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"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

17
Jun14

7700: reacções à desgraça

Bruno Vieira Amaral

As reacções a uma derrota da selecção portuguesa são sempre interessantes num sentido antropológico e não lhes conseguimos escapar. Ligamos a televisão depois do jogo e os comentadores, contristados ou perplexos, descobrem as lacunas da convocatória, identificam os problemas no onze, lamentam o descontrolo de Pepe, resignam-se perante os sinais débeis de recuperação económica. Não há-de faltar um queirosiano que, numa metáfora sanitária, proponha varrer porcarias, ou que, mais confortável na arquitectura, sonhe com o repensar de todo o edifício do futebol de formação, o que implicará a disposição das cadeiras das salas do ensino básico em 4-3-3. Fora do comentadorismo profissional, um lunático lembra razoavelmente que Pepe é brasileiro, outro diz que o pai de Bruno Alves também é brasileiro e um terceiro, impossibilitado de alterar a naturalidade de Rui Patrício, acusa-o de ser frangueiro contumaz. Sportinguistas incorrigíveis defendem, sem ironia, que a história seria diferente se Adrien estivesse em campo. Só que um cérebro que extrai da observação do jogo de ontem a conclusão de que os problemas da nossa equipa se resolveriam com a entrada de Adrien não é digno de confiança. Já no Facebook, entre piadas envolvendo camelos e Angela Merkel, alguns indignados acusavam os jogadores de não honrarem a camisola. Presumo que o conceito de honrar a camisola passe, por exemplo, por beijar o escudo quando se marca um golo, actividade que os alemães impediram com relativo à-vontade. Não havendo golos, talvez honrar a camisola seja uma mistura da predisposição metafísica para uivar durante o hino com o impulso incontrolável para correrias acéfalas em que o jogador, por manifestamente estar a correr à toa mas com a convicção oposta, demonstra todo o seu inesgotável amor à pátria, até ser derrubado pela humidade baiana ou pela sombra de um alemão. Depois há um grupo curioso especialista em tomar as dores dos emigrantes. Para os elementos deste grupo, o pior de uma derrota da selecção, do Benfica ou da representante portuguesa no Eurofestival, é o sentimento de vergonha que irá cobrir toda a comunidade portuguesa durante duas semanas de luto interior e troça alheia. No lote das minhas reacções preferidas no facebook, um universo limitado que exclui analfabetos e Pacheco Pereira, gosto das semi-esotéricas ou de causalidade não imediatamente detectável. Explico: ontem, várias pessoas atribuíram a goleada dos alemães não à efectiva superioridade dos alemães mas a uma deliberação cósmica de justiça poética em que a selecção portuguesa estaria a pagar, por decreto divino, pela schadenfreude (já que estamos em ressaca germânica) que assolou alguns espíritos lusitanos graças à humilhação espanhola às mãos dos holandeses. Apenas sabedoria popular: “não te rias do vizinho que o teu mal vem a caminho.” Ou seja, para a próxima, ficamos contentes e caladinhos que nem ratos perante a desgraça de nuestros hermanos, caso contrário o universo, sempre atento a estas faltas de solidariedade entre vizinhos, tratará de pôr no nosso caminho severos protestantes para nos dar uma lição das boas. Eu também tenho uma explicação do género e que, na minha modéstia, creio ser um pouco mais fundamentada: desde que os limpámos com a nossa equipa B no Euro 2000, os alemães têm feito questão de esfregar o chão com a equipa das quinas sempre que a encontram – e, para felicidade deles, têm-na encontrado muitas vezes. Já são quatro derrotas em quatro jogos oficiais, enquanto lembramos, satisfeitos e alvares, aqueles três golos de Sérgio Conceição. A arbitragem também figurou em certas explicações secundárias, mas nada com a intensidade de outros momentos gloriosos como o penalty de Abel Xavier ou o murro de João Vieira Pinto ao árbitro. Finalmente, não podia faltar a figura do português insubmisso que não vai em futebóis e que já topou que isto da crise não é para todos: “não há dinheiro, não há dinheiro, mas vai tudo para o Brasil ver a bola.”

 

PS: quanto à questão Klose, por enquanto, tudo bem.

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