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"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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18
Jun14

7700: o futebol e as suas metáforas

Bruno Vieira Amaral

Para o José Eduardo Agualusa

 

Joseph-Antoine Bell, Cyrille Makanaky, François Omam-Biyik, Roger Milla: de cabeça, são estes os nomes de que me lembro da equipa dos Camarões que coloriu o cinzento mundial de 1990. A memória de outros nomes regressa depois ao ver a lista completa: Jean-Claude Pagal, Bonaventure Djonkep, Stephen Tataw. Repetir estes nomes não me traz de volta apenas um som dourado e longínquo da infância, é ainda o eco de uma esperança que reverberou pela primeira vez e com mais intensidade naquele Verão transalpino: o delírio messiânico de que um dia uma equipa africana seria capaz de conquistar o mundo. Acreditava-se que, quando tal sucedesse, seria não apesar das diferenças do futebol africano mas por causa dessas diferenças, aquilo a que se chamava a sua magia (outros diriam o perfume). Essa magia, observada e classificada pelos europeus, nunca foi, para esses europeus, mais do que as inesperadas e incompreensíveis erupções de talento no meio do caos. Bell, Tataw e Milla espantaram e divertiram o mundo. Saíram nos quartos-de-final, com palmadinhas nas costas pelos serviços prestados à causa do entretenimento. Quatro anos depois, com um Milla já sem forças para dançar, velho guerreiro cansado de tantas batalhas, a selecção dos Camarões saiu na primeira fase, sem estrondo. Nesse ano, a esperança já se mudara para a Nigéria, com os nossos conhecidos Peter Rufai e Rashidi Yekini, e grandes promessas como Jay-Jay Okocha, Daniel Amokachi e Viktor Ikpeba. Como a maior parte destes jogadores jogava na Europa, ao contrário do que acontecia com a selecção dos Camarões de 1990, esperava-se que a magia africana aliada à experiência europeia resultasse numa receita infalível. Não resultou. Em 94 e 98, a Nigéria foi a corporização do mito da magia africana e também a corporização dos defeitos estruturais que impediriam o mito de se transformar em realidade. A Nigéria deslumbrou e colapsou. O mesmo aconteceu com o Senegal, em 2002, e com o Gana, em 2010, igualmente incapazes de superar o limite teleológico dos quartos-de-final.

 

Ao longo destes 24 anos, desde o fenómeno Camarões até hoje, o discurso sobre o futebol africano – as suas qualidades, defeitos e hipóteses de sucesso – é praticamente idêntico ao discurso-padrão dos europeus sobre África: referência às riquezas naturais e deploração pelo desperdício, pela incapacidade de os africanos se organizarem de forma a tirar partido dos seus recursos. Se hoje já vemos treinadores negros a orientar as selecções africanas, a regra quase sempre foi a do sábio branco designado para civilizar os selvagens. Enquanto isso, os jogadores africanos eram reduzidos a uma caricatura (magia, alegria, dança), a um estado de infantilidade futebolística, meninos-bichos fascinados pelo objecto-bola, capazes de truques e cabriolas mas com uma tendência genética para a indisciplina, para a ignorância táctica. Nem precisamos de ir muito longe: a nossa selecção campeã do mundo sem balizas continua a ser vista assim pelos verdadeiros europeus, os poderosos, do Norte. Com a vitória da selecção alemã, regressaram os insultos a Cristiano Ronaldo, a sua demissão enquanto jogador para os grandes momentos, apresentando, na inversa, as máquinas alemãs, austeras mas terrivelmente eficazes. Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no jornal A Bola, deu seguimento a esta narrativa: viram como Müller não usa brincos, não é vedeta, é humilde e eficaz? Quem é que está nos antípodas de Müller? Curiosamente, mesmo quando a selecção alemã deslumbra, como em 2010, as metáforas nunca se feminizam, nunca há magias nem perfumes. As metáforas são sempre tecnológicas e militares, bélicas e industriais, justificando a supremacia: os alemães atropelam, esmagam, dizimam, botas cardadas devastando campos de flores. Neste caso, somos nós os africanos.

 

Pensei em tudo isto ao ver no outro dia um pouco dos jogos do Gana e da Nigéria e lembrando-me que este ano, finalmente, ainda não ouvi ninguém a dizer que chegou a vez do futebol africano. Os nomes – Muntari, Obi Mikel, Ameobi, Boateng – já não têm aquela ressonância exótica, conhecemo-los de os vermos jogar semanalmente nos melhores clubes europeus. Os tempos mudaram. Yaya Touré ou Didier Drogba, entre muitos outros, conseguiram, por mérito próprio, ultrapassar os limites de recreio infantil, selvagem, onde quiseram fechar o jogador africano. Hoje, já se fala pouco na magia africana e em África como destino futebolístico de um futuro utópico porque África já está aqui, fiável, cerebral, atlética, criativa, nestes jogadores. E noutros, de um passado que nos é próximo, que desafiaram, inconscientemente e avant la lettre, essas narrativas imbecis: que eficácia e fiabilidade faltavam a Eusébio? Que cultura táctica e liderança faltavam a Coluna? Não ouvir a velha conversa de que este é que vai sei o ano do futebol africano é a grande conquista do futebol africano e dos grandes jogadores africanos que, mais do que isso, são grandes jogadores de futebol.

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