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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

24
Jun14

7700: aquele golo

Bruno Vieira Amaral

 

Foi no mundial de 1986. No torneio de Diego Armando Maradona e de Pique Malagueta. Do poker de Butragueño e do hat-trick de Gary Lineker, o primeiro de que me lembro. Nesse mundial, bastou um golo para que Manuel Negrete registasse o seu nome na história do futebol. O golo certo na hora certa. No exterior do Estádio Azteca, palco de duas finais de mundiais, onde, numa tarde memorável, Maradona disfarçado de Deus e Diabo desfez a selecção inglesa, uma placa assinala aquele golo. O México, a jogar em casa, tinha esperanças de chegar longe no torneio. A preparação tinha sido meticulosa, com um grupo de jogadores escolhidos pela federação treinado para não desiludir. Naquele Domingo, 15 de Junho, jogavam-se os oitavos-de-final e o adversário da equipa da casa era a Bulgária. Era uma oportunidade de ouro para o México fazer boa figura. Mas o que aconteceu aos 35’ foi mais do que isso. Negrete, à entrada da área, deu a bola para Javier Aguirre que, sem a deixar cair, devolveu-a a Negrete. Depois, foi um segundo, nem tanto. Quando a bola inicia a trajectória descendente, Manolo já sabe o que vai fazer: um voo, um salto, um pontapé de moinho e, a próxima vez que a bola bater no chão, já será dentro da baliza da Bulgária, defendida por Borislav Mihaylov, mago da regeneração capilar. Hoje, 28 anos depois desse mundial, os golos que se recordam são os de Maradona contra a Inglaterra, mas o que todos os miúdos queriam era marcar um golo à Negrete. Na relva em frente do meu prédio, voávamos de lado, procurando repetir a coreografia que víramos, espantados, na televisão. Mesmo quando a bola não vinha a jeito, dávamos-lhe um toque a mais para merecer dos mais velhos a aprovação definitiva: “parecias o Negrete”. Quando, nesse ano, o jogador mexicano foi contratado pelo Sporting, a sua fama excedia largamente o seu talento. Não era que lhe faltasse talento, mas a fasquia era aquele golo único, superlativo. A proeza colou-se-lhe à pele e tudo o que fosse menos que aquela acrobacia era como que uma traição. Mas nenhum jogador do mundo poderia repetir ou sequer aproximar-se do que acontecera naquele momento esquisito, muito menos ao ritmo semanal dos jogos de campeonato. O mundial de 2014 ainda não nos ofereceu um golo assim. Um golo autónomo do resto do jogo, capaz de deixar na sombra toda uma carreira, uma ilha impossível, um golo maior que o seu autor, um golo como aquele que foi o zénite e a maldição de Manuel Negrete Arias, um homem que viverá para sempre no minuto 35 no Estádio Azteca, numa certa tarde de Junho.

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