Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

05
Jul14

7700: scratch aleluia!

Bruno Vieira Amaral

Por motivos a que eu e a RTP somos alheios, tive de interromper esta crónica nos últimos dias. Deu-se o curioso caso de, há tempos, ter sido convidado para escrever um livro. Quem me fez o convite disse-me, quase ao mesmo tempo, que esse trabalho seria remunerado, o que me deixou de sobreaviso, temendo acabar os meus dias escravizado numa quinta de Trás-os-Montes ou como prostituto em Ayamonte. Confirmei, mais tarde, que a proposta era séria e, dessa forma, tenho dedicado os meus dias a fazer por merecer o dinheiro que me hão-de pagar. É uma história inverosímil mas, como disse alguém mais inteligente que eu, só as mentiras precisam de ser verosímeis.

 

Três dias sem escrever a crónica, criaram-me o problema do excesso de assuntos do qual fui salvo por aquilo que se passou ontem em Fortaleza. Lá chegarei. Perdi a oportunidade de escrever sobre Tim Howard e o seu conjunto de defesas patrocinadas pela CIA, o galope de Lukaku e o génio de De Bruyne, um grande jogador com cara de apanha-bolas, a minha pobre Argentina e o seu futebol unicelular e o equilíbrio em todos os jogos dos oitavos-de-final (à excepção do Colômbia-Uruguai) que animou os neutrais que, à qualidade rígida de um futebol rigoroso, preferem sempre as emoções, o suor e a incerteza. Veja-se como foi aborrecido o jogo entre Alemanha e a França, que os alemães ganharam quase sem transpirar, e cujo sentido filosófico pode ser encontrado naquelas duas defesas ultrajantes de Manuel Neuer. Mas Deus quis que, ao assistir ao Brasil-Colômbia, eu tivesse uma epifania. E tive. Ontem, ao ver a primeira parte do scratch e tentando perceber exactamente o que era aquilo, uma mistura de pressão diabólica, repelões, faltas, lances de bola parada e atabalhoamento geral que, por força do espírito e da crença, se vai acercando da baliza adversária, descobri que tipo de futebol é este. É com orgulho que anuncio ao mundo que esta selecção brasileira é a primeira equipa a praticar o futebol pentecostal. É isso. Ainda pensei caracterizar o futebol do Brasil como “uruguaio”. A minha ideia era chamar ao Brasil de ontem “Uruguai de amarelo celeste”. Mas o decorrer do jogo revelou-me a verdade. Isto terá a ver com o outro assunto sobre o qual estou a escrever. Ou seja, pode haver aqui um lado de sugestão, reconheço. Mas ofereço-vos este excerto de um livro da investigadora Clara Mafra: “Os ritos pentecostais estão pontuados de pequenas experimentações de transe – na oração forte, na expulsão dos demónios, na recepção do Espírito Santo, na glossolalia, no choro convulsivo diante de um Deus grandioso.” É ou não é este Brasil? Podem ter dúvidas sobre a glossolalia, mas já ouviram o David Luiz a falar inglês? Ou o Neymar a falar português? Depois, parece-me claro que ao cometerem a soma perfeitamente neanderthal de 31 faltas, os brasileiros andavam à procura de expulsar alguma coisa de campo, e aí só se pode dizer que o árbitro espanhol não estava numa de exorcismos, como se pôde ver no caso demoníaco do colombiano Zuñiga que após uma tentativa frustrada de incrustar a chuteira no joelho de Hulk ainda se manteve em campo o tempo suficiente para dividir o número 10 do Brasil em Ney e Mar. Scolari queixou-se, e com razão, do lance que lesionou o craque, mas não lhe convinha referir que a estratégia futebolística do Brasil passou por anular não só a influência de James mas anular a própria presença física do colombiano. Outra coisinha que encontrei no livro de Clara Mafra e que joga a favor da minha teoria: “No transe pode experimentar-se a imobilidade [Fred] ou mobilidade máxima [David Luiz]”. Sobre David Luiz não há muito que se possa acrescentar ao que Gary Neville disse: o central brasileiro parece controlado à distância por um miúdo de dez anos, em correrias loucas de 60 metros em que atropela toda a gente e, agora, em remates amalucados que acabam no fundo das redes. E o choro convulsivo? Meu Deus, os jogadores brasileiros não só se assemelham a um grupo de pentecostais como poderiam ser confundidos como um clube de leitura dos romances de Nicholas Sparks. O fenómeno não é apenas imparável é também muito contagioso. Viram as lágrimas de James? Com tudo isto, futebol feio e Espírito Santo em todo o lado, se o Brasil chegar à final acho melhor que transfiram o jogo do Maracanã para a igreja evangélica mais próxima.

1 comentário

Comentar post

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D