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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

20
Jun14

7700: um desporto altamente individualizado

Bruno Vieira Amaral

Ontem, os assinantes da SportTv puderam assistir a uma das mais memoráveis exibições individuais deste torneio. Mesmo quando a Inglaterra marcou, o homem foi capaz de se recompor e oferecer a quem o ouvia pérolas como “dentes de coelho, olhar de predador”, “Godín lá no alto, a falar com os pássaros” e “são três milhões de uruguaios naquele remate.” Falo, é óbvio, de Luís Freitas Lobo, que ontem ascendeu ao panteão onde, até agora, só moravam Rui Tovar, Gabriel Alves e José Nicolau de Melo (este só para fazer a limpeza). O segundo golo de Suárez deixou-o num êxtase que merecia uma estátua de Bernini. Antes disso, enquanto o jogo esteve empatado a uma bola, notava-se-lhe a irritação. A certa altura, quando o narrador se embrenhava em complexos cálculos aritméticos (“ora, se a Costa Rica ganhar à Itália, melhor, se a Itália não ganhar à Costa Rica…”), Freitas Lobo, francamente exasperado pela forma como a pujança dos números estava a minar todas as oportunidades para a poesia, recomendou-lhe em tom ameaçador: “Não faças contas.” No final do jogo, perante o rosto de Suárez em lágrimas, Freitas Lobo balbuciou um ambíguo “lindo”, que não sabemos se foi pensado como adjectivo, substantivo ou advérbio de modo ou se foi apenas um refluxo verbal incontrolável. As imagens de Suárez abraçado a um companheiro no banco motivaram-lhe uma série de comentários sobre o que é e como se deve sentir o futebol e a medicina desportiva. Enfim, foi mesmo um grande espectáculo que só falhou por ter sido transmitido à mesma hora do jogo entre Inglaterra e o Uruguai, eclipsando, em parte, Suárez e o seu monólogo com o destino (chupem, poetas!).

 

Monólogo, sim. Ao longo dos tempos, comentadores, professores de ginástica, catalães de esquerda com responsabilidades em La Masía e idiotas em geral (grupo no qual me incluo por uma frase que escrevi ontem), têm tentado convencer as massas ignaras de que o futebol é um desporto colectivo. De um ponto de vista marxista, é uma ideia simpática que até podia ser abordada num livro a ser escrito por Thomas Piketty e José Neves. Na verdade, é uma falácia. O futebol é, mesmo, um desporto individual. A prova, que não é necessária mas que terei todo o gosto em apresentar, é o facto de os portugueses, ao fim da primeira semana de campeonato do mundo, estarem mais habilitados a reconhecer o tendão rotuliano de Ronaldo do que Rafa se, por acaso, se cruzassem com qualquer um deles na rua. Esta ideia rebuscada do desporto colectivo só serve de atenuante às grandes estrelas quando, por acaso, não conseguem render o que delas se espera nestas competições. É o caso de Ronaldo, Messi e Rooney que juntos, em três mundiais, conseguiram marcar o mesmo número de golos que Tim Cahill, e nenhum melhor do que aquele que o jogador australiano marcou contra a Holanda. Quer isto dizer que Cahill é melhor que aqueles três? Não. Quer dizer que Messi é um golo maradoniano nos quartos-de-final da Taça do Rei contra o Almeria ou o Levante e Maradona é um golo, de então para cá designado de maradoniano, contra a Inglaterra nos quartos-de-final de um campeonato do mundo. Luis Suárez teve uma época extraordinária no Liverpool. Mas golos ao Stoke City e ao Fulham são uma coisa e os golos de ontem são outra, e só têm em comum as assistências de Gerrard. São golos como os de ontem que, a exemplo dos comentários de Freitas Lobo, imortalizam um jogador: em jogos decisivos, nos maiores palcos, contra os maiores adversários.

 

Notas:

 

- Há uns meses, um defesa imprudente do Newcastle lesionou Suárez. Os patriotas uruguaios responderam com a fleuma que reservam para estas situações delicadas e ameaçaram o homem de morte, acusando-o de ter inutilizado a grande referência da selecção celeste. Ontem, como se viu, ficou demonstrado que, a ter existido, o plano era tudo menos absurdo. Com Suárez em campo, o Uruguai é diferente. Cavani, que no primeiro jogo parecia órfão, encontrou uma família de acolhimento na cabeça, nas pernas e nos dentes de Suárez. Uma família muito moderna, feliz e cheia de histórias para contar aos netos.

 

- Steven Gerrard escolheu o crepúsculo da carreira para elevar a arte de assistir os adversários nos momentos mais inoportunos – uma arte cujas regras foram imortalmente fixadas por Secretário, lateral-direito contemporâneo do escultor Kálamis – a patamares desconhecidos.

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