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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

29
Set11

Justino

Bruno Vieira Amaral

Na noite em que conheceu aquela que viria a ser sua mulher e mãe dos seus filhos, Justino violou-a. Não foi um começo auspicioso, embora ele não tivesse feito por mal. Fernanda, nome que a mãe lhe deu à pia em homenagem a uma ilustre avoenga, estava inconsciente e Justino, ou o que ainda lhe sobrava de vontade e de discernimento, interpretou o estado como um consentimento tácito. Naqueles tempos, no precário barracão de madeira que servia de sede ao clube local, organizavam-se semanalmente festas variadas: aniversários, casamentos e celebrações sob qualquer pretexto. Júlio Soares, que era presidente do clube além de dinamizador cultural e organizador de excursões a Arraiolos e Estremoz, o que significava que tinha o monopólio do microfone no autocarro, homem encorpado, para poupá-lo à acusação de obesidade, passava as primeiras horas em contra-corrente como um adulto numa festa de adolescentes, a apontar excessos, a perorar recomendações, morigerar comportamentos, serenar ânimos. Enfim, a envidar todos os esforços para tirar às festas o que estas tinham de festivo, esforços esses que eram invariavelmente gorados. A meio da noite, era frequente encontrar o Ti Júlio sentado sozinho a uma mesa a revirar os olhos enquanto admoestava copos, cinzeiros e outros objectos. Vinha gente de muito longe para as festa n’O Barracão, sobretudo nas noites em que actuava o Gica Sampaio, um angolano baixinho e de piada fácil, capaz de incendiar o público com dois acordes e que, durante a semana, trabalhava, sem particular afinco ou esmero, nas obras. Gica conhecia o seu público. Dava-lhes merengues e modinhas, sambas, salsas e, no momento em que o álcool produzia o efeito de transformar qualquer ritmo numa desculpa para roçar o corpo da companheira, slows acompanhados por uma púdica diminuição das luzes que acobertava toda a sorte de lascívias e atrevimentos: apalpões, dedos que se aventuravam para lá dos limites da decência, bocas que se beijavam com mais língua do que sentimento. O momento crítico da noite era quando as luzes se acendiam, como se o encanto dos vapores etílicos e da escuridão se quebrasse num rasgo eléctrico: murros, pontapés, chapadas, empurrões no meio de gritos, desfalecimentos e invocações da Virgem que não era conhecida por frequentar antros idênticos. Nas manhãs de Domingo não eram raros os corpos naufragados à porta do barracão entre poças de mijo, manchas de sangue, restos de vomitado e guardanapos de papel com autógrafos de Gica Sampaio, ele, que era analfabeto. Foi precisamente numa noite em que o guitarrista se excedeu na prosápia que Justino violou Fernanda, rapariga de uns respeitáveis noventa quilos, os quais, distribuídos sem critério pelo seu metro e sessenta mal medido, lhe conferiam a formosura e a elegância de um barril de azeitonas. Por solidariedade com um namorado que cumpria uma injusta pena de onze anos por assalto à mão armada e ofensas corporais agravadas, tatuara uma grande cruz celta no braço gordo e mole. Vestia minissaias que lhe deixavam as coxas mórbidas à mostra e que, juntamente com o cabelo longo, oleoso e de pontas espigadas, compunham um quadro geral de sensualidade reles e ordinária. Tinha um filho de pai incógnito, no que seria uma benevolente tentativa de honrar uma longa tradição familiar. Dizia-se que era cliente regular de uma curiosa que executava desmanchos com perícia de cirurgiã e sensibilidade de talhante. No mini-mercado onde trabalhava discutia indiscriminadamente com clientes e com o patrão, o sr. Leal, homem paciente e poupado, casado e com netos, mas cujo vício da pederastia quase lhe arruinara o casamento, o negócio e a saúde. Aos sábados à noite, Fernanda não perdia uma festa. A bebida predispunha-a a extremos de delicadeza e de meiguice insuspeitos no seu estado normal. Justino, por seu lado, saía pouco e evitava aglomerações, festividades e o convívio com outros seres humanos. Naquela noite, porém, movido por uma estranha vontade, foi ao Barracão. Pagou duzentos escudos à entrada, que davam direito a duas cervejas. Logo que viu Fernanda, que conhecia de vista mas com quem nunca falara, iniciou uma corte de olhares oblíquos, silêncios convidativos, toda uma panóplia de métodos demasiado subtis que escapavam ao radar de Fernanda, habituado a detectar num certo grau de brutalidade a manifestação de sentimentos ardentes, da paixão. Por isso, Justino só se chegou a ela quando, umas horas mais tarde, a encontrou deitada nos bancos corridos nas traseiras do Barracão. Aproximou-se, sussurrou o nome dela e, como não obtivesse resposta, afastou-lhe, num arremedo de sedução, uma mecha de cabelo do rosto e beijou-lhe, com a trôpega resolução dos bêbados, os lábios frios e fechados. Ela não reagiu, o que em vez de o fazer recuar, incentivou-o a prosseguir, agora com as mãos debaixo da saia curta, os dedos inquietos e excitados pela farta pelugem à volta do sexo. Com cuidados de arrombador de cofres, desapossou-a das cuecas e, com uma tímida erecção, penetrou-a sem arte, sem demoras. A bebedeira prolongou o acto mais tempo do que o normal num homem acostumados aos amores breves e sórdidos das putas. Quando terminou, Fernanda ainda dormia.

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