uma cifra polinésia – ficam para a história como a maior destruição futebolística de sempre. Talvez por não ter recordações do mundial de 82, nunca gostei da selecção brasileira. Vi sempre selecções medianas com fulgurações de talento, sortudas, protegidas pelos árbitros, reverenciadas em excesso por adversários sem nome. Só que essas selecções ganharam dois campeonatos do mundo e, sendo assim, quem é que se convence que as coisas estão mal? Não quero ser injusto com os brasileiros: acho que o Brasil seria o único país do mundo capaz de apresentar três ou quatro selecções muito competitivas num campeonato do mundo. Mas essa quantidade absurda de talento não chega. É necessário alguém que a organize de uma forma um pouco mais sofisticada do que juntar dois pedreiros numa orquestra. Scolari acho que o jogo de ontem foi um acidente. Há quem ache que foi uma lição. Eu acho que não foi nem uma coisa, nem outra. Não foi um acidente porque – apesar dos números inusuais – uma vitória, e até uma vitória gorda, da Alemanha não espantava ninguém. E também não foi uma lição porque, tal como Scolari, muitos acham que foi apenas um acidente. Mas os acidentes aconteceram há mais tempo. Aquelas duas estrelinhas intrusas na camisola do escrete não deixam que os esqueçamos.

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