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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

23
Jun14

7700: mas não muito

Bruno Vieira Amaral

Cá estamos de novo. E, ao contrário dos que nos querem fazer crer, a depender não da matemática certa, que não admite sentimentalismos, mas à espera do sobrenatural que nos acuda. Tínhamos a vida resolvida, o destino traçado e aquele golo de Varela veio acender esperanças insensatas, fazendo os mais líricos sonhar com goleadas ao Gana, o que, pelas amostras de futebol, só conseguiremos caso os nossos jogadores entrem em campo de mota. O irracional é tão invasivo que algumas cabeças, já certas de vitória gorda sobre o Gana, começaram de imediato a culpar alemães e norte-americanos na eventualidade de estes se abotoarem com um empate. Enfim, nada a fazer. O jogo desta noite, mais do que qualquer outra coisa, fez-me ter saudades do tempo das vitórias morais, do nosso futebol de rodriguinhos, sem balizas, estéril mas muito palrador, ao qual faltavam trinta metros mas que no resto do campo era senhor ufano. Muitas vezes injustamente apontada como uma fraqueza nervosa, uma tibieza de espírito, a vitória moral era, só agora compreendemos, o nosso consolozinho, a nossa mantinha sobre os joelhos. A vitória moral era uma vitória. Agora já só conseguimos empates imorais. O golo de Varela só mereceu celebrações tristes. Em vez de bandeiras desfraldadas, sacámos todos das santas calculadoras e das invocações a Nossa Senhora do Ábaco. Paulo Bento nem reagiu. Foi o golo mais murcho da nossa história. Explicações? Não tarda elas surgirão. Alguém, um qualquer irresponsável federativo, chamará a si os holofotes com promessas de revelações escandalosas que, inevitavelmente, envolverão putas de Campinas. É só esperar. A onda de lesões musculares já não é do domínio da medicina desportiva mas da bruxaria. Os nossos jogadores dividem-se entre os que estavam a recuperar de lesões, os que se lesionaram, os pré-lesionados e os que escaparam por milagre a uma lesão. Psicologicamente, nem sequer fomos capazes de aproveitar o estímulo de um golo caído do céu. Ao longo dos noventa minutos, fizemos tudo para parecer um conjunto de onze pessoas com problemas musculares que tivessem acabado de se conhecer. Depois, claro, Paulo Bento. Vendo que o seu plano inicial – e que deu bons resultados no euro’2012 – não funcionava, Bento fez aquilo que só ele seria capaz de fazer: insistir nesse plano. O destino vingou-se de forma cruel. Com a lesão de André Almeida, foi obrigado a fazer entrar William Carvalho e a expor assim toda a sua inépcia táctica ao mundo. Um treinador que se dá ao luxo de prescindir da inteligência de William Carvalho em nome da coesão, do espírito de grupo e desse fenómeno fisiológico conhecido como “balneário” não merece outra sorte. Vamos agora enfrentar o Gana que, a exemplo dos EUA e para citar António Tadeia, tem jogadores “rápidos e velozes”. Os nossos, pobrezinhos, estão lentos e parados. E ou temos uma conjugação de resultados que, a acontecer, seria um acontecimento cósmico só ao nível do big bang ou, na próxima quinta-feira, os nossos heróis estarão de regresso à Pátria, garantindo ao povo que este grupo de jogadores não só vai levantar a cabeça como também vai dar a volta.

 

- Estes resultados sofríveis têm um efeito positivo: permitem-nos olhar para a história da nossa selecção sem exageros patrióticos. Limitemos a análise às nossas participações em mundiais. Até 2002 conseguimos ir lá duas vezes, o que até para um país que não se gabe de ter uma grande tradição futebolística é patético. O problema foi o sucesso de 66 que distorceu por completo a percepção dos portugueses sobre as capacidades da selecção. O apuramento para o mundial de 86 foi uma daquelas gestas improváveis em que a um golo absurdo de Carlos Manuel se juntou a sobrevivência ao maior assalto militar desde a batalha de Estalinegrado e um resultado favorável no jogo dos nossos adversários directos. Bem vistas as coisas, desde 86 até ontem o nosso historial inclui derrotas com Polónia, Marrocos, EUA e Coreia do Sul e vitórias sobre Angola, Irão e Coreia do Norte. A campanha de 2006 foi realizada sob os auspícios de Nossa Senhora do Caravaggio e, mesmo assim, terminou com uma derrota clara contra os alemães. Em 2010, sobrevivemos ao grupo da morte num tal estado de depressão que caímos logo a seguir, obedientemente, contra a Espanha. Afirmar a nossa superioridade teórica sobre os norte-americanos quando os resultados demonstram um empate é uma daquelas erupções cutâneas do espírito português que pedem mais Padre António Vieira e Eduardo Lourenço e menos Luís Freitas Lobo e António Tadeia. Valemos mais do que estes resultados dão a entender? Sim, mas não muito.

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