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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

19
Jan09

Preguiça

Bruno Vieira Amaral

Como hoje estou preguiçoso, decidi plagiar-me a mim próprio. Sou o meu próprio Pierre Ménard, penso de mim para mim. Fiquem com a breve história de Al-Sumad, enquanto não tenho acesso às restantes entradas do diário do agente em Nicósia:

Que não prosperem enganos: Al-Sumad (também Als-umah), filho de Bin Ba’ud (também Bin Ba’ud), era poeta medíocre. Até os camelos se espantavam com a ruindade dos seus versos. Estudou com Mud’amid (também William Butler Yeats) mas dele não aprendeu nada que lhe fosse de serventia fora de um bordel. Era exímio jogador de xadrez mas só até os adversários perceberem que os cavalos de Al-Sumad avançavam em I’s viciosos. Ao ver-se em apertos soía atirar o tabuleiro ao chão perante a indignação dos anciãos, entre os quais Rafiq, o onanista. Al-Sumad era acusado de mau perder. Demorava horas a decidir jogadas e, enquanto, dissertava sobre as areias de Malkaf, as parcas águas de Máh’ain ou os verdes breves de Knalak-lapirn, cidade que talvez existisse na mente de Tolkien. Fazia-o com o intento de evitar que rivais como Ambrosius, embaixador da corte de Segóvia, lhe lessem os pensamentos e assim adivinhassem a próxima jogada ou acedessem à intimidade da sua pouco asseada esposa. A conversão de Al-Sumad foi tardia. Quando as cãs já lhe enobreciam a fronte, Al-Sumad abandonou o xadrez, os camelos e as mulheres. Dedicou-se a escrever. Só conquistou o estatuto de profeta após Bin Ba’ud ter intercedido por ele. Do seu original pensamento nasceram duas correntes: o sumadismo trágico, um sincretismo helénico, e o sumadismo sefardita, apenas acessível a circuncidados e a eunucos. O sumadismo trágico proclama a inutilidade de qualquer acção à excepção daquela que proclama a inutilidade de qualquer acção. O sumadismo sefardita declara a inutilidade do sumadismo trágico e ensina uma óptima receita de pão ázimo. Seis dos filhos de Al-Sumad enveredaram pela corrente trágica, seis pela sefardita e outros seis formaram uma banda ao estilo Jackson Five que devido ao paradoxo numérico não obteve o sucesso esperado. Al-Sumad legou aos tempos vindouros ensinamentos que não poderão ser conspurcados por fundamentalistas: “Que o vento de Har-Alid vos dê o dobro do que me desejam.”

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