Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

27
Fev12

Rubem

Bruno Vieira Amaral

 

Fui ensinado a não ter outros ídolos que não Deus. Entretanto, perdi-me de Deus, ou Deus perdeu-se de mim, em todo o caso, desencontrámo-nos e então comecei a coleccionar ídolos. Nunca os quis bezerros de ouro, exemplares e imutáveis. Sempre os preferi humanos, ídolos falíveis a quem pudesse admirar e reprovar, com longos períodos de êxtase e reverência e períodos ainda mais longos de quase esquecimento, em que subsistiam como uma luz ténue que, porém, nunca se apagava. Era bom reencontrá-los em livros, filmes, músicas, recuperar a memória que deles tinha e lançar-me em renovada adoração. Era bom deixá-los incógnitos numa estante ou numa gaveta, em pousio para que o espanto fértil não se esgotasse de tanta lavra, e regressar por um acaso, um atalho, uma desilusão. E eles lá estavam, na obediência muda das estantes, na soberania paciente dos caixotes, à espera do filho pródigo que, cansado do mundo, retorna ao abraço paterno. Ora, muitos destes ídolos de palavras e imagens, mas também de carne e osso, são gente esquiva, avessa ao ruído das turbas fanáticas, receosos da prolixidade vazia dos que não se satisfazem com o diálogo implícito da arte e desejam adorar de corpo presente, vencer a distância e mergulhar fisicamente no autor. Mesmo quando são afáveis e se prestam a sessões de autógrafos, mesmo quando posam de estátua deles mesmos em fotografias que hão-de enfeitar salas de subúrbio, mesmo quando trocam palavras que dão ao receptor o direito abusivo de dizer “conheci fulano”, vejo-os como os deuses melancólicos que são, já insensíveis a tresleituras, ávidos de ser amados mas resignados a que esse amor não signifique compreensão, nem a união funda que acontece raramente entre dois seres humanos e dispostos a aceitar a condição de santinho de altar, santuário que se dá a peregrinações cegas. Contudo, nós queremo-los, queremos vê-los na sua realidade física porque nos dói a breve incerteza de humanidade que as palavras nunca fecham, queremos ouvir-lhes a voz e ver como é o corpo de onde explodiram palavras e multidões nasceram, queremos ver os nossos ídolos e tocar-lhes e pedir-lhes que vivam para sempre, não no real intangível dos livros, mas que vivam para sempre aqui na terra, perto de nós, e para além de nós, como deuses caídos, como homens eternos. E quando não temos a coragem para os desafiar para a vida eterna, quando não lhes sabemos exigir que fiquem, que permaneçam como permanecem as suas personagens, saibamos ao menos apertar-lhes a mão e dizer-lhes “Muito obrigado por tudo”.

 

 Fotografia de Pedro Loureiro, a quem agradeço

1 comentário

Comentar post

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D