Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

10
Ago11

Huge Dicks and Monster Trucks

Bruno Vieira Amaral

Recebo com demasiada frequência para as minhas necessidades e-mails que me oferecem cremes, comprimidos e bombas para aumentar o pénis. A troco de uns quantos dólares, da ingestão de comprimidos não testados em seres humanos, prometem-me dimensões masculinas capazes de rivalizar com John Holmes e de fazer tremer de medo a mais escachada das actrizes pornográficas. É óbvio que nunca compraria esse tipo de produtos. Toda a gente sabe que as transacções na internet não são seguras. Um homem, na sua boa-fé, encomenda uns comprimidos e arrisca-se a ser chantageado por gente sem escrúpulos. O complexo de inferioridade, como todos os problemas dos críticos literários, pode ter origem em leituras erradas. Neste caso, em livros cujas dimensões viris das personagens são hiperbolizadas até ao nível equídeo da masculinidade. Perante estes leviatãs genitais o pobre leitor sente que guarda dentro das calças um inofensivo e infantil peixinho dourado, uma pila de anjinho barroco. E os escritores divertem-se nesta espécie de priapismo literário, como se as palavras não chegassem para descrever tão formidáveis atributos, como se nenhuma comparação fosse suficiente para dar uma ideia fidedigna do portento que concebem na imaginação.

 

Santino “Sonny” Corleone é uma das personagens abençoadas pela natureza e pela prodigalidade do autor. Mario Puzo elabora uma descrição física exemplar. Despacha o metro e oitenta, a cabeleira farta e ondulada, rosto grosseiro, lábios arqueados, queixo obsceno, força de um touro, para se deter na braguilha: era “tão generosamente dotado pela natureza que a pobre da sua mulher temia tanto o leito nupcial como os antigos hereges receavam a tortura.” Puzo, à boa maneira italiana, mete religião e sexo no mesmo saco e compara heresias a deveres conjugais. Mas não se pense que a enorme gaita de Santino só impunha respeito à “pobre” mulher; “mesmo as mais duras e valentes prostitutas, face à visão terrível daquele membro avantajado, exigiam o dobro do preço.” Ou seja, no leito conjugal ou no bordel, a pila de Sonny infundia o mesmo terror. Podemos admitir que as prostitutas exigissem o dobro por uma questão de facilidade contabilística, mas a mensagem implícita é que Sonny vale por dois. Certamente apiedado da sua personagem, Puzo arranja-lhe uma mulher à sua largura: Lucy Mancini, a quem um namorado acusara precisamente de ser demasiado larga. Devido a esta condição do estado do terreno, Lucy só tivera experiências sexuais insatisfatórias. Até que, inadvertidamente, ouviu a mulher de Sonny referir-se publicamente à equipagem do marido: “quando vi pela primeira vez aquela coisa do Sonny e pensei que teria de me aguentar com ela cá dentro, comecei a gritar de medo. Depois, ao fim de menos de um ano, tinha já as entranhas tão desfeitas como macarrão cozido. Quando me vieram contar que ele andava com outras, fui à igreja e acendi uma vela...” Ainda estou para ler passagem mais bela sobre os efeitos de uma pila gigante na morfologia feminina. Se a mulher de Sonny fosse alentejana diria “estou para aqui feita em migas”, como é descendente de italianos encontra uma metáfora bem mais apropriada. Esta descrição ginecológico-culinário-cultural tem um efeito fulminante na Lucy escachada. Como um verdadeiro empresário, Lucy vê uma oportunidade onde todos as outras só vêem um problema e apercebe-se disso quando sente “a carne a tremer entre as pernas”. “Aquela coisa” a que a mulher de Sonny se refere como se se tratasse de um fantasma, de uma forma de vida extra-terrestre ou de um animal não classificado pela zoologia desperta um interesse de índole amorosa em Lucy, como se naquele momento a existência da até então imaginada pila-gémea se materializasse numa “coisa” ao alcance da mão. É o momento mágico em que Lucy encontra um lingam à medida da sua yoni. Puzo é mais poético: “sentiu qualquer coisa quente a deslizar pelas suas coxas [a coisa, a coisa, duvido que quando Lucy sentiu qualquer coisa quente a deslizar-lhe pelas coxas não soubesse já que era a pila de Sonny, mas deve ser a isto que se chama a técnica do suspense]. Deixando cair a mão direita, segurou-a [à coisa] para a conduzir, enorme e grossa, feita de sangue e músculos, pulsando autónoma como um animal [Puzo consegue fazer de uma cena de sexo a dois um ménage a trois entre Sonny, Lucy e a pila de Sonny. As putas tinham razão: Sonny vale por dois]. Quase a chorar de êxtase e prazer [mas pelos vistos sem saber ainda que coisa era aquela], introduziu aquele membro vivo na sua própria carne inchada e húmida, respirando cada vez mais fortemente.” Puzo atinge aqui um nível superlativo na categoria da descrição de pilas: a coisa, o animal, o membro vivo é tão autónomo que é quase possível imaginá-lo, cansado de uma injusta divisão do trabalho, a abandonar Sonny e a mudar-se para um quarto alugado.

 

Em Cem Anos de Solidão, García Márquez também contribuiu para este campeonato de pilas literárias. Mas se José Arcadio, irmão do coronel Aureliano Buendía, é um rival de peso para Sonny Corleone, as mulheres do romance do colombiano são muito mais temerárias. Tal como Sonny, também José Arcadio se apresenta numa casa de má fama. No entanto, e ao contrário das prostitutas de O Padrinho, as meninas de Macondo disputam o privilégio de albergar o fenómeno. Não é José Arcadio que tem de pagar o dobro, são elas que têm de lhe pagar (e pagam) para o terem como cliente. Até mesmo uma cigana de “seios incipientes” e “pernas tão magras que, em diâmetro, não deviam ser maiores do que os braços” de José Arcadio revela uma disponibilidade física impressionante. Apesar do corpo de “rãzinha lânguida” aguenta o embate com “uma firmeza de carácter e uma valentia admiráveis”. As entranhas não se transformam em macarrão cozido, embora a pele desfeita num suor pálido, os olhos cheios de lágrimas e o corpo a exalar “um lamento lúgubre e um vago cheiro a lama” dêem conta de uma batalha jurássica. A masculinidade titânica de José Arcadio assusta a própria mãe, que “achava que a sua desproporção era uma coisa tão desnaturada como o rabo de porco do primo”, encanta a vizinha Pilar Ternera e põe Deus na boca de uma prostituta (“Que Deus to conserve!”).

 

De certa forma, as pilas de Sonny Corleone e de José Arcadio, exuberantes e festivas, são espectáculos de feira. Reflectem (ou talvez sejam a causa de) o carácter estouvado e imponderado dos seus proprietários (pede-se ao leitor mais paciente que estude as diferenças de personalidade entre irmãos – Sonny vs. Michael e José Arcadio vs. Aureliano. A propósito, é óbvio que, de acordo com este critério na distribuição de atributos, Fredo Corleone terá uma pila minúscula). Dirigem-se a um público feminino e observamo-las da perspectiva deste. Há outras duas pilas literárias que nos interessam (moderadamente, é certo), mas que são maioritariamente observadas por outros homens. A diferença é quase do tamanho das respectivas. O que nos primeiros casos é fonte de terror e desejo feminino, transforma-se, nos segundos, em argumento de legitimação da autoridade e da liderança. Falo (verbo falar) de Mr. Sammler’s Planet, de Saul Bellow, e 2666, de Roberto Bolaño. Mr. Sammler é um velho judeu fascinado por observar um carteirista preto em acção num autocarro. O carteirista (de quem não sabemos o nome) percebe que o velho pode estragar-lhe o negócio e, certo dia, segue-o e leva-o para o lobby de um prédio. É aí que abre a braguilha e expõe os seus “great oval testicles” e “a large tan-and-purple uncircuncised thing – a tube, a snake”. Mr. Sammler é forçado a olhar durante alguns segundos na direcção do “bicho”, após o que o carteirista recolhe a pila e parte sem dizer uma palavra. Deste exercício tácito de exibicionismo e de autoridade pode retirar-se o seguinte ensinamento moral: respeita quem tem uma pila grande, sobretudo se essa pessoa se dedica a actividades ilícitas. Mr. Sammler não é insultado, não é agredido, não é violado, mas ao obrigá-lo a olhar para a sua pila, o carteirista faz retroceder as relações de poder entre homens a um estado pré-histórico (cf. a cena do hominídeo assassino em 2001), dizendo, sem palavras e sem Bíblia ou Constituição (como cantava Miguel Ângelo), que é dali que todo o poder emana (ler o ensaio que ainda não escrevi Falocracia e as Letras dos Delfins – Uma Aproximação Mais ou Menos).

 

É também pelas dimensões fenomenais da sua pila que o General Entrescu ganha a fidelidade dos seus homens (2666, Roberto Bolaño), isto sem querer entrar em polémicas sobre o evidente homo-erotismo das instituições militares romenas. Afinal, os trinta centímetros (Bolaño é o único que não se escusa à precisão métrica) da verga do General eram “o orgulho do exército romeno”. A metáfora bélica sublinha a liderança carismática de Entrescu, mas não oblitera comparações mais triviais: “Mais do que um homem, contou Wilke aos seus camaradas, parecia um cavalo.” Os fabulosos atributos de Entrescu não o salvam, contudo, de um fim desgraçado às mãos dos seus soldados. Num episódio que deveria ser estudado por críticos literários mas também por psicanalistas, Entrescu é agredido até à morte e posteriormente crucificado, e o seu membro a abanar “pesadamente ao vento” é como que um estandarte da sua impotência para suster a revolta dos subordinados. Morto, o animal, o monstro, a coisa com vida própria, regressa à condição vegetal, a uma pesada murchidão, ao eterno repouso.

 

Este breve inventário de vergas imponentes e mangalhos mastodônticos não é uma compilação de amostras do génio metafórico aplicado à genitália masculina que nos ofereceu símbolos tão poderosos como “espingarda de carne” (agradeço a quem me chamou a atenção para esta preciosidade de Lídia Jorge) ou o chourição que aparece na charcutaria literária de José Rodrigues dos Santos. Aqui, trata-se apenas de detectar semelhanças entre personagens que partilham tão proeminente característica. Homens de acção (mafiosos, aventureiros, guerreiros e carteiristas) e pouca reflexão, embora Entrescu não seja um mero action man com pila de cavalo. O carteirista de Bellow é um representante da nova ordem social - o corpo arruma o intelecto – e é o único que não tem um final trágico (não conhecemos o seu destino). Os outros três são liquidados sem que aos assassinos seja dado um rosto: não sabemos quem mata José Arcadio, e Sonny Corleone e o general Entrescu são mortos por uma multidão de inimigos e de aliados, respectivamente. Haverá aqui um padrão de vingança psicanalítica? Não sei. O que é certo é que a conjunção de uma personagem de ficção e de uma pila grande é um mau prenúncio para a saúde das duas.

3 comentários

Comentar post

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D