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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

24
Mar12

Depois

Bruno Vieira Amaral

Era muito segunda-feira, abençoada por um inofensivo céu azul pastoral, de aguarela ingénua, e eu estava sentado na sala de espera do tribunal, sob o olhar de falsa distracção de um segurança velho, a aguardar a minha vez perante um funcionário que acabou por nos receber sem a majestade imaginada, com aquele aborrecimento vago, semanal, dos homens que dominam a arte de desperdiçar a vida. Foder. Foder. Foder. Naquela altura, poucos meses depois da separação, eu só pensava em foder, em embrenhar-me numa tempestuosa sucessão de corpos, no poder narcótico da novidade, novas e formidáveis conas, novos cus, novas mamas, novos mundos. Mamas grandes, lunares, opulentas, mamas breves, eriçadas, púberes, rabos empinados e duros, grandes e flácidos, as subtis variações minerais do sabor de cada cona, esta mais acre e espessa, mais doce, sumarenta, aquela, o movimento das coxas, a penetração contínua, exaustiva, dois, três, quatro dedos a explorar o veludo húmido para recuperar o tesão depois de duas fodas, num exercício de espeleologia desesperada na esperança que o prazer delas me fizesse recuperar o desejo, tudo isto rumo à abstracção, como se estivesse num quadro de Chirico, a uma esquina da minha vida, e aquele movimento ritmado, insistente, ocultasse algo terrível, o vazio, o vazio pornográfico e sem alma, a desumanidade. As pregas tensas de um cu virgem, as pregas lassas de um cu devastado; os lábios tímidos de uma cona impudica, os lábios largos, de antúrio, de uma cona de acesso lento ao prazer, mas de êxtases prolongados, tectónicos, os bicos negros de algumas mamas, os rosados, quase só auréola, de outras, o prazer gemido de umas, o prazer gritado de outras, a voracidade de certas bocas de lábios finos em contraste com os chupões meigos, castos, de lábios cheios que só no final, no segundo que antecede o gozo, se tornavam ávidos para receber toda a esporra; as fodas à canzana, dois animais de morte e desespero; os cus fodidos na posição de missionário, os rostos frente a frente, numa conspurcação premeditada do amor esponsal; e o zénite, num momento de fulgor dourado em que uma delas, ruborizada, a arfar de prazer e confusão, lançou sobre mim jactos envergonhados de urina. Era eu sozinho a fazer barulho para não ser encurralado pelo silêncio insidioso que precede e anuncia a solidão, a brutal solidão da foda. Até que chegou o momento do vazio e da vergonha, quando senti que aquela avalanche de corpos, de orgasmos, de ejaculações peremptórias na boca, nas mamas, no cu, não me oferecia mais do que o amparo incerto das texturas. Quando é que o descobri? Certa vez, passei a noite, acidentalmente, com uma rapariga. Fodemos e ela, por acaso, com sono, ficou a dormir na minha cama. Aconchegámo-nos e esse teatro da intimidade, esse arremedo patético de ternura, foi o ponto mais baixo da minha existência de sátiro. Vergonha. A situação repetiu-se meses mais tarde com outra mulher e foi então que aquele longo processo de desidratação espiritual culminou numa arrebatadora sensação de plenitude, de rapto sensorial, que era tanto a depuração dos sentidos pelo massacre físico, como acontece nos jejuns místicos e nas flagelações cristãs, como um despojamento total, o ponto em que, não tendo mais a perder, somos reanimados por um fôlego que julgávamos já não ter, que vem ao mesmo tempo de dentro e de fora, nosso e estranho, um princípio de inanição, o glorioso protesto do espírito contra a morte. Depois de saciada a fome carnal, os corpos, em toda a maravilhosa diversidade e abundância de cheiros e imperfeições, assemelhavam-se não a representações figurativas de mulheres mas às telas geométricas de Mondrian, aos padrões abstractos das construções islâmicas, às pedras do deserto de onde brotou Jeová, o Todo-Poderoso. O mais curioso é que ao recordar as mulheres daquele período sinto por elas uma infindável e abrangente ternura: chamo-lhe a nostalgia da foda. Não se dirige a nenhuma em particular, individualmente elas não me perturbam, nem sequer existem, refaço a custo os prazeres que senti. Só pensando nelas em conjunto é que sinto essa gratidão que, na sua essência, é uma forma bem triste de autocomiseração, um truque patético para polir as recordações, para as tornar menos vergonhosas, para que possa viver em paz com elas. O percurso religioso do esgotamento das sensações até ao ascetismo nada tem de original, mas é bem real a verdade que se atinge pelo contraste abrupto entre a foda desenfreada e o espírito em repouso, entre o cansaço físico e a luz redentora que brilha no fundo dessa fadiga. Fodemos e sentimos culpa por fodermos sem os cetins do amor. Foi assim que nos ensinaram e não é fácil foder sem culpa. Chegará o tempo em que o corpo há de pedir mais. Saímos da presença do funcionário da conservatória. Deixei-o a olhar pela janela, imbecil e judicial.

 

p.s.: Soube, mais tarde, em circunstâncias constrangedoras, que nesta altura ela já estava com o Alfredo, um daqueles tipos simpáticos, invertebrados e social-democratas que as mulheres têm a tendência para escolher como segundos maridos.

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