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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

13
Jun14

7700: missionários da bola

Bruno Vieira Amaral

Podia escrever sobre o Rakitic, que não só dá belos beijos gregos a companheiros de equipa, como lhes oferece bolas perfeitas, redondas, suaves, em bandejas invisíveis lançadas a quarenta metros de distância; podia escrever sobre aquela biqueirada subtil de Óscar, um rapaz com ar de juvenil e que ontem correu mais que uma associação de quenianos (e o Brasil tinha um falso autêntico queniano no banco); podia escrever sobre um passe inútil mas belo (que é diferente de um passe belo mas inútil) de Neymar; podia escrever sobre a robusta imprestabilidade de Hulk em todas as acções de jogo em que participou; podia escrever sobre uma magnífica defesa de Pletikosa, sobre Bernard agarrado a um croata que o limpou do ombro como se se libertasse de um grão de areia, sobre Fred, um jogador que tem a virtude de nos tornar mais benévolos quando olhamos para o trio de avançados da selecção portuguesa; podia, finalmente, escrever sobre o senhor Nichimura e aquele penalty, só que ontem escrevi que, para mim, o mundial começava hoje e não me quero desmentir logo ao terceiro dia de crónicas. Por isso escreverei sobre a Austrália, que hoje se estreia contra o Chile. Nunca me tinha questionado sobre a simpatia que equipas oriundas de países que não querem saber de futebol para nada me despertam. Quando dediquei alguns minutos ao assunto, concluí que, esgotadas todas as tentativas razoáveis de convencer os selvagens da superioridade do futebol – incluindo organizações de mundiais e exportação de simpáticas e decadentes estrelas para as suas ligas de latão – o meu desejo de que tivessem sucesso seria uma forma desesperada de os tentar convencer pela linguagem universal do sucesso. Como quem diz: se não sois capazes de apreciar este belo desporto, apreciai ao menos o reconhecimento proporcionado pelas vitórias. Isto deu origem a equívocos dos quais saímos todos derrotados. Os relativos sucessos de países como os EUA não só não lhes fizeram nascer uma súbita e avassaladora paixão pelo futebol, como ainda lhes alimentaram a soberba e a prepotência de nos vencerem num desporto que para nós é tudo e para eles é quase nada. Tentámos suborná-los com o sucesso e ficámos sem dinheiro e sem mercadoria. Mas como, mesmo assim, continuo a simpatizar com estas equipas excêntricas, tive de encontrar outra explicação. Acho que é esta: quero que estes rapazes vençam porque são uma espécie de mártires do futebol, missionários a pregar em território inimigo. Para imaginarmos como um futebolista australiano ou norte-americano é visto pelos seus compatriotas só temos de pensar na forma como olhamos para aqueles grupos bizarros que, periodicamente, se juntam em campos obscuros da margem sul para jogar basebol. Tirando a natural tendência de qualquer sociedade para produzir bolsas refractárias e alienígenas – fanáticos de cosplay, seguidores de Madame Blavatsky ou eleitores que votam no POUS  – só um eventual apoio da CIA justifica, no meu limitado entendimento, o esforço necessário não só para aprender as regras do basebol como também para as pôr em prática num complexo desportivo da Verdizela aos domingos de manhã. Enfim, quero que os australianos ganhem porque são corajosos. No lugar onde nasceram, jogar à bola não lhe traz prestígio nem dinheiro. Serão sempre onze malucos aos pontapés numa bola. Curiosamente, como aqueles jamaicanos que participaram nos Jogos Olímpicos de Inverno, parecem ser os que mais se divertem nestes certames. No fundo, eles estão ali a representar mais do que a sua nação (que não quer saber deles para nada), estão a representar os milhões de adeptos que, em frente do televisor, sonharam um dia estar do outro lado. É em nome dessa cumplicidade amadora que festejo todos os golos que marcam.

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