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"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

14
Jun14

7700: Don Vicente

Bruno Vieira Amaral

Tudo o que hoje se escrever sobre Vicente Del Bosque vai soar a um cobarde ajuste de contas, uma pedra atirada por alguém escondido atrás do arbusto da goleada laranja. Não é o caso. Ontem, enquanto assistia ao jogo, a minha preocupação não era a de observar as movimentações dos jogadores mas a de reunir informação suficiente que me permitisse responder a uma pergunta simples: o que é Vicente del Bosque? É verdade que a marcha do resultado não ajudou à minha concentração. A certa altura, fechei os olhos tentando fixar a imagem do seleccionador espanhol e só via Casillas a perder a bola para Van Persie. Até que, perto do final, a solução foi-me revelada: Vicente del Bosque, Don Vicente, com aquele aspecto romanesco de abade de província, é o contrário de um fantasma. Os fantasmas manifestam a sua presença das mais variadas formas, abrindo gavetas e portas, arrastando correntes pelos corredores, apagando velas em momentos nada festivos. Ninguém os vê mas toda a gente – pronto, talvez só os mais histéricos – tem a certeza da sua presença. Ora, a presença física de Don Vicente é inequívoca, como puderam testemunhar ontem milhões de espectadores em todo o mundo. O que não sentimos são os sinais imateriais da sua presença. Toda a gente o vê mas é como se ele não existisse. O currículo de del Bosque é impressionante e eu só tenho uma boa justificação para a riqueza desse currículo: del Bosque é o grande especialista na arte de não se intrometer, através de tácticas e de minuciosos estudos do adversário, entre os jogadores que lhe põem ao dispor e aquilo que estes naturalmente conseguem fazer. Ele está lá porque alguém tem de ir às conferências de imprensa falar sobre as coisas, porque a sociedade, apesar dos esforços dos progressistas, ainda não está preparada para que uma equipa se apresente sem treinador e porque, caso os resultados sejam maus, é preciso ter um bode expiatório à mão. Creio que del Bosque está perfeitamente habilitado a desempenhar estas e toda uma série de tarefas menores que lhe atribuam. E conseguirá fazê-lo sem se atrever, nem que seja numa única substituição, a imprimir à equipa o seu “cunho pessoal”, para utilizar uma expressão máriowilsoniana. Se há coisa que Del Bosque sabe fazer é imprimir, ao de leve, o seu cunho impessoal. Isto é uma virtude quando tem bons jogadores no máximo das suas capacidades e uma tragédia quando os jogadores não são assim tão bons ou não estão em grande forma. Ontem, depois de a Espanha sofrer mais um golo, já não sei se o terceiro ou quarto, Del Bosque esbracejou junto à linha lateral. O efeito foi nulo. Os gestos de um fantasma visível. Depois, ordenou umas substituições e o resultado foi igualmente nulo. Um fantasma que se vê e não se sente. Treinadores como Del Bosque limitam-se a andar a estabelecer pontes, a promover consensos e a gerir conflitos, numa postura que é apresentada como sendo de grande sabedoria confuciana e que é apenas analgésica e sedativa. Um seleccionador é, na verdade, um aposentado que se recusa a ir para o parque jogar sueca ou a quem falta o espírito para se dedicar ao engate de viúvas em aulas de danças de salão. Acontece que Don Vicente, mesmo quando era treinador do Real Madrid, já tinha esse ar episódico, de treinador dominical de quem se espera que, a qualquer momento, tire cervejas da geleira e as distribua pela malta sentada no banco. É o arquétipo do seleccionador. O contrário de um fantasma. Vê-se mas nunca abre as portas que os seus jogadores não conseguem abrir sozinhos.

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