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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

22
Fev17

Verão indiano (segunda parte)

Bruno Vieira Amaral

Quando saímos do palácio, mergulhámos com uma boa dose de inconsciência no caos de Hyderabad, caminhando pela rua do Laad Bazaar (o famoso mercado de braceletes), uma das quatro ruas que conduz ao Charminar. Para lá chegarmos, tivemos de atravessar a estrada, actividade que, como desporto radical, não fica a dever nada ao bungee-jumping. Se algum forasteiro tiver a peregrina ideia de aguardar que os veículos parem para que ele passe, é muito provável que, daqui por duas décadas, ainda esteja no mesmo sítio. Observando atentamente o guia, percebi que a única solução para chegar ao outro lado era a de aproveitar uma breve interrupção ou abrandamento na circulação para me meter entre os veículos, fazer o gesto universal de clemência unindo as duas mãos na direcção dos condutores ou usar um dos filipinos como escudo humano. Quando cheguei ao outro lado, senti-me um judeu após atravessar o Mar Vermelho e olhei com alguma superioridade para os elementos do grupo que tinham ficado para trás e que não tinham sido tão lestos quanto eu a descodificar os segredos essenciais à sobrevivência dos peões em Hyderabad.

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Descobri que, na rua do mercado, que de início pensei ser pedonal, também circulavam velocípedes. Obtive a informação quando uma mota passou a menos de cinco centímetros da minha pessoa, anunciando-se de forma típica com uma buzinadela que, por instantes, me desorientou. Os condutores só me pareceram inclementes até ao momento em que me vi rodeado de transeuntes implacáveis, nada sensíveis aos meus propósitos de registar para a posteridade aquela experiência e nitidamente impacientes quando eu, embasbacado com a multiplicidade de cores das lojas de roupas e joalharias, interrompia a caminhada e lhes obstruía o caminho. Por mais de uma vez, fui alvo de imprecações que, graças ao meu desconhecimento da língua local, não pude apreciar em toda a plenitude.

Para piorar tudo, a rua estava em obras. A certa altura, deparei-me com um homem enfiado num buraco, rodeado por outros quatro ou cinco. Não percebi se estavam a reparar uma conduta ou se estavam a tentar resgatá-lo. Para onde quer que me virasse, via qualquer coisa invulgar. Era impossível traduzir com exactidão tudo aquilo recorrendo unicamente aos utensílios rudimentares da minha pouca experiência noutros países. Em vez disso, deixei-me simplesmente arrastar, caminhando pela multidão ao mesmo ritmo dos autóctones mas sem fazer a mínima ideia do meu destino, perdendo por vezes de vista os outros elementos do grupo, mantendo como único ponto de referência o velho guia que, sem nada que o distinguisse, sem nenhum objecto que o identificasse, lá ia levantando misericordiosamente o braço na esperança de que o reconhecêssemos para que nenhum dos convidados do Festival Literário de Hyderabad fosse encontrado semanas depois a regatear braceletes ou transformado em estátua viva à espera de atravessar a rua.  

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O Charminar (que quer dizer “quatro torres”) também estava em obras de restauro, engalanado com aqueles andaimes arcaicos aparentemente feitos de canas, pelo que optámos por ficar em baixo a observá-lo muito respeitosamente, declinando a oportunidade de escalar os 149 degraus que levam o visitante ao topo do edifício, enquanto o guia nos explicava que o monumento tinha sido mandado construir pelo fundador da cidade, o sultão Muhammad Quli Qutb Shah, em 1591. Com a cidade a ser dizimada pela peste, o Sultão prometeu a Alá que, se levasse a morte para outras paragens, permitindo o crescimento de Hyderabad, ele construiria o monumento em Sua homenagem. E foi isso que aconteceu. A peste foi dizimar para outras freguesias e Hyderabad, na altura um centro populacional relativamente modesto, cresceu até ser o que é hoje: uma megalópole de 7 milhões de almas e nunca menos de 93626 rickshaws, segundo os dados oficiais.

Incrivelmente, e apesar de termos andado em grupos separados, conseguimos regressar todos ao autocarro e, depois de uma nova viagem pelas ruas da cidade em hora de ponta, chegar a tempo do jantar que decorreu num relvado a poucos metros do hotel. Novo embate com a gastronomia explosiva de Hyderabad, do qual saí outra vez derrotado, e conversa de chacha com dois designers alemães e uma poeta australiana cuja tese de doutoramento a tinha levado ao Bangladesh para um trabalho sobre as vidas de uma “closeted lesbian”, de uma “transgender woman”, de uma “unhappy housewife” e de uma “ruthless businesswoman” (esta inventei), o equivalente a um “four of a kind” em estudos de género ou, melhor dizendo, “four of a different kind”. Foi apenas um aperitivo para o jogo dos dias seguintes em que ganha quem grita mais alto contra: a) a sociedade patriarcal, b) o Ocidente, c) o Cristianismo, d) o Homem Branco, e) a polícia, f) a Direita, g) o Capitalismo, h) a conspiração branca. Mais preocupado com as prováveis e previsivelmente dolorosas consequências gastro-intestinais do consumo de comida picante, fiquei feliz por descobrir que o iogurte ajuda a amenizar os efeitos dos condimentos. E, com esta informação na cabeça, regressei ao hotel.

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Nessa noite, pensei em tudo o que tinha visto naquela cidade e percebi que, pela primeira vez na minha vida, estava no estrangeiro. Os países que já tinha visitado – todos europeus – com as idênticas ruas racionais, as mesmas lojas, a mesma disposição de elementos só ligeiramente diferentes entre si (em Budapeste temos a estátua de Petöfi e em Lisboa a de Camões), apareceram-me como encarnações de uma mesma ideia. Agora, atormentado pelo barulho infernal e incessante das buzinas que abafam até as sirenes das ambulâncias, aquele mundo ordeiro e previsível das cidades europeias surgiu-me como uma realidade tristíssima, desumana e morta, um museu a céu aberto destinado a turistas e coleccionadores de antiguidades. Enquanto as cidades europeias estão cheias de coisas antigas, ali abarrotavam de coisas velhas e, paradoxalmente, modernas. As antiguidades europeias estão arrumadas, catalogadas, embebidas em formol, enquanto aqui as velharias estão vivas, escapam aos rótulos e amanhã podem já não estar no sítio onde hoje as encontrámos. Não sabemos se pertencem ali ou se, como nós, estão apenas de passagem. Na ânsia de preservar, nós, europeus, sufocamos tudo como pais zelosos que apertam os filhos até à asfixia. Os filhos da Índia, toda a Índia – o comércio, os carros, os prédios, até os monumentos – são vagabundos. Não querem ser preservados. Querem respirar.

Na verdade, nunca tinha sentido uma cidade viva, a resfolegar como um cavalo indomável. Ali tudo era velho e improvisado, o que nos pareciam ruínas podiam ser prédios inacabados atravessados por um cheiro a açafrão e a caril, a frutas e a fritos e ao peixe cozinhado em enormes panelas a fumegar no meio da rua; os mesmos letreiros tanto serviam para anunciar hospitais e clínicas como para sinalizar lojas de braceletes e saris, restaurantes low-cost e oficinas; havia homens deitados em camionetas e sentados em cadeiras no meio da rua, entre o trânsito, como se estivessem à espera de ser recolhidos, homens a mijar para montes de entulho, outros a cortar cocos com catanas, motos com três e quatro passageiros, cabras vadias a trincar ervas e a focinhar no lixo debaixo de um viaduto de onde se via, ao longe, um sossegado campo de cricket onde treinavam algumas crianças de equipamentos alvíssimos, edifícios modernos lado a lado com outros de idade incerta, numa anarquia tão repleta de vida como uma feira medieval com eletricidade, internet sem fios e smartphones.

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Eis a cidade em constante mutação num país em que a economia informal anda perto dos 80%, o que faz com que tudo tenha um aspecto provisório, clandestino e desmontável, ou seja, tudo aquilo que é fugaz se sobrepõe ao que é permanente, como o palácio de Chowmahalla, escondido como um oásis, um templo secreto a que só os iniciados podem aceder e que os outros ignoram como se não existisse, como se fosse uma miragem. Por uma entrada discreta, fomos postos a salvo dessa confusão que atrai e repugna, que nos assusta, que nos faz temer pela sanidade daquelas pessoas, como se fosse impensável viver diariamente debaixo daquela agitação, como se vivessem habitualmente com o misto de desconforto e entorpecimento que eu experimentava pela primeira vez, como quando estamos numa daquelas diversões de feira de alta velocidade e desejamos que pare, porque não aguentamos mais, e desejamos que prossiga, porque sabemos que não vai parar por causa de nós.

Um livro, que comprei dias depois, intitulado Indian Cities, ajudou-me a perceber melhor a realidade que me era tão difícil descrever e entender sem recorrer aos equivalentes europeus que, porém, nunca lhe poderiam fazer justiça. “For decades, cities in poor countries have been regarded as a kind of misfit representation of the real city and their modernity, a kind of inauthentic, borrowed modernity. With so many poor people, slums and squatter settlements, lack of rules regarding land use, chaotic and disorderly growth, their existence and future have always been questioned by experts and contrasted to the proper cities or the well-planned and managed cities of the West.”

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A dificuldade em avaliar estas cidades de acordo com os seus peculiares critérios – dificuldade enfrentada até por quem estuda a sério estes assuntos – deu origem à criação de um conceito mais abrangente, o de “modernidade alternativa” ou de “modernidade indígena”, que me surgiu como perfeitamente adequado àquela realidade porque os conceitos de “atraso” ou de “sub-desenvolvimento” eram bisturis rombos para esquadrinhar aquele mundo tão complexo e que nunca, para ser completamente sincero, me pareceu “atrasado”. Outra ideia no livro que me ajudou a dar corpo de palavra aos meus pensamentos foi a de “cidade cinética”, “or the city of impermanence and temporary structures.” […] “While standard writing can cover the static city or the city of the established built environment, it is more difficult to capture the realities of the kinetic city.” Tentar captar em palavras uma cidade como Hyderabad era, acabei por perceber, como tentar prender uma sombra esquiva.

21
Fev17

Verão indiano (primeira parte)

Bruno Vieira Amaral

O primeiro indiano que conheci estava a dormir. O segundo também. Isto é mentira ou, melhor dizendo, é parcialmente verdade. O primeiro indiano que conheci foi o do serviço de estrangeiros e fronteiras no aeroporto de Mumbai, pelo que hesito entre considerá-lo indiano ou burocrata diligente, embora um tanto ensonado. A burocracia, apercebo-me quando viajo, não tem nação. É um conjunto universal de esgares, suspeitas e carimbos contrariados. O funcionário não me fez perguntas, pediu-me apenas para olhar para a câmara e pôr todos os dedos, à excepção do polegar, num aparelho. Agora sei que as minhas impressões digitais estão registadas e armazenadas numa gigantesca base de dados, pacientemente à espera do dia em que eu cometa um crime de alcance internacional.

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Recolhi a minha bagagem. Já passava das quatro da manhã, embora o movimento de carros e pessoas fosse frenético. Lá fora, encontrei Arun, motorista que segurava uma folha A4 com o meu nome e o logótipo do festival literário de Hyderabad. Fomos para o carro e perguntei-lhe quanto tempo era a viagem até ao hotel. Abanou a cabeça e não me respondeu, o que, em linguagem corporal local, significa entre 45 minutos e uma hora. No trajecto, Arun conduziu essencialmente com a buzina e os máximos. Não cheguei a perceber se conduzia pela esquerda e ultrapassava pela direita ou vice-versa. Era conforme. A única certeza é que, pelo menos àquela hora, os sinais vermelhos são facultativos. Arun passou vários sem qualquer comoção, sem aquela espécie de deliberação exasperada que exibimos quando passamos um sinal que acabou de ficar vermelho. Na verdade, ele passava os sinais vermelhos como se nem estivessem lá. Talvez eu é que não estivesse a ver bem as coisas. Nos dias seguintes, no meio do incessante trânsito caótico de Hyderabad – com rickshaws, motorizadas, SUV, autocarros obsoletos, carrinhas de transporte de mercadorias e peões aparentemente suicidas – perguntei-me se aquelas pessoas estariam mesmo a dirigir-se para algum lado – como quando alguém apanha o 732 porque quer ir para o Hospital de Santa Maria – ou se estariam apenas a circular até encontrarem um sítio onde lhes apetecesse ir ou onde percebessem que tinham alguma coisa para fazer.

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 Finalmente, perto das cinco da manhã, chegámos ao Plaza Hotel. O sossego era absoluto. A recepção estava praticamente às escuras. Reclinado na cadeira, um jovem dormia. Quando falei, deu um salto, limpou a boca, sorriu e foi chamar alguém lá dentro. Do interior de uma sala, veio um rapaz de cabelo desgrenhado, olhos de sono e que tratou logo de procurar o meu nome na lista do festival quando lhe disse que era um dos convidados. Após uma pesquisa infrutífera, encontrámos uma segunda lista na qual constava o meu nome. Tirou uma cópia do meu passaporte e lá fui eu para o quarto no sétimo andar. O hotel, percebi nos dias seguintes, era um bloco de cimento com humidade nas paredes e a atmosfera geral não de um lugar de lazer mas de uma sinistra colónia de férias para funcionários públicos. Os empregados pareciam ter todos entrado há pouco tempo ao serviço, como se o hotel estivesse apenas a funcionar para nos receber e fosse desactivado logo a seguir, reaproveitado para instalações do ministério da educação ou de um instituto de prevenção rodoviária. Nos dias que ali passei, a piscina só foi frequentada por pombos, que caminhavam cautelosamente à volta como se estudassem uma forma de a atravessar a nado, e por um indiano gordo (a propósito, saiu uma notícia num jornal local que indicava que as crianças de Hyderabad eram as mais obesas do país) que, no domingo de manhã, deu umas braçadas complexas, num esforço testemunhado pela mulher e um casal amigo.

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Na quinta-feira de manhã, após pouco mais de quatro horas de sono, tive o meu primeiro embate com a gastronomia indiana em condições que me eram francamente desfavoráveis: encontrava-me em desvantagem numérica e linguística, estava com jet-lag e, para não ofender ninguém, tinha decidido que teria de comer tudo aquilo que pusesse no prato. Cheguei pouco antes das dez e meia, hora a que acabava o pequeno-almoço, facto que me foi lembrado com autoritarismo pelo primeiro empregado com que me cruzei. Apressei-me a recolher alguma comida, não só fatias de pão branco, um ovo cozido e fruta fresca, mas também algo que, pelo aspecto, devia ser altamente nutritivo, mas que se revelou apenas insuportavelmente picante. Com um inequívoco ar de sofrimento que tentei transformar num ricto de dignidade, pedi ao empregado uma chávena de café. Olhou para o relógio e desapareceu por umas portas de saloon. Naquele momento, eu tentava negociar com o sabor inédito que me queimava a língua, o interior das bochechas, o esófago, fazendo-me derramar umas lágrimas breves de comoção pela dor que tinha de sofrer em silêncio. É indescritível a alegria que de mim se apoderou quando o empregado me trouxe uma chávena de um péssimo café que, pelo simples facto de ser café, me devolveu ao prado refrescante dos sabores familiares e me fez regressar mentalmente a esses lugares costumeiros em que me sinto em casa: uma pousada numa aldeia histórica, o adro de uma igreja na província, os barcos da Soflusa.

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Depois de me cruzar com um sujeito que carregava às costas um equipamento de desinfestação, cheguei ao quarto com a sensação de alívio de um pugilista amador que sobreviveu ao primeiro assalto contra o campeão do mundo de pesos-pesados. O almoço, apesar de todos os meus cuidados, não correu muito melhor, mesmo tendo levado para a refrega um litro de água mineral. Às três estava marcada uma visita guiada pela cidade. O nosso grupo era composto na sua maioria por escritores filipinos – o país convidado da oitava edição do festival – um dos quais exibia um rabo-de-cavalo que lhe dava o ar distinto de organizador de lutas clandestinas de cães na cidade de Manila. Programada pelo festival, a visita teve como guia um senhor ainda não vencido pelos anos que gritava bastante e era estranhamente parecido com Boutros Boutros-Ghali, o antigo secretário-geral das Nações Unidas. De vez em quando interrompia o discurso, não sei se para recuperar o fôlego ou se para se mostrar indignado por ninguém lhe estar a prestar muita atenção. Após quase uma hora de viagem, chegámos ao destino, não muito longe do Charminar, o ex-libris da cidade. Para começar, visitámos o Palácio de Chowmahalla, residência do último nizam de Hyderabad (até depois da independência, Hyderabad foi um principado governado pelos nizams). Eram muitas as famílias que se passeavam pelos magníficos jardins e pelas salas dos edifícios onde pudemos contemplar porcelanas dos séculos XVII e XVIII vindas de Inglaterra, da China e dos Países Baixos, uma colecção impressionante de armas brancas – adagas, cimitarras, espadas, punhais, cutelos, floretes – e retratos não muito favoráveis das várias gerações de nizams. No exterior, protegidos por um vidro de segurança, vimos os veículos de luxo que tinham servido os monarcas, incluindo um Rolls Royce Silver Ghost, de 1912, que segundo o guia não teria feito mais de 400 quilómetros, pois só tinha sido usado em ocasiões muito especiais. De todos os espaços, o Durbar Hall, local da coroação dos nizams, era o mais imponente, com as suas colunas de mármore e os 19 candelabros de cristal belga pendentes do tecto.

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15
Mar16

Hannibal Lecter: o nosso canibal preferido

Bruno Vieira Amaral

Publicado no Observador.

 

Quando O Silêncio dos Inocentes estreou, no Dia de São Valentim de 1991, filmes e séries sobre serial killers eram raros. Hoje, pelo contrário, se fôssemos calcular o número real de assassinos psicopatas com base no que a televisão e o cinema nos mostram chegaríamos a números em que teríamos obrigatoriamente de incluir os vizinhos do lado, o dono do café, o motorista do autocarro e aquela vizinha que protesta diariamente com os funcionários municipais.

O filme revelou-se um sucesso inesperado. Jodie Foster era o nome mais forte do elenco. Dois anos antes, tinha recebido o Óscar para melhor actriz pelo seu desempenho em Os Acusados. Anthony Hopkins era um actor sólido, da escola britânica, mas não era uma estrela. O realizador Jonathan Demme, que tinha tido algum sucesso com os filmes Selvagem e Perigosa e Viúva… mas Não Muito, não parecia o nome mais indicado para dirigir um thriller no limite do filme de terror. A primeira adaptação ao cinema de um romance de Thomas Harris tinha sido um fracasso (Caçada ao Amanhecer, de Michael Mann). Contudo, no final da primeira semana de exibição, o filme estava pago. A partir daí foi só lucro. Dinheiro nas bilheteiras, crítica rendida e, um ano depois, os prémios da Academia, derrotando os favoritos JFK, de Oliver Stone, e Bugsy, de Barry Levinson, que revi recentemente só para confirmar que se o filme estivesse a arder só Annette Bening merecia ser salva.

Na altura, entre as muitas qualidades do filme, os críticos destacaram a química entre Foster e Hopkins ou, para ser exacto, entre Clarice Starling, agente do FBI, e Hannibal Lecter, psiquiatra e sociopata que supostamente iria ajudá-la a apanhar Buffalo Bill, um assassino em série que matava e esfolava (literalmente) as suas vítimas. Nos momentos em que contracenam estão sempre separados, primeiro por uma parede de vidro, depois por grades de ferro, e executam uma dança sublime que tanto se assemelha a um ritual de sedução como a uma sessão de terapia. É um interrogatório e um combate de boxe, uma entrevista e uma partida de xadrez. As arremetidas de Hannibal (e da câmara de Demme, repare-se como nos momentos de fraqueza Clarice olha ligeiramente para fora do plano e Hannibal olha diretamente para a câmara, confrontando Clarice e os espectadores) expõem a vulnerabilidade da agente do FBI. Tal como o espectador, Clarice sai física e emocionalmente esgotada destes confrontos, a sacudir o pó e determinada a mostrar uma força que não sabe se tem. Além de novata, Clarice é também uma mulher num mundo de homens (numa das cenas iniciais, entra num elevador só com homens e, mais tarde, antes de fazer uma autópsia, tem de se impor aos agentes parolos, todos homens, de uma terreola de província). Este aspecto é relevante se tivermos em conta que as mulheres são as vítimas preferenciais de Buffalo Bill e que ele próprio deseja mudar de sexo.

Mas se a vulnerabilidade de Clarice – tão bem captada na cena no interior da masmorra do assassino – empresta verdade à personagem – muito diferente dos previsivelmente infalíveis heróis de Hollywood – não é exagero dizer-se que este é o filme de Hannibal Lecter. A interpretação de Hopkins é de tal forma intensa que só precisou de 25 minutos para dominar o filme, assustar os espectadores e ser eleito o maior vilão da história do cinema pelo American Film Institute, batendo, entre outros, Darth Vader, Norman Bates e Max Cady. Há uma cena de grande violência (o momento gore do filme), mas o que o torna mais ameaçador é a postura, a dicção, o olhar, sem os maneirismos que arruínam tantas interpretações de génios e de vilões e com toda a intensidade lunática que imaginamos ser a de uma mente brilhantemente doentia. Acreditamos sempre que a inteligência incomum de Lecter só tem rival na sua frieza. E o grau de ameaça que dele emana não diminui pelo facto de o vermos quase sempre atrás das grades ou de um vidro. Mesmo encarcerado e sem poderes sobrenaturais, Lecter é o senhor da cena. Como diz Jack Crawford, o mentor de Clarice Starling: “não vai querer Hannibal Lecter dentro da sua cabeça.”

Mas Lecter entrou nas nossas cabeças e na nossa cultura. A sua popularidade originou outros três filmes (dois deles com Hopkins e nenhum tão bom como O Silêncio dos Inocentes) e uma série de televisão, em que o dinamarquês Mads Mikkelsen desempenha o papel do psiquiatra. A sua deixa mais célebre é também a mais sinistra: “I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti”, considerada pelo AFI uma das melhores da história do cinema.

 

Um canibal à nossa mesa

Pois, há esse pormenor. Não foi apenas o desempenho de Brian Cox, o Dr. Lecter no filme de Mann, que foi obliterado pela extraordinária performance de Hopkins. Fascinados pelos seus modos inquietantes e irresistíveis quase esquecemos que Lecter é um canibal. E se não esquecemos, pomos o seu canibalismo gourmet ao nível de um adereço que ajuda a definir a personalidade. Os hábitos culinários de Lecter são a Smith & Wesson de Harry Callahan ou o chicote e o chapéu de Indiana Jones. Em vez de uma prova das suas perturbações mentais são uma manifestação da sua superioridade intelectual e cultural (repare-se na sua obsessão pela falta de maneiras ou por qualquer forma de rudeza no trato).

Para criar a sua personagem, o escritor Thomas Harris, autor dos romances que deram origem aos filmes, inspirou-se em alguns assassinos em série reais, como o mexicano Alfredo Ballí Treviño, um médico de Monterrey suspeito de ter assassinado vários jovens que viajavam à boleia, e Albert Fish, violador de crianças e canibal que ficou conhecido como o “Vampiro de Brooklyn”. A atracção e repulsa que casos semelhantes nos provocam distorcem a realidade do canibalismo porque o reduzem a essa dimensão patológica quando, de acordo com Carole A. Travis-Henikoff, no seu excelente livro Dinner With a Cannibal: the complete history of mankind’s oldest taboo, representam apenas 1% do total de casos conhecidos na longa história do canibalismo.

Foi Cristóvão Colombo quem, ao mesmo tempo que descobria a América para os europeus, legou o termo “canibal” à humanidade. Logo na primeira viagem, em 1492, registou nos seus diários a existência de índios comedores de carne humana. Os habitantes da ilha de San Salvador referiam-se a estes como “caribes” e é assim, ou como “canibes”, que Colombo os identifica. Na segunda viagem às Antilhas, fala pela primeira vez em canibais, querendo com isto dizer consumidores de carne humana.

Como é óbvio, o canibalismo (ou antropofagia) não passou a existir com a chegada de Colombo à América. Encontramos referências na mitologia, na Bíblia e na literatura (há o célebre episódio de Ugolino de Pisa no Inferno, de Dante, ao qual Jorge Luis Borges dedicou um dos seus nove ensaios dantescos). De acordo com o mito, o deus romano Saturno (inspirado no grego Cronos) devorava os filhos à nascença para que não se cumprisse a profecia de que seria deposto por um deles (o que, inevitável e tragicamente, acaba por acontecer).

A ingestão de carne humana é mencionada em pelo menos nove versículos bíblicos, e em quase todos como uma possibilidade atroz, uma profecia de desgraça. Em Levítico 26:29, Deus avisa o povo de Israel que a desobediência lhes sairá cara “porque comereis a carne dos vossos filhos, e a carne das vossas filhas comereis.” Em Deuteronómio 28:53, há uma nova ameaça divina contra os desobedientes: “e comerás o fruto do teu ventre, a carne dos teus filhos e das tuas filhas […] no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.” E em Lamentações 4:9, 10: “Os mortos à espada mais ditosos são do que os mortos à fome; porque estes se esgotam como traspassados, por falta dos frutos dos campos. As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo.” O padrão é o seguinte: aos desobedientes, Deus ou os seus profetas mostram o mundo horrível que resultará dessa desobediência. Guerras, escravidão, fome. Esta será de tal ordem que até as mulheres piedosas acabarão a cozinhar os filhos.

Relatos de viagens

Apesar de estas e outras referências culturais, o conceito moderno de canibalismo foi formado a partir dos relatos dos viajantes que seguiram as rotas inauguradas por Colombo. Em 1503, Amerigo Vespucci, que deu o seu nome à América, publicou Mundus Novus, as cartas das duas viagens que tinha feito ao continente. Devido à enorme difusão da obra, Vespucci contribuiu decisivamente para a ideia do canibalismo generalizado daqueles povos, como refere Francisco Bethencourt em Racismos – das Cruzadas ao Século XX (Temas e Debates, 2015). A narrativa de Vespucci abundava em pormenores e tinha a vantagem do testemunho direto. O antigo companheiro de Colombo dizia, por exemplo, “ter vivido vinte e sete dias numa aldeia nativa onde viu pedaços de corpos humanos pendurados em traves nas casas, à semelhança da forma como na Europa se penduravam presuntos para serem fumados.”

Às palavras juntaram-se, em edições posteriores da obra, imagens perturbantes dos hábitos canibais dos povos americanos. Esta mistura de antropologia avant la lettre e puro sensacionalismo marcou todo o pensamento ocidental posterior, influenciou o curso da acção política e sedimentou preconceitos que nem análises e opiniões clarividentes puderam derrubar. Nos seus Ensaios, Michel de Montaigne escreveu sobre os canibais, num breve manifesto de relativismo cultural em que apontava a incapacidade de os europeus verem a sua própria crueldade e os seus comportamentos bárbaros enquanto eram lestos a condenar os costumes dos índios. Já em 1578, o viajante francês Jean de Léry tinha publicado Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, relato de uma viagem ao Brasil e do tempo que passou com os Tupinambás. Para as autoras de Brasil: Uma Biografia (Temas e Debates, 2015), o livro de De Léry é uma tentativa genuína de compreender o outro. Ele foi capaz de perceber que “a guerra e as práticas de canibalismo não significavam a satisfação de demandas alimentares; representavam, sim, formas de comunicação interna, práticas de dádiva, quando se trocavam valores, símbolos, bens.” Bethencourt afirma que “De Léry foi o primeiro a pôr em causa a suposta superioridade moral europeia.”

Em 1592, um século depois da chegada de Colombo ao Novo Mundo, foi publicado em França um livro com as observações de De Léry e a aventurosa e incrível história de Hans Staden, um soldado e explorador alemão que tinha passado dez meses como prisioneiro dos Tupinambás. A primeira edição do livro de Staden, de 1557, tinha sido um sucesso fenomenal, quer pela natureza quase fantástica do relato – Staden contava como tinha conseguido não ser devorado pelos seus captores e como finalmente lhes tinha escapado – quer pelas gravuras. A edição francesa conjunta de 1592 também incluía ilustrações chocantes dos índios brasileiros em rituais de canibalismo, com a particularidade de o seu autor, Théodore de Bry, nunca ter estado no Brasil.

O canibalismo nunca existiu

Ao construir uma imagem dos índios como seres que necessitavam de ser resgatados da sua condição pré-civilizacional, o livro de Staden, entre outros documentos da época, contribuiu para a narrativa que justificava o domínio europeu. Para muitos, as acusações de canibalismo tinham sido apenas instrumentos usados pelas potências coloniais para legitimar exploração de outros povos e continentes. Essa é a tese de um livro polémico de 1979, da autoria de William Arens. Em The Man-Eating Myth: Anthropology and Anthropophagy (Oxford University Press), este antropólogo dinamitou não apenas a credibilidade dos relatos de Cristóvão Colombo e de Hans Staden, mas também os trabalhos de campo de antropólogos proeminentes, como E. E. Evans-Pritchard ou Margaret Mead. Na opinião de Arens, não havia provas sérias de que o canibalismo alguma vez tivesse sido uma prática socialmente aceite em qualquer sociedade.

Nem mesmo o caso dos Fore, uma tribo da Papua-Nova Guiné, convenceu Arens. Os Fore foram alvo do interesse da comunidade internacional por causa de uma doença, kuru (uma encefalopatia espongiforme como, por exemplo, a doença das vacas loucas), que nos anos 50 e 60 vitimou várias centenas de membros da tribo, especialmente mulheres. Já na década de 1970 concluiu-se que a doença estava relacionada com a ingestão de carne humana infectada, nomeadamente o cérebro. Os Fore praticavam endo-canibalismo, ou seja, consumiam os corpos dos seus mortos em rituais funerários. Como a preparação dos manjares estava a cargo das mulheres, sempre acompanhadas pelas crianças, eram elas as principais vítimas. Um dos investigadores que estudou a kuru e estabeleceu a ligação entre a doença e o canibalismo funerário dos Fore, Daniel Carleton Gajdusek, recebeu o prémio Nobel da Medicina em 1976, mas nem ele se livrou das críticas de Arens, que afirmou que Gajdusek não tinha testemunhado a prática de canibalismo, o que demonstra o conceito muito particular de ciência de Arens. O caso dos Fore inspirou um episódio da segunda temporada dos Ficheiros Secretos, “Our Town” (um dos meus preferidos, devo dizer). No final, descobre-se que o xerife é um dos membros de uma comunidade de canibais. O nome do xerife? Arens.

Sobrevivência

Contudo, Arens nunca negou a existência de outras formas de canibalismo, quer o patológico, quer o dito canibalismo de sobrevivência. Este último é o mais fácil de aceitar, mas também o único em que se levanta a questão moral. Numa situação extrema, o indivíduo tem, por um lado, um interdito alimentar e, por outro, o alimento que o pode salvar. O que escolher? Ficou célebre o caso da equipa de râguebi uruguaia cujo avião em que seguia se despenhou nos Andes em Outubro de 1972. A certa altura, os 16 sobreviventes tiveram de fazer a escolha terrível: comer os cadáveres dos companheiros ou morrer à fome. Estamos Vivos, o título do filme baseado nesta história incrível, protagonizado por Ethan Hawke, elucida-nos quanto à escolha que fizeram. No seu livro, Travis-Henikoff diz que os sobreviventes regressaram a casa “mais devotos, mais dados à metafísica e menos materialistas. Recordam aquela experiência como um acontecimento intensamente religioso.”

Contudo, na maior parte dos casos a experiência é, digamos, menos intensamente religiosa. A exemplo do que acontece na natureza, trata-se apenas de obter alimento onde ele existe. Isso aconteceu frequentemente ao longo da história, em situações de catástrofe, naturais ou humanas. Aconteceu na Grande Fome na Irlanda do século XIX e na União Soviética de Estaline, no cerco de Leninegrado, em campos de prisioneiros de guerra dos japoneses durante a II Guerra Mundial (após o conflito, o general japonês Yoshio Tachibana foi executado por ter participado na morte e consumo dos cadáveres de soldados norte-americanos) e na China de Mao. Eis um excerto do livro Mao – A História Desconhecida, de Jung Chang (Quetzal, 2013): “Durante este período de fome [entre 1958 e 1961] algumas pessoas recorreram ao canibalismo. Um estudo pós-Mao (prontamente suprimido) sobre o condado de Fengyang, na província de Anhui, registou sessenta e três casos de canibalismo só na Primavera de 1960, incluindo o de um casal que estrangulou e comeu o filho de oito anos. E Fengyang não era provavelmente o pior. Num condado em Gansu onde um terço da população morreu, o canibalismo era frequente. Um quadro de uma aldeia, cuja mulher, irmã e filhos todos morreram nessa altura, disse mais tarde a jornalistas: «Tantas pessoas na aldeia comeram carne humana… Vêem essas pessoas agachadas junto ao escritório da comuna a apanhar sol? Algumas delas comeram carne humana… As pessoas ficavam loucas com a fome.»”

O drama da escolha entre a morte e o consumo de carne humana percorre A Estrada, o livro de Cormac Mc Carthy, também adaptado ao cinema. Num mundo pós-apocalíptico, sem esperança e que parece a concretização dos cenários previstos nos versículos bíblicos que citámos, um pai mostra ao filho que, mesmo em circunstâncias extremas, há valores dos quais não devemos abdicar porque sem esses valores a existência perde sentido. Podemos argumentar que A Estrada é um livro de ficção e que, numa situação real, a fome daquele pai poderia mais do que a dor. Contudo, não é esse o sentido da história real que o escritor Jonathan Safran Foer conta no início de Comer Animais (Bertrand, 2010). Durante a Segunda Guerra Mundial, a avó de Safran Foer e outros refugiados que tentavam escapar aos alemães comiam tudo o que apanhavam. “Nem te digo algumas das coisas que comi”, disse-lhe a avó. Um dia, faminta, bastante debilitada, quase sem forças para prosseguir, um camponês russo ofereceu-lhe um naco de carne. Ela recusou. Era carne de porco e ela era judia:

“ – Era porco. Não ia comer porco.

Porquê?

- O que queres dizer com porquê?

- Porque não era kosher?

- É claro.

- Nem para salvares a vida?

- Quando nada mais interessa, deixa de haver o que salvar.”

Regresso a Hannibal

De certo modo, a história do nosso canibal preferido também está relacionada com a Segunda Guerra Mundial e com os nazis. Em Hannibal, o terceiro romance com o Dr. Lecter, publicado em 1999, Thomas Harris conta que ainda criança, na Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial, Hannibal viu a irmã Mischa ser morta e comida por desertores lituanos que colaboravam com os nazis. Também aqui Harris foi buscar inspiração a uma história real, a do infame assassino em série russo Andrei Chikatilo, que entre 1978 e 1990 terá assassinado pelo menos 52 mulheres e crianças. Quando Chikatilo era pequeno, a mãe contava-lhe a história do seu irmão Stepan, que teria sido morto e comido pelos vizinhos aos quatro anos de idade. Condenado à pena de morte, Chikatilo, que chegou a provar o sangue de algumas das suas vítimas, foi executado em 1994. No dia de São Valentim.

19
Fev16

Uma conversão tardia ao culto de Bowie

Bruno Vieira Amaral

Publicado no Observador no dia 7 de janeiro de 2015

 

O tempo é de liturgia comemorativa, hossanas universais, novo álbum e aniversário, por isso é com o sabor sacrílego da carne consumida em sexta-feira santa que confesso que, durante uma parte considerável da minha vida, não fui devoto de São David Bowie. Antes que os aiatolas do bom gosto lancem uma fatwa ou comecem à pedrada (rasgar as vestes, além de hábito judaico, é pecado capital na religião de Bowie segundo a qual “não rasgarás nenhuma peça de roupa que possa ser exibida mais tarde num museu”), tratarei de explicar esta heresia menor.

Para mim, criança dos anos 80, Bowie era apenas mais uma estrela da pop, a versão branca e alienígena de Michael Jackson antes de Michael Jackson se ter tornado a versão branca e alienígena de Michael Jackson. Pior ainda, era uma espécie de Phil Collins longilíneo, com cabelo e sexualmente ambíguo. A omnipresença etérea de Let’s Dance – canção, por sinal, muito irritante – um olho de cada cor (na realidade, a pupila dilatada de um dos olhos, consequência de uma briga juvenil, dá essa impressão), o anúncio da Pepsi com Tina Turner (“a escolha da nova geração”), um dueto horripilante com Mick Jagger para Dancing in the Street –, a catequese obrigatória do “camaleão da pop”, etc. Se hoje é difícil acreditar que David Bowie nem sempre foi consensual, na altura era difícil acreditar que havia ali mais do que a sombra de um artista sério. O sucesso dos anos 80 quase lhe deu cabo da carreira. Não foi caso único. Nikita e I Just Called to Say I Love You, duas canções recomendadas em situações graves de hipoglicémia e dois êxitos monstruosos, foram kryptonite para Elton John e Stevie Wonder.

Do ponto da vista da crítica, nem tudo era mau. Nas suas incursões pelo cinema, Bowie mostrava ter um faro mais apurado do que o dos seus rivais da música. Enquanto Michael Jackson, Prince e Madonna se expunham ao ridículo em clássicos do humor involuntário como Moonwalker, Purple Rain e Who’s That Girl?, Bowie trabalhava com Nagisa Oshima e Martin Scorsese. Porém, havia um contra para alguém unanimemente elogiado por ser “camaleónico”. Ao contrário dos camaleões, que conseguem adaptar-se ao meio envolvente a fim de passarem despercebidos, David Bowie era sempre David Bowie, contaminando de estranheza tudo aquilo em que tocava. Era impossível para o espectador suspender a descrença. Eu vi A Última Tentação de Cristo e fiquei à espera que Bowie – o Pôncio Pilatos que Oscar Wilde teria inventado se tivesse escrito um dos evangelhos – exortasse Jesus a “put on your red shoes and dance the blues.” Naturalmente, como o próprio admitiu, os papéis que lhe ofereciam eram os “de bichas em fúria, travestis e marcianos.” E alguns dos que aceitou – extra-terrestre em O homem que veio do espaço, vampiro em Fome de Viver e Andy Warhol em Basquiat – não andavam muito longe desses universos.

Evitar o declínio

Bowie tinha passado por todas as fases protocolares do estrelato musical: a luta por um lugar ao sol, os primeiros sucessos, as afirmações bombásticas para chatear os burgueses, a aclamação crítica, as drogas, a inflexão no estilo, a explosão comercial, o fel da crítica e a estagnação criativa. Se tudo corresse como previsto, passaria os anos seguintes a compor bandas sonoras para filmes da Disney, a ser arrastado por Bob Geldof para a habitual voltinha no carrossel internacional da solidariedade, a gravar um disco de duetos e a esperar pela reabilitação crítica tranquilamente reclinado numa chaise-longue no alpendre do seu chalé com vista para o lago Léman, a beber sumo de arando por uma palhinha e a acenar ao seu vizinho, Phil Collins. No entanto, o que se seguiu foi a melhor lição de sempre na cadeira de “como evitar o declínio anunciado”.

Vejamos: numa situação de esgotamento criativo, Bowie podia ter ido ao baú desenterrar roupas, maquilhagem e melodias e teria resolvido o problema. Na ocasião, deve-lhe ter valido um dos cartões das Oblique Strategies, o baralho de aforismos de auxílio a músicos em dificuldades de Brian Eno e Peter Schmitt, que rezava assim: “Descobre as receitas que usas e abandona-as.” Desistiu de agradar ao público e partiu para novas paisagens sonoras, com a perícia suficiente para não parecer um daqueles velhinhos que, aos noventa anos, decidem saltar de para-quedas ou pintar o cabelo. Essa sempre foi uma das virtudes fundamentais de Bowie, soar moderno sem parecer que está desesperado por soar moderno. Black Tie White Noise, Outside e Earthling, álbuns dos anos 90, marcaram a reinvenção de Bowie.

Porém, permitam-me outro pequeno sacrilégio: por muito bons que sejam, ninguém se apaixona por aqueles discos. Têm valor no contexto da longa carreira de Bowie, como prova da sua incrível capacidade de regeneração, mas são demasiado ásperos, pós-humanos. Só que entre o primeiro e o segundo daqueles discos, ocorreu um fenómeno inesperado, quase místico. No final de 1993, os Nirvana, então no auge do sucesso, gravaram um concerto acústico para a MTV. Ao contrário do que os outros convidados normalmente faziam, optaram por tocar temas poucos conhecidos e covers, entre as quais uma versão de The Man who sold the world. Kurt Cobain suicidou-se em 1994 e nesse ano foi lançado o MTV Unplugged in New York. O meu amor por David Bowie começou no dia em que soube que aquela canção era dele. Sem essa epifania, a minha relação ter-se-ia mantido no plano solene da admiração desapaixonada e do respeito pela integridade artística. A partir daquele momento, alguma coisa aconteceu no meu coração. E essa coisa foi crescendo com os anos graças a:

- Life on Mars no filme Ondas de Paixão, de Lars von Trier;

- ao magnífico penteado circa 2003;

- a Ashes to Ashes num concerto intimista de 2000;

- a todo esse concerto (Live at the BBC Radio Theatre),

- à escolha de Absolute Begginers como hino nacional do meu país imaginário: if our love song, could fly over mountains, could laugh at the ocean;

- à audição de Starman numa viagem nocturna para o Alentejo;

- à recordação de um documentário que passou na SIC (meu Deus, estes gajos das televisões eram loucos) em que fiquei a conhecer o melhor nome de guitarrista de sempre, Reeves Gabrels;

- ao hipnótico videoclip (ainda se diz assim?) de Thursday’s Child (música de Bowie e Gabrels e uma homenagem a Eartha Kitt);

- à influência duradoura nas bandas que eu tanto admirava (Blur – compare-se Boys Keep Swinging com M.O.R. –, Suede, Pulp, Placebo).

Respeitabilidade

“Politicians, ugly buildings, and whores all get respectable if they last long enough”. Esta célebre frase é proferida pelo personagem de John Huston em Chinatown, o clássico de Roman Polanski. É verdade que parte da respeitabilidade de David Bowie deve-se ao simples facto de ele ter durado o suficiente. Mas, ao longo do tempo, soube (quase sempre) evitar quer as armadilhas da transgressão, quer as armadilhas da respeitabilidade. Nos anos 80, homens de cabelo comprido e maquilhagem não eram propriamente subversivos mas na altura em que Bowie apareceu, no início da década de 70, o seu aspecto era suficientemente ameaçador para que um apresentador da BBC o classificasse, horrorizado, como “uma aberração com maquilhagem” (uma descrição muito fiel, diga-se de passagem). Na constante tensão entre o artifício e a autenticidade, houve um momento em que perdeu o pé. Em 1976, afirmou numa entrevista que era bissexual. Mais tarde, considerou esse o maior erro da sua carreira, porque nos EUA o conteúdo dessa afirmação eclipsou o resto. Ora, tal como os heterónimos pessoanos, as máscaras – Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke – deviam servir para libertar o artista dos constrangimentos da autenticidade e da coerência e não para o encaminhar para becos sem saída. Com a máscara colada ao rosto, Bowie percebeu que a imagem só tem valor quando liberta. Quando pesa, o artista tem de conseguir libertar-se dela.

Desde então, a história de Bowie é a história de alguém a escapar permanentemente da imagem que construiu e da mitologia que os outros foram fazendo: e essa imagem do escapista surpreendente é a mais duradoura da sua mitologia. Como é que se consegue isso na era da visibilidade total e permanente? Desaparecendo. Depois de uma exposição excessiva que durou décadas (e um guarda-roupa que daria para vestir 50 mil figurantes de uma versão hermafrodita de Star Trek dirigida por John Waters), Bowie optou pelo recolhimento e pela discrição. O pai espiritual de todos os bizarros percebeu que não ganhava nada ao entrar em competições com Miley Cyrus e já não tinha idade, saúde ou estatuto para se vestir com bifes. Então escolheu a normalidade (e quando se apresenta como normal ainda parece mais estranho, como se a “normalidade” lhe assentasse como um fato de lantejoulas em John Wayne) e o silêncio: não dá entrevistas, não faz tournées. Tornou-se um enigma. “Enigmáticas” é capaz de ser o adjectivo mais usado para descrever as canções do novo álbum, como se viessem de um lugar que ninguém consegue identificar, de outro planeta, de outro tempo, que foi sempre a impressão que o artista quis dar, a de que ele e a sua música vinham de lugares muito, muito distantes e estranhos.

De cada vez que é notícia, ainda consegue pôr o público a coçar a cabeça e a pensar: “o que é isto?” (Até a mulher, a modelo Iman, tem um adequado rosto esfíngico, como se fosse mais uma peça do Grande Mistério). E é essa ideia de que há uma realidade insondável além da superfície (“I’ve got scars that can’t be seen”, canta em Lazarus, uma das novas músicas) que alimenta o mito e o mistério. Este mistério tanto pode ser o negativo dos personagens histriónicos que Bowie inventou como o mais extravagante de todos esses personagens. O que é de certeza é uma maneira inteligente de escapar aos obstáculos da respeitabilidade senatorial. Está no pedestal mas não está morto. Está no museu mas não está a ganhar pó.

Há três anos foi inaugurada em Londres, no Victoria and Albert Museum, uma exposição dedicada ao músico. Com mais de 300 mil visitantes, foi um sucesso. O título era simples: David Bowie Is. O músico colaborou com a organização da exposição e cedeu material para a mesma, o que significa que, no seu aparente recolhimento, Bowie continua a ser um meticuloso gestor da carreira e da imagem, promovendo discretamente o seu culto, um refúgio para os que se sentem à margem mas não querem fazer parte do rebanho dos marginalizados e onde até os que se converteram tardiamente se sentem bem-vindos. Bowie não tem de pregar, basta que seja. Ele é o verdadeiro cantor de intervenção se a categoria tivesse sido criada por um dandy. E se há sempre o insondável, o mistério, o segredo que insiste em escapar, há também uma certeza que consola os fiéis: David Bowie… is.

15
Fev16

Elif Shafak: «Na Turquia, o desejo da liberdade de fazer perguntas é um ato político.»

Bruno Vieira Amaral

Entrevista à escritora turca Elif Shafak, publicada na LER 137, Março 2015

 

Elif Shafak é a escritora mais popular da Turquia e também uma das mais polémicas. A Bastarda de Istambul, publicado agora em Portugal, valeu-lhe um processo em tribunal, em 2006, por insultar a identidade turca. Motivo: uma das personagens, uma rapariga de ascendência arménia, falava abertamente sobre o genocídio dos arménios pelos turcos, em 1915. Apesar de garantir que as questões políticas e sociais não são o seu guia, Elif Shafak aproveita os seus romances para falar de questões atuais que afetam não só as comunidades turcas na Europa como as minorias em geral: de género, étnicas, culturais ou religiosas. A escritora, que divide o seu tempo entre Londres e Istambul, teme que a sociedade turca esteja a regredir em questões tão essenciais como a liberdade de expressão e de imprensa.

 

Duas das personagens deste romance – Armanoush e Asya – relacionam-se de forma muito diferente com o respetivo passado. Uma está profundamente ligada a esse passado e quer saber mais sobre ele. A outra não sabe e não quer saber.

Interesso-me por estas questões da memória e do esquecimento, da memória e da amnésia, porque penso que a sociedade turca é uma sociedade amnésica. A nossa relação com o passado teve muitas ruturas, foi quebrada em vários sentidos. Creio que a memória é importante e acarreta uma responsabilidade. Devemos aprender com a História, devemos aprender com os erros que foram cometidos para que não os voltemos a cometer, devemos honrar a História. Ao mesmo tempo, acho que é igualmente importante que não fiquemos presos à História, é importante avançar, mas para avançar é necessário ter memória. Por isso, através de Asya e Armanoush quis discutir esta questão da memória e da amnésia.

No caso de Asya, trata-se de alguém que prefere não conhecer o seu passado. Acha que isso, ignorar o passado, não será o melhor em algumas circunstâncias?

Especialmente quando o passado é doloroso, quando há mágoa nesse passado, as pessoas preferem ignorá-lo, esquecê-lo. O mesmo acontece com os países. Mas isso é artificial, não é uma abordagem saudável. Temos de lidar com o passado, temos de o enfrentar, mesmo que seja doloroso, e então depois avançar. Os extremos não são saudáveis. Não é bom ignorarmos completamente o passado mas também não é saudável que a nossa identidade seja toda ela baseada no passado.

É isso que acontece com os personagens arménios deste romance? Estão presos a uma identidade e a um passado e não são capazes de avançar?

Para os arménios o passado está cheio de dor, de tragédias, de histórias por contar. Gostaria que, a longo prazo, as pessoas fossem capazes de esquecer um pouco, mesmo que só um pouco, mas para que eu possa esperar que os arménios esqueçam um pouco, em primeiro lugar, enquanto turca, tenho a responsabilidade de lembrar. Se eu não recordo como é que posso esperar que o outro esqueça? Como tal, em primeiro lugar está o dever de lembrar porque só então podemos pedir ao outro que esqueça um pouco. Esquecer, neste sentido, não significa ignorar, não me interprete mal, só que é necessária uma certa dose de esquecimento e de perdão. Contudo, insisto, o primeiro passo deve ser o da memória, e esse passo tem de ser dado pelos turcos. Se os políticos turcos não dão esse passo terão de ser os turcos, enquanto indivíduos, a fazê-lo.

E como poderão fazê-lo?

Enquanto escritora posso dar esse passo. Uma bailarina poderá fazer uma coreografia. Talvez alguém possa fazer um filme sobre o assunto. As histórias são sempre melhor do que os silêncios. E na Turquia tem havido muitos silêncios sobre o passado. Está na hora de falarmos sobre esses silêncios.

Disse em entrevista que a Turquia vive uma espécie de amnésia coletiva. No entanto, neste livro há um personagem arménio que diz que acontece o mesmo com todos os países. Os Estados-nação criam os seus mitos e as pessoas agarram-se a esses mitos. Concorda que esta não será uma característica exclusiva da Turquia?

Claro que não é uma característica exclusiva da Turquia ou do Estado turco. Se pensar nos Estados-nação, na Alemanha, em Israel, na Itália, até no nacionalismo escocês, todos os nacionalismos são criados retroativamente e somos levados a crer que as coisas sempre foram assim. E as coisas nem sempre foram assim. Há toda uma literatura académica que demonstra que muitos desses mitos são recentes, são modernos, não vêm dos tempos antigos.

Como no livro The Invention of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Sim, e o Belated Modernity [livro de Gregory Jusdanis sobre as literaturas nacionais], ou o Imagined Communities [livro de Benedict Anderson sobre os nacionalismos]. Há uma literatura vasta sobre o assunto que me interessa bastante e que mostra que todos os Estados-nação têm estas características. Mas é importante que se diga que quando há liberdade de expressão e democracia os historiadores podem dizer: «Esperem lá, deixem-me mostrar-vos as coisas de uma outra perspetiva.» E dessa forma uma sociedade tem no seu interior vozes distintas que se equilibram. Visto que na Turquia a liberdade de expressão não tem feito progressos, há muitas vozes que têm sido silenciadas, e isso é um problema. Ou seja, há muitas semelhanças entre a Turquia e outros Estados-nação mas o que interessa saber é se há liberdade de expressão, multiplicidade de vozes, pluralismo. Por exemplo, em Inglaterra há muitas pessoas que criticam abertamente o passado colonial da Grã-Bretanha e não vão a tribunal por causa disso, enquanto que na Turquia as pessoas são processadas.

 

elif.jpg Foto: Pedro Loureiro

 

Foi o que aconteceu consigo quando este livro saiu na Turquia. Foi processada por «insultar a identidade turca». Como é que na altura lidou com isso?

Eu sabia que ia receber críticas mas não estava à espera de ser processada por causa de um romance. Foi a primeira vez que isso aconteceu, em 2006. Foi surreal porque em tribunal o meu advogado teve de defender personagens de ficção.

Porque um dos personagens usava o termo «genocídio».

E por criticar o passado da Turquia. Foi muito surreal. Ele tinha de relembrar as pessoas que se tratava de ficção, de imaginação. Acho que atualmente todos os poetas, jornalistas e escritores têm noção de que podem ter problemas por causa de uma palavra. Escrevemos sempre com essa consciência, o que resulta em muita autocensura.

Há coisas que não escrevem por recearem as consequências?

No que diz respeito aos acontecimentos de 1915, as deportações e os massacres, houve alguns progressos. As pessoas falam cada vez mais sobre isso, têm saído mais livros sobre o assunto. Em comparação com o que acontecia há 10 ou 15 anos há progressos na sociedade civil, conferências, debates, documentários, filmes. A sociedade não está calada. As pessoas escrevem e debatem mais do que há uns anos, mas ainda assim trata-se de um assunto complicado e a verdade é que, em termos gerais, no que diz respeito à liberdade de expressão a Turquia recuou. No índice da liberdade de imprensa caímos [em 2002, a Turquia ocupava o 99º lugar e em 2014 tinha caído para 154º]. Centenas de jornalistas ficaram sem emprego, muitos aguardam julgamento, outros continuam presos. Além disso, há muita autocensura e perdeu-se por completo a diversidade na comunicação social.

Mas num caso como o seu, o facto de o Estado processar um escritor não funciona contra o Estado? Afinal, toda a gente acaba por falar sobre isso.

Sim, mas ninguém deseja esse género de publicidade.

Não me refiro a publicidade mas ao facto de se falar sobre um assunto supostamente proibido.

Claro. Tem toda a razão. Quando fui processada, houve mais pessoas a ler o livro, a partilhá-lo e a escrever sobre ele. Mas a comunicação social foi muito agressiva. Na altura, recebi muito amor e muito ódio. A reação dos leitores foi incrível, muito positiva, maravilhosa. E eram leitores das mais diversas origens, turcos, arménios, curdos, judeus. Só que a reação da elite foi muito cruel, muito agressiva, nacionalista.

A elite que escreve na imprensa?

A elite que escreve nos jornais, que comenta na televisão. Eram menos mas faziam mais barulho.

Voltando ao romance e às personagens: todas elas, e não apenas as duas que referi, parecem estar em conflito com o passado, incluindo Mustafa, que tem uma educação privilegiada, é mimado e tratado como um príncipe. Corresponde ao típico homem turco?

Eu interesso-me muito pelas questões de género e sou muita crítica da forma como as mulheres colaboram na manutenção de uma sociedade patriarcal, portanto não se trata apenas de homens a oprimir mulheres. As coisas não são a preto e branco, é muito mais complexo.

Por isso é que lhe perguntava sobre o peso da educação dos rapazes no comportamento que eles têm mais tarde em relação às mulheres.

Bem, a história de Mustafa é a história de um indivíduo mas através dela eu queria abordar estes assuntos porque numa família típica da Turquia os rapazes são tratados de forma diferente, são privilegiados, e infelizmente as mães dizem aos filhos que eles têm o direito de vigiar as irmãs, e por isso crescem com a ideia de que são superiores, de que são os sultões da família. Quando um dia mais tarde casam, tratam as mulheres da mesma forma. Como é que quebramos este ciclo? A opressão das mulheres é em parte reforçada por coisas que as próprias mulheres fazem. É necessário quebrar esta cadeia que passa de geração para geração. Fiz parte do movimento feminista mas para mim o feminismo ou o pós-feminismo exige que nos foquemos não apenas nas mulheres mas também nos homens. Nas sociedades patriarcais não é fácil ser-se mulher mas também não é fácil ser-se um rapaz, especialmente se for um rapaz com talentos pouco habituais, se for gay. Se não se enquadrar numa certa definição de masculinidade as pessoas ridicularizam-nos, afastam-nos e as mulheres também contribuem para isso. Temos de ver qual é o papel das mulheres neste jogo e alterá-lo.

No livro Black Milk [obra de não-ficção sobre a criação literária e a maternidade, que Elif Shafak escreveu após o nascimento do primeiro filho e da depressão pós-parto que sofreu] conta o seu encontro como uma escritora turca e que ela lhe disse que as escritoras não são as maiores fãs umas das outras. Acha que quando uma mulher atinge o sucesso, por exemplo, na literatura, acaba por se virar contra as outras mulheres, culpando-as por não serem capazes de fazer o que ela faz?

Infelizmente é isso que se passa na Turquia porque o meio literário é tão pequeno, concentrado em Istambul, que abundam as coscuvilhices, as calúnias. É quase impossível encontrar dois escritores que gostem um do outro e isso é ainda pior com as escritoras.

Mas vive um pouco afastada desse meio.

Sim. Uma das coisas que me abriu os olhos foi quando estive em Boston, no Mount Holyoke College, e me apercebi que havia um grande sentimento de fraternidade, em particular entre as afro-americanas. E eu fiquei encantada com isso. Elas partilham as memórias das lutas que as mães e as avós travaram. Apoiam-se mais entre si, falam mais sobre este sentimento de união e isto despertou-me. Desejo que chegue o dia em que haja este tipo de solidariedade entre as mulheres turcas, curdas, judias, arménias, entre todas as mulheres mas especialmente entre as mulheres desta região porque vivem em sociedades patriarcais e se passam a vida a competir entre si e a magoar-se isso não beneficia ninguém. Só beneficia o próprio sistema patriarcal.

Disse numa entrevista que não se pode dar ao luxo de ser apolítica. Acha que isso é válido para todas as escritoras de países que enfrentam os mesmos problemas?

Claramente. Uma escritora da Nigéria, do Paquistão, do Egito, do Líbano, não se pode dar a esse luxo. Enquanto escritora turca sei que não me posso dar a esse luxo. Mas isto não quer dizer que a política seja o meu guia. Não é. O meu guia é a imaginação, a literatura, contar histórias, porém os meus livros falam de questões políticas. Não tenho respostas, nem quero ensinar ninguém, mas quero continuar a fazer perguntas. E, na Turquia, o desejo de ter a liberdade de fazer perguntas é, em si, um ato político.

Não acha que nos países onde não existe liberdade de expressão a literatura acaba por ser ainda mais importante do que nas democracias, onde a literatura corre o risco de se tornar irrelevante?

Essa é uma questão muito importante. Eu penso nisso. Por exemplo, na América todos os meses são publicados muitos livros que também desaparecem muito rapidamente. Na Turquia, a liberdade de expressão é menor e enquanto escritores enfrentamos mais obstáculos, mas de certa forma os livros permanecem, não se evaporam e são importantes para as pessoas. O mesmo exemplar é lido por cinco ou seis pessoas. Dizem-me que na Índia o mesmo exemplar chega a ser lido por nove ou 10 pessoas. Imagine: o livro é partilhado, alguém o lê e passa à tia, a tia passa-o à vizinha, funciona muito o boca a boca. Faz-se parte de uma família. E o resultado é que os escritores são figuras destacadas. Esse é o bom lado da questão: aquilo que escrevemos e que dizemos tem importância. O lado mau é que se está sempre a desejar ser livre. Tudo acaba por ser politizado. Estão sempre à procura de mensagens ocultas, à procura de teorias de conspiração. Até chegam a dizer que há mensagens nas capas dos meus livros. Porque é para isso que estão treinados, para procurar inimigos. Chega uma altura em que os artistas precisam de autonomia, de espaço, de liberdade.

Por causa dessa tendência de procurar significados ocultos devo dizer-lhe que encontrei um blogue que compila todas as referências culturais neste livro, de Johnny Cash a Jackson Pollock, e em que os leitores acabam por fazer as suas próprias interpretações que, na minha opinião, às vezes são um pouco exageradas. Como já disse que os escritores nem sempre pensam no que escrevem queria perguntar-lhe o que pensa destas leituras da sua obra.

Há um excesso de interpretação, é verdade. A minha opinião é que um escritor nem sempre está a controlar a história que está a contar. Às vezes escrevemos uma palavra só porque a palavra anterior a pede. Creio que há dois tipos de escrita: uma é quase engenharia, mais matemática, em que o escritor sabe o que cada personagem vai fazer. Conheço escritores assim, respeito o que fazem, mas esse não é o meu estilo. Gosto de me sentir inebriada ao escrever, mais irracional, de não saber o que vai acontecer dali a seis páginas. Gosto de ser surpreendida por um personagem porque dessa forma o leitor também será surpreendido. Como para mim a escrita é um mistério acho que as pessoas não devem interpretar em demasia.

Uma das coisas que me impressionou neste romance foi a ideia de que o amor pode ser opressivo. Em Black Milk conta uma lição que a sua avó lhe ensinou, de que para destruir alguma coisa basta cercá-la, rodeá-la. Será que esses muros que destroem podem ser feitos de amor?

Digamos que sem verdadeira liberdade não há verdadeiro amor. O sentimento de posse não combina com o amor. Um ego muito forte não combina com o amor. Onde há muito amor tem de haver pouco ego. Mas o que queremos é ter um grande amor e um grande ego, de uma forma muito possessiva. Oiço as pessoas a dizerem «a minha mulher», «o meu marido», «a minha noiva», e a ênfase é no pronome, mas essa pessoa não nos pertence, essa pessoa é um universo diferente. Como tal, esse sentimento de posse perturba-me e encontra-se muito na Turquia, especialmente da parte dos homens, que não veem as mulheres como indivíduos.

A sua intenção é a de contar histórias que foram silenciadas, de dar voz a quem não tem voz. Para este livro, falou com arménios e turcos que viveram na época que descreve. Mas quando escreve sobre épocas em que já não é possível recorrer a testemunhos, como é que faz? Usa apenas a imaginação? Porque os excluídos não tiveram oportunidade de deixar a sua versão da História.

Isso é muito importante porque a História tem sido quase sempre contada do ponto de vista dos homens. Na Turquia os indivíduos raramente são mencionados e quando falamos de História é quase sempre acerca das guerras, dos tratados, dos territórios conquistados e perdidos, esse tipo de coisas que decoramos. Os poucos indivíduos sobre os quais se fala são quase sempre os xeiques, os sultões, a elite. A mim não me interessam as pessoas do centro, do poder.

Nem para contar versões alternativas dessas histórias?

Sim, se for para contar uma História alternativa, mas não me interessa o discurso oficial da historiografia porque já o ouvimos vezes sem conta. Quero ouvir os silêncios dos excluídos, das minorias. Interesso-me muito por personagens desse género, desempenham um papel muito importante nos meus livros. Só que a minha definição de minoria é muito ampla, pode ser uma minoria sexual, étnica, cultural ou qualquer pessoa que num dado momento histórico se tenha sentido o outro. Então, quero ouvir as histórias das margens, da periferia. E isso faz-se através da imaginação e da empatia, mas para que isso seja possível em primeiro lugar tenho de ler e de pesquisar. Sem isso não se consegue imaginar. Depois pode-se voar para onde se quiser mas em primeiro lugar tem de se fazer o trabalho de casa.

É necessária uma base.

Sim, construir de baixo para cima. Faço muita pesquisa, levo isso muito a sério. Para escrever este livro li muitas obras, consultei arquivos, documentos históricos, falei com muitas pessoas de origens muito diferentes e todo esse conhecimento também me transformou. A minha mãe era diplomata e quando estávamos em Madrid, a organização terrorista arménia, ASALA [Exército Secreto Arménio para a Libertação da Arménia] tinha como alvo diplomatas turcos e, como tal, tenho memórias muito negativas da palavra «arménio», da palavra, não do povo arménio. Era a palavra em si que tinha conotações negativas e eu tive de fazer uma viagem interior para me livrar dessa conotação negativa e olhar para a História com empatia. Enquanto indivíduos todos temos de fazer as nossas próprias viagens interiores.

Tem dito que os seus muitos leitores têm origens muito diferentes mas a verdade é que as pessoas podem ler os mesmos livros e, na vida real, voltarem às suas trincheiras, sem qualquer alteração. Será que a literatura não é tão poderosa quanto gostaríamos que fosse?

Acredito que a literatura é poderosa e, mais do que isso, tem a capacidade de transformar as pessoas. Como é que eu sei? Porque eu fui transformada pela literatura.

Em A Bastarda de Istambul os livros são importantes para os personagens e também disse, em Black Milk, que os livros a salvaram.

Salvaram-me, transformaram-me, mudaram-me em tantos aspetos. Não quero romantizar mas foi o que me aconteceu e acredito que acontece com outras pessoas. Naturalmente, em escalas diferentes. Por exemplo, por vezes falo com leitores que são bastante homofóbicos e acabam por me dizer que adoraram um personagem gay de um dos meus livros. Ou pessoas que gostaram muito de um personagem turco, arménio ou judeu, pessoas que eu sei que são xenófobas no dia a dia. Como é que isto se explica? Na minha opinião, o fascismo é uma doença coletiva. Somos sempre mais reacionários, menos tolerantes e menos liberais quando estamos acompanhados. Quando estamos juntos, em sociedade, gozamos com os outros, vamos na corrente, mas quando estamos sozinhos é diferente, há um espaço interior que se abre. O romance dirige-se a esse espaço porque exige que o leitor esteja só. Vamos juntos ao cinema ou a um concerto, mas lemos sozinhos. Não interessa se o lemos no Kindle ou em outro dispositivo. E dentro desse mundo privado há um enorme potencial transformador.

Não acha que a diferença é que o leitor quando lê vê o mundo através dos olhos do escritor e que, na vida real, nunca tem oportunidade de conhecer os outros de um modo tão profundo?

Tem toda a razão. No dia a dia não conhecemos as histórias. Acontece o mesmo com os noticiários, é tudo reduzido a números. Morrem duas mil pessoas e não estabelecemos qualquer ligação emocional mas depois lemos a história de uma dessas pessoas e nasce uma ligação. É compreensível que assim seja e é por isso que temos de pegar nessas histórias cada vez mais. Até no jornalismo é preciso cada vez mais contar histórias.

Neste romance há muitas coincidências, aquilo a que chamou «sinais» noutro dos seus livros. Acredita nas velhas qualidades do romance, com um tão grande número de coincidências ou sinais?

Interesso-me muito pelo sufismo [corrente mística e contemplativa do islão], e não apenas pelo misticismo islâmico; interesso-me pelo misticismo judeu, pelo misticismo cristão, para mim são muito idênticos, dizem coisas muito parecidas. E as pessoas que seguiram estas correntes sempre estiveram na periferia das suas religiões e muito interessadas no que não se vê, na essência. Não são tanto as leis e as regras à superfície que lhes interessam, mas o significado oculto, e esse significado é universal. Os sufis acreditam que estamos todos ligados, que as nossas histórias e destinos estão ligados entre si. Hoje isso percebe-se melhor porque após o 11 de Setembro vimos que o que acontece a uma pessoa num determinado lugar afeta as pessoas no outro lado do mundo. Existem estes fios invisíveis que nos ligam. Não me importo de dizer que sou uma pessoa irracional, acredito que na vida há magia, que há coincidências ou sinais. Há coisas que não podem ser explicadas apenas pela lógica. Isso não faz com que eu seja religiosa, não sou religiosa, e faço questão de distinguir a espiritualidade da religiosidade. A religião é uma coisa organizada, com hierarquias e que divide o mundo entre nós e eles, enquanto que um místico, na minha opinião, não divide o mundo entre nós e eles.

Mas essa falta de organização faz com que permaneçam na margem das próprias religiões.

Não só por isso. Não nos podemos esquecer que alguns desses movimentos foram perseguidos e eliminados pelas narrativas dominantes em cada religião. Os cátaros, os bogomilistas, os bektāshîyahs na Anatólia partilham muitos traços comuns e nunca tiveram contacto entre si. Detesto a arrogância e o pensamento absolutista – e os ateus também podem ser bastante arrogantes –, por isso prefiro o agnosticismo, o misticismo. Precisamos da fé e da dúvida, de elementos de ambas. Respeito a fé mas também respeito a dúvida e creio que podem andar lado a lado. É esta a dualidade que me interessa e não a dualidade entre religião e ateísmo, porque ambos podem ser absolutistas e arrogantes.

A literatura prospera na incerteza?

Na incerteza, na ambiguidade. São coisas muito valiosas para um escritor. Tchékhov disse que para um escritor as perguntas são mais importantes do que as respostas. E tinha muita razão. As pessoas que têm muitas certezas estão sempre a tentar mudar os outros enquanto que as que não têm tantas certezas procuram transformar-se a si mesmas. Dou mais valor a isso.

Quando escreveu Black Milk sobre o desafio de conciliar a escrita e a maternidade, mencionou várias escritoras do passado e as dificuldades por que passaram. Mas ainda hoje se temos um grande escritor que é um péssimo pai, o que nos interessa é a obra, enquanto se houver uma grande escritora que é uma mãe negligente o que nos interessa é que é uma mãe negligente. Concorda?

Absolutamente. É assim em todo o lado mas ainda mais em sociedades patriarcais, como a Turquia, onde uma escritora, aos olhos da sociedade, dos críticos, é, em primeiro lugar e antes de mais, uma mulher, e só depois é vista como escritora. Já um romancista é em primeiro lugar um escritor e talvez alguém fale dele enquanto homem, mas é raro. Até a linguagem dos críticos, quando se trata de uma escritora, é diferente.

São mais condescendentes?

Sim, condescendentes, olham de cima para baixo. No verão passado, estava a ler uma crítica a um dos meus livros num jornal turco e era assim que começava: «Vamos lá ver o que é que a nossa kizimiz, que significa «filhinha», «escreveu desta vez», e depois passava para a crítica. E eu olho para este homem que me trata por «nossa filhinha» e somos da mesma idade. Não estou a falar de um crítico de 90 anos, de uma geração diferente. Somos da mesma geração mas só por ser homem e eu mulher, ele vê-se lá em cima e a mim vê-me aqui em baixo. Podíamos pensar que o meio literário na Turquia, por ser composto por intelectuais, artistas, seria menos sexista, mas não é. Há muito glamour à superfície mas se rasparmos um pouco vemos como é incrivelmente sexista e paternalista.

Como contacta com muitos escritores estrangeiros em festivais e outro tipo de eventos acha que se passa o mesmo noutros países? Veem-na como uma companheira de letras?

É uma questão problemática. Na América a cultura existente é a de olharmos para o que alguém fez e tentarmos fazer melhor. É isso que ensinam aos jovens. Na Turquia, é diferente. Se alguém consegue ter sucesso, por exemplo, no cinema, a ideia é de que está a roubar o lugar a alguém. Então essa pessoa passa a ser odiada. Acontece o mesmo na música...

De certeza que não está a falar sobre Portugal?

[Risos.] Então temos de mudar isso, porque ninguém fica a ganhar. A cultura é uma acumulação de conhecimento. Quando um autor vende muito, isso vai gerar um aumento das vendas de livros em geral. Na Turquia é muito difícil falar sobre estas coisas. Tenho uns amigos irlandeses que dizem que na Irlanda acontecia o mesmo na década de 60: era uma sociedade pequena e havia muita tensão política. Talvez na Turquia haja um fardo político que faz com que as pessoas não se ajudem entre si.

29
Jan16

O romancista acidental

Bruno Vieira Amaral

Publicado na LER 120, Janeiro de 2013

 

Manhã fria de fim de novembro. Depois de uma chuva bíblica, o céu ficou limpo. O encontro com o escritor José Rodrigues dos Santos está marcado para um hotel em Sintra. Aguardamos no exterior, onde dois senhores falam sobre os exercícios físicos que praticam, pilates, natação uma ou duas vezes por semana, trabalho específico para os abdominais. Uma senhora sai do hotel para a corrida matinal, garrafa de água na mão. À entrada, um funcionário de sobrecasaca e chapéu alto recolhe, com uma pinça, as beatas depositadas no cinzeiro. É um hotel de luxo. No átrio, os hóspedes falam baixo, os recepcionistas recebem-nos com sorrisos descartáveis “vêm para uma entrevista? Com certeza. É só um momento.” Cinco minutos depois da hora marcada, chega José Rodrigues dos Santos. Afável, não levanta qualquer objeção a que comecemos pelas fotografias. Entretanto, refere circunstancialmente que este hotel foi considerado o melhor do mundo por uma publicação internacional. Depois das fotografias é hora de falarmos com o autor que mais livros vende em Portugal, mais de um milhão e meio de acordo com a informação disponibilizada pela editora. À exceção do primeiro, A Ilha das Trevas, todos os seus romances ultrapassaram a barreira dos 100 mil exemplares. Antes de ser romancista, já era uma figura bastante conhecida dos portugueses, como jornalista e apresentador do Telejornal. Os livros deram-lhe outro tipo de notoriedade. Recentemente foi eleito pelos leitores do Reader’s Digest como “escritor de confiança”, à frente de José Saramago e de Miguel Sousa Tavares. O seu décimo romance, A Mão do Diabo, lançado em novembro, tem um tema bastante atual mas, de certa forma, inesperado para um thriller: a crise económica. É o regresso de Tomás de Noronha, historiador e protagonista dos seus romances de mistério, pronto a desvendar o segredo dos verdadeiros responsáveis pela crise. Pelo meio, há perseguições a alta velocidade pelas ruas de Lisboa e uma missa negra em Florença. Ainda que um romance possa não parecer a hipótese mais óbvia para o efeito, este foi um livro pensado para esclarecer os portugueses sobre as origens da situação em que vivem. A experiência do escritor diz-lhe que, em Portugal e na Europa (na América diz que é diferente), os leitores gostam de ver temas não ficcionais tratados pela ficção. Também não teve receio que o tema afastasse leitores: “A minha preocupação não foi que as pessoas tivessem medo do tema ou não. Achei que as pessoas estavam confusas em relação ao tema e achei que tinha coisas a dizer sobre o tema e utilizei este veículo, o romance, para, procurando ser muito interessante na história que burilei, expressar estas verdades fundamentais sobre como funciona a nossa economia e a nossa democracia.” Rodrigues dos Santos reafirma que, depois de lerem este romance, os portugueses dificilmente se deixarão enganar novamente pelos políticos. Uma ideia caridosa, certamente, quando é o próprio que diz que “nós não queremos ouvir a verdade”. Estaremos então preparados para ler a verdade num romance? “Mas aí eu acho que é importante que o romance a explique. Neste caso o romance dá uma explicação para que as pessoas entendam os desafios que nós temos.” O livro tempera a verdade crua com o sal e a pimenta da ficção. Na nota final o escritor refere os mais de vinte livros que leu para fundamentar as opiniões veiculadas no romance. Apesar disso, diz que há informações no livro que não podem ser encontradas em nenhum outro lado, como a explicação pormenorizada do que se passa nos bastidores: “A forma como a política é exercida, como os negócios são feitos para beneficiar os financiadores do partido em detrimento dos financiadores do país, que são os contribuintes.”

 

Quer isto dizer que os jornalistas têm falhado na missão de esclarecer os cidadãos? Falharam, sim, mas por uma boa razão: “Um jornalista, um historiador ou um jurista pode saber que algo aconteceu mas se não tem modo de o provar não o pode afirmar. Enquanto um romancista quando sabe que algo aconteceu usa a ficção Perguntam-lhe “Mas qual é a prova?” ele responde “ah, mas isto é ficção”. É possível usar a ficção para dizer grandes verdades. Por exemplo, Kafka, quando escreveu O Processo, disse uma grande verdade sobre a justiça. Nós lemos e intuímos que aquilo é verdadeiro. É possível usar a ficção para expor a verdade de uma forma que o discurso não ficcional não consegue porque está preso a um conjunto de convenções. Nesse sentido é verdade que os jornalistas fracassaram mas fracassaram devido às regras da sua profissão.”

A Mão do Diabo é o sexto romance com Tomás de Noronha. O seu autor faz a distinção entre obras: “Tenho dois tipos de romance, o romance histórico, que obedece a regras mais canónicas, e tenho os romances de mistério, em que faço o jogo entre ficção e não ficção que são os romances do Tomás de Noronha.” Regra geral, estes últimos vendem melhor, apesar de as vendas, desde Fúria Divina, publicado em 2009, terem vindo a cair, ainda que ligeiramente. A fórmula é simples: Rodrigues dos Santos pega num tema e, mesmo que à partida não tenha um apelo evidente para o público, procura uma maneira de o tornar interessante vestindo os factos com os fatos do romance de mistério/policial/de aventuras. A nacionalidade de Cristóvão Colombo, a existência de Deus, o aquecimento global, o terrorismo islâmico e os segredos do Cristianismo foram temas submetidos ao mesmo tratamento narrativo. Por muito complexo que seja o tema, os leitores acabam por aderir: A Fórmula de Deus é um romance sobre física e matemática. A questão é como vamos fazer a obra. Como é que vamos pegar num tema que pode ser mais seco e transformá-lo numa coisa interessante. Esse é o desafio do escritor.”A Fórmula de Deus vendeu 187000 exemplares. São estes números que lhe dão confiança para acreditar que nem as longas passagens explicativas e didáticas de A Mão do Diabo demoverão os leitores. Pelo contrário, eles já estão habituados a que seja assim nos romances de Tomás de Noronha: “É um pouco como os romances da Agatha Christie. No final, o Poirot junta os suspeitos. Têm aquele formato.” São livros que atraem todo o tipo de leitores. Um livreiro disse-lhe que estes são os únicos livros que vendem tão bem no Dia do Pai como no Dia da Mãe, embora os homens se interessem mais pelos diálogos – “a parte de ensaio do romance” – e as mulheres passem à frente, à procura da parte romanesca. E se os leitores sabem que podem contar com um determinado formato, sabem também que podem contar com a fiabilidade da informação factual. Por muito que se esforce por tornar cativantes os seus livros, Rodrigues dos Santos, ao contrário de Dan Brown, com quem é frequentemente comparado, não altera os factos: “Ele [Dan Brown] faz o jogo da verdade-não verdade mas apenas ao nível da verosimilhança. Ele altera os factos reais para se adaptarem à ficção e eu faço o contrário: eu altero a ficção para que esta se adapte aos factos reais. Não quer isto dizer que eu esteja imune ao erro, mas quando eu digo uma coisa que não seja verdadeira é por erro, não é intencional. No caso do Dan Brown, ele conscientemente altera determinados factos para se ajustarem à ficção.” Uma ideia reforçada pelo editor Guilherme Valente, responsável pela Gradiva, quando diz que “Carlos Fiolhais e Jorge Dias de Deus, dois físicos de inquestionável competência, afirmaram diante de mim e publicamente não terem encontrado um único erro científico” em A Fórmula de Deus. O escritor também não considera que romancear ideias complexas e teses muito debatidas corresponda necessariamente a uma simplificação. A propósito de O Último Segredo, que abordava temas polémicos para o Cristianismo como a virgindade de Maria ou o facto de Jesus ser judeu, diz: “O livro tem mais de 600 páginas, não simplifica assim tanto.” Guilherme Valente é mais cáustico quando lhe perguntamos se não há o risco de uma editora como a Gradiva, reconhecida pela qualidade das suas publicações científicas, criar nos leitores uma confusão entre ciência a sério e o tratamento romanceado de informação científica. Pergunta-nos se faríamos essa pergunta ao diretor da Gallimard: “Nós não editamos ficção apresentando-a aos leitores como ciência, história, religião, sociologia, psicologia”.

No caso de José Rodrigues dos Santos, a resposta ao desafio de tornar interessante o tema reside, em grande parte, no trabalho de pesquisa. É a pesquisa que lhe aponta caminhos e soluções narrativas. Por isso, e ao contrário de outros, como Miguel Sousa Tavares, encarrega-se ele próprio da investigação: “é a pesquisa que me vai ditar qual é o sentido da ficção que vou criar. Por exemplo, quando estava a fazer a pesquisa para A Fórmula de Deus cruzei-me com uma referência a um encontro que Einstein teve com Ben-Gurion [primeiro-ministro de Israel] em 1951, em Princeton, em que falaram sobre a existência de Deus, e eu pensei “Eh pá! Este é o ângulo que eu vou usar para a história ficcional”. Isto terá a ver com a sua formação jornalística que, admite, é também a principal influência no seu estilo de escrita. Admirador de Somerset Maugham, Rodrigues dos Santos reconhece que, ainda que inconscientemente, somos influenciados por todos os autores que lemos. Mas a sua bíblia estilística é o jornalismo, com a necessidade permanente de ser claro e interessante. Para o escritor, “as palavras não são um fim em si mesmo mas são um instrumento para contar alguma coisa. O meu background é o de jornalista. E os jornalistas, como sabe, escrevem com duas funções, a de serem compreendidos – se eu escrever uma frase e o leitor não compreender, em princípio a culpa é minha – e a de aquilo que escrevem ser interessante.” Outros escritores falam da tortura que é o processo de escrita. Rodrigues dos Santos desconhece essas dificuldades: “Escrevo um texto e estou constantemente a limá-lo e mesmo depois de o livro ser publicado há coisas que encontro que podiam ter sido mais bem trabalhadas, mas é uma questão diferente da questão do prazer e da tortura que o livro suscita. Para mim escrever é como respirar, faz parte da minha vida. Enquanto um grande número de escritores menciona que é um período terrível, o fabrico do livro para mim é puro prazer.” Admite uma dificuldade, a de entrar na cabeça das personagens femininas: “é mais difícil porque não é uma coisa que venha de dentro de mim. Não vem. Resulta da observação exterior, não é da observação interior. Há quem diga que a mulher e o homem são a mesma coisa. Eu não acho que sejam.”

JRS.JPG Foto: Pedro Loureiro

 

Foi por acaso que o jovem apresentador do noticiário noturno da RTP se tornou uma celebridade. Em 1991, quando começou a primeira Guerra do Golfo, José Rodrigues dos Santos, então com 26 anos, estava em direto. Desde esse dia, o “apresentador orelhudo” (ver página 77 de A Mão do Diabo) passou a ser uma das figuras mais populares da nossa televisão. A segunda vida, a de romancista, também começou por acaso. As circunstâncias da sua estreia como ficcionista não foram tão dramáticas, mas o próprio ficou surpreendido quando José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, depois de ler a sua tese de doutoramento (Crónicas de Guerra, também publicada pela Gradiva), lhe disse que estava ali um grande romancista em potência: “Eu olhei para ele e ri-me. Era a mesma coisa que ele me dizer que eu era um astronauta em potência. Ri-me. Não fazia sentido. Acontece que ele manteve esta ideia e tinha uma revista literária e pediu-me para escrever um conto e eu não tive lata de dizer que não. Então peguei numa história que se passava em Timor, e que não tinha sido incluída na tese, e comecei a escrever um contozinho. Quando me apercebi, o conto já tinha duzentas páginas e acabei por publicar o meu primeiro romance, A Ilha das Trevas. E aí fiquei hooked, fiquei viciado.” A Ilha das Trevas foi publicado por outra editora, a Temas e Debates, numa coleção dirigida por Maria do Rosário Pedreira, a editora mais conhecida do meio literário quando se trata de descobrir novos talentos. Eis a história contada pela própria: “Um dia, o jornalista da RTP Rui Lagartinho, meu amigo havia vários anos, perguntou-me se não me importava de receber o José Rodrigues dos Santos, pois ele estava a escrever um livro que achava encaixar-se perfeitamente na Ficção-Verdade. Disse-lhe que sim e marcámos uma reunião em que soube que JRS adorava a colecção e, independentemente da relação com a editora que publicava os seus outros livros (e que, aliás, manteve), queria fazer um livro para a Ficção-Verdade. Falou-me do tema (a história de Timor desde a anexação pela Indonésia em 1975 até à restauração da independência em 2002) e da sua ideia de misturar personagens fictícios aos reais, e fiquei bastante entusiasmada, até porque ele me contou ter acompanhado como repórter vários momentos importantes dessa história e isso me dar alguma segurança sobre o rigor da crónica.” A editora pensou que o livro se adequava perfeitamente à coleção que dirigia. Praticamente não fez alterações. A “prosa era fluente como a de uma notícia, sem rodriguinhos nem floreados” e “o tom era despretensioso, como o de uma reportagem.” O primeiro contacto de Guilherme Valente com a escrita de Rodrigues dos Santos foi mais intenso. Um dia, ao chegar à editora, tinha em cima da secretária o original de Crónicas de Guerra: “Pensei: mais um desses mediáticos a querer ser escritor… Mas aconteceu um «milagre», isto é, o improvável: deu-me para começar logo, eu próprio, a ler o texto e li, sem parar, toda a parte referente à Guerra Civil de Espanha.” Foi o começo de um sucesso avassalador que, já em 2012, atingiu o primeiro lugar do top de vendas da FNAC, em França, com a tradução de A Fórmula de Deus, um feito assinalável para um autor português. Até na Bulgária o nome de José Rodrigues dos Santos começa a ser conhecido. Daniela Atanasova, da editora Hermes Books, que publica autores como James Patterson e Daniel Silva, revela que Códex 632 e A Fórmula de Deus, cuja tradução foi apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, tiveram uma excelente recepção quer por parte da crítica, quer por parte do público.

Para um autor publicado em mais de vinte países, com mais de um milhão e meio de exemplares vendidos só em Portugal, será que as críticas negativas são tidas em conta ou subscreve a afirmação de Sousa Tavares quando disse, em entrevista à Ler, que se encontrava confortavelmente sentado em cima de um milhão de livros vendidos? “Não subscrevo nem dessubscrevo. Por uma questão, não tenho muitas críticas negativas. Você vai ler as críticas, por exemplo, agora em França, são espantosas [nem todas, diga-se, como se pode ler aqui http://www.carozine.fr/culture-lecture/la-formule-de-dieu-jose-rodrigues-dos-santos.html]. Também já tive críticas negativas no estrangeiro. São raras. Mas nas críticas negativas no estrangeiro o crítico não me conhece de parte nenhuma e portanto eu percebo que ele não é malicioso, não é destrutivo. Ele diz que a obra tem esta falha, eu analiso e posso dar-lhe razão. O que às vezes acontece em Portugal é que há malícia porque as pessoas já me conhecem.” Das únicas duas críticas negativas que diz ter tido em Portugal só houve uma que considerou maliciosa. Foi a de Rogério Casanova, no Expresso, ao livro Fúria Divina: “Vê-se que ali não há...há uma intenção destrutiva. Pronto, tudo bem, a pessoa escreve, é livre de escrever, a constituição dá liberdade da pessoa escrever o que lhe apetece. Desvalorizo.” A crítica foi tão marcante que Guilherme Valente afirma mesmo que “somos uma cultura cheia de «casanovas»”. No outro lado do Atlântico, onde haverá menos casanovas e as pessoas não conhecem José Rodrigues dos Santos enquanto figura pública, um crítico do Washington Post disse que O Códex 632 tinha “falhas graves”, que “a informação académica não é inerentemente dramática” e que “a escrita é preguiçosa e, por vezes, pateta”. O escritor defende-se “Sim, na América foi o país em que tive mais críticas negativas do que nos outros países, em que as críticas são geralmente positivas. Essa do Washington Post dá uma no cravo e outra na ferradura. Há questões que são relacionadas com a temática em si. Quando ele diz que há informações que não são inerentemente dramáticas, não são na América, mas em Portugal são. Quando temos informações de que Colombo era um judeu português isso é informação muito interessante para um português. Acho eu. Para um não português não é particularmente interessante, mas eu escrevi aquele romance para o leitor português. Em relação à escrita em si, temos aí um problema que tem a ver com a própria tradução.”

Regressando a Portugal, vemos que os romances mais “literários” (a expressão é de Guilherme Valente) – A Filha do Capitão, A Vida Num Sopro e, especialmente, O Anjo Branco, baseado na vida do pai do escritor, um médico que viveu em Moçambique – receberam elogios da crítica. Eduardo Pitta, no Público, escreveu que a narrativa de O Anjo Branco era de “uma clareza exemplar” e que o livro “tem lugar cativo na bibliografia essencial da guerra em África.” O escritor Urbano Tavares Rodrigues afirmou que o livro, um romance “belo, profundo e inteligente”, foi “uma surpreendente e gratificante revelação.” Nada que alimente as ilusões de José Rodrigues dos Santos quanto às suas obras, que acha que não irão sobreviver: “Nem as minhas nem as de ninguém. Alguém pensa que daqui a um milhão de anos ainda se está a falar do José Saramago? Eu gostaria que o meu nome sobrevivesse durante dez milhões de anos e que toda a gente me lesse religiosamente como a Bíblia, mas isso é uma fantasia, é absurdo. Não vale a pena estar a pensar nisso. O facto é que não sabemos o que vai acontecer.” Para Guilherme Valente, que também considera O Anjo Branco “um grande livro, a vários títulos”, “claro que há para aí iluminados que, maravilhando-se com o seu próprio umbigo, decretam hoje o que irá perdurar mais na história da literatura”. Com ou sem futurologia, o trabalho dos críticos ajuda a enquadrar uma obra num determinado contexto nacional ou literário. Por isso pedimos ao crítico e escritor Miguel Real que procurasse situar o trabalho de José Rodrigues dos Santos no conjunto da literatura portuguesa [ver caixa]. O próprio Rodrigues dos Santos não se coíbe de manifestar a sua opinião sobre Equador, de Miguel Sousa Tavares: “é uma obra marcante no século XX”. Para além de ter desmontado alguns mitos editoriais (como o dos livros grandes e caros não venderem), “mostrou que os portugueses em geral estavam dissociados das suas letras. Queriam ler e não compreendiam os seus autores. A obra é incontornável porque a partir desse momento ser um autor português deixou de ser um anátema.” Margarida Rebelo Pinto não tinha já feito o mesmo? “Sim, mas não me vai comparar com o Equador, no sentido em que os romances da Margarida Rebelo Pinto se destinam a um segmento muito específico do mercado. No caso do Equador é um romance aberto a todo o mercado.” Os seus livros acabaram por beneficiar desse efeito porque o livro de Sousa Tavares “criou um novo público que começou a aceitar os autores portugueses.”

É esse novo público que garante a José Rodrigues dos Santos um sucesso contínuo e incomparável. O escritor confirma que os próximos projetos já estão em marcha, apesar de não poder revelar pormenores. Afinal, o próximo segredo, que certamente não será o último, ainda é a alma deste negócio.

22
Jan16

Maria Adelaide

Bruno Vieira Amaral

Texto inédito que ofereci à RUC:

https://www.mixcloud.com/inesrodrigues/radioteca-7/

 

E Maria Adelaide? Ah, esse caso fora um deslize indesculpável, um entusiasmo juvenil quando já tinha passado dos cinquenta, idade em que sentia o vigor, por então já episódico, como uma experiência avassaladora. Sentia-se um animal e quanto mais essa sensação violenta o dominava, mais o seu discurso amoroso se refinava, quase explodindo em expressões ameaçadoras, superlativos, adjectivos que lhe amarravam os uivos: “não vou medir as palavras: foi brutal”, “você falou de beleza interior mas a sua beleza exterior…tocou-me de uma maneira, abalou-me…você é uma mulher lindíssima, Maria Adelaide.” Maria Adelaide tinha trinta e nove anos, dois filhos adolescentes, um casamento terrível com um indivíduo indigno, várias depressões e uma tentativa de suicídio no quarto da casa de família na Barra, onde passavam férias há várias décadas. Foi aí que César a reencontrou. Lembrava-se da filha do juiz, mas nunca imaginara que se tivesse tornado nesta mulher belíssima e com a medida certa de tristeza para lhe provocar um desejo incontrolável. O juiz Souto de Almeida convidara-o para um almoço depois de se terem cruzado numa conferência sobre a reforma dos tribunais, em Águeda. Quando a viu, o efeito foi demolidor: “uma aparição, um anjo”, haveria de protestar mais tarde, justificando a loucura temporária que então o afectou. A languidez de Maria Adelaide atribuiu-a César a qualquer coisa de lúbrico, ignorando a quantidade de medicamentos que a deixavam naquele estado apático, de sorrisos atrasados, de pequenos comentários que não revelavam nem inteligência nem comedimento, antes a incapacidade de Maria Adelaide intervir atempadamente e a propósito nas conversas. César, tesudo como um cavalo, prometeu, ao fim daquele almoço decadente, que Maria Adelaide não iria sofrer mais. Ele não o permitiria. “Você tem de ser tratada como uma porcelana da China. Você é uma mulher sensível…hiper-sensível”. Cada palavra que lhe saía da boca era uma confissão de derrota, o reconhecimento da impossibilidade de traduzir para linguagem aquele torvelinho de pensamentos cavernícolas, a vontade de violar Maria Adelaide, de a foder com uma violência selvagem que a libertasse daquela languidez e a mantivesse naquele estado narcótico, que ela se viesse gritando que nem uma histérica e que logo se acalmasse subjugada pela sua masculinidade. A filha do senhor juiz, por amor de Deus! O juiz, com um vagar bovino, comia sem se dar conta da perturbação do convidado. Só a sua excelentíssima esposa, com a infalível perspicácia feminina, via através de César, as suas intenções animalescas, e aquilo afectou-lhe o estômago, como se aquele homem estivesse ali para cumprir um desígnio terrível: raptar, violar e matar-lhe a filha e, quem sabe, fazer o mesmo com ela. A tudo isto Maria Adelaide era indiferente. Habitava alturas inacessíveis. Durante horas, falou com César, fumou quase dois maços de tabaco e quanto mais César se desencontrava com palavras aveludadas que não serviam para expressar os seus tormentos, mais Maria Adelaide vogava para longe, aproveitando a ondulação da voz de César, dos seus exageros, das suas metáforas pobres, seráficas e cerâmicas, anjos e loiças, enfim, da vulgaridade irremediável de um homem escravizado pelo desejo de foder uma mulher triste. Despediram-se. Nesse Verão, César ainda ligou várias vezes para casa dos Souto de Almeida mas não voltou a falar com Maria Adelaide. Às vezes tem dúvidas sobre a realidade daquele almoço de sábado na Barra, do cheiro a velas no hálito da excelentíssima esposa do senhor juiz, dos dois labradores que o senhor juiz tinha no quintal, do olho lacrimejante do senhor juiz, do seu cabelo amarelado, dos braços langorosos da filha do senhor juiz expostos por um vestido doméstico, da maresia, das manchas verdes que cobriam a areia, do nome de Maria Adelaide.

22
Dez15

Clausura

Bruno Vieira Amaral

O relato da clausura de Horácio Cardoso é o relato de um processo gradual de insanidade com intervalos pontuais de lucidez ou um processo gradual de lucidez com intervalos pontuais de loucura, intervalos fundamentais para que à força de tentar suprimi-los esses instintos não acabassem por dominar por completo aquele homem? A parede verde-escura, a falta de sol e de ar, os policiais que leu e que exasperavam uma imaginação já de si fértil, os apontamentos e as notas, frases sem sentido, inícios de romances que nunca iria escrever. Nessas tentativas incipientes de criação, até nos esboços de um caderno de memórias, Horácio notava, com o desencanto de quem se traiu a si mesmo, até que ponto a sua linguagem fora contaminada pela política e pela revolução. Afunilara a sua vida para uma existência meramente política e como que se amputara da linguagem da literatura que lera na adolescência, que a certa altura lhe parecera imaterial e risível, uma substância deletéria que entorpecia a vontade e afastava os homens da nobre missão revolucionária. Agora que tanto precisava dela, agora que essa linguagem readquirira aos seus olhos o prestígio, a nobreza, a força serena do que é escrito sem intenção de convencer ou de doutrinar, essa linguagem escapava-lhe e já não era apenas o seu corpo que se encontrava enclausurado mas também a sua experiência, os seus sentimentos, as suas ideias estavam condenados a permanecer dentro de si sem encontrarem as palavras através das quais se poderiam expressar. Cultivara o estranho e desesperado hábito de ver na parede, nos padrões do cadeirão, nos azulejos da cozinha, os filmes da sua juventude, quadros que conhecia de reproduções, o futuro. E nesse futuro via a tarde em que, após meses de cativeiro, sairia de casa, os movimentos tolhidos pelo tempo de inactividade, e seria como nascer de novo, a sensibilidade aguda aos ruídos, à luz, à cidade, caminharia com cuidado para que ninguém o pudesse identificar, pela avenida do Hospital e então para seu grande horror haveria de perceber que o mundo se esquecera de si, muitas coisas tinham ocorrido nesses meses, eram tantos os fantasmas nas ruas de Luanda que ninguém reparava naquele homem espectral, barbudo e desgrenhado. Teve a sensação claustrofóbica e aterradora de que se entrasse na esquadra e dissesse quem era, “Sou Horácio Cardoso, 26 anos, traidor procurado pela polícia secreta”, ninguém acreditaria nele porque numa cidade em que todos os dias desapareciam pessoas ninguém acreditava nos loucos que reclamavam identidades. Era difícil apurar a realidade das pessoas. Nos meses em que esteve encerrado naquele apartamento lembrava-se de ter recebido algumas visitas, antigos camaradas que também tinham escapado à polícia secreta, e das conversas intermináveis que mantinham e que se prolongavam pela noite fora, contra tudo o que o bom senso aconselhava. Havia semanas de grande afluência em que Horácio Cardoso de tão desgastado já nem sequer os ouvia, respondia-lhes de olhos fechados, acenava, assentia, e só por delicadeza não lhes pedia que se fossem embora, que o deixassem descansar, porque sabia que arriscavam muito indo ali e porque sabia o que lhe custavam as semanas em que não vinha ninguém. Em certos dias de calor, em que a parede ameaçava liquefazer-se, ouvia o barulho colectivo de uma multidão a aproximar-se, palavras de ordem gritadas por homens e mulheres de gargantas secas, depois os estampidos de tiros, rajadas de metralhadoras que rasgavam o silêncio das ruas como frutos para o desperdício, o tropel de gente em fuga, gritos de surpresa perante um horror subitamente materializado, até que tudo se cobria do silêncio atroz das cidades abandonadas à pressa e os espaços pareciam recobrar o fôlego num descanso breve, uma pausa a que uma voz conhecida vinha pôr termo, com o que de início parecia uma reza, um discurso litúrgico que, aos poucos, adquiria a cadência humana das conversas íntimas entre homens que há muito se conhecem mas que a vida afastou, Horácio escutava a voz radiofónica do mais velho a sussurrar-lhe palavras paternais que, no entanto, tinham no seio um núcleo indesmentível de ameaça, como um fruto muito doce que amarga junto ao caroço. A voz dizia-lhe que sempre soube que ele estava ali escondido, o Dinis era agente da Disa, ele próprio, o presidente, o destacara porque era um dos seus homens de confiança, não havia nada que não soubessem, conheciam todos os passos, dos amigos e dos inimigos, a que horas jantavam, escreviam, amavam, os momentos em que pensavam nessas coisas, os fantasmas e as dúvidas que lhes corroíam os espíritos, as violências que planeavam mentalmente, o ódio de que se alimentavam, cada cabelo que tinham na cabeça, cada grão de areia em cada praia, cada folha de cada árvore, nada lhes podia ser ocultado porque não havia nenhum homem que, posto perante a Lei e o Estado, não fosse transparente. Tudo o que eram, pensavam, escreviam e sonhavam para aquele país estava algures nas páginas de um relatório dos agentes da secreta e se não estava era porque não existia e o que não existia nem tinha de ser eliminado. Ouvia-se a si mesmo noutros tempos a catequizar as massas ignorantes, a contar-lhes a própria história em jeito de parábola bíblica, o filho pródigo, a semente de mostarda, porque a única linguagem metafórica que entendiam era a da Bíblia, então os revolucionários como ele liam a Bíblia à noite para pregar a revolução durante o dia. O que interessava é que resultasse, que as suas palavras lançassem luz sobre as trevas da ignorância alimentadas por séculos de opressão. A revolução não poderia falhar. “A Revolução é ciência. A Revolução é um acto moral supremo porque responsabiliza o Homem perante o seu Povo, perante a humanidade, perante a sua espécie.” Quantas vezes repetiu estas palavras, procurando negar o que à sua volta era evidente, o desleixo, a desorganização, a falta de ideias e, quando havia ideias, a falta de meios? Sobravam as palavras e uma convicção demoníaca, espiritual, fanática, na fantasia erguida por essas palavras. Ao ler os comunicados, as notícias nos jornais, as frases feitas, as fórmulas, o esqueleto do verbo sem a substância da verdade, ficava impressionado, como se de um momento para o outro uma complexa equação matemática lhe surgisse no cérebro com uma simplicidade violenta e transformadora. Afinal, era aquilo, a linguagem cifrada dos puros, “revolta pequeno-burguesa”, “tribalistas”, “acção reaccionária”, “as massas”, “os inflitrados”, “fantoches”, em todas as repartições, oficinas, empresas e serviços deverá ser posta uma fotografia do Camarada Presidente Agostinho Neto, símbolo da luta e da autoridade que esmagará o oportunismo e a ambição, “Viva a ditadura democrática revolucionária!” Viva, caralho!

03
Dez15

Pecados

Bruno Vieira Amaral

«Há quem seja tocado pela nostalgia apenas ao revisitar velhas fotografias de família, onde se constata que a morte, afinal, estivera desde sempre entre nós, ou os objectos sentimentais que nos recordam um tempo, uma pessoa, uma união. Porém, para mim o tempo reflui ao lembrar-me do armário mural (“de construção em aço inox com uma prateleira intermédia, fechado com portas de correr”) que me custou 600 euros e que vendi por 150 a um tipo que vivia destes negócios de ocasião e que me pagou em notas contadas com modos rapaces de negociante de feira, desapartando-as com um dedo sujo humedecido de saliva. Era acompanhado por um rapaz corpulento. Estacionaram a carrinha à porta do café. Desmontaram e carregaram o material com a ausência de sentimentos dos cangalheiros, e na lembrança do momento em que saíram vejo que o brilho final desse armário arde em mim com o fulgor das paixões humanas. Sinto o mesmo pelo frigorífico (“frigorífico misto branco com congelador e refrigerador”) que vendi à D. Laura, eterna vizinha da minha mãe. De todos os objectos daquele tempo, só não consegui vender uma caixa registadora. As banquetas que sobraram, ofereci-as ao Gouveia para decorar uns apartamentos que ele, sempre com um olho nos negócios, planeava arrendar a turistas. Uma ficou lá por casa e, de vez em quando, o meu filho usava-a como cavalo imaginário. A registadora permanece a um canto do quarto da minha adolescência, em cima de um pequeno móvel, em casa da minha mãe. Há pouco, reencontrei um dossiê com os despojos do meu fracasso: facturas, ementas, guias de remessa, fotocópias de cheques, talões bancários, folhas com o “recebi” e a rubrica do Dr. Nunes da Rocha. Pergunto-me se este memorial imprevisto terá alguma utilidade. A arrumação pode ser uma forma delicada de esquecimento. E, no entanto, as coisas estão ali. Vivas. Regresso a elas como um arqueólogo que já conhece a história. Nada é apenas plausível, hipotético. Aconteceu. Servem como prova os nomes das empresas, dos fornecedores, das ruas onde estacionei o carro, as salas onde fechei negócios, as datas em que autorizei, com a minha assinatura, que a desgraça se materializasse. Só depois desses factos duros regressam as impressões indocumentadas: um cão majestoso, a astúcia tranquila do Gouveia, um papagaio sonolento, o rasto efémero do capote esvoaçante do Toureiro, a memória imaginada de um tigre a passear-se num chão de ladrilhos, o corpo fantasmagórico de Magda e o amor que eu ainda sentia por ela desvanecendo-se em simultâneo ao ritmo de canções melancólicas que ela detestava e das palavras cruas que aprendera a recitar.»

 

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Excerto de Para Mal dos Meus Pecados, publicado na Granta nº 5

30
Nov15

Viver para sempre em Budapeste

Bruno Vieira Amaral

Vista de certos ângulos, e consoante a hora do dia ou da noite, Budapeste pode ser monumental ou acolhedora, mas nunca é monótona, nem mesmo quando as amplas avenidas de Peste lembram uma Paris deslocada. É banhada (ou dividida em duas) pelo título de um livro de Claudio Magris. Por aqui, o comunismo não goza de uma reputação tão extraordinária como na nossa varanda atlântica. Consta que, em 1956, os tanques soviéticos, porventura atraídos pelo magnetismo da cidade, a invadiram com o intuito de repor a ordem e esmagar os anseios líricos de espíritos que, entre outras futilidades, reclamavam o direito de viver em liberdade. A União Soviética respondeu com as razões da força blindada e, como estivessem em causa valores mais importantes do que a liberdade, procedeu a uma limpeza que deixou marcas nas paredes de alguns edifícios históricos e outras ainda mais difíceis de apagar na memória dos húngaros.

 

Ora, em Budapeste estamos em pleno coração da Mitteleuropa e se as ameaças de outros tempos já não se fazem sentir a verdade é que passeando pelas ruas vazias à noite somos assaltados pela sensação de sermos seguidos pelo fantasma de um arquiduque, de um conde infeliz ou de um fervoroso poeta nacionalista do século XIX. Em Peste, onde tiveram a gentileza de me instalar num hotel cujo recepcionista era tão simpático como um Habsburgo a quem tivessem subtraído um terço do império, abundam as estátuas. Creio que é justo dizer que esta cidade sofre de um distúrbio mental que classificarei de statuamania. De acordo com dados que pude recolher junto de um escritor local, a proporção é de uma estátua para cada dez habitantes de Budapeste, mas o governo já prometeu corrigir esta situação e, até final do ano, espera-se que todos possam usufruir da sua estátua privada. As estátuas honram figuras muito respeitadas e conhecidas (como acontece em todo o lado), mas também personagens de ficção (é verdade). Algumas homenageiam os que tombaram na I Guerra, outras, os que tombaram na II Guerra e, outras ainda, os que tombaram à entrada de um bar de escadas a pique ao qual fui levado por um membro da organização. Como bom português, organizo a minha vida em função da hora das refeições e quando, por efeito de alguma força exterior, tenho de prescindir de um almoço ou jantar, o mecanismo que rege o meu funcionamento entra em pré-colapso. Por isso, ao entrarmos no Unnia Bistrô, tratei de saber se era possível comer alguma coisa, visto que não tinha jantado. A questão foi traduzida, e embora o catálogo de expressões faciais de cada país nem sempre corresponda ao dos outros povos, creio que a reacção do empregado não teria sido de maior perplexidade caso o tivéssemos convidado para nos acompanhar numa caçada a búfalos nas ruas de Budapeste. Ainda atordoado pelo estranho pedido, disse-nos que poderia servir batatas fritas, mas da sua entoação e postura não transpirava nenhuma vontade genuína de o fazer. Acabámos, pois, por nos alimentar com um cálice de pálinka e uma cerveja do tamanho de um uigure de dez anos.

 

Gostaria muito de falar sobre o que aprendi acerca do processo de destilação através do qual se obtém o líquido precioso a que por estas paragens se dá o nome de ressonâncias futebolísticas de pálinka. Sempre que não se estão a combater ou a redesenhar fronteiras, estes povos têm por hábito aproveitar os frutos com caroço não para os comer mas para produzir aguardentes de elevadíssimo, malcolm-lowriano, teor alcoólico. Esta é uma explicação possível para a falta de vitamina C que afecta a população. Em meados de Março, devido à falta de sol e por canalizarem a fruta para a produção de pálinka, os húngaros sofrem do “cansaço da Primavera”, uma espécie de desmotivação geral, um quebranto físico, combatido com o consumo de grandes quantidades de repolho. Esta síndrome primaveril torna a Hungria um país particularmente vulnerável a incursões de exércitos inimigos a não ser que estes enfrentem outros problemas particulares, como alergias, ou tenham pruridos morais em atacar um território cujos habitantes se encontram debilitados pela melancolia.

 

Como estava a contar, no referido estabelecimento não havia comida e a oferta envergonhada do empregado gerou em mim a suspeita de que ainda teria de apanhar os tubérculos nas planícies da Panónia, o que àquela hora poderia ser uma actividade demorada. Devo dizer que já visitei muitos bares deprimentes em todo o mundo – aliás, fui gerente de um – porém este Unnia não perde para nenhum deles. Havia música ao vivo. Os músicos esforçavam-se por animar o ambiente com músicas de Johnny Cash, Bob Dylan e alguns clássicos contemporâneos da pop húngara que, compreensivelmente, o mais longe que chegam é à outra margem do Danúbio. O público estava entusiasmado, sem dúvida, batendo palmas e acompanhando as letras com nítido regalo. Que esse público fosse constituído por duas escassas adolescentes que, no intervalo das canções, trocavam galanteios e suspiros com os músicos, deverá ser atribuído ao adiantado da hora e ao dia da semana – uma quarta-feira – em que o espectáculo se realizava. Pouco depois, a audiência duplicou com a entrada de um casal. Saudaram os presentes na sala, olhando com desconfiança para a mesa em que eu e os meus companheiros de infortúnio – também eles portugueses – estávamos sentados.

 

Permitam-me uma interrupção narrativa para elaborar sobre o episódio relatado. Concedo que este incidente do bar, e mesmo o ambiente um tanto sórdido, roça o cliché e pode ofender o leitor que não se satisfaz com a exuberante mediocridade da cena. Acontece que, quando no estrangeiro, os nossos sentidos são bombardeados por constantes novidades e expostos a estranhos estímulos que, para os que a eles estão habituados ou os que ainda não os experimentaram, parecem desprovidos de valia noticiosa ou narrativa: a moeda (ali ainda subsiste teimosamente o forint), o nome das ruas, o traçado urbanístico que, para o neófito, é sempre labiríntico, os códigos regionais do olhar e dos gestos, os transportes públicos (o arcaico sistema de controlo de entradas no metro obriga à existência de uma brigada de revisores), os semáforos, renovam a nossa capacidade de observação e de espanto, como se fôssemos em simultâneo crianças maravilhadas e primitivos com receio do mundo exterior. Arrisco dizer que os grandes escritores são aqueles que observam os cenários mais familiares e costumeiros com a mesma atenção, curiosidade, estranheza e temor do homem que visita uma cidade estrangeira pela primeira vez.

 

Aproveitando uma pausa na atuação dos músicos e depois de uma luta assanhada com a cerveja, saímos do Unnia. Como a música pode alimentar a alma mas não o corpo, eu continuava com uma fome atroz. À falta de alternativa, dirigimo-nos a um quiosque onde um primeiro e esperançoso olhar não encontrou a naquele momento tão querida presença de uma bifana, ou mesmo de um hambúrguer, sequer de um cachorro. Juntando isto à ligeira diferença horária e ao já referido forint, tem-se uma ideia do sentimento de exílio que me abalou. Naqueles instantes em que, faminto, procurei a portuguesa bifana, a minha pátria era aquela fatia de carne de porco, tantas vezes menosprezada.

 

- Aqui servem lángos – disse-me o meu interlocutor e, de seguida, transmitiu-me umas noções básicas sobre esse alimento com que eu me preparava para aconchegar o estômago. Também esperei que a explicação fosse acompanhada de pequenas curiosidades colhidas na história universal do lángos, de como algum rei macedónio morrera engasgado ou de como tinham vencido os otomanos assestando-lhes lángos nas muçulmanas ventas, mas o nosso cicerone desconhecia em absoluto a origem histórica deste pitéu. Isto tranquilizou-me. Quando nos deslocamos ao estrangeiro, quem nos recebe – ainda que imbuído do mais nobre espírito da hospitalidade – faz questão de enquadrar tudo, de aproveitar uma porção de chucrute para perorar sobre a agricultura local, uma cerveja traz uma lenda, uma árvore centenária evoca um mito do folclore. Vai-se a uma casa de banho e é quase certo que, nas imediações do urinol, algum general setecentista se sacrificou pelo povo. Talvez estes rituais explicativos sejam uma interacção humana banal e o problema esteja em mim; porém, estes hábitos fazem com que, além da desorientação do provinciano, sinta que é tudo tão historicamente importante que tememos que, ao partir um copo ou puxar uma porta que devíamos empurrar, estejamos a incorrer numa dessas violações inadvertidas de códigos sociais dos autóctones, ou a destruir uma parte inestimável do património colectivo e, com o nosso gesto inocente, espoletemos um processo de implosão que conduzirá ao fim apocalíptico de uma nação milenar.

 

Bem. Então pedi o meu lángos, uma base de massa frita coberta de sour cream e de ingredientes à escolha do freguês, do universal queijo ao típico chouriço húngaro. Enquanto o senhor do quiosque preparava esta arma de destruição maciça, aproximou-se de nós um grupo de quatro jovens, duas raparigas, um rapaz e um hipster, sendo que uma das moças vinha em custosas negociações com a gravidade que foram abruptamente interrompidas quando a cadeira de pé alto a que se encostou ganhou vida própria e avançou uns dez centímetros. Esta deslocação maldosa de um objecto só aparentemente inanimado forçou a jovem a assumir uma posição horizontal da qual foi resgatada pela companheira enquanto o mancebo e o hipster gargalhavam em convulsões magiares dizendo o que presumi ser o equivalente em húngaro a “Ai, Jesus! Tu viste-me esta queda, ó Lazslos? Ai que caralho!” Assim que se recompôs, desiludida com a falta de solidariedade geracional, a rapariga afastou-se nervosamente do local e, por segundos, temi que se fosse lançar nas águas do Danúbio, situação na qual, se tivesse ocorrido, eu não lhe poderia ter sido de grande ajuda porque não sei nadar e também porque reparei que o lángos estava pronto com todo o aspecto obsceno, caótico e clinicamente reprovável esperado pela minha fome. A fome, meus amigos, é negra – e sem mais cuidar do paradeiro da funâmbula, lancei-me que nem um Huno sobre o desamparado e gorduroso acepipe. Dispenso-me de vos oferecer uma recensão gastronómica sofisticada pois a fome não apura o sentido crítico de ninguém, antes o obnubila. Regressei então ao hotel President, na Hold Utca, farto que nem um camponês, pensando no que o dia seguinte me reservava.

 

A manhã começou com um bizarro acontecimento no hotel. Dirigi-me ao piso -1 com a firme intenção de tomar o pequeno-almoço – refeição considerada por todos os nutricionistas, e pela minha avó, a mais importante do dia – e fui impedido de concretizar o meu singelo desejo por um sujeito com ar de guarda-costas de um oligarca russo. “Your room, no breakfast. You must pay.” Palavras carinhosas embora telegráficas emolduradas por um olhar repressivo. Dei meia-volta, argumentando que ia buscar dinheiro mas sabendo que não regressaria àquele templo furiosamente vigiado por este Cerbero de uma só cabeça, embora não menos assustadora do que a do seu homólogo mitológico. No átrio, os meus companheiros esperavam-me. Perguntaram-se se tinha tomado o pequeno-almoço. Disse-lhes que sim e por isso estranharam quando, minutos depois, pedi que entrássemos num café para mordiscar qualquer coisinha. Para essa manhã, estava prevista a nossa primeira actividade oficial. Um encontro promovido pela associação de jovens escritores húngaros em que seriam discutidos temas que desde Homero têm preocupado esta classe muito peculiar de indivíduos: qual o papel do escritor na sociedade e qual é o objectivo da escrita?

 

Duas notas: qualquer escritor, por jovem que seja, que se aliste numa associação de escritores ganha automaticamente 20 anos, pelo que é muito natural que uma associação destas seja composta por antiquíssimos jovens autores; ninguém bem-intencionado acredita que as respostas àquelas perguntas sejam encontradas num belo dia de Primavera em Budapeste misturando as opiniões aleatórias de 20 escritores que na maioria se exprimem em inglês técnico. Ou seja, a utilidade de uma tal discussão é quase nula. Alguns acham que tem a virtude de pôr em contacto pessoas de outros países e outras culturas, mas a verdadeira vantagem que detecto é a confirmação de que a estupidez, as opiniões banais e formatadas, distribuem-se com alguma harmonia por todo o lado e não poupam esta elite de iluminados pontas-de-lança do pensamento com que pessoas mais ingénuas ainda insistem em confundir os escritores. Eu contribuí com as minhas e não me arrependo disso. É raro termos pensamentos originais e é certamente duvidoso que os mesmos nos ocorram numa reunião tão formal. Pode aproveitar-se uma boutade, uma piada, mas o risco de sermos atingidos por um pensamento sério nesse contexto é reduzido. Mais facilmente seríamos atingidos por um dos quadros expostos nas paredes do belo edifício onde se realizou o encontro, o Museu da Literatura Petófi. Sándor Petófi é uma espécie de Camões dos húngaros, no sentido de poeta nacional, embora a época em que viveu o aproxime mais de um Almeida Garrett. Diz a lenda (e Claudio Magris) que a mãe de Petófi não sabia falar húngaro. A minha, que eu saiba, também não. Petofi morreu, em 1849, numa das batalhas pela independência da Hungria do império austríaco, destino ao qual pretendo escapar.

 

Sentámo-nos em três longas mesas rectangulares, o que pela primeira vez me despertou para a realidade de estar em representação do meu país e, carregando nos ombros tão pesada responsabilidade, ter achado ser meu dever contribuir para dar de Portugal uma imagem completamente errada, mistificadora e irreal. Olhando para trás, creio que atingi o meu objectivo e que os meus companheiros do Festival do Primeiro Romance ficaram com uma ideia muito pior do que o nosso país é na verdade. Espero que isto me valha uma condecoração no futuro. Bem. Ministerialmente sentados, apressámo-nos a discutir esse magno tema do papel do escritor na sociedade. Um moderador húngaro lançou o debate e a primeira intervenção foi também de um escritor húngaro que se expressou fluentemente num inglês que classificarei de imaginativo, pontuado de expressões idiomáticas húngaras que o moderador procurava acomodar o melhor que podia, enfiando com a arte possível os pedacinhos de goulash no hamburguer linguístico do compatriota. Se não estou em erro, o italiano tomou de imediato a palavra e lançou-se numa bem-sucedida crítica à sociedade italiana, à falta de cultura dos seus compatriotas e aos seus miseráveis hábitos de leitura. Elevou a dificuldade do exercício tentando dizer todas estas coisas sem referir o nome “Berlusconi”, desiderato que não conseguiu atingir pois, já perto do final da sua intervenção imaculada o “Berlusconi” saiu-lhe em borbotão. Depois de denunciar Berlusconi ficou aliviado e estendido no chão porque foi como se um ginasta, depois de um desempenho perfeito nas argolas, tivesse aterrado de cabeça no tapete. Ele lá se orientou como pôde. Considero que foi das prestações mais decentes.

 

De seguida, falou o francês. 47 anos, rosto de trinta e poucos, fatinho beige, mocassins, Mathias Menegoz estava tão em casa como um Espírito Santo nas festas populares da Cruz de Pau. A sala onde nos reunimos cheirava nitidamente a classe média; na maioria dos rostos via-se a crença feroz na salvação pessoal através da literatura, uma cambada de mortos de fome contentes por um passeio no estrangeiro à boleia de um primeiro livreco, mas o odor do igualitarismo não rodeava o fidalgo Menegoz que disse logo que o escritor não tinha qualquer dever de comentar a sociedade (concordo), que estava farto dos escritorzões franceses vítimas da síndrome de Vítor Hugo (concordo), que a censura até faz bem aos escritores porque os obriga a arranjar alternativas e truques de escapismo (aqui começou a delirar), considerando que os riscos reais que correm, por exemplo, ao escrever em regimes totalitários são uma forma, perversa, concedeu, de fazer refulgir o génio, chegando mesmo a comparar a censura aos constrangimentos formais de um soneto, o que seria uma excelente analogia se houvesse registo de algum poeta alguma vez ter sido fisicamente torturado, mutilado, assassinado e atirado para uma vala comum por um soneto petrarquiano. Sobre este assunto, recomendo a leitura de um ensaio de James Wood sobre o livro Paixão Intacta, de George Steiner, especificamente sobre um dos ensaios desse livro, em que Steiner argumentava na mesma linha do nosso conferencista francês mas tendo Steiner a desculpa de ser Steiner, de ter escrito o ensaio nos anos 70 e de não ter pedido desculpas como prontamente fez o primeiro-romancista que, afinal, não queria equívocos e claro que achava que escrever em certos países envolve muita coragem e pode não fazer lá muito bem à saúde, etc. Ou seja, Monsieur Menegoz deu uma valente dentada na sandes de courato e a nuvem plebeia venceu a resistência da cúpula invisível que o protegia e o homem lá ficou democraticamente enojado (a meio saiu com um ataque de tosse). Antes de abandonar a reunião, informou-nos que era investigador na área das neuro-ciências passando os seus dias a, como fez questão de repetir inúmeras vezes, “pulling brains out of rats”, com aquele sotaque franciú que sugere um certo nojo na utilização de um idioma alheio, como se estivesse a tentar remexer um balde de detritos com o mindinho. Uma bela manhã parisiense, entediado como um Carlos da Maia no seu consultório de cartão, resolveu que aquilo não o satisfazia e fez o que qualquer mortal faria no seu lugar aos quarenta e tal anos: foi pedir dinheiro aos pais. A reacção do progenitor poderá chocar os mais sensíveis: não só o homem se dispôs a financiar bastamente o empreendimento literário do filho como ficou muito entusiasmado com a perspectiva de, finalmente, ver resultados palpáveis do seu trabalho. Antes que pensem que estou aqui armado em Robespierre e quis instaurar o Terror naquela sala devolvendo o pobre Mathias ao l'hexagone ao melhor estilo Marie Antoinette, devo dizer que nenhum preconceito me movia e que, no trato pessoal, este cabrão chauvinista foi de uma grande correcção protocolar e até de uma simpatia aparentemente genuína, mesmo sabendo eu que gente desta estirpe é exímia a dissimular desde tenríssimas idades.

 

O belga, sei lá, disse qualquer coisa que na literatura belga, ou talvez só na flamenga (eu já acho o mundo complicado vivendo num país de fronteiras estáveis e nacionalidade de hímen mais ou menos intacto – um bocadinho de pressão dos espanhóis e tal, nada definitivo – mas em convívio com estes maduros da Europa Central chego a ter pena deles) existe muita masturbação, ao que eu, com o excelente sentido de oportunidade que me caracteriza, respondi dizendo que na vida também isso acontece; portanto, as coisas equivalem-se. Depois de despacharmos este assunto, logo outro se apresentou às nossas brilhantes cabeças: “qual o objectivo da escrita”, um assunto que gerou contribuições da mais elevada valia intelectual mas que infelizmente não foram registadas para a posteridade. Quer dizer, não se perdeu o mesmo que na destruição da biblioteca de Alexandria, mas as acusações que a escritora ucraniana de origem polaca ou polaca de origem ucraniana mereciam os séculos vindouros. De estupenda cabeleira leonina, discordou de tudo o que eu dissera. O que é que se passa com estes ucranianos, pensei. Não conseguem estar em paz com ninguém? Eu disse-lhe “Svetlana (o nome dela era outro), ouve lá, cuidado com essas merdas que eu não sou o Putin”, mas tudo acabou razoavelmente bem.

 

Para aligeirar o ambiente, interveio o representante esloveno, Davorin Lenko, que com o seu pesado sotaque transilvano, um doutoramento em literatura pós-moderna e um cabelo de motard finlandês, conquistou logo a minha preferência entre todos os concorrentes. Como eu dizia, introduziu uma nota ligeira, falando sobre o tema do seu livro: cancro nos testículos e castração. Ora, o Davorin perdeu-se um pouco na história dos tomates e eu, certamente por sugestão, fui acometido de uma súbita e imperial vontade de mijar, talvez para comprovar que o filho da puta do esloveno, sabe-se por lá que negras artes daquelas regiões, não andava ali à procura de peças em segunda mão para a sua personagem desafortunada.

 

Apreciei muito a interpretação da concorrente holandesa. É impressão minha ou as holandesas têm um ar de perpétua disponibilidade fodal? Eu olho para as mulheres holandesas – sejam escritoras, a rainha ou o Van Persie – e os gestos... bem, perco-me. Entretanto, o húngaro achou que ainda não o tínhamos incompreendido o suficiente e confundiu-nos ainda mais com uma segunda intervenção que, de acordo com os conhecimentos gastronómicos que adquiri mais tarde, era uma mistura de főzelék com lángos. O homem estava possuído, falava num tom de voz de medium da Carpátia, pausado e olhando em volta da sala como se o discurso lhe estivesse a ser ditado por um ectoplasma a vaguear pelas paredes do museu. Outra escritora, esta muito nova mas com um inglês do nível do colega (em comparação nós, portugueses, apesar de todas as liberdades no nosso inglês de pirata, somos tão destros na língua de Shakespeare como o próprio bardo), também falou, trocou-se, pediu desculpa, quase chorou, não sei bem porquê e eu olhava para o francês, a sua fleuma a ocultar uma aflição interior, e pensava que nós, europeus, somos todos malucos. Porque, não contentes com o facto de termos sido convidados para discutir estes assuntos prementes, no dia seguinte teríamos de participar em painéis tais como: “O Ocidente e o resto: perspectivas do desenvolvimento ao nível das mais variadas situações”.

 

Tocou a campainha para o almoço e fomos para a esplanada no jardim do museu. Partilhei a mesa com o francês, o cipriota e o húngaro. Foi uma conversa animada em que, se percebi bem, o húngaro atacou o governo húngaro, o cipriota defendeu Michel Houellebecq e o francês atacou o compatriota. Louvou-lhe as qualidades literárias mas confessou ter ficado em choque quando, certa vez, jantou em casa do polémico romancista e encontrou restos de sanduíche no sofá. O cipriota não se convenceu: “So what?”, perguntou em verdadeiro estilo de rufia mediterrânico. O francês argumentou que uma tal desorganização e falta de higiene era a prova irrefutável de uma mente doentia, e sobre mentes, doentias ou não, ele sabia muito porque, como fez questão de repetir, passara uma parte substancial da vida “pulling the brains out of rats.” Ao almoço serviram-nos o muito típico panado de frango com batatas fritas, uma escolha sensata e ao gosto universal para não ferir os paladares mais sensíveis.

 

Enquanto os outros participantes regressaram pontualmente à sala, eu, o cipriota e o francês ficámos mais uns minutos usufruindo do inusual sol húngaro, bebendo café (o francês bebeu um chá mais adequado à sensibilidade do seu estômago infantil) e praticando aquela arte de apreciar a vida enquanto os outros cumprem os seus deveres, que creio ser a única coisa em que os povos meridionais são verdadeiramente civilizados. Só espíritos insensíveis, calcificados por climas inclementes e doses cavalares de protestantismo, têm a coragem de desaproveitar estes minutos de uma leveza diáfana em que nada se produz, nada se acrescenta à civilização material, nenhum pensamento nos obscurece a mente, e somos apenas telas aptas a registar as mínimas variações ambientais: uma aragem, a sombra de um pássaro no chão, o rebrilhar do sol na bandeja de um empregado imóvel. Como o café não estava incluído na refeição, o cipriota, engenheiro naval, pagou. Foi um momento de quase perfeição, em que alguma antipatia que pudéssemos nutrir contra o francês se dissipou, como se os raios solares e a temperatura amena se tivessem encarregado de o despir de alguma soberba, revelando-o como o que era, um rapazinho bem de quarenta e tal anos com a timidez do privilégio que é sempre, sabemo-lo bem, um reconhecimento de culpa, um desejo fundo de arrependimento inoculado por uma educação que ensina, desde muito cedo, a não esfregar na cara dos outros a superioridade da sua condição. Se me é permitida a digressão lateral, é essa educação que, muitas vezes, falta ao homem que sobe a pulso na vida e não resiste, daí para a frente, a contar – empolgado – as vicissitudes da sua ascensão, agravando misérias iniciais e exagerando conquistas recentes. Sou, neste particular, um adepto da mediocritas, de observar e avaliar a nossa vida com um certo desprendimento, para não nos enamorarmos dessas conquistas sempre tão precárias e para fruirmos das memórias dos primeiros tempos, nem sempre tão hediondos como conviria à narrativa do patinho feio.

 

Regressámos à sala de reuniões e ao tema do objectivo da escrita, por que escrevemos e assim. Nestas coisas o melhor é pegar em frases conhecidas, já testadas, e aplicar-lhes uma corzinha pessoal. Foi o que eu fiz, citando impunemente Nelson Rodrigues, Saul Bellow e Lobo Antunes. Se pensaram que as ideias eram minhas, azar o deles – embora daí também não venha mal ao mundo. Estávamos no ponto de discutir a actual obsessão com a escrita autobiográfica, sobre os limites da ficção e as algemas da realidade (o francês, mantendo uma coerência notável, afirmou que quis escrever um livro que se afastasse o mais possível da sua experiência pessoal que, como nós já bem sabíamos, consistira em “pulling brains out of rats”. Porém, o seu desgosto era menos dirigido contra o seu passado científico-laboratorial do que contra esse hábito plebeu, pé-rapado, de escrever sobre a vidinha de merda que se tem. Então inventou uma personagem, um conde húngaro do século XIX que regressa à aldeia natal, um lugarejo perdido na Transilvânia, onde é tudo muito feudal e arcaico. Repare-se neste movimento: quando poucos tinham acesso a relatar as suas vidas por escrito, as confissões eram um género necessariamente elitista. A partir do momento em que se democratizou o acesso à escrita, escrever sobre a própria vida cheira a perfume barato e os fidalgos fogem para as fantasias ou para a História, onde ficarão a salvo da pestilência auto-centrada da classe média.)

 

O finlandês, que chegara depois do almoço, (e que trazia uma t-shirt com estes dizeres pouco impressionantes quando se visita uma país como a Hungria – “I speak Finnish. What’s your superpower?”), disse que estava a escrever um livro sobre a sua família, adiantando que numa família de fotógrafos era ele o único escritor e que queria transmitir através da escrita as emoções que sentia ao rever velhas fotografias familiares. Toda esta conversa meio sentimental deve ter irritado os germano-falantes (Franz Friedrich, alemão, e Heinz Helle, suíço de Zurique) que trataram de devolver alguma seriedade à discussão, mais logos e menos pathos, vamos lá perceber os limites da linguagem, e qual a ligação entres as palavras e os objectos, entre as ideias e o mundo exterior, quando escrevemos não nos limitamos a arranhar a superfície do real? Foda-se, ó Wittgensteins, vamos lá com calma, pensei eu, mas os argumentos eram tão intrigantes e esotéricos que ninguém se atreveu a contestá-los, até porque contestar alguém que fala alemão é pedir que sejam despejadas sobre nós 50 megatoneladas de palavras compostas de um idioma criado para se filosofar quando só podemos responder em português, uma língua excelente para criticar os vizinhos, versejar com diminutivos e desabafar, mas francamente inútil quando se trata de justas internacionais de filosofia.

 

Confesso que, a partir desse momento, os meus níveis de atenção caíram a pique e passei a maior parte do templo a contemplar a mesa redonda a um canto da sala, com as garrafas vazias de água mineral, as cor-de-rosa sem gás, torres de guardanapos e copos emborcados, distraído, enquanto, vim a saber, a escritora norueguesa desenhava os nossos rostos num moleskine. Finalmente, saímos do museu. Lá fora, à entrada, sentia-se um ar fresco que, após várias horas encerrados numa sala, revigorava. Trocámos opiniões, frases de circunstância, esclarecemos alguns equívocos para assegurarmos que, apesar de algumas ideias mais arrojadas, éramos perfeitamente inofensivos e bem-intencionados.

 

Fui com o outro escritor português presente no certame até à Vorosmartyr Tér onde havia grande animação, com múltiplas barracas de artesanato, palcos onde bandas tocavam música cigana, quiosques de doçaria e de comida mais robusta, como pernil de carneiro, e enormes sertãs, onde dezenas de batatas boiavam apaticamente em molhos espessos e condimentados. Procurei comida menos agressiva, mas priápicas salsichas espreitavam de formidáveis pães, nacos de carne pendurados por fios grossos como cordame de navios pendiam ameaçadoramente como se se destinassem a saciar a fome de toda a Hungria, espetadas gargantuescas, pimentos recheados e os inevitáveis lángos, ainda mais pletóricos e repletos, compunham um banquete destinado mais a ogres do que a seres humanos. Passámos defronte do Gerbeaud, café que me fora recomendado por todas as pessoas que tinham visitado Budapeste, mas que, à excepção da atmosfera conspirativa que emana de todos os estabelecimentos abertos ao público nesta área da Europa, me pareceu despudoradamente turístico, tão aborrecido como a nossa Brasileira, que à conta de um prestígio pretérito e datado, é frequentada por hordas de turistas desejosos de experimentarem o típico, o antigo e o clássico, julgando que aquele café é uma metonímia do espírito da cidade ou qualquer merda desse género. Não é. Sentámo-nos numa esplanada, eu a beber uma cidra, ele, uma cerveja, e ficámos assim, silenciosos, embalados pela respiração da cidade que nos banhava indolentemente.

 

O programa desse dia estava quase a chegar ao fim, faltando apenas a recepção oficial no pavilhão principal do Festival Literário, em Buda. Apanhámos o metro e foi aí que confirmei a quantidade de revisores, mais numerosos que um exército persa, capazes de por si só taparem o sol se as suas funções não fossem subterrâneas. À saída do metro, um caos de obras, tapumes, maquinaria pesada. Porém, faltavam aqueles grupos tão portugueses de reformados que se juntam para apreciar em directo o progresso das obras; uns acompanham sonhadoramente a trepidação do martelo pneumático, outros de cenho crítico, mas ambas as categorias dão palpites. Creio que é um fenómeno nacional que, na minha humilde e anti-alentejana opinião, não fica atrás do cante como expressão única do sentir de um povo. Merece ser património imaterial da humanidade e teríamos todo o gosto em exportar centenas de especialistas na observação de obras que ensinariam aos restantes europeus essa arte de espreitar pelos tapumes, de se encostar às cercas sem cair num buraco. A noite estava muito agradável, quase tropical para os parâmetros da Europa de Leste.

 

O jantar-volante decorreu no pavilhão Millenaris. Os seguranças de postura vagamente homicida, a iluminação sombria, as pesadas cortinas negras à entrada e os arranjos florais fúnebres junto do palco criavam uma atmosfera geral tétrica embora não totalmente desprovida de esperança, como um baile de finalistas em que o sistema de som não funcionasse. A maioria dos convidados estava vestida a rigor e era notória a sensação de privilégio por se encontrarem ali. O ruído de fundo de vozes e de talheres era hesitante, como se a qualquer momento pudesse ser interrompido pela chegada de uma dessas personalidades que impõem, pela sua simples presença, um silêncio elétrico que lhes abre passagem, e deixam na sua esteira onomatopeias de espanto e cochichos de admiração. Mas não apareceu ninguém de tal calibre. À excepção dos que estavam entretidos a falar junto da entrada, os restantes convidados formavam uma cordilheira que impossibilitava o acesso às mesas da comida. Ao fim de várias tentativas de escalada e perfuração, lá aproveitei uma brecha para alcançar a carne de porco e outras coisas que, apesar de desconhecidas, pus no prato temendo não ter outra oportunidade de me aproximar das mesas. Criados meio sorumbáticos passeavam-se com bandejas pelo recinto oferecendo copos de um excelente vinho húngaro. Acomodámo-nos numa mesa, pedindo licença aos comensais que a tinham ocupado. Um deles, percebendo que éramos portugueses, expressou-se num idioma estranho com remotas semelhanças ao português do Brasil adquirido, pelo que percebi, na temporada em que o sujeito fora responsável pela fábrica de uma multinacional alemã em território brasileiro. Falou em samba e água de coco e tentou explicar-nos onde se situava a tal fábrica mas, à terceira tentativa, sem que soubéssemos se tinha sido em Itapuã, Adoniran, Pindamonhangaba ou Xirapatã, emitimos um expletivo e conhecedor “oh” como se estivéssemos mesmo a ver onde é que era a tal cidade, poupando o nosso interlocutor a um novo esforço e contribuindo para uma ideia completamente errada acerca do seu domínio do idioma, que era bastante rupestre. Ao terceiro copo de vinho húngaro, como nos acontecimentos inopinados dos sonhos, dei por mim a falar sobre os entraves burocráticos da administração pública portuguesa e, ato contínuo, sobre lutas de cães.

 

Após o jantar, regressámos a Peste. Saímos na estação de metro junto do Parlamento onde tirei umas fotografias de que não me envergonho. A caminho do hotel, passámos pela estátua do malogrado Imre Nágy que, na altura da revolução falhada de 1956, ocupava o cargo de primeiro-ministro, à revelia dos soviéticos. O seu objetivo político era que a Hungria saísse do pacto de Varsóvia e fosse reconhecida pela comunidade internacional como um estado neutral. Apesar de marxista (e, como provam as fotografias, de poder ser confundido com um qualquer parente afastado dos irmãos Marx) recusava a ortodoxia soviética. Pagou essa ousadia com a vida. Em 1958 foi capturado pelas tropas soviéticas, julgado e condenado à morte por enforcamento. Foi enterrado numa campa não identificada. Há quem diga que o facto de a estátua se encontrar a meio de uma ponte (que é também parte do conjunto escultórico) simboliza o percurso de Nagy até meio da liberdade. Numa primeira apreciação, concluí que seria mais a do meu homem dividido entre a ideologia em que acreditava e a lealdade e amor pelo seu povo. Um dos elementos do nosso grupo chamou a atenção para o facto de a figura olhar para a esquerda, o que também mereceria uma interpretação, mas não àquela hora em que nem sequer estávamos em condições de apreciar a histórica ironia de haver uma estátua de Ronald Reagan junto ao monumento que assinala a libertação da Hungria pelas tropas soviéticas perto do final da II Guerra Mundial. Quando entrei no meu quarto de hotel, dei graças pelo repouso que me aguardava.

 

Na manhã seguinte, dirigi-me com algum receio ao -1 mas, desta vez, não fui importunado por nenhum capanga eslavo, nem por qualquer outro empregado do hotel. Entrei, sentei-me, bebi uma chávena de café, e preparei um croissant besuntado com uma compota não excessivamente idiossincrática, antes com aquele sabor universal e plastificado que desagrada ao menor número de pessoas. Abandonei o local sentindo o orgulho injustificado e um tanto rústico de quem enganou as autoridades. Os meus planos para essa manhã passavam por assistir à conferência de imprensa da mega-estrela internacional, Jonathan Franzen, convidado de honra do festival e que, na noite anterior, já fora agraciado com uma condecoração – e, se a hospitalidade húngara quer ganhar pontos, com duas putas no quarto. Solicitei uma acreditação porque, depois de ter escapado à canina vigilância do hotel, pensei que seria abusar da sorte entrar à portuguesa na sala onde se iria realizar a conferência. Ora, foi mesmo isso que o meu homólogo belga fez, e ainda se gabou da sua destreza olhando com uma certa comiseração para o cartão plastificado que eu prendera à camisa e que dizia Press. Esperámos uns minutos e então surgiu Franzen montado numa triunfal timidez. Depois de uma troca de palavras e sorrisos com o editor húngaro (que é não só o mais importante editor húngaro como pai da ex-namorada do meu tradutor; pode certamente contar com uma estátua), sentou-se, simulando um ligeiro desconforto e desadequação, como as grandes estrelas de Hollywood que de vez em quando fazem um filme independente. O moderador da conversa prometeu não fazer perguntas demasiado medíocres. Franzen tomou a palavra e manifestou a sua surpresa pela forma como os escritores são tratados na Europa – condecorações e conferências de imprensa – e disse que nos EUA ninguém quer saber das opiniões dos escritores para nada. Concordo que nunca passaria por nenhuma cabeça capitalista convocar uma conferência de imprensa de um escritor a não ser que fosse para anunciar uma mudança de sexo ou confessar a participação no assassínio de JFK. O que depreendi das palavras do autor de Liberdade – e posso estar errado, é claro – é que a Europa se comporta como uma velha e demasiado solícita rameira, oferecendo com excessiva prontidão as suas depauperadas relíquias enquanto nos EUA, terra de muitas inteligências médias e poucos génios, segundo Tocqueville, a sensatez impera e a maioria dos escritores é ignorada com aquele desapego vital que ainda caracteriza a sociedade norte-americana. Claro que para muitos idiotas europeus isso não passa de uma manifestação de barbárie ou, pior, de filistinismo ianque, quando uma análise fria nos dirá que não haverá nada mais libertador para um homem de letras do que ser respeitado pelos seus livros sem que dele se espere uma panaceia para os males do mundo. Porém, chegados à Europa, embevecidos com tanto carinho, atordoados com tantas comendas, têm de ser um bocadinho europeus e vestir a farda anacrónica dos grandes intelectuais públicos de meados do século XX. Fazem-no, como no caso de Franzen, com algum distanciamento e uma saudável auto-ironia. Mas fazem-no. O momento alto da conferência foi quando um velho húngaro, coroado com um boné digno da famosa tradição de Paços de Ferreira, questionou o escritor norte-americano sobre a situação política do mundo em geral. Franzen agradeceu a pergunta, pigarreou, ajeitou os óculos, fez uma graçola, repigarreou, alçou a fronte como um César na iminência de falar ao povo e, depois de um suspiro vindo das profundezas da sua inibição mid-western, confessou que não tinha uma resposta muito boa para essa questão e então deu outra resposta qualquer. A sério, porque é que submetem os escritores a estas torturas? Qualquer treinador de futebol da II Liga teria sido mais assertivo e igualmente vácuo.

 

Mas o ar de filatelista de Franzen não nos deve levar ao engano. Temos de nos lembrar que estamos perante um profissional do entretenimento. Questionado sobre a avalanche de romances autobiográficos – não se fala de outra coisa – e se teria sido capaz de escrever certas coisas enquanto os seus pais eram vivos, Franzen lançou a sua pequena bomba atómica de fabrico caseiro que trouxera da América: “Entre as muitas coisas boas que me deram, os meus pais deram-me o presente de terem morrido cedo.” No entanto, o efeito não foi tão devastador como Franzen previa. As únicas pessoas que poderiam ficar chocadas com uma frase tão ponderadamente escandalosa acompanhavam a conferência pelos auscultadores da tradução simultânea. Entre o som da voz de Franzen e a reacção da plateia houve um intervalo demasiado longo que amorteceu o verdadeiro horror, o que por sua vez gerou uma reacção tardia do escritor à sua incapacidade de provocar viva indignação. Falou então sobre o ambiente, a sua grande causa tépida, meio invertebrada. Sem a convicção do partidário ou a fogosidade do activista, tudo o que transparece da sua defesa do ambiente é a adesão bem educada do porta-voz, como se tivesse escolhido aquela entre uma série de causas pelas quais não se importaria de dar a cara. Falou como o noivo envergonhado que procura justificar um casamento por conveniência. Finalmente, e a bem de todos os presentes, alguém deu por terminada a sessão. Franzen ainda assinou alguns livros mas foi rapidamente levado pela sua entourage húngara para um lugar seguro, a salvo das investidas de malucos de boné na cabeça.

 

Lá fora o dia estava magnífico, o que aumentou o meu desgosto pela hora perdida naquele anfiteatro quando poderia ter estado a observar as raparigas sentadas nos bancos de jardim junto do lago, as mulheres com blusas do ano anterior que revelavam o quão surpreendente era aquele bom tempo, homens solitários com camisolões pesados porque os homens solitários são sempre mais lentos a adaptar-se às mudanças súbitas de temperatura. Reuni-me com o meu grupo ao qual entretanto se juntara um editor húngaro. Ainda novo, não mais de 35 anos, usava aqueles óculos de lentes fumadas que a mim só me lembram líderes de seitas milenaristas e predadores sexuais do Milwaukee, sujeitos que casam com mulheres mais velhas e deprimidas que não percebem logo o que se passa na cave. Almoçámos num restaurante modesto em que, além de nokedli e arroz doce, fomos brindados com uma reflexão literária do editor, queixando-se da literatura da miséria praticada com monotonia por um número significativo de escritores húngaros. O editor desejava histórias alegres, fábulas, invenções, delírios e os compatriotas só lhe davam realismo, sujidade e depressões. Despedimo-nos dele e fomos beber um café numa esplanada de uma rua fechada ao trânsito. Nos canteiros defronte da nossa mesa, dormiam dois sem-abrigo. Pensei logo no editor e de como gostaria de lhe contar a história das bonitas dálias ocultadas pelos sobretudos daqueles desgraçados.

 

Às 16h30 fui então participar no painel sobre o Ocidente e o resto. Uma vez mais, tive a companhia do francês e do seu clássico intemporal sobre actividades laboratoriais. Explicou também a origem do seu interesse por aquela região europeia, etc, etc, etc. Não consigo precisar em que altura, mas a verdade é que a conversa guinou para um caminho ecuménico e auto-celebratório da ideia de Europa. Dentro da cabeça dos federalistas, o Hino da Alegria toca em permanente repetição e dos lábios sai-lhes incessante o mantra de que somos todos europeus. Um escritor dinamarquês, de respeitabílissimos cabelos brancos, lamentou que os intelectuais não assumissem a responsabilidade de levar a tocha desta nova condição universalista aos seus povos. Em tempos não muito distantes, estes pentescostais do pan-europeísmo foram revolucionários convencidos de que bastava percorrer a província com os seus breviários políticos e os seus cânticos de intervenção para que os aldeões se rendessem às proclamadas virtudes do igualitarismo, do marxismo e do socialismo. Hoje, goradas todas as revoluções, passaram a fumar light e a propor transformações menos radicais mas igualmente ambiciosas. Sonham em percorrer a Europa de pullman, levando às massas os ideais de Monnet e distribuindo medalhinhas com a imagem de Delors. Que as pessoas comuns não liguem nada aos escassos lunáticos que ainda se julgam incumbidos de uma missão civilizadora não desanima os nórdicos, cujos índices de qualidade de vida que alcançaram parecem ter-lhes drenado toda a sensatez dos cérebros. Estes altos, belos e bem falantes europeus acreditam, como o suíço, que o nacionalismo é uma ficção e até o temperado belga acabou a louvar o cosmopolitismo, como se este, por essa curiosa taxonomia, não fosse também uma construção cultural. Já no dia anterior, o suíço, com a conversa sobre o divórcio entre a linguagem e os objetos, me pareceu inclinado para o mundo de abstracções mentais onde uma vez que o homem caia jamais conseguirá abrir uma torneira sem perpetrar filosofia. Na medida certa, o ceticismo é saudável mas não deverá conduzir o seu praticante à paralisa, à impotência do pensamento, à esterilidade. Se uma ficção é tão poderosa ao ponto de alguém achar que vale a pena matar e morrer por essa ficção então é inútil insistirmos no seu carácter ficcional como se isso nos protegesse das acções dos que nela acreditam ou nos elevasse acima do mundo em que os outros vivem. A conversa durou apenas mais dez minutos. Felizmente, ainda tinham sobrado alguns canapés servidos no início da sessão. Quando saímos, começava a entardecer em Budapeste.

 

Para a noite estavam planeadas leituras em várias livrarias independentes. A mim calhou-me em sorte a Massolit, na Nagy Diófa Utca. É um espaço que funciona também como café, com um acanhado jardim nas traseiras e frequentado por estudantes universitários, professores universitários, pessoas húngaras que não consegui associar a nenhuma classe profissional e um brasileiro. Li excertos em português e o meu tradutor leu em húngaro, a leitura foi aplaudida mais por cortesia do que por entusiasmo e, no final, bebemos todos um excelente vinho húngaro, desta vez branco. Foi nessa ocasião que conheci o homem que nos haveria de guiar nessa noite: Laertes de Souza, poeta, performer, cineasta, carioca do mundo e, de há três anos a esta parte, fiel a Budapeste. Contou-nos como chegara a casa às 10 da manhã (mais tarde corrigiu para as 8 e ainda mais tarde, inadvertidamente, para as 6) depois de uma noite inimaginável numa festa privada. Os silêncios estudados com que pontuou o relato desafiavam a nossa imaginação a completar o quadro de sensacional deboche que a escassez cirúrgica das suas informações sugeria. O local era incerto, tinha sido convidado por amigos de um amigo e sobre as mulheres o único comentário que estava em condições de fazer lia-se-lhe no olhar de beatitude pós-coital.

 

- Adoro essa cidade.

 

Antes de avançar, aproveito para dissertar sobre o carioca. Faltam-me as qualificações para tanto, mas se um carioca se aventurou a escrever sobre Budapeste sem nunca ter posto os pés na cidade, mais direito tenho eu para escrever sobre os cariocas visto que conheço alguns. Houve tempos em que o carioca era a flor espontânea, natural, das ruas do Rio, das suas esquinas, dos seus morros e dos seus botecos, filho predilecto e vagabundo do corpo úbere da cidade. Hoje, tudo mudou. Carioca deixou de ser essa graça fatal que recaía sobre os seus habitantes e transformou-se numa filosofia, lero-lero literário, mitificação do simples, gentrificação do outrora popular, apropriação do genuíno pelas forças normalizadoras da sociedade. Qualquer um pode adoptar esse conjunto de normas rígidas que prescrevem a informalidade, o à-vontade, a malandragem. Borges escreveu que o barroco “é aquele estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades e lida com a sua caricatura”. O carioca de hoje é uma declinação barroca do verdadeiro carioca: olheirento, falsamente festivo, mortificado pela obrigação de ser um carioca by the book, um Zé Carioca. Se pratica o ócio já não é com a despreocupação do ocioso mas com a consciência do funcionário. Tornou-se um amanuense do ócio. O carioca atual vive atormentado com o receio de falhar alguma deixa e não ser suficientemente carioca. Em compensação, de cada vez que se sente à altura dos pergaminhos cariocas suspira de alívio, como o trapezista que volta a tocar o chão. Para se ver a dimensão fracturante do drama hodierno, assevero que o carioca de hoje é tão angustiado como um russo ou um alemão, mas sem as condições culturais, meteorológicas e financeiras que, nesses países, fazem da angústia uma marca de distinção social e intelectual. Um europeu angustiado pode aspirar a qualquer cargo. Ao carioca angustiado só lhe resta emigrar. Uma vez no estrangeiro, todas as suas falhas enquanto carioca poderão ser atribuídas ao tempo já passado longe do Rio ou a uma subtil porém imparável aculturação. Libertado da pressão de ser carioca, o carioca volta a ser carioca, como aqueles amadores que só cantam bem desde que não tenham público.

 

Jantámos no Bordó, ali na Nagymezo Utca. A refeição serviu essencialmente para Laertes expor a estratégia que presidiria à nossa expedição noturna. Fez da mesa um estirador, desenrolou um imaginário mapa da cidade e, qual Rommel, mostrou-nos como iríamos conquistar o coração noturno de Budapeste. Informou-nos sobre estes planos a que teríamos de aderir de livre vontade ou movidos pela curiosidade de ver onde é que aquilo ia dar. Entre garfadas e goles bávaros de cerveja, pôs-nos a par das suas mais recentes considerações sobre a vida na capital húngara.

 

- Eu pensava que queria ser milionário mas quando cheguei a Budapeste percebi que quero é viver aqui para sempre.

 

E que atrativos justificariam esta paixão descontrolada, total, por uma cidade? As mulheres, claro.

 

- Saio de casa de manhã para comprar pão e quando volto já encontrei dez mulheres com quem podia passar o resto da minha vida.

 

Com Laertes o único tempo que existe é o para sempre, o resto da vida. É lícito concluir que, em Budapeste, o nosso poeta expatriado, transplantador da última flor do Lácio para as margens do Danúbio, encontrou finalmente um vislumbre da eternidade. E não foi o único.

 

- Você sabe quem mora em Budapeste? Rocco Sifredi, o próprio.

 

Rocco Sifredi, o papa do porno, o deus Príapo do entretenimento para adultos, tem residência oficial, de acordo com a informação de Laertes, em Budapeste. Para o poeta brasileiro, esta escolha suplanta qualquer ranking da OCDE, qualquer lista das 10 melhores cidades europeias para se viver.

 

Após o jantar, atravessámos a cidade rumo a um bar onde um pretenso grupo de luso-falantes iria comemorar o 25 de Abril. Queria ver como é que os húngaros se safavam a imitar o Seixal. Quando chegámos, em vez de uma multidão a festejar a liberdade encontrámos três ou quatro jovens a beber gins sem a mínima vocação festiva e um chinês de kung-fu que, de repente, saltou da balaustrada do primeiro piso e aterrou à nossa frente lançando-nos um olhar de desprezo marcial. Vinte minutos depois, enquanto tomávamos as nossas bebidas com a voz de Laertes como música de fundo, apareceram duas húngaras de olhos do mais danubiano azul que nos convidaram para a cave onde, segundo elas, decorria uma extraordinária festa com um fantástico DJ. Como a celebração do 25 de Abril estava a pedir uma autópsia, o nosso primeiro impulso foi seguir estas Dafnes magiares, mas logo o bom senso nos travou. Era mais provável acordarmos sem um rim do que num estupendo harém rodeados de concubinas. Terminadas as bebidas, e sem qualquer indício de celebração, saímos para a noite.

 

A noite é, para mim, um país estranho. Ao calcorrear as ruas de uma cidade desconhecida a altas horas da noite senti-me duplamente estrangeiro. Desse país agora distante, em que vivi momentos marcantes, fui-me afastando e alheando, já não como quem se afasta de um território mas de um tempo. As generosas dádivas de certas noites nunca atenuaram a crueldade das manhãs, não amorteciam a sua luz impiedosa nem a verdade insuportável da ressaca. Os hábitos das tribos noctívagas são-me tão estranhos e incompreensíveis como os de tribos canibais da Polinésia e pelos seus rituais nem sequer tenho um interesse antropológico. Como a animação noturna se globalizou, sinto-me igualmente exilado na noite lisboeta ou na noite de Budapeste: os mesmos cravas que se aprumam exageradamente antes de nos pedir um cigarro, as mesmas meninas de mini-saia desejosas de atenção mas incomodadas com olhares invasivos em danças de sedução repletas de códigos secretos e não-escritos, os mesmos grupos animados em que um dos elementos permanece um pouco à margem, incapaz de se atirar para a água e contente com os salpicos do divertimento alheio, os mesmos rapazes ancorados num bar e impacientes porque imaginam que, noutro sítio qualquer, a diversão é maior, as mesmas raparigas que, no final da noite, caminham trôpegas chorando por um imbecil.

 

A nossa noite pode ser resumida a uma tentativa falhada de encontrar a Xanadu da felicidade erótica ou as misteriosas cidades da vulva dourada onde estariam à nossa espera não 72 virgens, mas 720 ou 7200 húngaras esculturais, meigas e libidinosas que dariam razão à imortal frase de Laertes, que aconselho vivamente as autoridades a gravarem na Praça dos Heróis, ao lado da estátua de Arpad e onde haverá lugar para uma estátua de Rocco, o Sifredi:

 

- Cara, nessa cidade você só toca punheta de mão dada.

 

De bar em bar, o general Laertes de Souza arrastou as suas desmoralizadas tropas, prometendo-nos o quinhão maior dos despojos futuros. Após cada desilusão – quer no famoso Szimpla, quer em qualquer taberna por onde passámos – o nosso Moisés recobrava o ânimo e instava-nos a prosseguir a caminhada rumo à Terra da Promessa que, a cada esquina dobrada, parecia mais longe e inalcançável. Até que, vencidos pelo cansaço e pelo álcool, desistimos e regressámos ao hotel sem outra coisa para contar que não esse extraordinário cometa brasileiro em terras magiares.

 

O meu sábado em Budapeste foi dia de reflexão. Aproveitei a manhã livre para passear ao longo do rio e fotografar transeuntes, cruzei-me com turistas de várias nacionalidades, todos espanhóis, bebi um “espresso” num café onde escrevi parte desta crónica e comprei recuerdos para toda a família (t-shirts, globos de neve, puzzles, lápis de cor e matrioshkas com íman para o frigorífico que indignaram jovens turistas russas perplexas por se vender na Hungria um símbolo tão evidentemente russo; o rapaz da loja, se fosse mais inspirado, podia ter respondido “esgotaram-se os tanques em miniatura”, mas a ironia poderia escapar às longilíneas moscovitas.) À tarde, fomos levar o outro escritor português ao aeroporto, não sem antes termos devorado umas deliciosas espetadas de frango numa barraquinha perto do jardim zoológico. Regressámos ao centro da cidade àquela hora crepuscular perfeita para estes edifícios neo-clássicos, em que os amplos passeios e as avenidas largas se enchem de presenças fantasmagóricas e das memórias de cortejos festivos enquanto na penumbra e nas esquinas germinam conspirações e planos de revoltas destinadas a morrer à nascença, e no interior de um restaurante ainda com poucos clientes um carioca confessa aos nómadas o seu desejo irrefletido de viver para sempre em Budapeste.

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