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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

25
Fev12

Tantos mortos

Bruno Vieira Amaral

Tantos mortos. A filha do Silva da tasca que se envenenou. Ainda me lembro dela? Sei que existiu. Não consigo reconstituir na minha memória os traços do rosto. Seria loira? Talvez. Lembro-me de passar em frente da tasca do pai e de a ver lá a servir. Depois, deixou de estar. Por que razão se terá matado? Talvez a minha mãe saiba. Foi há tantos anos. A notícia saiu no jornal. Eu era criança. Tinha o fascínio infantil pelo macabro, pelo horrendo e queria assustar-me. Nada me apavorava mais do que aquele jornal, as fotografias dos ex-vivos, a imagem inquietante da casa onde o crime fora cometido, marcas de sangue no chão, os vizinhos à porta a velar a loucura homicida de um lugar amaldiçoado. À noite não conseguia dormir, ainda perturbado pela fotografia de alguém que morrera. Na fotografia até então sem história, registo banal de um dia qualquer, apareciam em lenta revelação as sombras da tragédia. A angústia de que nunca teríamos sabido surgia com a nitidez terrível, não das coisas certas, mas das premonições. Contaram-me ou terei visto o corpo de um homem no chão, a poucos metros do parque onde brincávamos, tapado por um lençol branco? Disseram que se matou, que se atirou do terceiro andar. Havia quem dissesse que o tinham atirado. Os filhos da Lurdes. Três. Os corpos foram encontrados dentro de uma arca onde se tinham escondido numa brincadeira funesta. O marido da Conceição. Encontrado no quarto com o fio do candeeiro à volta do pescoço. Disseram que se matou. Quem viu o cadáver foi o Fernando. A mãe dizia que, depois disso, ele acordava com pesadelos, o rosto duro do morto a ganhar forma na escuridão. O velho alfaiate que vivia num rés-do-chão. Na varanda tinha um cão feroz que nos metia medo. Víamos o homem através da janela a tirar medidas, a riscar de giz os fatos. Mandou-se para a linha do comboio. Nunca mais se soube nada do cão. Nesta tarde em que da minha janela vejo o mar e crianças a passear na praia com os pais, ainda oiço os latidos desesperados desse cão, ecos de morte, medo e deserto.  

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