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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

19
Jun14

7700: na baliza

Bruno Vieira Amaral

Eu tinha 10 anos e o sonho de ser guarda-redes. Estava sentado na bancada poente do velho estádio D. Manuel de Melo, no Barreiro. Era o jogo de apresentação do Barreirense. O Sporting foi a equipa convidada mas que como se sabia que não iria levar as maiores estrelas o estádio estava quase vazio. Na baliza à minha frente, estava o guarda-redes, de costas para os raros expectadores. Os colegas, miúdos com idade para serem filhos dele, chutam umas bolas molengas, tentando desenhar com a preguiça de Agosto arcos sobre o guarda-redes, que nem se esforça para chegar às bolas, basta seguir a trajectória com o olhar. Uma sobrevoou a baliza e aterrou duas filas abaixo de onde me encontrava. O guarda-redes virou-se para a bancada e eu atirei-lhe a bola, que não lhe chegou. Atirei-a novamente, então com todas as forças para não o desiludir. Ele segurou a bola e voltou para a baliza, para o lugar que era o dele. Depois de mais alguns remates, recolheram aos balneários e, para mim, o jogo que ainda não começara terminou nesse momento, o momento em que Vítor Damas se virou para a bancada e eu pude admirá-lo na elegância intacta dos seus 40 anos. Nós, benfiquistas, tínhamos o Bento louco, corajoso, cão de guarda; os sportinguistas tinham um príncipe, um guardião. O Damas não era do Sporting, era meu. Era ele que inspirava o meu sonho de ser guarda-redes. Foi a única vez que o vi num campo de futebol, no ocaso da carreira mas, inegável e soberano, ainda era o Damas. Nunca mais me esqueci daqueles minutos.

 

A defesa de Guillermo Ochoa ao cabeceamento de Neymar é uma daquelas jogadas que despertam em alguns miúdos singulares o desejo torturado de ocupar aquele espaço inóspito e solitário, onde nem a relva cresce. O guarda-redes será sempre guarda-redes. O indivíduo num jogo colectivo. Quando têm a bola, os colegas avançam deixando-o para trás, entregue a si mesmo. Quando o adversário cavalga para a área, lembram-se dele, lançam-lhe olhares de súplica, pedidos urgentes de salvação. Ao longo de uma carreira, avançados exaustos fazem-se médios, extremos procuram os espaços interiores onde não possam ser fustigados pelos ventos das alas, trincos viram líberos. Com a passagem do tempo, só o guarda-redes permanece guarda-redes. Quando começa a carreira já não tem para onde recuar. Vive na esperança masoquista de ser posto à prova. De ter ao menos uma vez na vida a oportunidade de ver uma bola rematada pelo adversário vir puxada ao cantinho e, nesse momento, não pensar mais e voar, mão aberta, bola em cima da linha, o desalento da multidão inimiga, a alegria dos companheiros em movimento porque o jogo não pára. Não pára. Na baliza, não há tempo para celebrações, para coreografias. É tudo ou nada. Vida ou morte.

 

“Guarda-redes” é um capítulo do meu romance As Primeiras Coisas e é dedicado ao Luz, guarda-redes do GDRP:

 

O semblante sério quando entrava em campo nas tardes de domingo, o último dos onze a pisar com o pé direito a terra batida para lá da linha lateral, a benzer-se de luvas calçadas, a braçadeira de capitão, o boné verde na cabeça quando ficava na baliza virada a sul, a voz que vencia o ruído do público e dava ordens à defesa, o corpo a voar para uma bola impossível, a atirar-se como um raio aos pés de um avançado, as mãos a apertarem a bola antes do pontapé de baliza que a fazia subir bem alto e aterrar junto aos pés do extremo direito, o braço forte que a arremessava para lá do meio campo, o joelho erguido nas saídas temerárias aos cruzamentos, os frangos míticos, que também os dava, como no jogo contra o Arrentela, uma bola chutada do meio-campo a chegar à baliza já quase num desmaio, Leal a agachar-se e a bola, num capricho de amante ressentida, a passar-lhe por baixo das pernas e a cruzar, com malícia vagarosa, a linha de golo, filha duma puta, garrafinha de água encostada ao poste quando o jogo andava no outro lado do campo, os gritos de incentivo, as palmas que espirravam pó das luvas, os abraços quando os jogos acabavam. Abandonou o futebol aos quarenta e três anos, depois de ser campeão da II Divisão Distrital[1]. Morreu poucos meses depois de ataque de coração. Na sede do CDA, entre calendários amarelecidos de loiras pneumáticas e uma prateleira com poeirentos troféus de lata, havia uma moldura com as velhas e ressequidas luvas de Leal, o boné verde e a faixa de campeão.



[1] Crónica do jogo CDA – CRI no jornal O Rio:

“O CDA sagrou-se ontem campeão da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Setúbal ao empatar a duas bolas com o CRI, irremediavelmente afastado do título. Contudo, foi a equipa de Alhos Vedros a mostrar mais argumentos durante a primeira parte do encontro, graças às acções dos dois extremos, Ferreirinha e Jacques, que em constantes trocas desposicionaram a defesa do CDA. Foi sem surpresa que, à passagem do minuto 26, o CRI se adiantou no marcador, com um golo do avançado Dino, a corresponder na perfeição a um cruzamento de Ferreirinha. O CDA não se encontrava, o meio-campo estava abúlico, do que se aproveitavam os jogadores do CRI para ganhar as segundas bolas. No entanto, contra a corrente de jogo, o CDA chegou ao empate na conversão de um pontapé da marca da grande penalidade, após um lance que deixou muitas dúvidas aos espectadores presentes no Campo Municipal das Amoreiras. Eurico assumiu a responsabilidade. Bola para um lado, guarda-redes para o outro, estava restabelecido o empate. O intervalo fez bem à equipa treinada por Maurício Gonçalves que regressou dos balneários com outro discernimento. O centro-campista Beto, um talento promissor que não deve ficar por muito tempo no Desportivo Amizade começou a pautar o jogo da equipa da casa, que se adiantou pela primeira vez à passagem do primeiro quarto de hora da segunda parte. Beto fez um passe na diagonal a rasgar a defesa contrária e foi o extremo, Amarelinho, a cumprir a oitava época ao serviço do clube, que apareceu em zona de finalização picando a bola com classe e desfeiteando um desamparado Miranda. O público entrou em delírio. O empate era suficiente para o CDA se sagrar campeão mas uma vitória era a cereja no topo do bolo. Todavia, faltava o drama para tornar inesquecível a conquista do CDA. A cinco minutos do final da contenda, Rodrigues repôs a igualdade na sequência de um pontapé de canto em que Leal não ficou isento de responsabilidades. O veterano guarda-redes saiu a destempo e, a partir daí, equipa enervou-se. Os últimos minutos foram de sufoco da equipa visitante. Já depois do minuto 90, o CRI beneficiou de um livre perigoso à entrada da área, mais descaído para o lado direito. Jacques executou o livre mas Leal, com uma defesa espantosa, foi buscar a bola lá onde “a coruja mora” e garantiu o título para as suas cores. Teria sido uma injustiça se o CDA perdesse um campeonato durante o qual foi sempre a melhor equipa, mas pode agradecer ao seu veterano guardião que ontem realizou a sua última partida pelo Desportivo.”

 

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