Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

22
Dez11

Terra

Bruno Vieira Amaral

Foi o meu amigo Marco Serrano, homem que abandonou as letras e se pôs a voar, que me chamou a atenção para essa frase que anda lá pelo início de Cem Anos de Solidão. Diz (creio) que nenhuma terra é nossa enquanto não enterrarmos lá um morto. É verdade. Enterrar os nossos mortos vale mais do que hastear bandeiras ou cravar marcos geodésicos na beira da estrada. A nossa terra é sempre onde estão os nossos mortos. Há uns meses vi uma reportagem na televisão em que levavam um homem de regresso a Angola. O homem viera para Portugal ainda criança, criado por uma família de portugueses brancos. Nunca mais regressara a Angola. A televisão – moderna endireitadora de tortos – levou-o para rever os irmãos que por lá ficaram. Ao ver o sangue vivo dos seus vivos, o homem emocionou-se, chorou, perdeu-se em abraços. Mas foi apenas quando descobriram a campa da sua mãe, escondida entre o capim voraz, que aquele homem regressou à sua terra. Regressar à nossa terra é regressar aos nossos mortos, de que os vivos são manifestações breves e frágeis, meros fantasmas de carne e osso. Dois meses antes de morrer, quando a doença ainda não a tinha deixado cega e presa a uma cama anónima de hospital, a minha avó quis ir à terra, Montalvão, uma pequena aldeia do Alto Alentejo. Organizou tudo e partiu com a minha irmã, na altura com treze anos. Ficaram por lá uns dias, poucos. Não sei ao certo o que a minha avó terá feito nesses dias, desconheço os pormenores, talvez a minha irmã saiba. Do que não tenho dúvidas é que a minha avó foi lá para se despedir, para dizer adeus à terra. Creio que a passagem dela por este mundo terminou no momento em que entrou na camioneta que vai para Nisa e em que pela última vez viu a aldeia, uma silhueta de casas a desfazer-se na distância. Os últimos dois meses foram um sofrimento desnecessário, um epílogo inútil em que a minha avó deixou de ver o mundo e as pessoas, mesmo que o apego instintivo à existência, “o duro desejo de durar”, a fizesse acreditar na recuperação, na ideia de regressar a casa e pôr as batatas ao lume. Foi sepultada num cemitério a mais de duzentos quilómetros da terra, muito longe da campa da mãe, o lugar a que verdadeiramente pertencia depois de uma vida deslocada, da província para a capital e da capital para os subúrbios.

 

Abomino o nacionalismo político que, de maneira infame, se aproveita do amor genuíno das pessoas à terra para arrancar ódio e intolerância, rancor e mesquinhez de um sentimento que é, na sua origem, tão humano, profundo e honesto. Mas também não acredito em cidadãos do mundo que não sejam, antes de tudo, filhos de uma terra, que se gabem de não pertencer a lado nenhum. Não aceito o argumento de que as árvores têm raízes e os homens têm pernas, porque as nossas raízes não são físicas, são feitas de memórias, são os lugares em que primeiro amamos, os lugares cheios da presença viva dos nossos mortos. A terra, a ideia de pertença a um lugar, foi pretexto para crimes terríveis e para ideologias hediondas, mas não nos esqueçamos que a primeira violência cometida sobre as vítimas foi dizer-lhes que não pertenciam a lado nenhum, que a terra onde tinham nascido e amado, a terra onde já estavam os seus mortos, não lhes pertencia. De que serve negar isso? Talvez seja um esforço meritório para tornar os homens mais livres, mais senhores de si e menos escravos dos mitos da terra e do sangue. Um esforço para nos livrarmos da carga com que nos albardam à nascença. “Puedo decir que mi patria es mi hijo y mi biblioteca”, escreveu Roberto Bolaño, para quem as únicas fronteiras de um escritor são “las fronteras de los sueños, las fronteras temblorosas del amor y del desamor, las fronteras del valor y del miedo, las fronteras doradas de la ética.” Se assim fosse, nunca mais nenhum escritor se sentiria exilado desde que a seu lado tivesse aqueles que ama e a sua biblioteca. Esta perspectiva libertadora do exílio é partilhada pela escritora checa Vera Linhartova, de que nos fala Milan Kundera num ensaio breve no livro Um Encontro (Dom Quixote, 2011). Num colóquio sobre o exílio, no início dos anos 90, Linhartova disse que “o escritor é em primeiro lugar um homem livre, e a obrigação de preservar a sua independência contra todos os constrangimentos prevalece sobre qualquer outra consideração.” O exílio pode não só libertar o escritor da pátria, mas também da língua: “O escritor não é prisioneiro de uma única língua.” Será que a ideia de exílio e a figura do exilado foram raptadas pela brigada do “moralismo lacrimejante” que se esqueceu de perguntar aos exilados como é que eles sentiam o exílio? Será possível que o exílio seja uma experiência libertadora que desobriga os escritores da fidelidade atávica para com a nação, tornando-os exclusivamente cidadãos de si? Não creio. Kundera reconhece que “cada um vive o exílio à sua maneira inimitável e a experiência de Linhartova é um caso limite” (mas cuja ideia central não se distingue da de Bolaño). E nessas experiências múltiplas encontramos a dor dos desenraizados, o “mal du pays”. Linhartova e Bolaño comportam-se como aquelas pessoas que, depois do divórcio, aproveitam para condenar todo o sentimentalismo e rejeitar qualquer possibilidade de felicidade conjugal. Olham com condescendência os românticos incuráveis que sofreram longe da terra. Ao escritor austríaco Jean Améry (1912-1978), baptizado como Hanns Mayer, a pátria suscitava sentimentos ambivalentes. Judeu, perseguido e aprisionado em Auschwitz, revoltou-se contra a pátria que o maltratou, mas não deixava de sofrer por lhe ter sido extirpada uma parte fundamental da sua identidade. No discurso Literatura e Exílio, Roberto Bolaño perguntava se se podia ter nostalgia por uma terra onde se esteve a ponto de morrer, se se podia ter nostalgia pela pobreza, pela intolerância, pela prepotência e pela injustiça. Améry também tinha feito questões parecidas: “Que era então aquela saudade da terra nesses que o terceiro Reich banira por virtude das suas opiniões políticas ou da sua árvore genealógica?” perguntava, para responder: “A minha saudade da terra, a nossa saudade da terra, era a alienação de nós mesmos.” (A Humanidade Perdida, Alain Finkielkraut, Ed. Asa, p. 121) Não a saudade da terra, mas a saudade do que somos. O exílio forçado liberta? Talvez. Porém, como escreveu Améry, o melhor é “ter uma terra própria para não se precisar dela”. A terra onde estão os nossos mortos e à qual, queiramos ou não, estamos sempre a regressar.

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D