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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

20
Dez11

Quinta-feira

Bruno Vieira Amaral

Nasci no Barreiro. Cresci nos arredores, mas, por causa da tendência infantil para a criação de uma mitologia pessoal, sempre me pensei como um genuíno barreirense. Entre os meus três e nove ou dez anos, a minha mãe levava-me ao Barreiro para cortar o cabelo, no salão Os Cinco Jovens, no qual, sem surpresa, trabalhavam cinco jovens, embora com o passar dos anos uns tenham desaparecido e outros entrado para o seu lugar, a ponto de, a dada altura, trabalharem lá uns seis cada vez menos jovens. Quando chegávamos, a minha mãe tirava uma rodela de metal com um número e, como era habitual haver muita freguesia, ocupávamos o tempo numa pastelaria do outro lado da rua, onde quase sempre eu tomava um galão e comia uma sandes de queijo. Lembro-me bem do queijo, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa, um prazer certo nesses longínquos sábados de manhã. De seguida, depois de passarmos pela estátua de Alfredo da Silva, íamos até a imitação de lago que havia no meio do jardim. Do modo que eu via as coisas, as estátuas eram para reis a cavalo ou para o marquês com o leão ao lado, figuras históricas e solenes, e aquela estátua era demasiado parecida com um homem normal, ainda que gigantesco e éreo. Era uma estátua assustadoramente normal, de uma imponência estranha, uma estátua contemporânea do homenageado. No lago passeavam-se uns patos orgulhosos que recebiam com uma indiferença inicial as migalhas que lhes atirávamos, para logo despertarem da majestade aquática em que deslizavam, lançando-se com avidez aos pedaços de pão e provocando uma súbita e passageira agitação na água para consolo das crianças, que tanto apreciavam este arremedo de natureza, infalivelmente rendidas ao alvoroço de um mundo que começavam a descobrir e em que tudo lhes parecia vivo e verdadeiro. Depois de alimentarmos os patos, ou de alimentarmos o meu prazer inocente de os alimentar, ainda ia ao baloiço, a pedir sempre à minha mãe para me empurrar porque ainda não aprendera a dar balanço, esticando as pernas para o céu quando avançava e encolhendo-as quando recuava. Depois de cortado o cabelo, voltávamos para casa de autocarro. Saíamos numa paragem a uns quinze minutos de casa, o que nos obrigava a passar entre hortas e amoreiras, pó no Verão e lama no Inverno. A minha mãe costumava levar-me ao colo, mas com os anos lá comecei a ir a pé, cansado das pernas, choroso e queixumento. Pelo caminho, encontrávamos algumas roseiras que despontavam por cima dos muros baixos das casas. Com um pequeno corta-unhas, a minha mãe cortava-lhes o caule e os espinhos e roubava as rosas que, chegados a casa, eu exibia à minha avó, como um pequeno guerreiro cansado que regressa com os despojos da manhã. As rosas ficavam numa jarra na mesa da cozinha, onde iam definhando – de rosas vivas e frescas em objectos de decoração castrados de espinhos – e acabavam por morrer. Essa morte lenta, na penumbra que a minha avó inventava com uma toalha na janela da cozinha para que a casa não ficasse muito quente, fascinava-me tanto quanto o movimento vivo e inesperado dos patos. O mundo existia e até as manchas que apareciam nas maçãs logo depois de a minha avó as descascar tinham um carácter de mistério e de revelação. Tudo morre. Nasci no hospital velho, dizem-me que numa manhã de chuva. Hoje, é ali a Santa Casa da Misericórdia. Durante anos, sempre que passávamos por lá eu perguntava à minha mãe: “Foi aqui que eu nasci, não foi?” Ela dizia-me que sim, numa quinta-feira, chovia muito. Alegrava-me saber que tinha nascido ali, numa quinta-feira chuvosa a que a minha memória não chegava, mas que era tão certa e evidente como estar ali com a minha mãe, a olhar pela janela do autocarro os pavilhões velhos e tristes do velho e triste hospital. Agora que vivo no Barreiro e que os meus passos funcionais se confundem com os passos da minha memória, que a geometria das ruas se cruza com os labirintos da infância, que revejo o salão Os Cinco Jovens e a estátua de Alfredo da Silva noutro lugar - agora mais estátua, mais antiga, com a imponência que o tempo empresta aos monumentos, mas ainda assim acessível e próxima – que espreito e já não vejo o lago com os patos, apenas as mesmas árvores e as mesmas sombras na mesma solidão de jardim, surpreendo-me por ser tudo de uma matéria real e tangível e não uma invenção nebulosa de criança, uma reminiscência distante e ténue como o sabor diferente do queijo da pastelaria, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa. Pressinto que o Barreiro de pedras e vidro, de estátuas e pessoas, não é tão real como o Barreiro a que a minha memória não chega. Será que atrás do vidro do salão ainda está aquele homem de uma masculinidade serena e segura que eu imaginava como namorado da minha mãe? Será que ainda há exemplares de A Bola, naquele formato gigante, que eu lia enquanto esperava pela minha vez? Será que esta vida, que é a minha, que foi a minha, ainda existe fora de mim? Será que o Barreiro, o Barreiro que sempre foi a minha cidade, alguma vez existiu fora de mim? No fim, esquecidos os fiapos da memória, as recordações da criança que atirava pão aos patos, o Barreiro, mais do que qualquer outra coisa, antes de qualquer outra coisa, é a inequívoca quinta-feira chuvosa em que nasci, mas que desgraçadamente não recordo.

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