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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

14
Mar15

Os equívocos de Aleluia!

Bruno Vieira Amaral

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«Por vezes, o livro incorre em equívocos: o catolicismo não é, em abstracto, mais sombrio do que o protestantismo, depende dos contextos teológicos e geográficos; certas características “neopentecostais” estão bastante presentes em grupos “carismáticos”católicos; e não é mesmo possível tratar como “doutrinariamente sãs” doutrinas tão diferentes como o intelectualismo bíblico dos baptistas e a arenga de televendas de alguns “evangélicos.”»

 

Pedro Mexia, Expresso

 

Agradecendo ao Pedro Mexia a leitura que fez do meu livro, Aleluia!, quero, no entanto, discutir estes equívocos em que o livro, de acordo com o crítico, incorre.

 

Só por uma vez refiro o carácter sombrio do catolicismo em oposição a certas práticas das igrejas neopentecostais. Não digo que o catolicismo é, em abstracto, mais sombrio, até porque falo do “nosso” catolicismo. Ainda assim, poder-se-á argumentar que nem sequer o “nosso” catolicismo é mais sombrio, ou menos, ou outra coisa qualquer, porque haverá sempre uma igreja, um padre ou um fiel que não correspondem a essa descrição. Como é fácil de compreender, isso dificultaria em muito qualquer discussão sobre este tema. Para se perceber então o contexto em que aquela afirmação aparece no livro, transcrevo o excerto: “Não são apenas as gargalhadas no final dos cultos que causam estranheza. Em 2001, o jornal online Urbi et Orbi, da Universidade da Beira Interior, publicou uma reportagem sobre igrejas evangélicas na Covilhã. Uma das fiéis, jovem baterista de 24 anos, dizia que abandonara a Igreja Católica por achar que era «muito monótona. Não podíamos fazer barulho, enquanto aqui há louvor e alegria». À primeira vista pode parecer um motivo fútil, mas esta relação musical com a religião, a intensidade medida pelos decibéis, é cativante porque representa uma forma descontraída e alegre de viver a fé que contrasta com o nosso catolicismo sombrio e punitivo. Contra a depressão, o louvor.”

 

Quando Mexia afirma que “certas características neopentecostais [eu diria pentecostais] estão presentes em grupos carismáticos católicos” não sei qual é o equívoco em que o livro incorre. Na página 26 pode ler-se: “Oitenta anos depois, em Portugal, a realidade das Assembleias de Deus afastara-se das origens febris da rua Azusa, numa altura em que o movimento pentescostal continuava a crescer a um ritmo frenético no resto do mundo e acabava por influenciar, de forma mais ou menos directa, outras denominações evangélicas e mesmo algumas correntes carismáticas no interior do catolicismo.

 

Quanto ao terceiro equívoco, a expressão “doutrinariamente sãs” [em referência às igrejas evangélicas baptistas] não é um termo para separar os baptistas dos outros mas utilizado internamente quando, por exemplo, um pastor baptista promove alterações na sua igreja que a afastam da “sã doutrina”. Creio que, neste ponto, serão os próprios pastores baptistas as pessoas mais indicadas para explicar o conceito e admito que a minha interpretação possa ser equívoca.

 

No entanto, há várias passagens no livro em que as diferenças doutrinárias entre protestantes tradicionais [e até menos tradicionais] e os “pseudo-pastores” de "televendas" são referidas. Não interessa a minha opinião, apesar de no último capítulo ela ser evidente, mas a opinião das pessoas com quem falei e que reafirmaram as diferenças doutrinárias entre os vários movimentos. Esta é uma afirmação de João Viegas: «Eu estudei a Bíblia. Posso discutir teologia com um padre, mas com um desses pastores das neo-pentecostais não há discussão possível, não têm bases.» Este é um excerto sobre Tiago Cavaco: «Por exemplo, Tiago considera que, de um ponto de vista teológico, os neo-pentecostais estão errados. Tal como João Viegas se sente mais à vontade a debater com um padre do que com um pastor neo-pentecostal, Tiago também considera que «um evangélico estará sempre mais próximo de um bom católico». E este é sobre o pastor Jorge Leal: “«No meu tempo, havia nas aldeias a figura do tolinho, a quem se permitia que dissesse tudo, todas as verdades, sem ser punido.» Para o pastor Leal, igrejas como a IURD e a Maná fizeram o papel do tolinho e, graças a essa actuação, chegaram às pessoas a quem a mensagem se destinava.»

 

Resumindo: não serei eu a determinar que igrejas ou movimentos são doutrinariamente sãos nem o procurei fazer. Tenho a minha opinião sobre alguns desses movimentos e sobre alguns desses pastores e que, provavelmente, não será diferente da do Pedro Mexia ou da opinião destes três pastores (ainda que para alguns, por exemplo, o João Viegas possa ser considerado um pseudo-pastor) com quem falei. Mas independentemente das fragilidades doutrinárias é incontestável, na minha opinião, que a IURD representou um papel fundamental na alteração do panorama religioso português. E em consciência eu não podia desvalorizar esse papel só porque doutrinariamente a IURD não me parece tão sólida (e reforço que, neste caso, a minha avaliação sobre a solidez doutrinária vale muito pouco) quanto as igrejas protestantes tradicionais. Arrisco uma comparação: interessa menos o teor das publicações de Larry Flynt do que a importância que ele teve na defesa da liberdade de expressão.

 

23
Jan15

Uma cena de sexo

Bruno Vieira Amaral

Se tiver de pensar numa cena de sexo dos livros de Eça de Queirós a primeira de que me lembro é entre Luísa e Basílio. Luísa é uma daquelas mulheres a quem o casamento reveste de uma segunda virgindade, uma mulher a caminhar com um manto casto pelos ombros. O ambiente em casa de Luísa não é punitivo nem puritano, mas também não convida a exercícios selvagens e indecorosos. Imaginamos o amor matrimonial de Luísa, as suas concretizações, como tudo o que é regulamentar, monótono e missionário. Luísa, apostamos, não se entrega ao marido, abandona-se sem paixão e sem aborrecimento, com competência de funcionária para não denunciar a insatisfação. A chegada de Basílio é um rasgo de incadescência a que não basta arder em modo vela de altar, com aquele fogo brando, constante e inalcançável. Tem de queimar. E Luísa queima-se. O corpo, até esse momento um chão tranquilo, uma cama feita, primeiro aquece, como um corpo que se estende num banho tépido e, depois, incendeia-se. É esse aquecimento sentimental que torna inesquecível a combustão do corpo de Luísa. A sua amiga devassa, cuja influência é temida pelo marido de Luísa, é senhora de um corpo devastado, atravessado por muitas ilusões breves, tornado insensível ao prazer por conta desse desgaste moral. Nota-se um certo engelhamento, uma diminuição da capacidade física para o amor. É um pão de há três dias. A frescura de Luísa, a sua vicejante virgindade moral, apenas levemente irritada pela leitura de romances, é o que transforma aos olhos do experimentado Basílio a priminha banal numa fêmea apetecível. A falta de gosto e de classe, o provincianismo amoroso de Luísa, empresta-lhe ao corpo a graça inaugural dos territórios inexplorados. Há nela uma combinação de disponibilidade e de iliteracia sexual que, num primeiro momento, é mais prometedora do que a sabedoria de qualquer cortesã capaz de conjugar todos os verbos da cama. Luísa não é fome, é vontade de comer. Então chega essa cena tão arrojada e tão sugestiva, tão aguçada e tão subtil, em que o libertino Basílio culmina o seu repertório tropical com a execução de um cunnilingus que, independentemente dos méritos técnicos, marca um momento de viragem no adultério de Luísa e no desenvolvimento do romance. É o ponto de não retorno. A partir daqui Luísa não pode voltar para trás. Até então, era Eva em diplomáticas, mesmo que já carnais, conversações. Naquele momento, a vontade de comer dá, finalmente, a dentada na maçã. E começa a tragédia.

Umas páginas atrás, testemunhámos o primeiro êxtase. É um êxtase inocente, cândido, juvenil, causado pela leitura de uma carta (não é de estranhar visto que é através da leitura que Luísa está habituada a experimentar esses sentimentos incomuns). Mas em toda a inocência esse breve parágrafo está carregado de mais erotismo do que as futuras (e, a esta escala, explícitas) descrições. O sentimento descrito por Eça é o de um corpo na ressaca do êxtase físico e não uma alma a comprazer-se num banho sentimental. É aquela carta, são aquelas palavras que desfloram Luísa pela segunda vez, que rompem o selo da sua virgindade matrimonial. A imagem do corpo num banho tépido remete também para uma ideia de prazer auto-infligido. A leitura da carta equivale a uma cena de masturbação (como bem sabemos, a leitura é uma forma apurada de masturbação). Mais tarde, temos o clímax da licenciosidade. Basílio vai longe demais. A Luísa, por muito voluntariosa que seja, falta-lhe o estofo da cortesã. Aquele gesto precipitado e inevitável descobre-lhe lamentavelmente as insuficiências . Quando, no fim, Basílio deplora, na conversa mais porca da literatura portuguesa, o ridículo de Luísa, já após a morte desta, é que sentimos o quão longe aquele comportamento estava da verdadeira vocação de Luísa.

20
Nov14

A primeira casa

Bruno Vieira Amaral

Rebeca e Mário foram viver para aquele segundo andar na Moita após um Inverno muito chuvoso. A chuva atrasou as obras de reparação do telhado. Quando ocuparam o apartamento de duas assoalhadas, os operários da empresa de construção ainda estavam a fazer os preparativos para reparar a goteira. Como vieram a perceber, este era praticamente o único problema sério no prédio. A infiltração resultara numa mancha de humidade em expansão no tecto do 3º esquerdo – o último andar –, habitado por um casal nos quarenta que, talvez por causa de todos os incómodos, pareceu aos novos moradores o mais antipático. Da casa deles não vinha o barulho de vidas normais, apenas o som constante de música clássica, normalmente piano, que soava como uma cobertura sonora para abafar a vida, evitando que os outros pudessem depreender, pelas narrativas que os sons compõem, o que se passava no interior. Falavam pouco. Ao contrário dos vizinhos, não iam ao café que funcionava no rés-do-chão. Idalina, da casa em frente à deles, era o oposto. Se se pode admitir a existência de tal coisa, era ela a alma do prédio. Conversadora e rodopiante, tinha madeixas, usava decotes que chocavam as outras mulheres menos pela falta de decoro do que pela exibição impudica de felicidade. Era auxiliar na escola secundária. A mesma onde o vizinho dava aulas. O marido de Idalina era agente da PSP. Pesado, passava por bonacheirão devido à lentidão graciosa de paquiderme. Faziam um par perfeito naquele desencontro e nas contradições. Ela dava-lhe beijinhos em público, prodigalizava-lhe carícias. Era viva. Ele respondia com gestos vagarosos, agradecimentos envergonhados. A memória humana de um grande mamífero já extinto.

 

Foi no segundo Verão de Rebeca e Mário no prédio que apareceram as baratas. Rebeca encontrou a primeira a boiar no balde da cozinha. Uma noite, depois de voltarem do cinema, Mário viu outra a atravessar o hall em direcção à sala. De início, não disseram nada aos vizinhos. Tinham receio que fosse um problema da casa. Talvez os outros pensassem mal deles, supusessem faltas de higiene. Só quando começaram a aparecer baratas mortas – encarquilhadas, encolhidas – nas escadas do prédio é que os vizinhos falaram. Concluiu-se que todos tinham o mesmo problema e, por vergonha, não tinham dito nada. Nesta altura, a invasão atingira um pico e não era raro encontrar duas e três baratas na casa-de-banho, nos corredores, nos quartos e nos armários da cozinha. Contrataram uma empresa de desinfestações. Os funcionários eram discretos. Demoravam nas observações e desaceleravam os gestos para parecerem mais eficientes. Fumigaram as escadas e as condutas de ar, a cave e as garagens. Durante uma semana não se viram baratas, excepto as poucas que vinham morrer à luz. Só dona Tomásia, a moradora mais antiga, disse que elas iriam voltar. Lembrava-se bem de como fora há uns anos. Centenas de baratas festivas, teimosas e, por fim, maníacas, cegamente dedicadas à propagação, à ocupação geométrica de cada metro quadrado. Tinha a certeza de que acabariam por voltar. E assim foi. As baratas regressaram mais fortes e resistentes do que nunca. Estavam agora por todo o lado. De manhã eram às dezenas nas escadas, à entrada do prédio, nos caixotes do lixo abraçados aos postes de iluminação de onde saíam pelas bocas verdes como trabalhadores do fundo de uma mina. Após mais uma desinfestação mal-sucedida, os inquilinos dedicidiram contactar os serviços da Câmara. Já não era só uma questão de salubridade, era política. Em causa estavam a saúde pública, sim, mas também votos e lugares na vereação. Afinal, soube-se que o problema afectava todos os prédios das redondezas, construídos sobre um antigo campo de milho cujas sementes vindas da América ali tinham chegado depois de atravessarem o Atlântico em grandes cargueiros oxidados. À boleia marítima, entre as sementes de milho, clandestinos, tinham vindo os antepassados destas baratas. Se pudessem testemunhar os sucessos dos seus descendentes, por certo ficariam orgulhosos de comprovar como em poucas gerações um grupo inicial de baratas tontas de porão atingira o prestigiado estatuto colectivo de praga, para desespero das pacíficas gentes humanas com quem partilhavam o território. Podia proceder-se a uma desinfestação a larga escala mas o conselho sensato do vereador foi esperar que o tempo quente passasse e rezar para que no ano seguinte chovesse mais. Fez-se a grande desinfestação, as baratas recuaram, houve um novo e pequeno surto no final de Setembro e, em meados de Outubro, não se viram mais. Nem nos anos seguintes.

 

O marido da senhora do 1º esquerdo tinha morrido há muito. Dos actuais habitantes do prédio, nenhum o conhecera, embora se falasse do senhor Figueiredo com a reverência com que se fala de um antepassado nobre ou de um fundador da nação. Debilitada por uma doença renal, dona Tomásia recusava-se a ir para um lar ou para a casa do único filho, que vivia em Torres Vedras e que, com a pontualidade que visa substituir a falta de afecto, visitava a mãe de quinze em quinze dias. A partir de certa altura, depois de quase ter pegado fogo à casa, a senhora começou a receber a visita da carrinha do apoio domiciliário da paróquia. Deixavam-lhe a marmita com o almoço, faziam-lhe a higiene pessoal, limpavam-lhe a casa. Dona Tomásia gostava das raparigas, da animação que traziam à casa naqueles momentos fugazes, das piadas, do que lhe contavam sobre as suas vidas. Era um intervalo de alegria. Com o passar do tempo e o agravamento das doenças, a senhora começou a gritar à noite, gritos horrendos de sofrimento. Da primeira vez que a ouviu, Idalina, que tinha uma cópia da chave para qualquer emergência, levantou-se e foi a correr para acudir à velhota. Noutras vezes, era apenas um choro persistente, uma queixa prolongada como uma dor aguda que o tempo tornara crónica. Um dia, no terceiro ano de Rebeca e Mário no prédio, as auxiliares tocaram à campainha, esperaram durante muito tempo mas já ninguém abriu a porta.

 

Foi poucos meses depois da morte de dona Tomásia que o casal do apartamento em frente se mudou. Anunciaram a compra de um portentosa vivenda – detalhavam o número de assoalhadas e os metros quadrados, os azulejos luxuosos, a cozinha gigantesca e moderna, os electrodomésticos encastrados, o pequeno jardim e o barbecue nas traseiras onde até podiam instalar uma daquelas piscinas grandes de plástico – “quase a chegar a Palmela”, e a incerteza do lugar era uma maneira discreta de marcarem distâncias, de se separarem definitivamente daquelas pessoas e daquele prédio e daquelas vidas de apartamento em que, à noite, se ouvia a poderosa torrente de urina do vizinho, os chinelos arrastados pela madrugada, as discussões que explodiam num segundo e que duravam muito para lá do silêncio, subsistiam nos olhares, como o rasto de poeira brilhante de cometas intensos, e na forma nada solidária como os casais subiam as escadas nos dias seguintes. Arrendaram a casa e em pouco tempo, com a sucessão de inquilinos, os equilíbrios do prédio colapsaram: primeiro, esteve lá uma professora de Educação Física com o seu grande Labrador, cujo latido alastrava pelo prédio como se o cão estivesse preso nas paredes ou como se o próprio prédio estivesse a latir; mais tarde, foi para lá um casal com os três filhos adolescentes; durante uns meses, tão breves que nem toda a gente se lembrava delas, duas raparigas brasileiras viveram lá com grande discrição. Cada inquilino trazia hábitos – até pela ausência, pela invisibilidade – a que os outros tinham de se adaptar. Perante estas mudanças constantes, o casal do 3º esquerdo vivia cada vez mais afastado e, resolvido o problema do telhado, só a música clássica que se ouvia através da porta sinalizava a permanência deles no prédio. De resto, era como se estivessem mortos.

 

Idalina desapareceu durante meses. Ninguém comentou o assunto porque se percebeu logo que aquilo era coisa entre o casal. Uma noite, Idalina saiu de um carro e encontrou-se com o marido à porta do café. Passou-lhe para as mãos uma caixa. Despediu-se com um beijo no rosto. O marido não se virou logo. Por instantes, ficou parado, com a caixa nas mãos, como se o que tinha acabado de acontecer desafiasse a lógica, estivesse tão para além do que a sua mente, acantonada numa bondade intrínseca, podia conceber, que aquela imobilidade pasmada, aquela incompreensão muda, era a única vénia possível ao milagre que ali se produzira. Idalina já não pôde ver o marido transformado em estátua de sal. Ocupou o lugar do passageiro do carro que a esperava. Sem acender imediatamente as luzes, o carro arrancou e, passados uns segundos, desapareceu no meio das ruas sombrias.

 

Rebeca soube que estava grávida no dia em que nasceu o filho dos vizinhos. Mário telefonou logo aos pais, contra a vontade da mulher que queria esperar até às doze semanas para dar a novidade. Quebrado o selo do segredo, decidiram contar à restante família, aos amigos e até, mais por diplomacia do que por entusiasmo, aos colegas de trabalho. Choveram felicitações, presentes, os pais de Mário quiseram abrir uma conta para o neto – o avô tinha a certeza de que seria um rapaz – e a mãe de Rebeca comprou logo a roupa que a criança haveria de usar no dia em que saísse da maternidade. Começaram a ver sítios de decoração de quartos de bebé e já tinham uma ideia de como iria ficar o quarto que, até então, servia de escritório. De cada vez que encontravam os vizinhos e viam o bebé sentiam admiração, inveja saudável e impaciência. Faltavam pouco mais de seis meses. Um dia, já depois de ter feito a ecografia dos três meses, Rebeca estava no trabalho quando sentiu uma picada na barriga. Foi à casa-de-banho, viu que tinha uma ligeira perda de sangue. Ligou para Mário com um pânico controlado. O marido aconselhou-a a ligar para o obstetra. Não estava no consultório. O telemóvel, desligado. Rebeca tranquilizou-se pensando que seria nada. Tinha ouvido dizer que aquelas perdas eram normais. Nessa noite, já deitada, sentiu uma dor aguda, muito forte, uma cólica prolongada. O sangue espalhara-se pelo lençol.

 

Os tempos seguintes foram muito duros. Rebeca esteve um mês de baixa. Sozinha em casa, chorava ao entrar no quarto do bebé e via os sacos em que arrumara as roupas que lhe tinham dado, ao ver na barra de favoritos o sítio de decoração. Ouvia o choro do bebé do lado, tapava os ouvidos com as almofadas e chorava mais. Secretamente, loucamente, desejava que aquela criança morresse. Não, tanto também não, desejava apenas que os vizinhos mudassem de casa, fossem para longe, para onde aquela felicidade solar não a atingisse. Mário também sofria. Falavam pouco entre si. Confortavam-se com o silêncio, beijavam-se sem dizerem nada, amavam-se sem palavras, adormeciam com uma esperança triste. Quatro meses depois, Rebeca descobriu que estava grávida. Fizeram o teste em casa. Quando viram o resultado, sorriram um para o outro. Beijaram-se com um contentamento sereno. Oito meses depois nascia Laura, uma linda menina. No dia seguinte, os pais de Mário abriram uma conta em nome da neta que, à saída da maternidade, vestia a roupinha que a avó materna lhe comprara.

 

Certa noite, o prédio e a vizinhança foram sobressaltados pela sirene de uma ambulância. O professor do 3º esquerdo sofrera um AVC. Esteve cerca de um mês no hospital. Quando regressou a casa, amparado pela mulher, havia no olhar dele algo diferente, uma vulnerabilidade, uma fragilidade que agora era dos dois. Falaram com os vizinhos demoradamente, como nunca tinham feito até então a não ser quando se queixavam da situação do telhado que lhes estava a dar cabo do tecto. Agradeceram as ofertas de ajuda, o cuidado. Tornaram-se mais humanos ou, pelo menos, era assim que se comportavam. Pouco minutos depois de terem entrado em casa, fechada à chave por dentro, ouviu-se novamente o som de música clássica. Peças para piano. Muito tristes.

 

Nada fazia prever a separação do casal que vivia em frente de Rebeca e Mário, os que tinham o filho que era um ano mais velho que Laura. Na altura devia ter três anos e eles exibiam o mesmo ar de felicidade simples de sempre. Nunca se lhes ouvira uma discussão, e se aos gestos lhes faltava a cumplicidade amorosa notava-se-lhes uma entreajuda sincera. Via-se quando carregavam os sacos de compras do carro: ela com o pequeno ao colo e o marido, pousando os sacos, tirava-lhe as chaves da carteira. Havia em todos os momentos uma felicidade abrangente que dominava a rotina, tantas vezes a fresta por onde se insinua o tédio, as recriminações e, por fim, o ódio. Ele punha-lhe o açúcar no café, mexia-o, ela respondia com um sorriso de agradecimento. Quando tinham visitas em casa ninguém suspeitava de algum mal-estar, não havia indícios de fadiga, de ruptura iminente, não se ouviam aquelas palavras mais bruscas e impensadas que encontram caminho com um copo a mais, o instante de ar contrariado quando se tem de ir buscar à cozinha uma coisa que o outro devia ter trazido, o olhar de recriminação – intenso ainda que não ostensivo – por alguma coisa que ele se esqueceu de comprar, a censura por um comentário menos resguardado sobre alguém que não estava presente: da vida daquele casal estavam ausentes todas essas coisas que sugerem uma dificuldade. Não se notava o esforço de encenação concertada em que alguns casais à beira da ruptura se especializam quando recebem convidados. Até que, inesperadamente, ele saiu de casa para, ao que se dizia, ir viver com uma mulher de quem era amante desde o primeiro ano de casamento. Tudo se passara em discrição e sigilo, encontros programados com antecedência, até que Esmeraldo cometeu a imprudência de pagar uma noite numa pousada em Estremoz – quando devia estar em Coimbra – com o cartão de crédito. Consumada a separação, passou a visitar o filho de quinze em quinze dias. Primeiro trazia um ar de culpa, depois, progressivamente, à medida que o remorso ia diminuindo, vinha mais confiante, mais seguro, um homem sem dúvida mais interessante. De início, a ex-mulher resistiu ao impacto. Via-se que estava um pouco aturdida, o olhar ficava vago, perdida nos pensamentos, parecia alegremente nervosa, como alguém a recompor-se de um susto. De resto, era a mesma pessoa. Só alguns meses depois, talvez quando percebeu que não houvera um único momento em que a sua felicidade tivesse assentado em verdades, que tudo o que tinha vivido com aquele homem estava irremediavelmente manchado pela mentira e pelo engano, é que se foi abaixo, num abatimento geral do ânimo e da vontade. O corpo tornou-se uma carcaça doente, acinzentada e o rosto finalmente absorveu o negrume que lhe nascia no peito.

 

Quando Laura tinha quatro anos, Idalina voltou para casa. Regressou diferente. Era bom dia e boa tarde. Pouco mais. Não voltou a ser a alma do prédio. Uma vez, a conversar com ela sobre a pequena Laura, Rebeca teve a impressão de que Idalina queria dizer qualquer coisa sobre o que lhe acontecera. Era a antiga Idalina a assomar, a dizer que ainda estava vida, mas conteve-se. Subiu as escadas depois de um suspiro curto, cheio das coisas que decidira esquecer.

 

Mário foi promovido a supervisor de área no ano em que a filha ia entrar para a escola. Há muito tempo que esperava a promoção. Estava convencido que da última vez só uma cunha de um gerente de outro posto o tinha impedido de subir e de, em consequência, terem mais um filho, como era desejo de ambos. Mais um filho significava outra casa, com mais espaço e outras condições. A ganhar o mesmo, estava fora de questão. Mário herdara do pai esta natureza conservadora, cautelosa. O pai sempre lhe dissera que era melhor um emprego no Estado mas, não o tendo conseguido, Mário trabalhava o dobro para garantir a segurança económica da família, atormentado pela história de um avô que derretera uma pequena fortuna e nunca mais se endireitara. Quando confirmaram a promoção, Rebeca e Mário começaram à procura de casa. Ouviram falar de uma urbanização em Alcochete. Tinham pressa em tratar de tudo para que Laura entrasse para a escola já na nova casa. Quando visitaram a casa ficaram encantados. Era aquilo. Apesar de toda a excitação, da adrenalina da novidade, os últimos dias na Moita foram complicados. Tinham começado a vida a dois ali. Laura nascera naquela casa, dera aí os primeiros passos, na bancada da cozinha ainda se via uma marca de café de uma chávena pousada à pressa para se amarem, os armários velhos que os dois tinham envernizado, o varão da banheira que Mário montara e ficara para sempre torto, as tardes longas e tristes em que sentada no sofá a receber o sol que atravessava a janela da sala Rebeca chorava a criança que perdera, o lugar de cada coisa, a disposição dos móveis, o toalheiro, o odor do quarto, o móvel novinho em folha da casa-de-banho que destoava entre a loiça mais antiga. Sofreram com aquela despedida, alegraram-se por tudo o que ficava para trás, beijaram-se, e quando fecharam a porta pela última vez e rodaram a chave souberam que estavam a encerrar a primeira parte das suas vidas em comum, com a certeza magoada de que o muito que tinham para viver nunca seria tão doce como aqueles anos iniciais.

22
Ago14

Barcelona

Bruno Vieira Amaral

Foi no estertor do casamento que viajámos para fora do país pela primeira vez. A lua-de-mel tinha sido na Régua, num hotel ao lado da estação de comboios, na altura maioritariamente ocupado pela equipa de filmagens de uma telenovela. Todas as manhãs tomávamos o pequeno-almoço perto de um actor popular, de uma ex-modelo a tentar a sorte na representação, ou de um tipo que ninguém conhecia mas que transportava um confiante sorriso de galã. Jantávamos numa pizzaria no centro da vila onde também ia um rapazinho que era a estrela da telenovela. As outras crianças – autóctones – pediam-lhe autógrafos a meio da refeição, tratavam-no como se fosse personagem. Voltámos a casa para quatro anos de casamento. Depois, naquele cruel mês de Abril, fomos a Barcelona. Ficámos instalados num hotel modesto na Via Laietana. Durante o fim-de-semana, comprámos fruta no mercado La Boquería, visitámos o museu Picasso, comprei um livro de Gore Vidal na feira de domingo de manhã. Não fizemos sexo. Passeámos pelo Parque Güell. Numa livraria de um centro comercial, ofereciam flores a quem comprasse livros. Tudo por causa do dia de Sant Jordi, padroeiro dos livros, ao que parece. Como andámos muito nesses dias, chegávamos ao hotel exaustos, quase sem forças para tomar um banho. Não fizemos sexo. Creio que já o disse. As filas para a Sagrada Família eram gigantescas, nipónicas. Desistimos. No sábado de manhã visitámos uma biblioteca local. Li os jornais. Da parte da tarde, depois de um almoço frugal num café triste, fomos até ao Museu do Palácio Nacional. Passámos pela exposição de naturezas-mortas e, mais à frente, depois de contemplarmos os restos de uma igreja do século XIII, tive uma epifania. Ao entrar numa das salas, deparei, do lado direito, escondido, com o São Francisco de Assis, de Zurbáran. Foi a primeira vez na vida que chorei ao ver uma obra de arte. Nessa tarde, lanchámos num Starbucks perto da Praça da Catalunha. Tirámos fotografias nas Ramblas. Não há o mínimo vestígio de felicidade nessas imagens. Vimos os batoteiros e as floristas, os artistas de rua, as crianças, os vendedores de kebab, as inglesas de calções claros, a estátua de Colombo, um teatro antigo, gente a tirar fotografias com os telemóveis. As duas últimas horas em Barcelona foram passadas no aeroporto, à espera. Voltámos para Lisboa no domingo à tarde. Separámo-nos dois meses depois.

20
Ago14

Um orçamento devidamente contextualizado

Bruno Vieira Amaral

Texto publicado originalmente na revista Ler:

 

 

O relatório do orçamento do Estado para 2013 é um daqueles documentos fundamentais que qualquer português culto e moderadamente sensual deveria ler. Os restantes podem continuar entretidos a comer salsichas e atum enquanto engordam os números do desemprego. Estas páginas – expressão imorredoira do génio de Vítor Gaspar – são o paralelo 39 entre dois modos de vida, entre o Portugal alavancado pela poderosa engrenagem comunitária e o Portugal possível onde o bife de vaca é artigo de luxo. É o fim da utopia da classe média e o regresso ao Portugal dos remediados, um país sem remédio. E estas páginas são também um exercício de literatura tecnocrática. Por momentos podemos imaginar um dos membros do Oulipo a escrever um documento espartilhado por este constrangimento: ser o mais desinteressante possível cumprindo os critérios mínimos de legibilidade. O resultado não andaria muito longe deste relatório.

 

A primeira coisa que sobressai nesta obra notável é a tónica no esforço. Desde logo, o esforço dos trabalhadores do Ministério das Finanças que, segundo o ministro, é “desinteressado” e sem o qual não teria sido possível apresentar a proposta de orçamento a tempo e horas. Ou seja, para cumprir prazos o Ministério das Finanças tem de se valer do esforço desinteressado dos seus trabalhadores o que, traduzido para português, deve significar horas extraordinárias não pagas. É um louvor sentido e, para além disso, revela mestria no uso do eufemismo. Mas o esforço não se fica por aqui, sendo mesmo possível considerar este um orçamento esforçado, como aqueles jogadores de futebol sem talento natural mas que correm muito. Segundo o relatório é preciso mais esforço, de preferência “persistente” e repartido equitativamente. Há o esforço contributivo e o esforço na poupança, com incidência no “esforço de contenção nas despesas com pessoal” e na redução dos “encargos brutos com as Parcerias Público-Privadas”, o esforço fiscal e o esforço coletivo, o esforço financeiro e o esforço de simplificação, o esforço de revisão e o esforço de coordenação. Pedem-se, numa aritmética singular, esforços adicionais que subtraem, esforços acrescidos que reduzem e refere-se um esquisito “esforço deliberado” que cria, por contraste, uma nova e contraditória categoria semântica, a do esforço involuntário. A enxurrada de esforços é tão grande que os esforços até se sobrepõem como no caso de “um esforço acrescido no esforço de consolidação.”

 

Palavras como corte e reduções são cortadas e reduzidas ao mínimo possível, substituídas pelo mais neutro “ajustamento”. O ajustamento, sendo um emagrecimento forçado tem, ainda assim, uma proximidade semântica a algo que é justo e, como tal, necessário e benéfico. Neste relatório, o ajustamento é “muito exigente e persistente”, embora o que já foi feito seja muito “significativo.” Já os sacrifícios permanecem no lugar de eixo moral e religioso deste orçamento. A via é difícil e estreita – é a nossa via crucis rumo à redenção final, quando não mais necessitaremos de ajuda externa e atingiremos a beatitude celestial da autonomia política. Não a podemos percorrer sem sacrifícios. Estes são inevitáveis e enormes mas evitam “sacrifícios futuros bem superiores.” Ou seja, se não queremos mais sacrifícios temos de fazer mais sacrifícios, o que nos deixa numa situação bem ingrata e, para utilizar um adjetivo muito popular neste relatório, “difícil”. De facto, aqui é tudo muito difícil. Portugal “atravessa um episódio difícil da sua história”, esta é uma “difícil situação”, a sustentabilidade das finanças públicas é “tão difícil”, a consolidação orçamental é uma via “difícil” e até o diagnóstico, a caracterização do ponto de partida, é difícil devido, louve-se o humilde reconhecimento das limitações, “à escassez de competências técnicas adequadas no Ministério das Finanças”. Como se não bastassem tantas dificuldades, o relatório avisa-nos caridosamente que o “caminho que temos que percorrer não é fácil.”

 

Para mitigar as dificuldades, vale-nos o facto de o governo ter um rumo e saber perfeitamente o que quer e para onde vai. Vejamos, por exemplo, a aposta na divulgação de Portugal enquanto destino para turismo residencial: lê-se no relatório que “importa desenvolver um enquadramento que favoreça a residência de estrangeiros em território nacional”, o que é uma medida muito coerente com os apelos à emigração dos jovens qualificados. No fundo, trata-se de substituir portugueses por estrangeiros para ver se isto começa a melhorar. E como é que o governo pensa desenvolver aquele enquadramento? Simples: com um pacote “para a promoção do turismo residencial que incentiva a atração de turistas residenciais”. Não é dito se o pacote inclui bronzeador, mas é revelador de bom senso e de alguma moderação nos objetivos que um pacote de promoção de turismo residencial vise atrair turistas residenciais e não, por exemplo, refugiados do Norte de África. O projeto vai ainda mais longe porque pretende atrair particularmente “turistas residenciais seniores” e os “respectivos rendimentos” que é para ninguém pensar que só os queremos cá por serem estrangeiros. Nada disso. Também têm de ser velhos e trazer o dinheirinho. Sandálias e meias brancas são dispensáveis. Para 2013, o relatório dá conta de um Governo apostado em várias coisas como desenvolver, reorganizar, reformular, agilizar, rentabilizar, promover e, sobretudo, requalificar. O Património será requalificado e o mesmo acontecerá com as “infraestruturas e equipamentos da Administração Interna”. Em relação à RTP, promete-se “um serviço público de conteúdos de rádio e de televisão consequente com a ambição de mudança que o Governo está a levar a cabo em prol de uma sociedade moderna, aberta e cosmopolita.” Fica por dizer como é que este projeto popperiano se articula com João Baião pois estamos em crer que naquele serviço só há espaço para um dos dois.

 

Outro aspeto em que o relatório revela determinação para manter o rumo é nas medidas de incentivo ao emprego que são equívoca e divertidamente libidinosas (Programa Impulso Jovem, Programa Vida Ativa, medida Estímulo 2012) e criam a legítima dúvida se o Governo quer reduzir efetivamente a taxa de desemprego ou se está apenas a tentar levá-la para a cama. Se assim for, propomos medidas adicionais como o Programa Titilação Prolongada (destinado a desempregados de longa duração) e o Programa Maduras (apoio a desempregadas com mais de 50 anos). Outras medidas como o “IVA de Caixa” ou o “Guichet Aberto” rivalizam com a nomenclatura mais inspirada das operações da GNR e da Polícia Judiciária. Na área da Reabilitação urbana, construção e imobiliário há uma atrevida Iniciativa Jessica, em honra da campeã de vendas de imóveis na ERA do Seixal.

 

Ao longo deste brilhante texto, é criada uma atmosfera vagamente conspirativa com a disseminação de inúmeros acrónimos. Aos já familiares BCE, FMI e TSU, juntam-se a GERAP, o RFAI, o CTUP, o PAEF, a EMPORDEF (que não é um programa de emprego destinado a deficientes mas a prosódica Empresa Portuguesa de Defesa), o MAMAOT (canal para adultos que não deve ser confundido com Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), o desvairado NUTS (Nomenclatura das Unidades Territoriais Estatísticas), o esotérico POPH (Programa Operacional do Potencial Humano) e o paciente SPER (Sector Empresarial Regional). Há também um SIRCA não aconselhável a crianças (Sistema de Recolha de Cadáveres de Animais Mortos na Exploração). A profusão de acrónimos é de tal ordem que até permite ao ministro uma referência oblíqua e um tanto jocosa à “queda acentuada dos CDS”.

 

Outro pormenor interessante é o da designação das pessoas a quem se destina o Orçamento, os portugueses, ou, em orçamentês, os contribuintes. Neste relatório o cidadão português é salomonicamente dividido em dois: o português, a quem o governo apela sentimentalmente, pedindo um esforço adicional, reconhecendo que este é um orçamento difícil que envolve sacrifícios para todos; e o contribuinte, que paga os impostos. Com os portugueses (que aqui são, por vezes, grafados com maiúscula, os Portugueses), o governo fala mansinho e pede-lhes ajuda na “prossecução deste desígnio nacional.” Com os contribuintes, que só conhece de número, é mais impessoal e tecnocrático: “20% dos contribuintes com salários mais altos”, “contribuintes que auferem rendimentos superiores ao salário mínimo”, “aplicável apenas aos contribuintes que auferem rendimentos mais elevados.” Esta estratégia de serem os contribuintes a auferir em vez dos portugueses é muito astuta porque põe os portugueses a desejar o pior aos contribuintes, esses auferidores de um raio!

 

Lendo o relatório só não se consegue perceber por que razão Portugal não contacta diretamente com quem manda nisto, que é o contexto (os gráficos também não se percebem mas isso é uma falha da minha formação em Humanidades). Afinal, tudo depende do contexto. O contexto é omnipresente e muito versátil: pode ser, como o clima, favorável ou desfavorável; beneficia de condições desconhecidas para a maioria dos portugueses, como a possibilidade de ser promovido (o relatório diz que se deve “promover um contexto adequado à criação”); e o ministro chega mesmo a reconhecer que pede conselhos ao contexto (“o contexto económico e financeiro atual aconselha à revisão das regras”), o que significa que, no contexto da coligação, o contexto vale mais do que o CDS. Tudo indica que sairemos desta crise muito mais pobres e extraordinariamente contextualizados.

01
Ago14

Oceano

Bruno Vieira Amaral

Fomos até uma esplanada de onde se via a praia, o Oceano Atlântico no seu fim ou no começo. Bebemos uma cerveja, falámos sobre as nossas vidas, sem aprofundar. Discutimos superficialmente o valor das rendas, o processo de compra de casa, evitando as intimidades, e quando demos por nós estávamos a salvo, a divagar sobre a sociedade em geral, a escola pública, a forma pouco civilizada como os portugueses cuidam do que é seu, felizes por evitarmos o caminho da mágoa. Só que a mágoa estava lá. Sempre esteve e nós sabíamos, e fingíamos que não estava para que pudéssemos prosseguir. Ignorar a mágoa que, todavia, existe, é uma arte que eu e o meu pai dominamos como ninguém. Ela está connosco em cada momento: quando passeámos pelos vinhedos do sul de França, quando a minha madrasta me ofereceu um porta-chaves comprado na loja de recordações do castelo de Palmela, quando corremos pelas ruas frias de Kandersteg no único Natal que passámos juntos. A mágoa esteve sempre lá, de vigia, controlando o que dizíamos, cortando a manifestação expansiva de sentimentos, trabalhando o nosso cinismo até que este se tornasse uma pedra perfeita de engaste, valiosa e inútil. Descemos até à praia. Eram quase oito horas. Eram poucas as pessoas no areal. Na água, chapinhava uma criança solitária. Pareceu-me que o meu pai tinha vontade de se lançar à água e nadar, nadar, nadar. Uma vez contou-me os problemas que teve numa prova aquática na Legião. Quase morreu afogado. “Deve ser um medo de família.” Eu não sei nadar mas não gosto de falar disso. Ele também prefere não falar sobre o assunto. Incomoda-o. Que o filho  não saiba nadar é, para ele, a prova irrefutável da sua ausência, o dedo acusador. Não quero falar disso. Estávamos muito perto da água. Muito perto daquilo que nos magoava. Decidimos que estava na hora de regressar a casa, onde quer que fosse.

01
Ago14

Carrossel

Bruno Vieira Amaral

A minha contribuição para o Carrossel da Flanzine:

 

 

 

É impossível ter certezas sobre certos acontecimentos. A proliferação de versões não conduz a uma verdade. Leva à incerteza e, por fim, como alívio, ao esquecimento. Hoje, é estranha a afirmação de que, naquela noite, ninguém viu nada, porque havia centenas de pessoas no recinto das festas e, nos dias que se seguiram, muitas falavam sobre o que tinham visto, sobre o que tinham ouvido, sobre o que outros mais bem informados tinham visto, sobre o que outros em lugares mais próximos da tragédia tinham ouvido.

 

Havia, como sempre, um barulho geral, eléctrico. Uma embriaguez, visão turva. Talvez por isso certos testemunhos com cópia de pormenores tenham sido desacreditados. Não porque lhes atribuíssem má-fé ou neles houvesse a intenção de desviar o curso das investigações, mas porque o diletantismo era denunciado pela volúpia no relato, pela forma mítica como descreviam as quedas das crianças nos castelos insufláveis, as camisolas piratas do Ronaldo e do Messi, o cheiro a gasóleo dos geradores, as unhas amarelas dos pés dos vendedores de estatuária africana, desenhando círculos de fábula à volta de um centro que nunca poderiam – e nem queriam - atingir. Seis meses durou o frenesi narrativo. Até que a falta de resultados das investigações policiais fez com que as pessoas começassem a evitar o assunto. Não por cansaço, nem pelo tipo de desinteresse que afecta mentes habituadas aos estímulos das novelas da imprensa da felicidade, mas por receio de que a verdade, a ser apurada, se revelasse tão terrível que ninguém que tivesse estado nas festas naquela noite a poderia suportar. Hoje, quando por distracção se menciona aquela noite desagradável de Junho, de imediato alguém avança com um conjunto de pormenores patéticos que a diluem numa espécie de corrente perpétua de memórias das festas: as alcateias de adolescentes muito pintadas a dedilharem mensagens e soltando “Foda-ses” que já não indignavam ninguém; um homem gordo e suado a cantar os números do bingo que hão-de ser a sorte de um infeliz; uma mulher gorda e suada a cortar a massa das farturas com uma intencionalidade oblíqua que sugere ódios persistentes, dívidas, traições; a rapariga que, na zona das bancas sofisticadas, oferece ginjinhas em copos de chocolate; o homem que, durante os sete dias de festa, dançou sozinho no terreiro, ao som de um acordeão nervoso, abraçado a um par invisível.

 

Lembro-me que, alguns meses depois, alguém amarrou uma coroa de flores a um poste. Não tinha qualquer mensagem. Ainda hoje não se sabe quem foi o autor do gesto. O que este revela é que, no meio de um desejo colectivo de amnésia, alguém ousou cravar um prego na nossa consciência. Podia ter sido uma homenagem de intenções puras. Talvez. Mas a coroa de flores assim exposta foi sentida como uma acusação à nossa alegria fútil. E só isso justifica que, na noite seguinte, a coroa tenha sido retirada por mãos anónimas, furtivas, e que reafirmavam a vontade maioritária de esquecer tudo o que acontecera. Até porque o Verão estava quase a chegar, as primeiras festas já tinham acabado e não faltava muito para regressarem as pistas de carrinhos de choque, o dragão mágico, as roulottes de cachorros e bifanas, os vendedores de tapetes, a morte de outros inocentes.

30
Jul14

Carta de Nicósia

Bruno Vieira Amaral

A pedido do correspondente da  Ler em Nicósia, João Óscar Braz, publico a carta que enviou para o nº de Junho da revista:

 

Em Memória de Nikos Kyriazis

 

No dia em que cheguei a Nicósia, há cerca de três anos, fiquei quatro horas no aeroporto até receber uma chamada do sujeito que supostamente estaria à minha espera, Nikos Kyriazis. Aos berros num inglês criativo explicava-me que surgira um imprevisto. Pedia-me que fosse ter com ele a um bar chamado Poison, perto da praça Eleftheria. Eu nunca tinha estado em Chipre e não estava consciente das implicações daquela situação. Perguntei-lhe, com alguma ingenuidade, como é que fazia para me deslocar para o dito bar e, do outro lado, em resposta ao meu desamparo, só ouvi uma gargalhada sonora, quase ofensiva: “go outside, speak Hazar, the cab driver”. Era a primeira vez que eu estava sozinho fora do meu país e dependente de um taxista chamado Hazar. Senti-me um pouco ridículo a olhar para os taxistas lá fora a tentar descobrir qual deles seria o Hazar. Até que me enchi de coragem e fui falar com um taxista de meia-idade que, não sei bem porquê, me inspirou confiança. Perguntei-lhe em inglês se me podia ajudar. Fixou-me, como que a estudar o anormal à frente dele, cuspiu para o chão e apontou para um tipo que estava encostado ao pior táxi da praça: “That guy is Hazar.” Aproximei-me dele e disse-lhe que Nikos estava à minha espera no Poison e me pedira para falar com ele. Foi impecável. Carregou as minhas malas e, no final, disse-me que não tinha de pagar nada. O Poison era um bar que cheirava a anos 70. Durante os oito meses que estive em Nicósia, tinha sempre o mesmo cheiro a lixívia, Old Spice, Cointreau e cigarros Ritz. Naquela tarde, sentado numa mesa, rodeado de uma plateia atenta, estava Nikos. Tocava uma modinha de Catulo da Paixão Cearense. Como eu nada sabia da história pessoal deste cipriota, achei aquela cena completamente irreal. Eu tinha boas razões para o odiar, mas percebi naquele momento que era impossível odiar Nikos Kyriazis. Nunca conheci ninguém com aquela alegria, transparência e, tenho de o reconhecer, tendência para não cumprir o prometido. Ao balcão do Poison, vim a descobrir mais tarde, estava um empresário de futebol português, que depois de levar à falência uma discoteca em Freamunde, uma empresa de extracção de pedra e uma loja de artigos de caça e pesca apostara na exportação de jovens talentos do futebol. Naquela altura, tinha mais de 60 jogadores em carteira, todos genuinamente medíocres. Se falo deste sujeito não é porque o tivesse em grande conta mas porque a única pessoa com quem ele falava ali dentro era Nikos. Além disso só cumprimentava uma decadente beldade local – que, de acordo com Nikos, representara o Chipre no Festival da Eurovisão em meados dos anos 90. O engraçado é que Nikos nada tinha que o fizesse ser temido ou, mesmo, respeitado. Mas a verdade é que era respeitado e temido. E, não exagero ao dizê-lo, também era amado. Os melhores momentos da minha estadia em Nicósia foram na sua companhia – um derby no GSP, os finais de tarde no Plato’s refrescados com Vedett, os jantares prolongados no Zanettos – e ainda guardo os conselhos que generosamente me deu: mesmo hoje, se fosse a casa do adido cultural da Polónia, seria incapaz de beber outra coisa que não água engarrafada; é verdade tudo o que dizem sobre Cynthia, a Triste, e não vale a pena querer saber mais; nunca passar na rua Ledra antes das três da tarde. Apesar de ser uma fonte inesgotável de energia e boa disposição, era reservado no que dizia respeito à sua vida privada. Só quase no final da minha temporada em Nicósia soube um pouco mais sobre aquele homem. Era filho de um construtor civil riquíssimo mas escolhera ser livre. Não tinha casa própria, nem cartão de crédito, nem sequer conta bancária. Só amigos e admiradores. Um destes ofereceu-lhe uma viagem ao Brasil para ir à procura de uma mulher: Marília. Regressou sem Marília mas com as modinhas de Catulo na cabeça e nas mãos. Quando, há coisa de meio ano, soube da morte de Nikos, não fiquei surpreendido. Também não chorei. No entanto, uma semana depois, comprei um bilhete de avião para Nicósia. Vagueei durante quatro horas pelo aeroporto à espera de uma chamada que nunca chegaria, saí e vi um turco encostado ao pior táxi da praça e pedi-lhe que me levasse ao Poison. Subi as escadas, vi a mesa vazia e, ao balcão, um casal de turistas alemães a tentar decifrar a carta. Quando saí, trazia comigo o cheiro a Old Spice e a cigarros Ritz e a certeza de que em Nicósia encontrarei sempre o rasto invisível daquele homem inventado, Nikos Kyriazis.

17
Jul14

7700: final

Bruno Vieira Amaral

Pedindo desculpa pelo lamentável atraso, venho então encerrar estas crónicas mundialícias, já bronzeado e germânico. Não se fala de outra coisa. O futuro do futebol está na Alemanha. Comecem a baptizar a pequenada com nomes como Bastian, Miroslav e Thomas ou, se quiserem que a influência chegue diluída, Mesut, Jerome, Sami ou um equivocamente lusitano Manuel. Claro que os vossos filhos têm de comer muita Maizena para não se tornarem versões apenas ligeiramente mais volumosas do diminuto Moutinho; enquanto pais, o vosso dever passa por lhes dar banhos de água fria desde a mais tenra idade e oxigenar-lhes os cabelos para que os rapazes percam aquele ar sofrido do Patrício, de qualquer patrício, e adquiram a reluzente e ubermenschiana intrepidez, nas margens do nazismo, do Neuer. Depois é só juntar três camiões de dinheiro para investir em academias durante 14 anos e o resultado será um campeonato do mundo, uma taça, um planeta rendido à Alemanha, como Hitler sonhou mas não exactamente como Hitler sonhou. O labrego português pode questionar-se, com toda a sua argúcia mentalmente camponesa, se vale a pena investir tanto dinheiro para, no fim, ganhar apenas um pretexto para uma parada, copos e sexo com desconhecidos? A esta estupidez sul-europeia, tacanha e preguiçosa, própria de quem não sabe o que é um Centro de Alto Rendimento, não sabe o que é avistar a maravilhosa taça passeada em autocarro descapotável pelas ruas de Lisboa e não sabe nada de nada, incluindo o que são três camiões cheios de dinheiro eficientemente semeado por todo um país ao longo de 14 anos, o alemão responde lá do alto da estrela da Mercedes onde eles moram que isto não é apenas para ganhar é também para formar a juventude e mantê-la afastada das drogas e, com mais sucesso, da literatura. Que um meio-campo com Schweinsteiger, Khedira e Kroos não é apenas um acidente futebolístico, é o fruto de um projecto civilizacional que não deixa de fora filhos de imigrantes, negros e pessoas como Howedes. O que se celebrou no passado Domingo não foi a vitória de uma selecção sobre outra, foi o triunfo inevitável da vontade, da planificação, da estratégia, do trabalho a longo prazo sobre Gonzalo Higuain, que não só falhou aquele cabrão daquele golo como ainda esteve muito perto de ser assassinado pelo Neuer. Esqueçam tudo e Guardiola. Falem com o Nuno Crato e comecem a ensinar alemão às crianças desde o ensino básico. Imaginem Paulo Bento a falar alemão. Todas aquelas desculpas arrancadas a ferros – a língua portuguesa parece ter sido inventada para as pessoas pedirem desculpas –, justificações, eu-não-me-demitos, teriam o som marcial de uma declaração de guerra. Quando Löw fala são séculos de pensamento e de crítica, de Hegel e de Nietzsche, de zeitgeist, bildungsroman e sauerkraut, que desembocam naquelas palavras, quaisquer que elas sejam. Alguém que fale alemão só pode ser muito inteligente, tem de ser o resultado de um projecto longamente amadurecido, tenazmente executado e eu sei lá mais o quê. Quantas escolas de futebol não tiveram de ser construídas para se chegar a Götze? Quantas horas não foram passadas pelos mais brilhantes cérebros da Germânia para elaborar um Müeller, para conceber um Hummels, para realizar essa definitiva e indestrutível obra de engenharia social e futebolística que é a mannschaft? Pensando bem, para criar um Cristiano Ronaldo foi preciso apenas um ambiente social degradado e umas taponas da dona Dolores, o que me leva a pensar que, mais do que um investimento brutal em centros e planificações, o melhor é entregarmos os nossos filhos à mãe do Ronaldo e à Academia do Sporting.

09
Jul14

7700: 6'40''

Bruno Vieira Amaral

A goleada de ontem começou no dia 17 de Julho de 1994, em Pasadena, no momento em que um tal de Roberto Baggio, o mais brasileiro de todos os jogadores em campo naquela tarde, falhou o penalty que fez do Brasil tetra. “Ganhamos as três primeiras Copas jogando o que se passou a chamar de futebol-arte. Depois, perdemos a de 82, praticando um futebol que encantou o mundo, e ganhamos a Copa de 94 jogando um futebol que não era o nosso. Lembramos a escalação do timaço de 82, mas não tão facilmente a de 94. [...]Na verdade, desde 1986 que não temos uma Seleção que nos orgulhe, jogando bonito e sendo competitiva.” Quem escreveu isto foi Walter de Mattos Jr., editor do Lance! Não acredito que tenha sido necessário o massacre alemão para que os brasileiros chegassem a esta conclusão. O Mineirazo era um desastre escrito nas estrelas. Mais exactamente, nas duas últimas estrelas que os jogadores da canarinha orgulhosamente ostentam nas camisolas. A reboque dos grandes talentos individuais que nunca deixou de produzir e de uma ideia de organização que se resume a pôr no meio-campo dois tractores – uma marca do nefasto Parreira e que Scolari nunca renegou – esperando que a sua presença intimidadora liberte os génios lá da frente, o Brasil venceu dois campeonatos do mundo nos últimos 20 anos. Chegou para silenciar os críticos e para criar a ilusão de que o mundo de futebol teria sempre a decência de acompanhar o ritmo do Brasil para não causar embaraços ao país do jogo bonito, como um jovem que refreia o passo quando na companhia de um ancião. Esse tempo acabou ontem. Com decência, mas sem misericórdia. Com respeito pelas belas camisolas dos brasileiros, mas sem o respeitinho que inibiu chilenos e colombianos. A Alemanha, tal como a Espanha de há quatro anos, encontrou uma forma de organização colectiva capaz de potenciar as qualidades – e são tantas – dos seus elementos. O Brasil não o conseguiu fazer quando foi campeão em 94, não o conseguiu fazer quando foi campeão em 2002, e também não o conseguiu fazer em 98, 2006 e 2010. E nestes vinte anos, quantos génios não vestiram aquela camisola – Romário, Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo? Mas as desculpas apareceram sempre: o colapso de Ronaldo, o brilhantismo de Zidane, o frango de Júlio César. Havia sempre um pormenor para justificar a derrota do único detentor legítimo do ceptro. Em todos estes campeonatos do mundo alguém se lembra de uma exibição do Brasil contra grandes selecções em que os brasileiros tenham demonstrado 1/3 da superioridade que a Alemanha exibiu ontem? O problema do Brasil tem sido pensar as equipas em função dos carregadores de piano. Inverteu-se a lógica: os mais importantes são os mais limitados porque permitem que os génios se destaquem. Por isso, o Brasil tem jogado nestes vinte anos como duas equipas numa só: a equipa dos que defendem e a equipa dos que atacam, salvas pela capacidade individual de alguns jogadores especiais para preencher o espaço entre as duas. O que se viu ontem foi uma equipa partida, sem ligação, com um abismo entre os que defendiam e os que atacavam. Para agravar as coisas, os que defendiam, defendiam mal; os que atacavam, atacavam pior; os que defendiam queriam atacar mas prejudicavam a equipa; os que atacavam queriam defender mas não sabiam como. Os dois tractores do meio-campo tinham pavor de ter a bola nos pés. Mesmo que fossem craques já teriam dificuldade em combater a organização alemã, mas sendo fernandinhos era crueldade pedir-lhes que recebessem a bola, controlassem e distribuíssem. Olhava-se para a Alemanha e via-se a facilidade que qualquer jogador do meio-campo tinha em pegar na bola e avançar ou pegar na bola e fazer um passe de trinta metros. Ninguém tinha medo da bola. Aqueles 6’ 40’’ em que o Brasil sofreu quatro golos – uma cifra polinésia – ficam para a história como a maior destruição futebolística de sempre. Talvez por não ter recordações do mundial de 82, nunca gostei da selecção brasileira. Vi sempre selecções medianas com fulgurações de talento, sortudas, protegidas pelos árbitros, reverenciadas em excesso por adversários sem nome. Só que essas selecções ganharam dois campeonatos do mundo e, sendo assim, quem é que se convence que as coisas estão mal? Não quero ser injusto com os brasileiros: acho que o Brasil seria o único país do mundo capaz de apresentar três ou quatro selecções muito competitivas num campeonato do mundo. Mas essa quantidade absurda de talento não chega. É necessário alguém que a organize de uma forma um pouco mais sofisticada do que juntar dois pedreiros numa orquestra. Scolari acho que o jogo de ontem foi um acidente. Há quem ache que foi uma lição. Eu acho que não foi nem uma coisa, nem outra. Não foi um acidente porque – apesar dos números inusuais – uma vitória, e até uma vitória gorda, da Alemanha não espantava ninguém. E também não foi uma lição porque, tal como Scolari, muitos acham que foi apenas um acidente. Mas os acidentes aconteceram há mais tempo. Aquelas duas estrelinhas intrusas na camisola do escrete não deixam que os esqueçamos.

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