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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

28
Jul17

Brian “Kato” Kaelin: a primeira estrela da reality tv

Bruno Vieira Amaral

Durante anos, Kim Philby, agente dos serviços secretos britânicos, passou informações confidenciais à União Soviética. Esteve quase a ser apanhado por diversas vezes. Philby tinha estado na Guerra Civil de Espanha como correspondente do The Times. Apesar de desconfianças iniciais que recaíram sobre si, após sobreviver a um atentado que vitimou três outros jornalistas, Philby acabou condecorado pelo regime de Franco com a Cruz Vermelha de Mérito Militar, em Março de 1938. Dois anos depois, um dissidente soviético relatou às autoridades britânicas que havia um agente duplo nos serviços secretos que tinha estado em Espanha como jornalista. A informação não deu origem a qualquer investigação e Philby pôde prosseguir a sua actividade.

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Harold "Kim" Philby

 

Noutra ocasião, Philby esteve quase a ser denunciado quando o vice-cônsul soviético em Istambul pediu asilo ao Reino Unido, prometendo revelar o nome de dois agentes infiltrados no Ministério dos Negócios Estrangeiros e outro nos serviços de informação. As autoridades soviéticas conseguiram levá-lo de volta para Moscovo e Philby, que tinha sido incumbido de o interrogar, escapou uma vez mais.

Em 1949, foi destacado para a embaixada britânica em Washington, onde exerceu o cargo de primeiro secretário. Guy Burgess, outro espião britânico a soldo dos soviéticos, foi fazer companhia a Philby em 1950. Em Washington já se encontrava Donald McLean, o principal suspeito de passar informações da embaixada britânica para Moscovo. Com o cerco a apertar-se sobre este último, Philby encarregou Burgess de levar McLean para a União Soviética. O desaparecimento dos dois diplomatas gerou enorme falatório, mas quando se soube que estavam em Moscovo e, como tal, tinham estado a trabalhar para os soviéticos, as atenções viraram-se para Philby. Este negou sempre que fosse o “terceiro homem”, mas foi obrigado a demitir-se do MI6 em Julho de 1951. Sem acesso a informações relevantes deixou de colaborar com os serviços de inteligência soviéticos. Em 1955, deu uma conferência de imprensa em que, pela enésima vez, se declarou inocente das acusações de ser um espião. Só oito anos mais tarde, na sequência das revelações de um diplomata soviético dissidente é que se confirmou que Philby era mesmo o terceiro homem. Em Julho de 1963, a URSS concedeu-lhe asilo político.

Há várias teorias para explicar o facto de Philby nunca ter sido detectado, mas o certo é que nunca foi. Em certas situações, teve sorte. Noutras, engenho. Mas se em 1955, quando Philby deu a célebre conferência de imprensa, Paul Ekman já tivesse desenvolvido o seu sistema de análise de micro-expressões faciais, talvez o espião tivesse sido desmascarado na altura. Analisando o comportamento e as reacções automáticas e involuntárias de Philby, Ekman concluiu que havia indícios claros de que ele estava a mentir. Pode argumentar-se que é fácil acertar no Totobola à segunda-feira, mas se virmos as imagens da conferência de imprensa é difícil não concordarmos com a análise de Ekman: há um momento em que a expressão de Philby é, sem sombra de dúvida, a do “gato que comeu o canário”:

 

Conferência de imprensa de Philby em 1955

 

Outro dos exemplos que Ekman costuma dar de alguém cujas emoções são denunciadas pelas micro-expressões faciais é o de Brian “Kato” Kaelin. Em 1995, este aspirante a estrela de Hollywood, na altura com 36 anos, foi uma das testemunhas no julgamento de O. J. Simpson, acusado do homicídio da mulher, Nicole Simpson, e de Ron Goldman. Questionado pela advogada de acusação, há um instante em que a expressão de Kaelin denuncia um sentimento de aversão que ele procura ocultar pelo discurso. Esse momento está aqui, analisado pelo próprio Ekman:

 

 

Os casos de Philby e de Kaelin são ambos mencionados por Ekman no livro Blink, de Malcolm Gladwell, um misto de reportagem e ensaio sobre o conhecimento instintivo, o poder das primeiras impressões e tudo aquilo que sabemos sem sabermos que sabemos.

 

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O nome de Kato (alcunha com origem na personagem desempenhada por Bruce Lee, na série de final dos anos 60, The Green Hornet, “As Aventuras de Bruce Lee”) Kaelin surge apenas como exemplo da teoria de Ekman e também há quem diga que ele não passou de uma nota-de-rodapé bizarra no julgamento mais mediático do século XX nos EUA. Mas essa nota-de-rodapé foi suficiente para Kaelin ter os seus 15 minutos de fama. Transmitido em directo pela televisão, o julgamento tinha uma estrela inquestionável, o réu, mas rapidamente formou um elenco notável de secundários, desde o advogado de Simpson, Johnnie Cochran, ao juiz Lance Ito, do agente da polícia Mark Fuhrman a outro dos advogados da equipa de Simpson, Robert Kardashian, o patriarca do clã que ainda não dominava agenda mediática.

Deste rol de secundários, Kato Kaelin foi dos que mais se destacou, tornando-se numa “celebridade menor” durante o julgamento. Para isso contribuiu o seu aspeto de surfista perplexo, entre o perdido e o receoso, uma espécie de The Dude avant-la-lettre a quem tivessem cortado o abastecimento de marijuana. Kaelin era uma testemunha importante porque estava em casa dos Simpson na noite em que os homicídios foram cometidos, 12 de Junho de 1994. Aliás, Kaelin era hóspede permanente embora, segundo o próprio, não pagasse renda porque O. J. lhe tinha dito que não queria o dinheiro dele. Kaelin e Nicole Simpson eram amigos desde o início da década de 80 e quando Kaelin tentou a sua sorte em Los Angeles, a mulher de O. J. deu-lhe uma ajudinha. Segundo Kaelin, terá sido depois o próprio O. J. a convidá-lo para ficar a viver na mansão durante uns tempos.

 

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Brian "Kato" Kaelin no papel de uma vida

 

Em 1987, Kato Kaelin tinha sido protagonista de um filme intitulado Beach Fever que não lhe trouxe grande notoriedade, mas que, até ao momento do seu testemunho em tribunal, era o ponto alto da sua carreira de actor. Entrevistado em 2001, Kaelin mostrou-se desagradado com o facto de ser reconhecido sobretudo pelo julgamento de O. J. Simpson:

“Não gosto de ser conhecido pelo julgamento de O.J. e agora estou a tentar ultrapassar isso. Já passaram seis anos e tenho cartão do sindicato de actores há dezassete. As pessoas deviam ter em conta que, já em 1986, fiz um anúncio da Coca-Cola. Portanto, como vês, ando nisto há muito tempo.”

A declaração é involuntariamente cómica e involuntariamente injusta porque há poucos actores que tenham tido uma oportunidade de brilhar tão intensamente quanto Kaelin brilhou durante o interrogatório. A sua perplexidade, desorientação e incómodo são palpáveis e, de certo modo, comoventes. A certa altura, o público desata às gargalhadas com uma das suas respostas (“we were not going for the same parts”) e Kato Kaelin não sabe se há-de rir, talvez com receio que isso seja entendido como uma ofensa ao tribunal. Ali está um actor falhado, sem grandes perspectivas de futuro, a viver da generosidade alheia, no maior palco do mundo, a televisão, mas com a espada da justiça a pender sobre ele. Vale a pena ver cada minuto da “actuação” dramática de Kato Kaelin porque ninguém, sobretudo os fãs de filmes de tribunal, lhe poderá ser insensível:

 

  

A defesa de O. J. Simpson tentou desvalorizar o testemunho de Kaelin, considerando-o um parasita (“a freeloader”), e na verdade era isso que ele era e é precisamente isso, e a sua visível vulnerabilidade, que gera uma imediata empatia com os espectadores (em declarações a Oprah Winfrey, em 2012, Kato Kaelin disse que as pessoas julgaram-no de forma errada e que ele nunca viveu como um parasita porque esteve sempre a trabalhar).

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 Brian Kato Kaelin, 22 anos depois dos 15 minutos de fama

 

Para muitos o julgamento de O. J. Simpson marcou o início da reality tv e, nesse caso, Kato Kaelin foi uma das primeiras estrelas da televisão da vida real. Tinha a vantagem de poder ser confundido com um desses galãs de melenas leoninas de séries televisivas como Dinastia ou Falcon Crest (afinal, era um actor). Mais do que uma pessoa que, por acaso, se viu envolvida no julgamento do século, Kato Kaelin foi visto e julgado como uma personagem e, por essa razão, teria sido justo tê-lo premiado pelo desempenho de uma vida. A vida real.

26
Jul17

Como sobreviver à cerimónia de casamento

Bruno Vieira Amaral

Publicado na GQ

No dia em que me casei pela primeira vez caiu uma chuvada bíblica que, a ser verdade o que dizem os supersticiosos, teria abençoado aquela união por mais de um século. Este é o primeiro ensinamento útil para o jovem noivo: as condições meteorológicas adversas podem atrapalhar a cerimónia mas não garantem a felicidade eterna, a não ser que a eternidade esteja pela hora da morte e já não ultrapasse os três anos e dez meses.

Tenho de agradecer à minha madrinha de casamento o empenho na escolha do fato e dos sapatos (os mais caros que, não sem remorso, alguma vez comprei) mas nunca lhe perdoarei o ter-me obrigado a fazer uma limpeza facial nos dias que antecederam a cerimónia. O noivo deve estar apresentável e, se lhe for possível, deve evitar comparecer na cerimónia com ar de playboy hondurenho com sífilis, o que acontecerá se tiver a infeliz ideia de sair diretamente da despedida de solteiro num obscuro clube de strip para uma igreja toda iluminada. Tudo o que esteja para além desses cuidados mínimos causará nos convidados a impressão desconfortável de haver duas noivas. O fato deverá ser inconspícuo e a utilização de colete apenas é autorizada se o perímetro abdominal do noivo não o fizer parecer um pinguim suicida. Se o confundirem com outro convidado ou com um empregado de mesa, é sinal de que a escolha da indumentária foi acertada.

Por falar em convidados, a tarefa de os selecionar é bem mais espinhosa do que poderá parecer à partida. Normalmente a questão resolve-se delegando aos pais dos noivos – os mecenas da cerimónia – essa missão que eles, em função do orçamento, abraçam com agrado, convidando parentes há muito esquecidos, algumas pessoas lá da terra e uma ou outra vizinha cuja única credencial é o facto de ter andado “com este menino ao colo.” Listas mais selectivas podem originar conflitos diplomáticos que só serão sanados no próximo funeral. É avisado não deixar de fora tias com conhecimentos de bruxaria, mau-olhado e enguiços.

Encontra-se com facilidade qualquer empresa que, a troco de uma módica quantia, elabora os convites, desde os mais sofisticados que, quando abertos, tocam a marcha nupcial, e com os nomes dos noivos e dos respetivos pais em relevo dourado, aos mais simples e espartanos. Sei de um caso em que os convites foram feitos por uma associação de crianças portadoras de deficiência, o que, à primeira vista, me levou a pensar que estava a ser convidado para uma exposição de arte moderna. Não sei de quem terá partido a brilhante ideia, mas os convites do meu casamento foram feitos por nós. Comprámos os materiais – papel, espigas e UHU – e dedicámos horas irrecuperáveis da nossa existência a fazer convites que qualquer criança de seis anos teria feito com maior proficiência.

Outro assunto muitas vezes menosprezado é o do fotógrafo. Algumas das mais pavorosas fotografias que conheço foram tiradas em casamentos. Basta passar pela montra de um fotógrafo e reparar nas aberrações luzidias, gordurosas e sorridentes que expõem inapelavelmente a miséria e o grotesco que pode haver na felicidade. O meu conselho é que optar pelo outro extremo – o fotógrafo de casamentos que se julga um Herb Ritts – pode ser igualmente desastroso. Entre o kitsch e o arty tem de haver uma solução e é provável que a encontrem numa rua de Odivelas.

Aqui chegados, é de suma importância sublinhar um facto preponderante: caro jovem noivo, a cerimónia em que desempenharás um omnipresente papel secundário destina-se, em primeiro lugar e acima de tudo, a satisfazer a noiva e os pais dela. É teu dever assegurar que todas as decisões tomadas são do seu agrado, mas sem nunca demonstrares apatia. É importante, eu diria fundamental, que dês alguma luta, que os sogros sintam que a opção pela mesa de queijos foi um triunfo, que a contratação daquele formidável músico de fim de semana foi uma conquista. Não te importes de fazer de derrotado. Se almejares uma felicidade duradoura, este conselho ser-te-á muito útil, não só para o dia do casamento como para o resto da vida a dois.

Mostra alguma relutância em relação às sugestões deles, mas não com tanta convicção que pensem que tens uma alternativa. Deixa vincado que, por ti, por exemplo, não haveria mesa de mariscos ou que tens dúvidas em relação à decoração, mas que estás disposto a fazer essas concessões em nome da felicidade geral. E assim, participando ativamente no processo mas nunca te comprometendo com nada, pedindo esclarecimentos sobre pormenores e preços como se isso te importasse, as decisões vão sendo tomadas de forma indolor e sem que, mais tarde, alguém te possa pedir responsabilidades se algo correr mal.

Com isto em mente, nunca compres uma guerra por causa da escolha musical. No teu íntimo, podes acalentar o sonho de um copo de água ao som dos Pearl Jam, dos Soundgarden, da fase mais deprimente dos Radiohead ou do “Hallelujah” do Cohen, mas essa é uma fantasia de que deves abdicar alegremente. No casamento, o “povo” – essa ideia que só conheces dos livros da Raquel Varela e do que estudaste sobre a Revolução Francesa – estará materializado no corpo volumoso daquele tio que não terá sossego enquanto não liderar a marcha ferroviária do “Apita o Comboio” e anunciar com todo o entusiamo alcoólico que gosta de chupar os peitos da cabritinha. Não penses que isto desprestigia a festividade. Isto é a festividade.

Porém, nem um repertório do nosso cancioneiro pimba te desobriga da mais ingrata das tarefas, que é a abertura da pista ao som de uma valsa delirantemente executada num Roland U-20 pelo organista eléctrico acompanhado pela irmã, geralmente uma Rosa com astigmatismo. Aconselho-te a não cometeres o erro que cometi, que foi dançar de forma intimista e rígida ao som de uma canção “que nos dizia muito”. Aquele não é momento para intimidades, é o momento para profissionais. Se, como a mim, Deus não te deu o dom da dança, frequenta umas aulas e reza por inspiração divina para que os convidados não fiquem a pensar que sofres de alguma doença degenerativa.

Apesar de todos os avanços da ciência gastronómica, da miríade de programas de culinária, da fama excessiva dos novos chefs, da cultura gourmet, das vieiras coradas em óleo de avelã, dos crumbles de tomate seco, dos pratos minimalistas, lembra-te que uma festa de casamento é uma celebração boçal da quantidade, da abundância e do excesso. Os teus convidados, mesmo os de compleição mais delicada, esperam cascatas de camarão, cordilheiras de queijos, enxurradas de doces, lascas gargantuescas de presunto, frutas como nem em Canaã. Não esperes que exibam o comportamento moderado do connoisseur. Prepara-te para uma nuvem de gafanhotos esfaimados e não ficarás desiludido. No final as mesas parecerão ter sido varridas por um ciclone e deverás alegrar-te com isso.

Daí que a mesa de queijos, aparentemente uma questão menor, seja tão importante. Se houver mesa de queijos, é provável que muitos passem por ela sem prestar atenção; mas se não houver mesa de queijos, todas as conversas no regresso a casa apontarão com desconsolo e amargura essa falha imperdoável. Uma seleção frugal de queijos de qualidade poderá fazer sentido em certos meios calvinistas, mas sugiro que optes por uma opípara mesa de queijos, muralhas de Roquefort, toneladas de Camembert, pirâmides de Brie e um queijinho de Nisa em honra do produto nacional. Se fores um leigo na matéria ficarás surpreendido, como eu fiquei, com a variedade de queijos que o ser humano, ao longo de milénios de civilização e pastorícia, foi inventando, e isto sem um departamento de inovação e desenvolvimento a dar dicas (“agora vamos experimentar este com ervas”, “temos de ver se o mercado está receptivo a estes odores mais fortes”). 

O momento mais solene da cerimónia, mas que exigirá de ti e da tua mulher uma falsa descontração, é aquele em que percorrem as mesas, agradecendo a presença dos convidados, oferecendo-lhes charutos, garrafinhas de vinho do Porto e aquilo (seja lá o que for) que nestas ocasiões se oferece às senhoras, perguntando-lhes circunstancialmente se está tudo bem e criando o ambiente propício à recolha do dízimo. Deves evitar olhar gulosamente para o envelope e, se tiveres lata para isso, podes dizer que não era necessário e que nada te deixa mais satisfeito do que a presença deles naquele dia tão especial. Ao mesmo tempo, deves aprender a disfarçar a desilusão quando, no lugar de um envelope, um familiar mais antiquado vos presentear com um serviço de chá, uma batedeira ou um decantador. Para o caso de não saberes, informo-te que o casamento é um excelente negócio e que não será um liquidificador ou um conjunto de toalhas de casa de banho a impedir um lucro considerável não sujeito (por enquanto) a impostos.

A cerimónia aproxima-se do fim e, em circunstâncias normais, estarão ambos exaustos. Alguns resistentes, vergonhosamente embriagados, voltejam pela pista, descoordenados e confusos, domados à distância pelos olhares severos das esposas. É bom que tu, jovem noivo, não estejas em semelhantes condições. Mas pior do que um noivo desgraçadamente bêbado é um noivo inflexivelmente sóbrio. Bebe o suficiente para te desinibires, mas não regridas a um estado só aceitável para quem tem 18 anos e está num hotel de terceira categoria em Torremolinos.

E agora está na hora de abandonarem com elegância o recinto, acenando adeuses discretos e recebendo em troca olhares maliciosos que vos empurram para o leito legítimo onde os vossos corpos, mais do que prazeres escandalosos, experimentarão a paz do repouso merecido. Poupem as acrobacias e o sexo aeróbico para a lua de mel e, para onde quer que vão, guardem lugar para esta pérola de sabedoria da poeta Adília Lopes: "Um dia estava no café e ouvi dois rapazes a conversar, um deles, casado há pouco tempo, dizia que a lua de mel tinha de ser no Egipto ou no México. Deu-me vontade de rir porque acho possível passar uma lua de mel inesquecível na Praça da Figueira". Eu, que passei a lua de mel na Régua, garanto-te que assim é.

25
Jul17

Os olhos azuis do tio Zé

Bruno Vieira Amaral

A alegria é um dom e a felicidade é uma arte. Não sei quem o disse, não me lembro onde terei lido a sentença, se é que a li e não a sonhei ou nela pensei a caminho da praia num dia ventoso, mas se nela acreditarmos, e é tão fácil, quase imperioso, acreditarmos em certos aforismos sedutores, é justo dizer-se que o meu tio Zé tinha o dom da alegria.

Não convivi com ele o suficiente para saber se dominava a arte da felicidade, mas a alegria, sempre mais espontânea e exuberante, detecta-se mais facilmente, enquanto a felicidade, tantas vezes secreta e subterrânea, exige uma sabedoria de vedor de águas, quer para a encontrarmos para nós, quer para a distinguirmos nos outros. Ora, a alegria do tio Zé era tão visível como um desses fenómenos que não deixam dúvidas quanto à sua natureza. Era, desde logo, uma alegria fisionómica, nas suas faces rubicundas, nos seus olhos que lembro azuis, onde até um ar grave adquiria uma certa leveza: nenhuma tristeza, e é impossível passarmos pela vida sem as experimentarmos, lhe terá afluído ao rosto ao ponto de o marcar para sempre.

Das últimas vezes que nos vimos (era meu tio-avô), o tio Zé chorava sempre, mas mesmo essas lágrimas, não sendo de alegria, como quem chora após uma conquista, eram de reconhecimento, bondade e satisfação. O meu caso não era único. No velório, alguém disse que o tio Zé tinha lágrima fácil, era um sentimental. Apesar de sinceras e ditas com a melhor das intenções, algo nestas palavras trai aquela que, para mim, era a essência de um homem, com quem, ao longo da minha vida, terei estado uma dúzia de vezes. Dito daquela forma, parece que o tio Zé era um incontinente lacrimal e chamar-lhe sentimental quando sabemos que o sentimentalismo mais não é do que a encenação do sentimento é um tanto condescendente. Pois acredito que as emoções imediatas do meu tio eram uma manifestação nobre de sentimentos reais e tão próximos quanto se pode estar da expressão física do sentimento sem se cair no sentimentalismo.

Penso e não encontro outra palavra: alegria. Porque limpadas as lágrimas, o tio Zé encaminhava-nos para a cozinha, promovendo um salutar convívio através da partilha dos prazeres da mesa com a comida por ele confeccionada que pouco tinha que ver com dotes culinários, com a sua reconhecida mão para a cozinha: era apenas a alegria de receber, os outros, e de dar, aos outros.

Após a morte da minha avó, a sua irmã mais velha, o tio Zé emocionava-se mais quando me via, como se se reencontrasse não só comigo mas com os mortos que eu lhe evocava. Essas emoções perpassavam naquele abraço forte, suado. São raras as pessoas a quem a nossa presença provoca tantas emoções, mesmo admitindo que se dirijam menos a nós, enquanto indivíduos, do que a tudo aquilo que representamos: a memória de uma irmã, de uma casa, de uma temporada em África.

Na minha infância, o meu tio Zé era aquela casa com uma figueira e um tanque, no fim da mesma rua na Beirã, concelho de Marvão, onde veio a morrer. O tio Zé teve uma morte fulminante de que logo soubemos os pormenores numa dessas narrativas de exorcismo da dor que pontuam os velórios: estava na horta, nas traseiras da casa, a sachar as batatas, e a mulher disse-lhe que viesse para dentro, ao que ele respondeu que ia ficar ainda mais um pouco. Minutos depois, o dono do café em frente da casa viu-o caído no chão e correu para avisar a minha tia. Estava morto.

Creio que a sua morte, cruel para a família, está de acordo com a imagem que dele guardamos pois é-me impossível imaginar aquele homem vital a definhar numa cama ou a morrer aos poucos até que a alegria se esvaísse do seu rosto solar, dos seus lindos olhos que recordo, ainda que não tenha a certeza que fossem, azuis.

17
Jul17

Ulisses e uma tradição antiga

Bruno Vieira Amaral

“As that reference to Tristram Shandy indicates, one of the traditions which Ulysses inhabits is the literary Saturnalian tradition, the home of the unruly, eccentric, learned, comic and satiric works of literature. These are pedantic and anti-pedantic, replete with learning while mocking learning; now they lure us into their fictional worlds, and now they alert us to their fictionality. A Saturnalia was a riotous festival in which slaves and masters changed places; and this literary tradition has qualities of exuberant deliberate disorder, invoking boundaries and anarchically transgressing them. Like a rebellious servant, the author or narrator may be self-revealing instead of being self-effacing, and may expose the devices which are normally concealed, making deliberate breaches of generic and structural decorum. Conventions may be exploited, extended, and exposed as conventions; modes of discourse may jostle on parade; and language may perform acrobatics. Elaborate erudition is often combined with farcical, bawdy and indecent humour, corporeal grossness mocks pedantic solemnity, and apparent piety may be counterpointed by modes of irreverence or scepticism. The Saturnalian tradition is well over 2,400 old, extends through postmodernism to the present day, and is likely to continue for many years to come.”

Cedric Watts

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16
Jul17

A casa e o corpo de Clara

Bruno Vieira Amaral

Há, em Aquarius, dois momentos em que Clara, a personagem de Sónia Braga, se liberta: no mar, mergulhando nas ondas de uma praia do Recife, e em casa, numa dança solitária após uma fracassada tentativa de sexo com um amante que a rejeita ao saber que, por causa de um cancro, Clara tirou a mama direita.

Não é com os filhos, com quem alterna a ternura com a impiedade, nem com as amigas, naquela espécie de riso para espantar os fantasmas que é apenas um biombo que oculta as tristezas, nem com o prostituto que lhe oferece prazer sem sentimento e sem culpa, nem sequer nas discussões com os maus da fita, os homens que lhe querem ficar com a casa, que ela se liberta. É na solidão, na companhia dos elementos primordiais da sua vida: o mar (o filme começa com uma cena noturna na praia), a música (em certos momentos o filme, mais do que pelo enredo, parece ser sustentado pelas canções que o atravessam), o vinho, a casa. Destes elementos, só a água é verdadeiramente primordial, mas a música também é ar e o vinho também é fogo e sangue e a casa também é terra e corpo.

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O filme de Kléber Mendonça Filho pega num tópico arquetípico do western – o indivíduo que vê a sua propriedade cobiçada por alguém mais poderoso – e transforma-o na luta de Clara pela sua casa, pelo seu corpo. É que, neste caso, o apego à casa não se justifica nem pelo valor da propriedade, nem, ao contrário do que Clara diz aos filhos (eles nasceram e foram criados naquela casa), pelo valor sentimental. Ao defender a sua casa, Clara está a defender o seu corpo, esse corpo mutilado do qual ela já abdicou o que tinha de abdicar. Não está disposta a fazer outras cedências.

Nenhuma das agressões que Clara sofre, e sofre várias ao longo do filme, é contra o seu corpo – ninguém lhe bate, ninguém a viola, ninguém abusa dela – mas todos os ataques de que é vítima, todas as ameaças que lhe fazem são, numa dimensão profunda, físicos porque se dirigem à sua vulnerabilidade, ao facto de ser mulher: o amante que a rejeita, o ex-vizinho que a ameaça, o proprietário dos outros apartamentos do edifício que lhe lembra que aquele não é um lugar seguro para uma mulher sozinha. É como um cerco que se vai apertando e que, paradoxalmente, empurra Clara para o único lugar onde ela está a salvo e que ela sabe como defender. A casa, aqui, é o lugar da mulher mas não naquele sentido da expressão “o lugar da mulher é em casa”. O sentido da casa é o de um território do qual a mulher se recusa a ser expulsa e que ela defende com energia e com aquela espécie de fúria justiceira ampliada pelo medo.

No final, quando Clara se vinga, a violência com que o faz é mais simbólica mas não deixa de ser física. Estabelece uma fronteira, um limiar que não pode ser cruzado sem autorização. Veja-se também como, numa cena inicial, Clara deixa os inimigos à entrada, afirmando-se senhora da sua casa e, metaforicamente, do seu corpo: esta é a minha casa, feita de cimento, este é o meu corpo, feito de sangue, mas também, ambos, feitos de música, de vinho, de mar. O corpo de Clara é o mundo de Clara e ela não os quer perder.

26
Jun17

Viver não dá direito a medalhas

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Dezembro de 2016

Quando tinha sete ou oito anos participei numa daquelas caóticas corridas de sacas com que os organizadores das festas do meu bairro julgavam abrilhantar o evento. Após breves segundos na liderança, em que já me imaginava no lugar mais alto do pódio, tropecei, caí e fiquei no chão, a boca cheia de farinha com água e um rebuçado de laranja preso pelos dentes. Os restantes concorrentes, insensíveis à minha má sorte, prosseguiram a prova e eu, muito naturalmente, acabei em último. O pior de tudo é que, de acordo com as regras peregrinas daquela competição, todos tinham direito a medalhas, menos o último classificado. Voltei para casa em circunstâncias penosas, roendo tristemente o rebuçado mas, desde esse dia, criei com as derrotas – e em particular com as minhas derrotas – uma relação intensa que dura até hoje. Confesso, não sem algum exagero sentimental, que tudo o que aprendi na vida, devo-o às minhas derrotas.

Há dias, ao folhear o jornal desportivo no sábado de manhã, ritual acompanhado de sucessivos apelos para que os meus filhos se calassem – apelos sucessivamente ignorados, diga-se – deparei-me com uma fotografia de Fernando Mamede, esse eterno derrotado. Mamede, como habitualmente, chorava.

Para quem não sabe, Fernando Mamede foi um dos maiores atletas portugueses de sempre, recordista mundial dos 10 mil metros nos anos 80, mas que, nas grandes competições, bloqueava invariavelmente. Não em todas as competições, apenas naquelas que garantem a imortalidade e referências menos envergonhadas ou ostensivamente celebratórias (se nenhum jogador do Sport Lisboa e Benfica tiver caspa) nas capas dos jornais desportivos: campeonatos da Europa e do mundo, Jogos Olímpicos. Intratável nos meetings, Mamede chegava aos grandes eventos num estado que nem o Super-Homem depois de cair num poço de kriptonite. Arrancava devagar, dava umas voltas contrariadas à pista, arrastava-se e, por fim, desistia, fugindo pela saída mais próxima.

Dobrei o jornal e, nos dias seguintes, Mamede continuou ao meu lado, derrotado, choroso, a reviver os momentos de angústia, o pavor de andar na frente, no lugar que era dele. No dia 1 de novembro, o Expresso entrevistou-o a propósito do seu sexagésimo-quinto aniversário. Uma vez mais, Mamede repisou as memórias dolorosas, relatou os momentos de frustração, algumas alegrias, a ligação íntima, quase filial, com o professor Moniz Pereira, falou brevemente da relação complicada com Carlos Lopes. De certeza que chorou. A certa altura, recordando episódios longínquos na noite algarvia, disse isto: “Fiz muitos amigos na Albufeira velha, que ainda hoje são meus amigos. E a minha filha tinha um dia especial para ela, que era o domingo. Íamos jantar e depois levava-a para ver as “bolinhas”. Era a bola de espelhos a rodar e as bolinhas no chão. Íamos à discoteca ao domingo. Não estava lá ninguém, mas os donos conheciam-me. Ela entrava e estávamos ali um bocadinho e depois vínhamos para casa.” Ao falar sobre aquele momento de intimidade, Mamede readquiriu a leveza simples e luminosa do homem que voava nas pistas de tartan: o ritual do jantar, depois a ida a uma discoteca vazia, as “bolinhas” no chão, o regresso a casa. Sem pressão, sem a obrigação de vencer, sem a necessidade de estar à altura do que dele se esperava. Um momento triunfal e, no entanto, silencioso, sem testemunhas, sem aplausos, sem cobranças. Apenas dois seres humanos, pai e filha, num instante no final de um domingo, àquela hora em que o vislumbre da semana seguinte nos torna presas fáceis do tédio.

No filme Mystic River, a personagem de Sean Penn recorda a noite em que a mulher morreu e em que ele ficou sozinho com a filha: “os dois sentados na cozinha naquela noite era como se fôssemos as últimas pessoas na terra. Esquecidos. Indesejados.” Ao ler aquele excerto da entrevista de Fernando Mamede, foi assim que os imaginei, a ele e à filha, as duas últimas pessoas na terra, esquecidas, indesejadas, cheias de amor e solidão.

Na vida real, os últimos não têm direito a medalha e o pior é que até os triunfos são muitas vezes obscuros, vividos na solidão, numa discoteca vazia, num domingo deserto, sem direito a medalhas. “Estávamos ali um bocadinho”, disse o homem que, por vezes, parece enclausurado nos seus piores momentos. Quanto tempo demorava aquele bocadinho? A vida toda.

08
Jun17

A conspiração contra nós

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Novembro de 2016:

 

Sala de espera do consultório. Seguro um envelope com os resultados de análises ao sangue. Já os espreitei. Tudo bem, exceto uns valores abaixo do normal. Sou um daqueles homens imperturbáveis a quem “valores alterados” soa como o toque de finados. Ali sentado, a fazer de conta de que não é nada comigo, sinto-me inquestionalvemente moribundo. Olho para as recepcionistas, saudáveis, morenas, prontas a viver até aos 120 anos, e esvai-se o pouco ânimo que me resta. Tusso. Sentimental, despeço-me das cadeiras, do balcão, dos panfletos em cima de uma mesa e das revistas de há três meses. Despeço-me de Fernanda Serrano, despeço-me de Sara Matos, despeço-me dos irmãos Carreira que pregaram um calote a alguém. Adeus, adeus. Uma das assistentes aproxima-se: “Sr. Florival Serrabulho!” Sorrio. Que nome genial! Mas, afinal, estou a rir-me de quê? Indiferentes ao meu riso, dentro de mim há legiões de eosinófilos, basófilos e plaquetas a conspirar contra a minha pessoa, contra eles próprios. “Ri-te, ri-te”, parecem dizer. Pior, não dizem nada, limitam-se a seguir o seu caminho irracional, ignorando as minhas alegrias, pensamentos, sorrisos.

Em A Doença como Metáfora, Susan Sontag alertou-nos contra as “fantasias punitivas ou sentimentais” que construímos acerca das doenças. Fantasias que até homens de inteligência superior criaram, como Schopenhauer que dizia que a “vontade apresenta-se como um corpo organizado e a manifestação da doença significa que a própria vontade está doente.” Uma vontade saudável teria “poderes ditatoriais capazes de subjugar as forças rebeldes” que, no interior do nosso corpo, conspiram para nos derrubar. Quantas vezes não ouvimos falar de doentes como “guerreiros” que “travam batalhas” contra um “inimigo”? Os que vencem a doença são fortes, embora se tenha algum pudor em classificar como fracos os que a ela sucumbem. A humanização da doença tem o único propósito de a tornar compreensível e, como tal, “combatível”. Se os agentes patogénicos são motivados por uma intenção – a de me atacar – eu posso responder-lhes com a intenção contrária – a de me defender. Passa a ser uma luta entre duas vontades. E assim, de uma penada, temos uma narrativa que responde à pergunta de qualquer doente – “porquê eu?” – e aumenta, ainda que subjetivamente, as nossas possibilidades de salvação. Quando nos acontece o mesmo que a Ivan Ilitch, quando sentimos que qualquer coisa horrível se passa no nosso interior, a forma de maquilhar a fealdade é atribuir-lhe um rosto humano, uma intenção que, embora malévola, reconheçamos como afim à nossa humanidade.

Finalmente, sou chamado. Levanto-me a custo, as pernas pesam-me toneladas, o corredor parece fechar-se sobre mim. Entro e a médica recebe-me com um sorriso luminoso. “Então o que o traz por cá?” (é claro que a médica não me falou nestes termos, devo ter lido isto no Retalhos da Vida de um Médico). É triste ter de explicar o meu incomensurável sentimento de derrota perante a vida, as saudades antecipadas que já tenho do mundo todo, incluindo das pessoas que me maltrataram e que agora, nesta agonia, relembro com um certo carinho fraternal. “Ó doutora, então não basta olhar para mim para ver logo o estado em que me encontro?” (também não lhe disse isto, é claro, em vez disso, falei-lhe de umas tonturas que me levaram a fazer análises e de uma dor no pé que, descobri na net, é capaz de ser fascite plantar, “não concorda, doutora?”. Dê-se acesso ilimitado à internet a um hipocondríaco e teremos um eterno miserável. Cada dor de cabeça é um tumor, cada espirro, uma pneumonia, cada pontada nas costas, uma doença mortal a fazer o seu primeiro e fatal anúncio.)

A médica olha para os resultados das análises e eu espio-lhe as reacções. Não me tente enganar, doutora. “Está tudo bem com as análises. Há só aqui uns valores mais baixos mas nada de preocupante.” Nada de preocupante, doutora? Tem a certeza? O Ivan Ilitch também dizia que aquilo era só uma dorzinha e veja lá o que lhe aconteceu. “Sim, nada de preocupante.” Quero ouvir outra vez essas harpas celestiais: “nada de preocupante.” E saio pela porta aos pulinhos, e pego na mão de uma senhora que aguarda a sua vez e danço com ela pelos corredores, e voo para o balcão e faço o meu número à Gene Kelly. Nada de preocupante, mundo. Nada de preocupante, pessoas. Olho para a recepcionista e já não a invejo. Lá fora, o sol ainda brilha. Como são negros os nossos terrores, como são doces as nossas fantasias.

16
Mai17

A Voz de um Homem

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Outubro de 2016:

Há uns anos, sete, caso haja entre vós um adepto da precisão, ofereceram-me um livro, uma escandalosa biografia, devidamente inautorizada, de Marlon Brando. O título em português era faceto: Brando mas pouco. Podia sugerir um louco, um furioso, um demente: “vejam como este homem de brandura nominal é, afinal, um selvagem de pleno direito.” O título original era mais específico: Brando Unzipped. Eu, agradecido pelo presente, espreitei escrupulosamente para a braguilha aberta do actor. Ao fim de cento e cinquenta páginas sentia-me exausto pela sucessão de orgias, taras, bizarrias e bestialidade. A única personagem merecedora de compaixão era um pato alegadamente sodomizado por uma celebridade, talvez o próprio Brando, já não sei. Perdoem-me a inexactidão mas apaguei da memória certos pormenores. Há um limite para lá do qual o escândalo se torna desinteressante e o relato de um bacanal pode ser tão soporífero como certas páginas de Viagem a Itália, de Goethe.

O homem ali retratado era plano e superficial, apenas corpo. Uma máquina sôfrega e, apesar das múltiplas variáveis sexuais, quase sem imaginação. É verdade que, nos filmes, Brando era corpo, aquela masculinidade intensa e ameaçadora, o género de homem por quem uma irmãzinha imaculada renunciaria alegremente aos votos de castidade. Mas, claro, era muito mais do que isso. Era também uma vulnerabilidade que, antes dele, não se associava aos machos de Hollywood. Dizem que foi Stella Adler, a professora de representação e discípula de Constantin Stanilavsky (o Rasputine do Método), quem trouxe à superfície esse núcleo de fragilidade, essa, digamos, verdade masculina, inédita em cinema. É possível, mas prefiro acreditar que, no momento em que Brando chegou a Nova Iorque, já trazia com ele os fundamentos da sua futura grandeza: a revolta latente misturada com uma necessidade absoluta e tristíssima de consolo. “I coulda been a contender”: quem, a não ser Brando, poderia assumir tão clamorosa e triunfalmente o fracasso?

Bem, regresso ao tal livro que, por uma questão de higiene e sanidade, abandonei a meio. Não duvidando da veracidade dos factos ali relatados, concluí que não me interessavam. Culpa minha? Culpa do autor do livro? Culpa do próprio Brando? Mistérios que não me preocupei em decifrar. Então, sete anos depois, no dia do meu trigésimo oitavo aniversário, a minha mulher ofereceu-me um DVD, “Listen to me Marlon”, um documentário sobre o actor (o livro também me tinha sido oferecido pela minha mulher quando ainda namorávamos, se me é permitido o arcaísmo). O tempo passou e o objecto permaneceu intacto, envolto no plástico protector, em cima da estante. Até que, semanas atrás, num dessas inspirações súbitas contra a rotina que animam regularmente a vida familiar, declarei: “hoje vamos ver um filme!” A declaração foi recebida com contentamento pela minha mulher e a condescendência infantil da minha filha. O meu benjamin, de quinze meses, continuou absorto na tarefa de mastigar toalhitas.

Quando finalmente conseguimos adormecer as crianças, sentámo-nos e, durante uma hora e meia, fomos reféns da voz de Brando, dos seus sonhos de tranquilidade e do duro despertar das tragédias, do refúgio que procurou no Taiti, essa ilha para onde também o pintor Paul Gauguin tinha fugido e onde o mundo de Brando ruiu, da relação magoada com o pai e desse momento assombroso em que, em tribunal, na presença de um juiz, Brando reconhece que ele próprio terá falhado enquanto pai. Sem cabeças falantes, apenas com recurso às inúmeras gravações áudio deixadas pelo actor e a imagens de arquivo, o filme leva-nos na esteira daquela voz que, de início, se confunde com a voz das múltiplas personagens que Brando encarnou (a voz de Stan Kowalski, a voz de Terry Malloy, a voz de don Vito Corleone, a voz do coronel Kurtz). Perto do final, pressentimos que a voz é a de um homem, um só homem, e que esse homem ainda é um menino, um menino que caminha no escuro e tenta domar as trevas com a luz débil dessa voz. A voz de Marlon Brando, Jr.

26
Fev17

Verão indiano (quarta parte)

Bruno Vieira Amaral

Antes de voltarmos ao festival, passei pelo hotel para tomar um duche e assim libertar-me da película de fuligem que se colara à minha pele. Deitei-me na cama, exausto, e pedi uma sanduíche de frango e um café (“black coffee, please”). Esta pausa inevitável fez-me perder, percebi depois, um dos momentos altos da programação do festival, a actuação de Leela Samson, uma das mais conceituadas e admiradas dançarinas e coreógrafas de Bharatanatyam (uma dança clássica indiana). Deixo-vos aqui uma pequena amostra da arte de Samson. (Tenham em atenção que cada gesto e cada movimento é intencional e tem um significado específico.)

 

 

Quando cheguei, o público já estava em debandada e só me restava ir para o Food Court, desta vez de barriga aconchegada. Enquanto esperava, um senhor aproximou-se de mim e meteu conversa. Era um dos convidados do festival, que estava ali para falar sobre a literatura da partição, literatura escrita na altura ou sobre os terríveis acontecimentos do período em que a Índia e o Paquistão se separaram. Tarun K. Saint já publicou vários livros sobre o tema, mas estava mais virado para falar sobre Portugal, a literatura portuguesa (Saramago, claro, cuja obra conhecia bastante bem), a Europa, o Brexit e assim decorreu a agradável conversa, tornada ainda mais agradável por me ter servido de guia naquela refeição, aconselhando-me os alimentos mais amenos para o meu massacrado estômago. Ao fim da noite, regressámos ao hotel, não sem antes os membros da comitiva que não se tinham precavido com repelente terem sido atacados por brigadas esfomeadas de mosquitos indianos. No bar do hotel, serviram-me então aquele vinho horrendo que fui obrigado a trocar por um anódino gin tónico.

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No dia seguinte, o último do festival, tivemos uma sessão de leitura. Como me tinham dito que cada um de nós (éramos três) só teria dez minutos, li dois excertos breves do meu romance. O Javier aproveitou o facto de ser o último para ultrapassar em mais de vinte minutos o tempo estipulado com a leitura de um excerto do seu livro sobre o Rio de Janeiro. A moderadora tentou interrompê-lo por várias vezes mas ele estava a milhares de quilómetros de distância, na cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a discorrer sobre Manuel Puig, escritor argentino que também viveu no Rio, sobre filmes e sobre uma bizarra ida doméstica ao cinema num prédio anónimo numa pacata rua carioca. Ainda bem que o Javier infringiu as rígidas regras da organização.

Como tinha voo marcado para Goa às três da tarde de segunda-feira, despedi-me de Javier nessa manhã, ao pequeno-almoço. Disse-me que as portas da sua casa de Madrid estavam sempre abertas e eu retribuí-lhe a gentileza, se é que disponibilizar um quarto no meu apartamento na Baixa da Banheira equivale neste caso a uma retribuição. Quando fui fazer o check-out, apresentaram-me uma factura de um valor absurdo que, pelas minhas contas, daria para me meter num rickshaw e passear ininterruptamente por Hyderabad até ao final do ano. Pedi para esclarecerem o assunto com a organização, mas no meu íntimo temia que aquela saborosa sanduíche de frango estivesse a amargar a minha estadia. Esclarecido o equívoco, paguei as minhas contas e segui para o aeroporto.

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A viagem para Goa não durou mais de uma hora mas foi num daqueles aviões movidos a hélice que obrigam os passageiros a espreitar constantemente pela janela para confirmar que as ventoinhas não param de repente. Como paguei mais 500 rupias, tive direito a um dos lugares da frente, para poder esticar as pernas, e a uma pequena refeição. Pude comprovar que a altitude não interfere em nada com o grau de picante da comida. A chegada a Goa foi como sair de uma sauna para entrar num forno. Eu tinha levado um casaco leve, de linho, que, no curto trajecto entre a pista e o edifício, me pesou como um sobretudo. Seguindo as indicações do Delfim, do Instituto Camões, requisitei um táxi pré-pago à saída do aeroporto. Entreguei um papelinho com a indicação do destino, mas como a viagem foi muito mais demorada do que eu pensava, fui o caminho todo a suspeitar que teria havido um engano e que ia acabar o dia sentado na berma da estrada, rodeado de uma quantidade de palmeiras que só me lembravam A Cavalgada das Valquírias e Robert Duvall a despejar Napalm fictício em florestas supostamente vietnamitas mas, na verdade, filipinas (isto anda tudo ligado). Contrariando os meus piores receios, o motorista deixou-me tranquilamente à porta do Panjim Inn e, depois de me instalar e de tomar um duche, desci para a esplanada, onde fiquei a beber uma Kingfisher enquanto esperava pelo Delfim, com quem tinha combinado jantar às oito horas.

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Na mesa ao lado, um senhor bebia uma Coca-Cola e lia Nine Lives, um livro do historiador escocês William Dalrymple (não sei porquê, pensei que fosse um livro de espionagem ou um romance histórico, mas Nine Lives: In Search of the Sacred in Modern India, fiquei a saber depois, foi um enorme sucesso na Índia, tendo chegado ao topo da tabela de vendas de não-ficção). Nos dias que ali permaneci, encontrei-o sempre, a horas diferentes, a beber a sua cola e a ler o seu Dalrymple, não falando com mais ninguém a não ser com os empregados. Depois de alguns dias passados numa cidade de sete milhões de habitantes (na verdade, nunca nos sentimos realmente rodeados de sete milhões de seres humanos, o que há é um ritmo e um rumor permanentes que nos envolvem e que traduzem para a nossa limitada capacidade de sentir o que é esse número inapreensível e abstracto de sete milhões de almas), a visão de um homem sozinho numa esplanada a beber um refrigerante enquanto lê um livro é perfeitamente alienígena e tão frágil que até a nossa presença silenciosa representa uma ameaça à delicadeza do quadro. Na outra mesa, estavam duas senhoras. Portuguesas. Com os cabelos ainda molhados do banho, roupa branca e leve, um pouco morenas, tinham o ar distendido de final de um dia de praia ou de caminhada. Fumavam, conversavam e, tal como eu, bebiam Kingfisher. Ao contrário do que costumo fazer nestas ocasiões, não tentei perceber o que estavam a dizer, não por pudor ou respeito, mas por um sincero e inapelável desinteresse.

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O Delfim chegou acompanhado pelo escritor Rui Zink e por uma amiga, Astrid Ghosh. “Uma viagem de mais de oito mil quilómetros e vou jantar com o Rui Zink”, pensei. O jantar foi agradável – comi um suculento bife medium rear sem vestígios de picante. O Rui Zink, aparentemente um especialista na matéria, deu-me generosos conselhos sobre a melhor forma de amenizar as dores nas costas sem recurso a morfina. No final do jantar, falei com Astrid sobre a literatura da partição e ela ficou de me recomendar alguns dos autores mais importantes. Muitos deles, como foi o caso de Saadat Hassan Manto, escreveram sobretudo contos. Podem encontrar na net a tradução inglesa de “Cold Flesh” para ficarem com uma ideia dos temas e da qualidade. Astrid garantiu-me que a partição e tudo o que sucedeu depois continua a ser uma ferida aberta na sociedade indiana. Há anos, houve um movimento para se fazer um museu dedicado ao tema, mas foi impossível chegar a um consenso: todos os lados envolvidos na questão cometeram atrocidades, nenhum pode reclamar para si o papel exclusivo de vítima e, por isso, preferem todos – hindus, sikhs e muçulmanos, indianos e paquistaneses – esquecer o que se passou. Muitos dos autores que viveram aqueles tempos só foram capazes de escrever sobre o assunto muitos anos mais tarde, já perto do fim da vida.

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Acordei cedo na terça-feira para poder passear a horas em que o risco de uma insolação fosse menor e esperando não ser traído pelas dores nas costas que tinham atingido um nível incapacitante. Nas escadarias da Igreja da Imaculada Conceição, um desses vendedores que se encontram em qualquer cidade onde haja um turista perseguiu-me pelos degraus até vencer a minha resistência e vender-me por cem rupias uma pulseira que se desdobrava magicamente, como um artefacto criado pelas mãos dos antigos sábios da Macedónia. Animado pelo sucesso da primeira investida comercial, o rapaz tratou logo de me apresentar uns conjuntos de moedas e selos antigos, em bolsas de capa de veludo, pelos quais não pedia mais de 1500 rupias. Não querendo pôr em causa a origem e o valor dos produtos, confesso que me impressionou a versatilidade com que o vendedor passou da área da bijuteria, com as suas mirabolantes e flexíveis pulseiras, para as esferas mais elevadas da filatelia e da numismática. Disse-lhe que embora tivesse todo o interesse em adquirir aqueles inestimáveis tesouros, não dispunha no momento dos fundos para o fazer pelo que teríamos de combinar uma hora, da parte da tarde, para completar a transacção. Explicou-me com ar desgostoso que à tarde costumava estar já a muitos quilómetros dali e que, para minha conveniência, aceitaria dar o negócio por fechado a troco de míseras 800 rupias. Inconformado com a minha recusa insistente, ainda baixou para as 500 rupias e desconfio que, se outra fosse a minha tendência para o regateio, teria vindo para Portugal com selos e moedas indianos a troco da pulseira que o sujeito há pouco me vendera.

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Caminhei até à marginal, onde o trânsito é mais intenso, mesmo que, em comparação com o de Hyderabad, pareça o de uma aldeia. Pangim fica nas margens do estuário do rio Mandovi. Os ferrys vêm e vão para Alto-Betim Porvorim apinhados de gente e de motorizadas. Não muito longe da margem, há vários barcos-casino ancorados. Foi aqui que vi (e filmei) provavelmente a cena mais bela da minha estadia na Índia. Um cão vadio a banhar-se alegremente nas águas do Mandovi e, depois, a correr pelas ruas com a satisfação mais que pura do animal livre. Subjugados pelos códigos de comportamento a que aderimos na esperança de sermos recompensados sabe-se lá por quem, testemunhar a liberdade genuína de um cão faz-nos invejá-lo para lá de qualquer razoabilidade. Ali perto, há um memorial de homenagem às vítimas da tragédia da lancha Goa, ocorrida em Dezembro de 1901. Pede-se a quem passar por ali que reze pelo eterno descanso dos que pereceram e é isso que muitas pessoas que saem do ferry fazem, aproximando-se do memorial e persignando-se.

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Fui ao Coffee Day, estabelecimento do género Starbucks, que o Delfim me tinha recomendado na noite anterior. Bebi um café duplo. Numa das mesas estavam um homem e uma mulher a consultar facturas e a fazer contas em calculadoras. Presumi que fossem os proprietários e presumi igualmente que aquele negócio fosse um franchising, não só porque utilizavam o café como escritório como o faziam como se não houvesse ninguém à volta. Já contei noutro lugar a minha vida como proprietário de um bar. Um dos meus poucos clientes era um tipo galês, impecável, com o cinematográfico nome de Ray Cherry, que me disse que o que eu vendia ali não eram bebidas nem sandes mistas, era uma experiência. Esta ideia de se vender uma experiência, um “conceito”, tem sido abastardada e papagueada por muitos imbecis que querem envernizar as suas ideias pobres, mas não deixa de ser verdade. Mesmo o café suburbano mais sórdido vende mais que os produtos pelos quais o cliente paga e que consome, vende o ambiente, o exotismo, a própria sordidez se nada mais tiver para oferecer. Ao espalharem facturas pelas mesas que deveriam estar disponíveis para os clientes, mesmo que estes não entrassem, os presumíveis empresários estavam a estragar a experiência que deveriam estar a vender. A senhora, talvez irlandesa, que se sentou na mesa ao lado da minha a beber um “caffè macchiato”, deve ter pensado o mesmo, deduzi eu pelos olhares mais judicativos que intrigados que lançava para a mesa empresarial, repleta de guias de remessa e demais artefactos contabilísticos. Nada que incomodasse os dois casais de jovens russos, corpulentos, eles, atléticas, as raparigas, que respiravam qualquer coisa de ubermenschiano e idiótico que só os descendentes imediatos de novos-ricos exprimem completamente: um vigor físico que a geração anterior não conheceu misturado com um desenvolvimento intelectual incipiente. São os herdeiros de fortunas recentes, sofrem da mesma falta de passado dos pais mas exibem a confiança ameaçadora de quem nunca, ao contrário dos progenitores, teve de baixar a cabeça. Esta postura deu a impressão de ocuparem muito mais espaço do que aquele que fisicamente ocupavam. Encheram o café de uma prepotência atlética e, talvez tenha sonhado, mas vi-os soprar, com o fôlego brutal das suas amplas caixas torácicas, as facturas da mesa dos proprietários que tentaram apanhar comicamente os papéis esvoaçantes.

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24
Fev17

Verão indiano (terceira parte)

Bruno Vieira Amaral

Na manhã de sexta-feira assisti à inauguração do festival, que decorreu nas instalações da escola pública, onde se destaca um edifício monumental que tem à entrada uma placa com o desenho de uma águia e a inscrição “Shaheen” – “Be Vigilant”. Depois de alguns percalços, os voluntariosos voluntários distribuíram os sacos e os dísticos destinados a cada um dos convidados. O céu estava nublado e já se fazia sentir um calor opressivo. Ainda não havia muita gente a passear pelo recinto mas a tenda principal estava cheia. No palco estavam sentadas as figuras de proa, incluindo um responsável político do estado de Telangana, o orador convidado para fazer o discurso de abertura e a senhora embaixadora das Filipinas na Índia, Teresita Daza. Os directores deram as boas-vindas a todos e gabaram o festival e um coro de jovens surdos-mudos cantou o hino nacional da Índia num perfeito uníssono gestual. O discurso de abertura ficou a cargo do célebre poeta e crítico Ashok Vajpeyi de que eu nunca tinha ouvido falar e que presumo seja desconhecido da maioria dos leitores portugueses. O discurso, apesar de centrado nas virtudes da literatura, teve um forte conteúdo político, amenizado por (ou camuflado sob) um sorriso astuto e gaiato, nos antípodas da presunção que certos escritores (alguns portugueses) usam quando em entrevistas, festivais e cerimónias de entregas de prémios falam de política e com que recolhem aplausos generalizados e automáticos e, paradoxalmente, são gregariamente celebrados como dissidentes, as vozes do contra, um contra que segue a corrente.

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Tão sereno como contundente, o poeta falou das razões para ter devolvido, em Janeiro de 2016, o doutoramento Honoris Causa que lhe tinha sido atribuído pela Universidade Central de Hyderabad. A razão principal foi a atitude anti-dalit (os dalits são o que os escritos bramânicos classificam de “intocáveis”) das autoridades que terá estado na origem do suicídio de um aluno dalit, Rohit Vemula, no campus da universidade de Hyderabad. Na sequência da decisão de Vajpeyi, e inspirados por ele, muitos outros escritores e intelectuais devolveram em protesto prémios e condecorações às instituições oficiais que lhos tinham atribuído. Após este interlúdio político, que deixou alguns elementos da plateia com comichão no rabo, o poeta voltou à literatura e terminou a intervenção com a leitura de alguns poemas em inglês e, depois de instado por um elemento do público, em hindi.

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(Em poucos minutos, ficaram patentes algumas das tensões que atravessam a sociedade indiana, dos efeitos da política de direita do primeiro-ministro Narendra Modi, aos movimentos de contestação estudantil que, regra geral, estão na vanguarda de reivindicações que vão muito para além dos interesses imediatos dos estudantes e se estendem à defesa das culturas minoritárias e ao ataque à continuada política de discriminação das castas inferiores. Apesar de o ambiente dos festivais literários não ser propriamente favorável a um político como Modi (ao qual mais de uma pessoa se referiu como o Trump indiano), fiquei com a ideia de que a avaliação do seu desempenho enquanto primeiro-ministro dependerá em larga medida do desempenho económico da Índia e que muitos estão dispostos a desvalorizar os aspectos mais estritamente sociais e culturais desde que o crescimento não abrande. Isto foi particularmente visível na reacção a uma das medidas mais polémicas de Modi, a decisão de, de um dia para o outro, retirar de circulação as notas de 500 e 1000 rupias, com a intenção de obrigar a uma maior utilização dos pagamentos com cartão, atacar a economia informal e reduzir a prevalência do chamado “dinheiro negro”. A medida drástica teve efeitos catastróficos, com as restrições ao montante dos levantamentos a causarem incómodos generalizados numa sociedade em que o peso da economia informal, como já referi, é enorme. Mas, ao fim de alguns meses, a maioria dos indianos, segundo as sondagens mais recentes, aprova a medida do primeiro-ministro, embora haja quem critique a forma como foi implementada. O certo é que, neste momento, a reeleição de Modi é o cenário mais provável para as próximas eleições e nem mesmo uma difícil união de toda a oposição poderá ser suficiente para o evitar.)

No final da sessão de abertura, os convidados acenderam uma lamparina que supostamente terá permanecido acesa durante o resto do festival, facto que não me preocupei em confirmar. De saída da tenda, assistimos à actuação de um grupo folclórico local, exclusivamente constituído por homens de faces pintadas e ornados com penas e colares.

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(Há muitos homens na Índia. Por exemplo, em todos os hotéis em que fiquei, as únicas funcionárias estavam acantonadas nas recepções. Eram os homens que faziam a limpeza dos quartos. Ali, no meio inabitual das arrumações, entre baldes, panos e limpa-vidros, aqueles homens tinham algo de assexuado, como eunucos. Quando os via atrás de uma porta entreaberta, pareciam-me sempre em cochichos conspirativos de gineceu. Exibiam uma certa irreverência, no que esta tem de boçal, enquanto a maioria das mulheres, quer pelo modo de se passearem pelas ruas, algumas protegidas por sombrinhas, quer pelo modo delicado de segurarem um pedaço de dosa com a ponta dos dedos e levá-lo elegantemente à boca, desprendiam uma certa seriedade, no que esta tem de digno, uma virtude patrícia de que só elas guardam ainda o segredo. Um, que varria os corredores alcatifados, apresentava os sintomas ambivalentes de cansaço e determinação de quem faz uma tarefa que não percebe e que, apesar disso, está na disposição de continuar a executar até ao fim dos seus dias. Lembro-me do som que a minha mãe fazia ao varrer a casa e que, quer se afastasse quer se aproximasse da divisão onde me encontrava, permitia adivinhar, pelo ritmo, se faltava muito, a quantidade de lixo já recolhida e se, no meio do pó, havia algum pequeno objecto sólido, talvez metálico, denunciado pelo ruído que fazia ao deslizar pelo plástico da pá. Já a vassoura do empregado indiano era mais do género pendular, como se marcasse o tempo num movimento perpétuo.)

Muita gente tirou fotografias e filmou o momento, mas devo confessar que fiquei mais impressionado quando, após o final, vi o grupo numa zona mais sossegada, sentados a conversar à sombra de uma árvore, ainda com os trajes tradicionais, como se tivessem saído das personagens dançantes e destas não restasse mais do que uma camada exterior.

 

Os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral. Apesar de tudo, o jantar de sexta-feira foi, tenho de o confessar, glamouroso, realizado no amplo terraço do hotel, com mesas primorosamente decoradas, cadeiras de plástico com forros brancos e laços grenás. Para gáudio de uma parte da comitiva que me incluía a mim e aos dois espanhóis (um escritor e um agente literário) havia bebidas alcoólicas, whiskey, vodka, cervejas locais e internacionais e um vinho tinto cuja origem não consegui apurar mas de que tive muitas saudades quando, no dia seguinte, me serviram um copo no bar que me trouxe à memória o saudoso Machadinho que o meu avô quotidianamente bebia. Javier, o escritor espanhol apaixonado pelo Rio de Janeiro e com o ar triste de quem não vê o seu amor correspondido, falou em vino pellejón e não serei eu a encontrar definição mais feliz (para a escritora galesa que nos acompanhava, Javier traduziu a expressão por “wine to pick a fight”, que ilustra bem o que se perde na tradução quando nos encontramos nestes festivais).

No sábado foi a nossa vez – escritores em representação do Velho Continente (como é bonita esta expressão, ainda que geologicamente disparatada) – de subirmos ao palco. A sessão não foi das mais concorridas, como era de esperar, mas mesmo assim havia mais de trinta pessoas na plateia. Mostraram-se interessadas na literatura europeia, mesmo que a ideia que dela têm seja a de uma literatura homogénea. Aos olhos da maioria dos indianos, até mesmo aos olhos da maioria dos que assistem a festivais literários, a literatura europeia é tão longínqua e exótica que uma leitora veio falar connosco sobre Elena Ferrante com aquele entusiasmo familiar de quem acha que qualquer escritor vindo da Europa certamente já se terá cruzado com a misteriosa autora italiana. Esta simpática leitora, que até tinha lido uns excertos do meu livro em inglês, vê-nos como uma indistinta amálgama paroquial de escritores, o que é justo e bom porque nos ajuda a relativizar as coisas.

Após a sessão, apanhámos dois rickshaws para o centro da cidade, numa viagem de uma hora pelas ruas mais poluídas do mundo que conheço, durante a qual, enquanto inalávamos espessas golfadas de dióxido de carbono, discutimos os méritos de Elena Ferrante, Knausgard e Bolaño – chegando eu à conclusão de que o melhor da obra do chileno eram os romances breves como Estrela Distante. O mais incrível é que, no meio daquele caos, com peões a atravessar a rua sem aviso e em que o trânsito circula sem outras regras que não as de um tipo particular de bom senso desenvolvido ao fim de anos de experiência e de uma perícia tão entranhada que já nem pode ser classificada de perícia, mas de aptidão natural, e a de buzinar tanto quanto possível e sinalizar uma mudança de direcção de qualquer maneira imaginável excepto com o pisca, o mais incrível, dizia eu, é que os dois rickshaws chegaram ao destino exactamente no mesmo segundo. Foi o Javier que me chamou a atenção para esse facto transcendente só possível de ser explicado – por nós, ocidentais deslocados – por um sistema de orientação espacial idêntico ao das abelhas, como se os condutores de rickshaw se guiassem por uma espécie de comunicação não-verbal, de eco-localização, que para qualquer outro ser humano é indecifrável e misteriosa. Ainda mais admirável é a relutância que estes mártires da poluição urbana demonstram em conversar com os clientes, além da indispensável negociação inicial onde se dá a conhecer o destino pretendido e se combina a tarifa a aplicar. Um deles de vez em quando trauteava uma melodia, mas os restantes estavam entrincheirados num mutismo militante e, diria mesmo, monástico.

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Imaginei que o condutor de rickshaw, ao tomar a fatídica decisão de enveredar por esta profissão, seja obrigado a deixar para trás mulher e filhos, entrando naquele favo móvel, naquela cela apícola, com a resignação ardente do homem que se recolhe num mosteiro. Nenhum cedeu à tentação de se armar em guia e de se pôr a descrever os locais por onde íamos passando, talvez porque esse género de atrevimento não seja aconselhável quando se conduz o mais vulnerável dos veículos pelas artérias congestionadas de Hyderabad. Mas nem com tal concentração Shaolin foi possível evitar um pequeno incidente. O condutor do trauteio guinou bruscamente à direita para se desviar de uma carrinha Goods Carrier que travara subitamente e, nesse preciso momento, interrompeu a melodia bucólica que talvez lhe lembrasse a aldeia natal e soltou um gemido que me permito traduzir por “já me fodi”, embatendo tão suavemente quanto possível na traseira de outro rickshaw, com um autocolante que pedia encarecidamente ao condutor que fizesse soar a buzina. Durante alguns segundos, poucos, devo dizer, pensei em preenchimentos de declarações amigáveis mas o embate, além de ter provocado um silêncio imaginário na minha cabeça, não perturbou ninguém e os veículos lá prosseguiram como se nada tivesse acontecido, não tendo havido sequer lugar a um pedido de desculpas como aqueles que dirigíamos ao condutor de um carrinho de choque contra o qual embatíamos involuntariamente. Acrescento que nem os próprios polícias sinaleiros – espécie já extinta nas nossas ruas – parecem convencidos da sua utilidade. Em certas ocasiões, vi um ou outro a erguer-se de um estupor fumarento, soprar um apito branco e tentar imprimir alguma ordem, embora alguns condutores, sem a certeza de que as indicações gestuais fossem de cumprimento obrigatório, avançassem à revelia da autoridade com aquilo que em Hyderabad será prudência mas que em qualquer outro lugar do mundo é tentativa de suicídio.

Para entrarmos na Mesquita de Mecca, a uma centena de metros do Charminar, passámos por um detector de metais que apitava sempre que alguém passava, deixámos os sapatos à entrada e caminhámos sobre lajes atapetadas com uma camada de merda já ressequida de pombos fiéis que fizeram do lugar de adoração a sua casa. As mulheres podem entrar, desde que decentemente vestidas, e há quem forneça gratuitamente conselhos às estrangeiras sobre a forma mais adequada de cruzar o xaile sobre o peito ou de cobrir a cabeça com um lenço. Era hora da oração e lá dentro centenas de homens – velhos, jovens, adolescentes e crianças – executavam preciosamente a coreografia da submissão, no que eram imitados por algumas mulheres mais zelosas no exterior. No pátio fronteiro, havia muitas crianças a correr e que, incentivadas pelos familiares, se lançaram para os braços da escritora galesa para tirarem fotografias. Havia também homens a fazer as abluções num pequeno lago ao lado do qual se encontram os túmulos dos sultões e para onde fomos encaminhados por um velho vizir que nos levou até à presença de um homem sentado em posição de lótus, a queimar pétalas e incenso. Com um sorriso alheado e santo, abençoou-nos com um pouco de cinza na testa. A bênção custou-nos cem rupias a cada um. A voz do muezim a derramar-se pelos altifalantes era menos lúgubre da que ouvira no dia anterior perto do recinto do festival, um lamento soturno só comparável em tristeza religiosa ao órgão de uma igreja evangélica na Morelena que, numa noite já muito distante, visitei na companhia do meu tio.

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