"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
1.8.14

Fomos até uma esplanada de onde se via a praia, o Oceano Atlântico no seu fim ou no começo. Bebemos uma cerveja, falámos sobre as nossas vidas, sem aprofundar. Discutimos superficialmente o valor das rendas, o processo de compra de casa, evitando as intimidades, e quando demos por nós estávamos a salvo, a divagar sobre a sociedade em geral, a escola pública, a forma pouco civilizada como os portugueses cuidam do que é seu, felizes por evitarmos o caminho da mágoa. Só que a mágoa estava lá. Sempre esteve e nós sabíamos, e fingíamos que não estava para que pudéssemos prosseguir. Ignorar a mágoa que, todavia, existe, é uma arte que eu e o meu pai dominamos como ninguém. Ela está connosco em cada momento: quando passeámos pelos vinhedos do sul de França, quando a minha madrasta me ofereceu um porta-chaves comprado na loja de recordações do castelo de Palmela, quando corremos pelas ruas frias de Kandersteg no único Natal que passámos juntos. A mágoa esteve sempre lá, de vigia, controlando o que dizíamos, cortando a manifestação expansiva de sentimentos, trabalhando o nosso cinismo até que este se tornasse uma pedra perfeita de engaste, valiosa e inútil. Descemos até à praia. Eram quase oito horas. Eram poucas as pessoas no areal. Na água, chapinhava uma criança solitária. Pareceu-me que o meu pai tinha vontade de se lançar à água e nadar, nadar, nadar. Uma vez contou-me os problemas que teve numa prova aquática na Legião. Quase morreu afogado. “Deve ser um medo de família.” Eu não sei nadar mas não gosto de falar disso. Ele também prefere não falar sobre o assunto. Incomoda-o. Que o filho  não saiba nadar é, para ele, a prova irrefutável da sua ausência, o dedo acusador. Não quero falar disso. Estávamos muito perto da água. Muito perto daquilo que nos magoava. Decidimos que estava na hora de regressar a casa, onde quer que fosse.

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A minha contribuição para o Carrossel da Flanzine:

 

 

 

É impossível ter certezas sobre certos acontecimentos. A proliferação de versões não conduz a uma verdade. Leva à incerteza e, por fim, como alívio, ao esquecimento. Hoje, é estranha a afirmação de que, naquela noite, ninguém viu nada, porque havia centenas de pessoas no recinto das festas e, nos dias que se seguiram, muitas falavam sobre o que tinham visto, sobre o que tinham ouvido, sobre o que outros mais bem informados tinham visto, sobre o que outros em lugares mais próximos da tragédia tinham ouvido.

 

Havia, como sempre, um barulho geral, eléctrico. Uma embriaguez, visão turva. Talvez por isso certos testemunhos com cópia de pormenores tenham sido desacreditados. Não porque lhes atribuíssem má-fé ou neles houvesse a intenção de desviar o curso das investigações, mas porque o diletantismo era denunciado pela volúpia no relato, pela forma mítica como descreviam as quedas das crianças nos castelos insufláveis, as camisolas piratas do Ronaldo e do Messi, o cheiro a gasóleo dos geradores, as unhas amarelas dos pés dos vendedores de estatuária africana, desenhando círculos de fábula à volta de um centro que nunca poderiam – e nem queriam - atingir. Seis meses durou o frenesi narrativo. Até que a falta de resultados das investigações policiais fez com que as pessoas começassem a evitar o assunto. Não por cansaço, nem pelo tipo de desinteresse que afecta mentes habituadas aos estímulos das novelas da imprensa da felicidade, mas por receio de que a verdade, a ser apurada, se revelasse tão terrível que ninguém que tivesse estado nas festas naquela noite a poderia suportar. Hoje, quando por distracção se menciona aquela noite desagradável de Junho, de imediato alguém avança com um conjunto de pormenores patéticos que a diluem numa espécie de corrente perpétua de memórias das festas: as alcateias de adolescentes muito pintadas a dedilharem mensagens e soltando “Foda-ses” que já não indignavam ninguém; um homem gordo e suado a cantar os números do bingo que hão-de ser a sorte de um infeliz; uma mulher gorda e suada a cortar a massa das farturas com uma intencionalidade oblíqua que sugere ódios persistentes, dívidas, traições; a rapariga que, na zona das bancas sofisticadas, oferece ginjinhas em copos de chocolate; o homem que, durante os sete dias de festa, dançou sozinho no terreiro, ao som de um acordeão nervoso, abraçado a um par invisível.

 

Lembro-me que, alguns meses depois, alguém amarrou uma coroa de flores a um poste. Não tinha qualquer mensagem. Ainda hoje não se sabe quem foi o autor do gesto. O que este revela é que, no meio de um desejo colectivo de amnésia, alguém ousou cravar um prego na nossa consciência. Podia ter sido uma homenagem de intenções puras. Talvez. Mas a coroa de flores assim exposta foi sentida como uma acusação à nossa alegria fútil. E só isso justifica que, na noite seguinte, a coroa tenha sido retirada por mãos anónimas, furtivas, e que reafirmavam a vontade maioritária de esquecer tudo o que acontecera. Até porque o Verão estava quase a chegar, as primeiras festas já tinham acabado e não faltava muito para regressarem as pistas de carrinhos de choque, o dragão mágico, as roulottes de cachorros e bifanas, os vendedores de tapetes, a morte de outros inocentes.

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30.7.14

A pedido do correspondente da  Ler em Nicósia, João Óscar Braz, publico a carta que enviou para o nº de Junho da revista:

 

Em Memória de Nikos Kyriazis

 

No dia em que cheguei a Nicósia, há cerca de três anos, fiquei quatro horas no aeroporto até receber uma chamada do sujeito que supostamente estaria à minha espera, Nikos Kyriazis. Aos berros num inglês criativo explicava-me que surgira um imprevisto. Pedia-me que fosse ter com ele a um bar chamado Poison, perto da praça Eleftheria. Eu nunca tinha estado em Chipre e não estava consciente das implicações daquela situação. Perguntei-lhe, com alguma ingenuidade, como é que fazia para me deslocar para o dito bar e, do outro lado, em resposta ao meu desamparo, só ouvi uma gargalhada sonora, quase ofensiva: “go outside, speak Hazar, the cab driver”. Era a primeira vez que eu estava sozinho fora do meu país e dependente de um taxista chamado Hazar. Senti-me um pouco ridículo a olhar para os taxistas lá fora a tentar descobrir qual deles seria o Hazar. Até que me enchi de coragem e fui falar com um taxista de meia-idade que, não sei bem porquê, me inspirou confiança. Perguntei-lhe em inglês se me podia ajudar. Fixou-me, como que a estudar o anormal à frente dele, cuspiu para o chão e apontou para um tipo que estava encostado ao pior táxi da praça: “That guy is Hazar.” Aproximei-me dele e disse-lhe que Nikos estava à minha espera no Poison e me pedira para falar com ele. Foi impecável. Carregou as minhas malas e, no final, disse-me que não tinha de pagar nada. O Poison era um bar que cheirava a anos 70. Durante os oito meses que estive em Nicósia, tinha sempre o mesmo cheiro a lixívia, Old Spice, Cointreau e cigarros Ritz. Naquela tarde, sentado numa mesa, rodeado de uma plateia atenta, estava Nikos. Tocava uma modinha de Catulo da Paixão Cearense. Como eu nada sabia da história pessoal deste cipriota, achei aquela cena completamente irreal. Eu tinha boas razões para o odiar, mas percebi naquele momento que era impossível odiar Nikos Kyriazis. Nunca conheci ninguém com aquela alegria, transparência e, tenho de o reconhecer, tendência para não cumprir o prometido. Ao balcão do Poison, vim a descobrir mais tarde, estava um empresário de futebol português, que depois de levar à falência uma discoteca em Freamunde, uma empresa de extracção de pedra e uma loja de artigos de caça e pesca apostara na exportação de jovens talentos do futebol. Naquela altura, tinha mais de 60 jogadores em carteira, todos genuinamente medíocres. Se falo deste sujeito não é porque o tivesse em grande conta mas porque a única pessoa com quem ele falava ali dentro era Nikos. Além disso só cumprimentava uma decadente beldade local – que, de acordo com Nikos, representara o Chipre no Festival da Eurovisão em meados dos anos 90. O engraçado é que Nikos nada tinha que o fizesse ser temido ou, mesmo, respeitado. Mas a verdade é que era respeitado e temido. E, não exagero ao dizê-lo, também era amado. Os melhores momentos da minha estadia em Nicósia foram na sua companhia – um derby no GSP, os finais de tarde no Plato’s refrescados com Vedett, os jantares prolongados no Zanettos – e ainda guardo os conselhos que generosamente me deu: mesmo hoje, se fosse a casa do adido cultural da Polónia, seria incapaz de beber outra coisa que não água engarrafada; é verdade tudo o que dizem sobre Cynthia, a Triste, e não vale a pena querer saber mais; nunca passar na rua Ledra antes das três da tarde. Apesar de ser uma fonte inesgotável de energia e boa disposição, era reservado no que dizia respeito à sua vida privada. Só quase no final da minha temporada em Nicósia soube um pouco mais sobre aquele homem. Era filho de um construtor civil riquíssimo mas escolhera ser livre. Não tinha casa própria, nem cartão de crédito, nem sequer conta bancária. Só amigos e admiradores. Um destes ofereceu-lhe uma viagem ao Brasil para ir à procura de uma mulher: Marília. Regressou sem Marília mas com as modinhas de Catulo na cabeça e nas mãos. Quando, há coisa de meio ano, soube da morte de Nikos, não fiquei surpreendido. Também não chorei. No entanto, uma semana depois, comprei um bilhete de avião para Nicósia. Vagueei durante quatro horas pelo aeroporto à espera de uma chamada que nunca chegaria, saí e vi um turco encostado ao pior táxi da praça e pedi-lhe que me levasse ao Poison. Subi as escadas, vi a mesa vazia e, ao balcão, um casal de turistas alemães a tentar decifrar a carta. Quando saí, trazia comigo o cheiro a Old Spice e a cigarros Ritz e a certeza de que em Nicósia encontrarei sempre o rasto invisível daquele homem inventado, Nikos Kyriazis.

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17.7.14

Pedindo desculpa pelo lamentável atraso, venho então encerrar estas crónicas mundialícias, já bronzeado e germânico. Não se fala de outra coisa. O futuro do futebol está na Alemanha. Comecem a baptizar a pequenada com nomes como Bastian, Miroslav e Thomas ou, se quiserem que a influência chegue diluída, Mesut, Jerome, Sami ou um equivocamente lusitano Manuel. Claro que os vossos filhos têm de comer muita Maizena para não se tornarem versões apenas ligeiramente mais volumosas do diminuto Moutinho; enquanto pais, o vosso dever passa por lhes dar banhos de água fria desde a mais tenra idade e oxigenar-lhes os cabelos para que os rapazes percam aquele ar sofrido do Patrício, de qualquer patrício, e adquiram a reluzente e ubermenschiana intrepidez, nas margens do nazismo, do Neuer. Depois é só juntar três camiões de dinheiro para investir em academias durante 14 anos e o resultado será um campeonato do mundo, uma taça, um planeta rendido à Alemanha, como Hitler sonhou mas não exactamente como Hitler sonhou. O labrego português pode questionar-se, com toda a sua argúcia mentalmente camponesa, se vale a pena investir tanto dinheiro para, no fim, ganhar apenas um pretexto para uma parada, copos e sexo com desconhecidos? A esta estupidez sul-europeia, tacanha e preguiçosa, própria de quem não sabe o que é um Centro de Alto Rendimento, não sabe o que é avistar a maravilhosa taça passeada em autocarro descapotável pelas ruas de Lisboa e não sabe nada de nada, incluindo o que são três camiões cheios de dinheiro eficientemente semeado por todo um país ao longo de 14 anos, o alemão responde lá do alto da estrela da Mercedes onde eles moram que isto não é apenas para ganhar é também para formar a juventude e mantê-la afastada das drogas e, com mais sucesso, da literatura. Que um meio-campo com Schweinsteiger, Khedira e Kroos não é apenas um acidente futebolístico, é o fruto de um projecto civilizacional que não deixa de fora filhos de imigrantes, negros e pessoas como Howedes. O que se celebrou no passado Domingo não foi a vitória de uma selecção sobre outra, foi o triunfo inevitável da vontade, da planificação, da estratégia, do trabalho a longo prazo sobre Gonzalo Higuain, que não só falhou aquele cabrão daquele golo como ainda esteve muito perto de ser assassinado pelo Neuer. Esqueçam tudo e Guardiola. Falem com o Nuno Crato e comecem a ensinar alemão às crianças desde o ensino básico. Imaginem Paulo Bento a falar alemão. Todas aquelas desculpas arrancadas a ferros – a língua portuguesa parece ter sido inventada para as pessoas pedirem desculpas –, justificações, eu-não-me-demitos, teriam o som marcial de uma declaração de guerra. Quando Löw fala são séculos de pensamento e de crítica, de Hegel e de Nietzsche, de zeitgeist, bildungsroman e sauerkraut, que desembocam naquelas palavras, quaisquer que elas sejam. Alguém que fale alemão só pode ser muito inteligente, tem de ser o resultado de um projecto longamente amadurecido, tenazmente executado e eu sei lá mais o quê. Quantas escolas de futebol não tiveram de ser construídas para se chegar a Götze? Quantas horas não foram passadas pelos mais brilhantes cérebros da Germânia para elaborar um Müeller, para conceber um Hummels, para realizar essa definitiva e indestrutível obra de engenharia social e futebolística que é a mannschaft? Pensando bem, para criar um Cristiano Ronaldo foi preciso apenas um ambiente social degradado e umas taponas da dona Dolores, o que me leva a pensar que, mais do que um investimento brutal em centros e planificações, o melhor é entregarmos os nossos filhos à mãe do Ronaldo e à Academia do Sporting.

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9.7.14

A goleada de ontem começou no dia 17 de Julho de 1994, em Pasadena, no momento em que um tal de Roberto Baggio, o mais brasileiro de todos os jogadores em campo naquela tarde, falhou o penalty que fez do Brasil tetra. “Ganhamos as três primeiras Copas jogando o que se passou a chamar de futebol-arte. Depois, perdemos a de 82, praticando um futebol que encantou o mundo, e ganhamos a Copa de 94 jogando um futebol que não era o nosso. Lembramos a escalação do timaço de 82, mas não tão facilmente a de 94. [...]Na verdade, desde 1986 que não temos uma Seleção que nos orgulhe, jogando bonito e sendo competitiva.” Quem escreveu isto foi Walter de Mattos Jr., editor do Lance! Não acredito que tenha sido necessário o massacre alemão para que os brasileiros chegassem a esta conclusão. O Mineirazo era um desastre escrito nas estrelas. Mais exactamente, nas duas últimas estrelas que os jogadores da canarinha orgulhosamente ostentam nas camisolas. A reboque dos grandes talentos individuais que nunca deixou de produzir e de uma ideia de organização que se resume a pôr no meio-campo dois tractores – uma marca do nefasto Parreira e que Scolari nunca renegou – esperando que a sua presença intimidadora liberte os génios lá da frente, o Brasil venceu dois campeonatos do mundo nos últimos 20 anos. Chegou para silenciar os críticos e para criar a ilusão de que o mundo de futebol teria sempre a decência de acompanhar o ritmo do Brasil para não causar embaraços ao país do jogo bonito, como um jovem que refreia o passo quando na companhia de um ancião. Esse tempo acabou ontem. Com decência, mas sem misericórdia. Com respeito pelas belas camisolas dos brasileiros, mas sem o respeitinho que inibiu chilenos e colombianos. A Alemanha, tal como a Espanha de há quatro anos, encontrou uma forma de organização colectiva capaz de potenciar as qualidades – e são tantas – dos seus elementos. O Brasil não o conseguiu fazer quando foi campeão em 94, não o conseguiu fazer quando foi campeão em 2002, e também não o conseguiu fazer em 98, 2006 e 2010. E nestes vinte anos, quantos génios não vestiram aquela camisola – Romário, Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo? Mas as desculpas apareceram sempre: o colapso de Ronaldo, o brilhantismo de Zidane, o frango de Júlio César. Havia sempre um pormenor para justificar a derrota do único detentor legítimo do ceptro. Em todos estes campeonatos do mundo alguém se lembra de uma exibição do Brasil contra grandes selecções em que os brasileiros tenham demonstrado 1/3 da superioridade que a Alemanha exibiu ontem? O problema do Brasil tem sido pensar as equipas em função dos carregadores de piano. Inverteu-se a lógica: os mais importantes são os mais limitados porque permitem que os génios se destaquem. Por isso, o Brasil tem jogado nestes vinte anos como duas equipas numa só: a equipa dos que defendem e a equipa dos que atacam, salvas pela capacidade individual de alguns jogadores especiais para preencher o espaço entre as duas. O que se viu ontem foi uma equipa partida, sem ligação, com um abismo entre os que defendiam e os que atacavam. Para agravar as coisas, os que defendiam, defendiam mal; os que atacavam, atacavam pior; os que defendiam queriam atacar mas prejudicavam a equipa; os que atacavam queriam defender mas não sabiam como. Os dois tractores do meio-campo tinham pavor de ter a bola nos pés. Mesmo que fossem craques já teriam dificuldade em combater a organização alemã, mas sendo fernandinhos era crueldade pedir-lhes que recebessem a bola, controlassem e distribuíssem. Olhava-se para a Alemanha e via-se a facilidade que qualquer jogador do meio-campo tinha em pegar na bola e avançar ou pegar na bola e fazer um passe de trinta metros. Ninguém tinha medo da bola. Aqueles 6’ 40’’ em que o Brasil sofreu quatro golos – uma cifra polinésia – ficam para a história como a maior destruição futebolística de sempre. Talvez por não ter recordações do mundial de 82, nunca gostei da selecção brasileira. Vi sempre selecções medianas com fulgurações de talento, sortudas, protegidas pelos árbitros, reverenciadas em excesso por adversários sem nome. Só que essas selecções ganharam dois campeonatos do mundo e, sendo assim, quem é que se convence que as coisas estão mal? Não quero ser injusto com os brasileiros: acho que o Brasil seria o único país do mundo capaz de apresentar três ou quatro selecções muito competitivas num campeonato do mundo. Mas essa quantidade absurda de talento não chega. É necessário alguém que a organize de uma forma um pouco mais sofisticada do que juntar dois pedreiros numa orquestra. Scolari acho que o jogo de ontem foi um acidente. Há quem ache que foi uma lição. Eu acho que não foi nem uma coisa, nem outra. Não foi um acidente porque – apesar dos números inusuais – uma vitória, e até uma vitória gorda, da Alemanha não espantava ninguém. E também não foi uma lição porque, tal como Scolari, muitos acham que foi apenas um acidente. Mas os acidentes aconteceram há mais tempo. Aquelas duas estrelinhas intrusas na camisola do escrete não deixam que os esqueçamos.

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8.7.14

Os caminhos para a posteridade futebolística são incertos: muitos são chamados, poucos são escolhidos. De cada geração, escolhe-se um, dois, e é nestes que, por artes metonímicas, se concentram todas as qualidades de uma época. Por vezes, perduram os sistemas em detrimento dos executantes, os alfabetos tácticos no lugar dos jogadores e das suas contribuições individuais, únicas. Vive Eusébio, viverá talvez no futuro acompanhado pela maldição de um húngaro. Nessa altura, José Augusto, António Simões, Coluna, Jaime Graça, tantos outros, serão pasto para os bichinhos que devoram enciclopédias, meras recordações locais. Pense-se na quase extraordinária carreira de um extraordinário Paulo Futre, Deus dos pequenos, um dos melhores do seu tempo, símbolo de um Atlético sempre à cata das sobras dos grandes. Foi preciso uma surrealista e psicotrópica conferência de imprensa para recuperar a memória de um homem que, naquele fim de tarde no Prater, falhou por centímetros a entrada directa no panteão. Se Futre tivesse marcado aquele golo maradoniano a Bola teria sido de ouro e não de outro. Madjer, outro grande, é quase exclusivamente lembrado pelo seu insólito calcanhar na mesma noite de Viena. O tempo pode ser um grande escultor mas em todas as grandes obras que realiza há a história da pedra que fica no chão, a pedra que nasceu na altura errada, a pedra que falhou aquele golo, a pedra que não foi obra de arte. Hoje, que joga a Alemanha, e apesar de todos os elogios que lhe possamos endereçar à capacidade atlética e técnica, ao espírito competitivo, à fome de conquista, queríamos um Ozil que, até ao momento, só tem estado de corpo e táctica neste mundial. E é pela falta que nos faz Ozil que me lembro desse grande jogador alemão, baixinho, criativo, esquecido, que foi Thomas Hässler. Outros da sua geração tornaram-se simbólicos: Matthäus, Klinsmann, Möller, até defesas como Brehme e Kohler. Mas se quiséssemos ver o nosso futebol no meio dos bárbaros tínhamos de esperar que a bola chegasse a Hässler. Esta noite, em Belo Horizonte, em que tudo aponta para que o jogo se decida na batalha meio-campal entre gladiadores – Schweinsteiger, Khedira e Kroos contra Luiz Gustavo, Fernandinho e Paulinho (não se deixem enganar pelos diminutivos) –, em que teremos a energia de David Luiz e de Lahm, a raça de Daniel Alves, a elegância guerreira de Hummels, vamos sentir a falta de Hässler, vamos sentir a falta de Zico, vamos sentir a falta de Ronaldinho Gaúcho, vamos sentir a falta de Neymar e é possível que sintamos a falta de Ozil, se ele continuar longe dos trópicos, melancolicamente amarrado às tácticas.

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7.7.14

Minha pobre Argentina,

 

Escrevo-te de Portugal, feliz por estares de novo nas meias-finais, 24 anos depois de Diego ter chorado, triste por chegares assim, coxa, sem alegria, clandestina, como uma mendiga a entrar sorrateiramente numa festa. Querida Argentina, a festa é tua, tu és a festa. Não jogues assim, por amor de Deus! Triste, arrastada, com uma única ideia na cabeça – Messi – que maquilha a absoluta ausência de ideias. Bem sei que em Itália também chegaste à final aos trambolhões. Nesse campeonato, os teus adeptos festejaram cinco golos, menos um que o melhor marcador do torneio, uma coisa que aconteceu como certos cometas acontecem e que se chamava Salvatore. Cinco golos em sete jogos, querida Argentina! O teu herói, o nosso herói, foi aquele rapazito Goicoechea, guardião que só foi para a baliza após a lesão do mítico Pumpido e que defendeu penalties de toda a gente que vivia entre os Balcãs e a Sardenha, e só não pôde defender aquele miserável golpe do alemão. Mas essa equipa tinha o Diego, que já não era o Diego de quatro anos antes, era outro, mais lento, mais gordo, mais rato, capaz de quebrar milhões de corações transalpinos e continuar a ser adorado em Nápoles, mas ainda era o Diego, e nós queríamos que ele ganhasse, fosse lá como fosse. Nos mundiais seguintes, já queríamos que jogasses bem porque chegavas carregadinha de astros – Ortega, Redondo, Riquelme, Verón, Saviola, Aimar, Claudio Lopez, Simeone, Maxi Rodriguez, Carlos Tevez, Aguero, Pastore, Crespo, Batistuta – e já não havia Diego para te perdoarmos o mau futebol. Salvo um ou outro jogo, nunca te redimiste e acabaste sempre por cair, jogando melhor ou pior, antes das meias-finais. E agora é aí que te encontras empurrada pelos argentinos de nacionalidade que atravessaram a fronteira mas com os outros, argentinos de coração, de pé atrás por jogares tão pouco que se torna penoso assistir aos teus jogos, somente à espera que marques o golo que te há-de apurar, cada vez com menos esperanças que nos surpreendas e que jogues aquilo que sabes, aquilo que fazia com que valesse a pena chorar por ti quando perdias, querida Argentina. Vá lá, não é difícil, dá-nos só um cheirinho de futebol, só um poucochinho que nos engane, que alimente a nossa ilusão de que em campo és a mais bela, que te compadeces com o sofrimento do adepto que olha para as Alemanhas e para os Brasis e sente uma dor no peito por nunca poder amar aquelas selecções. Vá lá, Argentina, deixa-te de merdas e joga à bola.

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5.7.14

Por motivos a que eu e a RTP somos alheios, tive de interromper esta crónica nos últimos dias. Deu-se o curioso caso de, há tempos, ter sido convidado para escrever um livro. Quem me fez o convite disse-me, quase ao mesmo tempo, que esse trabalho seria remunerado, o que me deixou de sobreaviso, temendo acabar os meus dias escravizado numa quinta de Trás-os-Montes ou como prostituto em Ayamonte. Confirmei, mais tarde, que a proposta era séria e, dessa forma, tenho dedicado os meus dias a fazer por merecer o dinheiro que me hão-de pagar. É uma história inverosímil mas, como disse alguém mais inteligente que eu, só as mentiras precisam de ser verosímeis.

 

Três dias sem escrever a crónica, criaram-me o problema do excesso de assuntos do qual fui salvo por aquilo que se passou ontem em Fortaleza. Lá chegarei. Perdi a oportunidade de escrever sobre Tim Howard e o seu conjunto de defesas patrocinadas pela CIA, o galope de Lukaku e o génio de De Bruyne, um grande jogador com cara de apanha-bolas, a minha pobre Argentina e o seu futebol unicelular e o equilíbrio em todos os jogos dos oitavos-de-final (à excepção do Colômbia-Uruguai) que animou os neutrais que, à qualidade rígida de um futebol rigoroso, preferem sempre as emoções, o suor e a incerteza. Veja-se como foi aborrecido o jogo entre Alemanha e a França, que os alemães ganharam quase sem transpirar, e cujo sentido filosófico pode ser encontrado naquelas duas defesas ultrajantes de Manuel Neuer. Mas Deus quis que, ao assistir ao Brasil-Colômbia, eu tivesse uma epifania. E tive. Ontem, ao ver a primeira parte do scratch e tentando perceber exactamente o que era aquilo, uma mistura de pressão diabólica, repelões, faltas, lances de bola parada e atabalhoamento geral que, por força do espírito e da crença, se vai acercando da baliza adversária, descobri que tipo de futebol é este. É com orgulho que anuncio ao mundo que esta selecção brasileira é a primeira equipa a praticar o futebol pentecostal. É isso. Ainda pensei caracterizar o futebol do Brasil como “uruguaio”. A minha ideia era chamar ao Brasil de ontem “Uruguai de amarelo celeste”. Mas o decorrer do jogo revelou-me a verdade. Isto terá a ver com o outro assunto sobre o qual estou a escrever. Ou seja, pode haver aqui um lado de sugestão, reconheço. Mas ofereço-vos este excerto de um livro da investigadora Clara Mafra: “Os ritos pentecostais estão pontuados de pequenas experimentações de transe – na oração forte, na expulsão dos demónios, na recepção do Espírito Santo, na glossolalia, no choro convulsivo diante de um Deus grandioso.” É ou não é este Brasil? Podem ter dúvidas sobre a glossolalia, mas já ouviram o David Luiz a falar inglês? Ou o Neymar a falar português? Depois, parece-me claro que ao cometerem a soma perfeitamente neanderthal de 31 faltas, os brasileiros andavam à procura de expulsar alguma coisa de campo, e aí só se pode dizer que o árbitro espanhol não estava numa de exorcismos, como se pôde ver no caso demoníaco do colombiano Zuñiga que após uma tentativa frustrada de incrustar a chuteira no joelho de Hulk ainda se manteve em campo o tempo suficiente para dividir o número 10 do Brasil em Ney e Mar. Scolari queixou-se, e com razão, do lance que lesionou o craque, mas não lhe convinha referir que a estratégia futebolística do Brasil passou por anular não só a influência de James mas anular a própria presença física do colombiano. Outra coisinha que encontrei no livro de Clara Mafra e que joga a favor da minha teoria: “No transe pode experimentar-se a imobilidade [Fred] ou mobilidade máxima [David Luiz]”. Sobre David Luiz não há muito que se possa acrescentar ao que Gary Neville disse: o central brasileiro parece controlado à distância por um miúdo de dez anos, em correrias loucas de 60 metros em que atropela toda a gente e, agora, em remates amalucados que acabam no fundo das redes. E o choro convulsivo? Meu Deus, os jogadores brasileiros não só se assemelham a um grupo de pentecostais como poderiam ser confundidos como um clube de leitura dos romances de Nicholas Sparks. O fenómeno não é apenas imparável é também muito contagioso. Viram as lágrimas de James? Com tudo isto, futebol feio e Espírito Santo em todo o lado, se o Brasil chegar à final acho melhor que transfiram o jogo do Maracanã para a igreja evangélica mais próxima.

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1.7.14

Hoje, que já somos todos um pouco mais argelinos, convém reflectir sobre o que se passou em Porto Alegre, no estádio Beira-Rio, às 17 horas locais, com humidade relativa de 70% e temperatura de 30 graus centígrados, o que, tenho ouvido dizer, não contribui para a vontade de andar em correrias, futebolísticas ou outras. E o que é que se passou ontem? Já ouviram falar daquele livro em que Malcolm Gladwell defende que os fracos derrotam os fortes com mais frequência do que julgamos? Por acaso, tenho um exemplar aqui mesmo à minha frente. O livro intitula-se David e Golias – A Arte de Combater os Mais Fortes. O subtítulo está incompleto, claro. Falta o E Perder Quase Sempre. Foi isso que aconteceu ontem, no Estádio Beira-Rio, cidade de Porto Alegre, fundada em 1769 por Manuel Sepúlveda: o mais forte ganhou. Estávamos todos a torcer pela Argélia, não estávamos? Estávamos. E de alguma maneira que não conseguimos explicar através da ciência, as oportunidades da Argélia pareceram-nos mais oportunas do que as dezenas de oportunidades da Alemanha, que só tiveram uma utilidade benéfica, a de permitir ao guarda-redes argelino extraordinárias defesas, não foi? Foi. A partir da segunda parte percebemos todos como é que aquilo ia acabar, não foi? Sim. E, mesmo assim, quando a Argélia marcou aquele golo já no finalzinho pensámos que o que estragou tudo foi o golo do Ozil, não foi? Foi. Embora muito provavelmente se a Alemanha estivesse apenas a ganhar 1-0, aquele golo argelino e que Luís Freitas Lobo, que dedico a todos aqueles que verdadeiramente amam este desporto, atribuiu a Slimani (aliás, sempre que a bola passava para o meio-campo alemão, antes de ser recolhida por Mertesacker ou varrida por Neuer, os comentadores só viam Slimani), não teria existido, não é? É. A primeira parte foi equilibrada. Concedo. Até aos 35 minutos. A partir daí, a Argélia estoirou. Os jogadores chegaram de gatas ao fim da primeira parte e o grande mérito de Halilhodžić, o homem mais bonito em campo, foi o de ter conseguido que uma equipa comandada por Halliche tivesse a mais de cabeça o que tinha a menos de pulmões, devido à humidade de 83%, num jogo disputado na bela cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, Argentina, com mais de um milhão de habitantes e um número de cabeças de gado que, se colocadas em fila, dariam duas voltas ao mundo. A segunda parte foi um exercício de apneia futebolística, em que a selecção argelina vinha à superfície durante alguns segundos para logo de seguida regressar às profundezas do seu meio-campo. Quando ficavam à beira do colapso, aparecia M’Bolhi, um rochedo de gelo no deserto argelino (dedico esta a Luís Freitas Lobo e a todos aqueles que amam verdadeiramente a humidade), ou a inesperada misericórdia teutónica. Como diria José Maria Pedroto, jogaram ao ataque, fechadinhos lá atrás. Do outro lado, Golias dava-nos poucos motivos para simpatizarmos com o seu gigantismo e o melhor futebol que, naturalmente, apresentava. Viram o que aconteceu quando os jogadores alemães tentaram marcar um livre apalhaçado que incluía uma queda busterkeatoniana de Müeller? Imaginem os insultos, as considerações sociais e culturais a que seriam sujeitos os autores de uma brincadeira daquelas se, por um acaso, fossem oriundos de um país latino ou africano. O gozo sobranceiro da eficácia da Europa do Norte, o riso escarninho perante o número estéril, a criatividade falhada. Quando querem ter piada, os alemães não têm piada nenhuma e ficam sempre com aquele ar de turistas bêbados à beira de apanhar clamídia. Li no facebook que Neuer jogou a líbero, o que se deve, em partes iguais, a uma linha defensiva muito subida, à influência de Guardiola e à humidade que, à hora em que Neuer fez a terceira saída aos pés de Slimani, devia andar por volta dos 103%. Vá lá, 101%, valor a partir do qual os jogadores começam a respirar ao contrário. Para mim está claro que a influência de Guardiola tem sido funesta para o futebol alemão. Ainda não demoveu os alemães de chutarem à baliza de fora da área, mas vê-se que já lhes entortou a mira. A equipa de 2010 era uma maravilha de precisão em velocidade. A deste ano quer desenvolver uma espécie de tiki-taka em que a bola, na maior parte do tempo, é trocada entre Mertesacker e Boateng, esses Xavi e Iniesta da bacia do Ruhr. Já tenho poucas esperanças que a Alemanha volte aos níveis de há quatro anos. Quanto à Argélia, recordou os mais esquecidos da merda que foi a prestação portuguesa neste mundial.

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30.6.14

Ao fim de duas semanas de futebol consumido a um ritmo de, pelo menos, duas doses diárias, o cérebro humano entra em regime de poupança. Ontem, aos intervalos de lucidez e clarividência, em que tudo me parecia harmonioso e compreensível, sucediam-se longos períodos de dormência cognitiva em que o verde das camisolas mexicanas era idêntico ao verde dos algoritmos do Matrix. A cada lançamento da linha lateral, a minha cabeça aproveitava para vaguear por todos os assuntos secundários que este campeonato do mundo me obrigou a deixar em suspenso – como o reembolso do IRS ou a alimentação dos meus filhos – regressando ao jogo minutos depois, o que, num caso, coincidiu com a paragem para hidratação dos jogadores e, nos restantes, com os movimentos serpenteantes de Robben sempre finalizados com aquela coisa entre o desmaio e o mergulho com  que ele conclui todas as jogadas em que não consegue fazer golo ou passar a bola a um companheiro. Ontem, o extremo holandês derrotou Pedro Proença aos pontos. Tal como os mexicanos, o melhor árbitro português do mundo resistiu heroicamente até aos descontos, e só aí sucumbiu à humidade e à insistência de Robben. A FIFA tem agora pouco mais de uma semana para encontrar um árbitro de dentição completa e que fique tão bem na televisão como Proença, o querido dos queridos.

 

À noite, o meu cérebro manteve-se no modo poupança, amigo do ambiente e tal, tendo aí sido generosamente auxiliado pelas duas equipas em campo. A Costa Rica comprovou a minha teoria sobre as equipas-surpresa. Regra geral, são equipas simpáticas e fraquinhas, que se despenham, para bem dos espectadores, nos oitavos-de-final. Após a expulsão de Oscar Duarte, os costa-riquenhos, a qualidade do HD e um certo desespero helénico uniram-se para criar uma ilusão de óptica que dava a entender que os gregos eram uma equipa rápida, dominadora e entusiasmante. Só a expressão inamovível de Fernando Santos – o português com a cara mais trágico-grega de sempre – nos assegurava que o mundo ainda era o mesmo. Já decorria o prolongamento quando adormeci inapelavelmente. Acordei estremunhado. Havia lágrimas nas bancadas e gestos de incentivo no relvado e, sem o amparo da continuidade narrativa, demorei a perceber o que se estava a passar. Pensei que ainda iam marcar os penalties. Afinal, já tinha acabado tudo. Andei com as setinhas para trás – uma ferramenta muito útil para ensinar a regra do fora de jogo ao meu filho, para apreciar alguns deslizes verbais e para avaliar com justiça os atributos das adeptas uruguaias – e assisti, a salvo de qualquer desgosto, à ditosa eliminação da Grécia.

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29.6.14

Dos árbitros e da sorte não é lícito esperar uma coisa: que se virem ao mesmo tempo contra o Brasil. De uma equipa de Scolari pode-se esperar todo o tipo de qualidades – entrega, crença, coração, empenho, devoção – entre o bélico e o religioso, só não se deve esperar bom futebol. Isto é o fato à medida de uma competição a eliminar, com o tumulto emocional contínuo, o discernimento substituído pela fé cega que vai de tropeço em tropeço até ao paraíso. Só o Brasil de Scolari sobreviveria ao remate do intruso Pinilla ao minuto 119. Só o Brasil de Scolari escaparia com vida de um jogo em que fez alinhar – ainda que não em simultâneo, abuso supremo em que o treinador brasileiro teve a precaução de não incorrer – Fred e Jô. Duas crónicas atrás, posso ter sido injusto com o nosso trio de pontas-de-lança. Não quis dar a entender que a nossa inépcia atacante é uma característica da portugalidade, como os pastéis de nata, o fado e a Cristina Ferreira. Jô e Fred, tendo em conta o talento de que estão rodeados, são situações futebolísticas mais graves e, é o que sinto quando os vejo ensaiar uma ligação com a bola, penosas. Não é uma novidade para o Brasil. O unanimemente celebrado escrete de 82 tinha como ponta-de-lança Serginho Chulapa, um sofisticado mecanismo de aparência humana criado para falhar golos. (Como quase todos os jogadores brasileiros, Serginho ainda jogou uma época no Marítimo). No Brasil, os gordos vão à baliza, quem falhou uma carreira no jiu-jitsu vai para o centro da defesa e os toscos, para não atrapalharem a fluidez de jogo, vão lá para a frente fazer o mais fácil, encostar a bola para a baliza, tarefa ainda assim demasiado exigente para Fred e Jô. Há excepções: Ronaldo, um avançado que jogava em metade do campo, e Romário, um ponta-de-lança que ocupava um t0 na grande área e fazia passes para a baliza, são as mais evidentes. Mas excepções deste calibre só servem para aumentar a pressão sobre Fred, que agora exibe um cómico bigodinho de figurante da Kananga do Japão. Quanto a Jô, se entrasse em campo com um chapéuzinho às riscas corria o risco de alguém lhe pedir um gelado ou um cachorro. Estes acidentes não desvalorizam o essencial: com ou sem macumba, com ou sem Senhora do Caravaggio, com muito ou pouco mérito, com o tribalismo scolariano que disfarça as profundas lacunas tácticas do treinador, o Brasil está nos quartos-de-final.

 

- Antes do começo do jogo, estava a favor da Colômbia. Não desgosto do Uruguai, mas sem Suárez a equipa perde graça, futebol e dentes. E a Colômbia poderia finalmente cumprir o que a geração de 94 prometeu. Valderrama, Asprilla e Freddy Rincón, um arsenal de talentos românticos que se desintegrou na fase de grupos e cujo triste epílogo foi escrito numa rua de Medellín semanas depois, ficaram a dever-nos uma. Armero – nome de cidade maldita –, Cuadrado e, acima de todos, James Rodríguez estão a pagar essa dívida com juros. O primeiro golo de James, aliás, salda qualquer dívida. No início do jogo, e após algumas entradas de boas-vindas, o comentador da SportTv, hábil no recurso ao eufemismo, dizia que o jogo iria ser físico. E foi. Até ao momento em que James, rodeado de uruguaios, inventou aquilo. Aí, o jogo foi metafísico. Esperemos que a metafísica cafetera chegue para todas as macumbas sincretistas de Scolari.

 

- com a morte de Eli Wallach sinto necessidade de valorizar os secundários. Um abraço ao Murtosa, o último dos duros.

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28.6.14

Para muitos, entre os quais não me incluo, o mundial começa hoje. Compreendo. A primeira fase é, regra geral, um período desinteressante, quase protocolar. Adeptos entediados costumam vibrar apenas com as “surpresas”, um primarismo que o apaixonado por futebol deve evitar a todo o custo. Lembremos a surpresa que foi a Grécia em 2004. No final, só acharam graça os gregos e os que queriam estragar a festa aos anfitriões. Ou a surpresa Dinamarca, ainda hoje recordada por ter ido recuperar os jogadores às praias do Mediterrâneo. É o que diz a lenda e, em caso de dúvida, imprime-se a lenda. As restantes surpresas normalmente são protagonizadas por equipas fraquinhas que por zelo, sorte e anti-futebol conseguem surpreender uma ou duas selecções poderosas e sobranceiras. O que este mundial tem de bom é que as surpresas desta primeira fase surpreenderam pela qualidade do futebol (Costa Rica) ou, pelo menos, pela coragem (Argélia). A única equipa com propósitos exclusivamente defensivos foi o Irão, selecção treinada por um português. A outra equipa que entrou em campo com cadeados foi a Grécia, embora nesse caso a responsabilidade não caiba por inteiro ao treinador. Português, como se sabe. Apesar das limitações metereológicas, das despreocupações tácticas (toda a gente sabe que abaixo dos trópicos até os grandes tácticos ficam de tanga) e de alguma mazela patriótica, foi uma primeira fase muito digna e televisiva. O que começa hoje é outro mundial. O mundial do perde-sai, do mata-mata, do quem-marcar-ganha. Acabou o mundial gourmet, começa o mundial fast-food, emoções rápidas prontas a servir. O que também não é mau. É verdade que os oitavos-de-final proporcionam ainda embates um pouco desequilibrados, mas a tensão dos momentos decisivos pode inibir os mais fortes e jogar a favor dos underdogs. Não são jogos completamente esquecíveis. Lembro-me de vários: um Alemanha-Marrocos em 86; o Brasil-Argentina de 90, com o golo de Caniggia a passe de Maradona; ainda nesse ano, os quatro golos da Checoslováquia à Costa Rica de Conejo, incluindo um hat-trick de Skuhravy; a vitória da Irlanda sobre a Roménia nos penalties; em 94, a cotovelada de Leonardo a Tab Ramos, num equilibrado Brasil-EUA, ou a grande exibição da Roménia de Hagi contra a Argentina Maradona-less; em 98, a reedição de mais uma batalha entre argentinos e ingleses, com um extraordinário golo de Owen e um vermelho idiota a Beckham; França a eliminar o Paraguai do nosso Gamarra após prolongamento, com um golo daquele sujeito com ar de professor primário da Provença; do mundial de 2002 – o pior de sempre, esqueçam lá a lenda do mundial 90 – só me recordo vagamente da Coreia a assaltar Itália; em 2006 estávamos lá e fizemos história contra a Holanda, num jogo com tantas agressões que deveria ter sido disputado Ciudad Juárez, mas o que perdurará na memória é o golo de Maxi Rodriguez contra o México; em 2010, também estávamos lá e só fomos capazes de repetir as palavras do capitão Ronaldo “Carlos, assim não vamos lá”. Que estes oitavos que hoje começam com uma espécie de mini-Copa América nos ofereçam momentos assim.

 

- o que fica do que passou:

a) o árbitro japonês que via coisas

b) o voo impossível de Van Persie

c) aquele cruzamento de Cuadrado

d) a velocidade de Joel Campbell

e) um lento passe de dança de Raheem Sterling à frente de Marchisio

f) os nervos de Pepe

g) a mítica defesa de Ochoa após cabeceamento de Neymar

h) o remate de Tim Cahill que resultou no melhor golo do campeonato

i) o vigor do Chile contra a lassidão espanhola

j) a ressurreição de Suárez com dois golos de campeonato do mundo

k) o passeio alegre de França pelos Alpes suíços

l) o golo do hondurenho Carlo Costly (melhor nome do mundial) contra o Equador

m) o golo anulado a Dzeko no jogo contra a Nigéria

n) aquele alemão tosco que marcou um golo no primeiro toque que deu na bola em todo o campeonato

o) a voracidade argelina a devorar os coreanos

p) Miguel Herrera a festejar os golos contra a Croácia no mais exuberante estilo mariachi

q) um golo fantástico de David Villa que será rapidamente esquecido

r) a dentada de Suárez (já muitas vezes vista), o golo de Godín (visto algumas vezes), italianos a correrem em desespero (nunca visto)

s) a cabeça abençoada de Islam Slimani

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27.6.14

Paulo Bento – à excepção de uma ligeira evolução na estética capilar, Paulo Bento não evoluiu muito. Agarrou-se aos mesmos jogadores que já nos tinham dado as meias-finais do Euro 2012 e seguiu à risca a máxima “em equipa que (quase) ganha não se mexe” esquecendo que a não renovação do onze daria um resultado mais próximo de “a equipa que ganhava já (quase) não se mexe.” Iremos sofrer a sua gratidão nos próximos dois anos.

 

Rui Patrício – demonstrou, proficientemente, no único jogo que disputou que está para a hierarquia dos guarda-redes mundiais como a irmã de Cristiano Ronaldo está para as divas da música. Courtois, Navas, Lloris, Ochoa e até o geriátrico Buffon fazem parte de uma galáxia que Patrício só pode contemplar à distância.

 

João Pereira – os raros defensores de João Pereira só têm um argumento a seu favor: “quem é que punhas no lugar dele?” A resposta é evidente: o rato Mickey.

 

Bruno Alves – de repente, parece uma peça obsoleta. Olhamos para o outrora indestrutível Alves e vemos Schwarzenegger em O Exterminador Implacável 2, ultrapassado por modelos mais recentes mas ainda capaz de bater.

 

Pepe – foi expulso por um daqueles momentos Pepe que o celebrizaram como o mais lunático de todos os defesas-centrais da actualidade. Regressou contra o Gana e não só fez uma exibição razoável como susteve os ímpetos de Bruno Alves, deixando claro a quem é que foi ministrada a dose de calmantes antes do jogo.

 

Fábio Coentrão – foi o menos mau contra a Alemanha, lesionou-se e regressou imediatamente a Portugal. Estatuto intacto.

 

André Almeida – o pino de luxo da nossa selecção. É preciso um lateral-esquerdo? Chama o Almeida. Um lateral-direito? Chama o Almeida. Um trinco? Chama o Almeida. Mais um gajo para a barreira? O Almeida não pode, está lesionado. No Benfica e na selecção, é o exemplo acabado de flexigurança. Para o ano deverá jogar no Maccabi Haifa ou num clube búlgaro.

 

Ricardo Costa – por incrível que pareça, este foi o terceiro mundial para Ricardo Costa, que, a par dos 200 quilos de bacalhau e das 50 toneladas de azeite, já se tornou uma presença obrigatória nestes eventos, com a vantagem em relação aos víveres de poder alinhar a defesa esquerdo.

 

Luís Neto – cumpriu a impressionante soma de zero minutos distribuídos harmoniosamente por três jogos. Foi uma das vítimas da gratidão de Bento.

 

Miguel Veloso – a não ser por causa da novela com o pai e do casamento com a filha do presidente do Perugia ou da Reggiana, os portugueses tinham perdido o rasto a Miguel Veloso. A excepção, claro, foi Paulo Bento que, logo que acabaram as buscas pelo avião da Malásia, contratou as equipas para encontrarem Veloso nas estepes russas.

 

Raul Meireles – este ícone da moda, de abundantes tatuagens, destacou-se neste mundial por ter levado uma cotovelada de um americano e por ter ficado, em consequência disso, a afagar, durante largos minutos e com um certo vagar otomano, as suas magníficas barbas.

 

João Moutinho – depois de uma época desastrada ao serviço do Mónaco, que lhe valeu a distinção de flop da temporada, o pior que podia acontecer ao enérgico Moutinho era jogar ao lado de dois tractores. Assim que lhe ofereceram dois seres humanos capazes de pensar e correr ao mesmo tempo, o rendimento de Moutinho melhorou.

 

Nani – no início do campeonato, ainda me perguntei ingenuamente se seria este o torneio de Nani. Depois de três jogos, recepções de bola dignas de um pedreiro, um golo inexplicável e recomendações brutais aos colegas, ficou a certeza que não.

 

Helder Postiga, Hugo Almeida e Éder – para demonstrarmos a nossa incapacidade em produzirmos um ponta-de-lança de jeito podíamos ter escolhido qualquer um destes jogadores. Ter seleccionado os três equivale a uma declaração de guerra contra o próprio conceito de avançado e, lateralmente, contra a ideia de marcar golos.

 

Cristiano Ronaldo – Antes do jogo com a Alemanha declarou estar com sensações místicas que lhe diziam que este seria o ano de Portugal. Depois do jogo com os EUA o tom já era mais realista e, apesar de ainda não estarmos eliminados, Ronaldo disse que nunca sonhou ser campeão do mundo, que tínhamos uma equipa muito limitada e que havia selecções mais fortes. Tudo verdade, mas ficámos sem saber se um quarto jogo de Portugal implicaria um quarto penteado em terras brasileiras. No fim, o Bola de Ouro regressa a casa com vários recordes (jogador português com mais jogos em mundiais, único a marcar em três campeonatos e, desde 2004, sempre a marcar pelo menos um golo em fases finais de grandes competições) e um entristecido tendão rotuliano.

 

Varela – é o suplente mais utilizado por Paulo Bento e, aconteça o que acontecer com Varela em campo, uma coisa é certa: no jogo seguinte, o Drogba da Caparica estará de volta ao banco.

 

William – é o melhor médio-defensivo português a uma distância que daria para ir ao Brasil, visitar todos os estádios e voltar. Mas para o seleccionador a gratidão conta muito e, de acordo com esse critério futebolístico, o lugar era de Miguel Veloso, um rapaz que, num mundo ideal, seria secretário de estado adjunto de William Carvalho.

 

Ruben Amorim – pronto.

 

Vieirinha – Paulo Bento convocou-o mas só o utilizou quando se viu forçado a experimentar a arrojada táctica do 3-1-6.

 

Rafa – já foi ao Brasil.

 

Beto – chorou. E bem.

 

Eduardo – cinco jogos em mundiais, um golo sofrido. É o maior!

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26.6.14

- A crónica de Santiago Segurola, publicada hoje no DN, intitula-se “Messi influi no golo, não no jogo”. Termina assim: “Por agora, a Argentina depende tanto ou mais da sua estrela do que dependeu de Maradona no México 86. No entanto, ninguém diz que Messi seja o Maradona deste Mundial. Necessitará de algo mais do que golos. Terá de ser o campeão do futebol jogado. E por agora não o é.” Não o é e não tem sido nos últimos anos em que a estratosférica rivalidade com Cristiano Ronaldo é medida pelo único critério da absurda quantidade de golos que cada um tem concretizado. Messi tem resolvido os resultados da Argentina, mas parece incapaz de resolver os problemas da equipa. Neste mundial, Ronaldo não tem feito nem uma coisa nem outra. O play-off com a Suécia mostrou uma equipa planeada em função das necessidades da sua estrela que pagou em golos esse acordo: uma equipa pensada para jogar em contra-ataque com o melhor jogador do mundo para essa estratégia. A equipa joga para ele e ele retribui com golos. Mas esta Argentina não consegue jogar para Messi. No Barcelona, Messi é um membro perfeitamente integrado, a equipa joga com ele. Na selecção, há um desacordo, uma incompreensão mútua, da qual o jogador não se pode queixar em público porque será logo acusado ou de não render na selecção o que rende no Barcelona ou de ser um mau patriota. Entre uma coisa e outra, Messi prefere ficar calado, aceitar que o casamento nunca será feliz e continuar a trazer o dinheiro para casa ao fim do mês, bolsos cheios de golos.

 

- Óscar Tabárez disse que isto é um campeonato de futebol, não é um campeonato de moralidade barata. E apesar de o comportamento de Luis Suárez ser censurável há, de facto, um excesso persecutório, farisaico, na imprensa inglesa, sempre atenta às manchas morais dos seus estrangeiros. Lembremos o episódio da expulsão de Rooney em 2006. O rapaz pisou os tomates de Ricardo Carvalho mas quem é que foi eleito o vilão da história? Ronaldo. Por ter piscado o olho e ter cometido a infâmia definitiva de trair um colega de equipa, contra todas as regras da boa solidariedade inglesa. Suárez será suspenso, o problema é que a moralidade de tablóide vai continuar.

 

- Prognósticos? Portugal vai ganhar 3-0 e despedir-se em beleza deste campeonato do mundo.

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25.6.14

- A não ser para quem esperava uma nova aparição dos dentes de Suárez em qualquer parte da anatomia de um adversário, o jogo entre Itália e Uruguai foi uma desilusão. Talvez tenha sido do calor no Recife. Talvez tenha sido por à Itália bastar um empate. Calor e um zero-zero favorável aos italianos: os ingredientes ideais para os transalpinos exercitarem o cinismo que lhes é creditado como maior virtude futebolística ou, na novilíngua da bola, para especularem. Eu diria que há ali outra coisa: uma devoção ao ócio, aos prazeres que a própria lentidão cria. Aquela forma de jogar é a arte de estender o tempo sofrendo o menos possível. Não se pense que é uma lentidão sofrida, reflexo de incapacidade. Pelo contrário. É uma lentidão deliberada. A estratégia passa por uma organização de tal forma intricada que dispense os jogadores de correrem mais do que aquilo que é estritamente necessário. Desacelerar o jogo é um diletantismo que só uma equipa civilizada se pode permitir. E as equipas italianas são, acima de tudo, obras de civilização. Mesmo quando o futebol praticado é aparentemente feio resta sempre a beleza da fidelidade a um princípio, e essa ética é, também, uma estética, uma forma de viver. Os italianos, eliminados uma vez mais na primeira fase, voltam para casa de cabeça erguida porque é assim que jogam e, sendo o campo uma miniatura cénica da vida, diria que é assim que vivem.

 

- Tem sido tão grande a razia de equipas europeias que ver a Grécia passar aos oitavos-de-final obriga-nos a perguntar: de onde é que vieram estes rapazes? Tenho de confessar a minha admiração pelos gregos. Ontem, precisando de ganhar, não se lançaram para o ataque, não foram à procura do golo como selvagens esfomeados. Esperaram. Jogaram como se um empate lhes bastasse, apostando tudo no erro do adversário, na estupidez alheia e, no fim, foram recompensados por esse pessimismo antropológico. Com o seu futebol rudimentar o qual, nos momentos felizes, se pode premiar com o adjectivo “pragmático”, os gregos são também, à sua maneira, um dos últimos pilares civilizacionais deste jogo bárbaro: jogam sempre mal, marcam poucos golos, parecem resolutamente empenhados em não entusiasmar ninguém. São previsíveis até ao bocejo e há nessa previsibilidade qualquer coisa de amorável, como nos defeitos reiterados das pessoas de quem gostamos. Os dois golos de ontem foram apenas o terceiro e o quarto que a Grécia marcou em três participações e nove jogos em mundiais. Resultado? Estão nos oitavos-de-final a acenar a espanhóis, ingleses, italianos e, quase de certeza, portugueses.

 

- O caso de Suárez é do domínio da patologia. Depois da redenção e de, com justiça, se ter projectado com dois magníficos golpes para o cume onde estão as figuras notáveis da prova, o avançado uruguaio voltou a ser o desequilibrado a intervalar séries estupendas de golos com acções que, dizem os menos compreensivos, só podem ser iluminadas pela psicanálise. Apesar disso, nem todos ficaram horrorizados com a dentada de Suárez. Na Suécia, mais de cem apostadores puseram o dinheiro onde estaria a boca do "conejo". E saíram a ganhar.

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24.6.14

 

Foi no mundial de 1986. No torneio de Diego Armando Maradona e de Pique Malagueta. Do poker de Butragueño e do hat-trick de Gary Lineker, o primeiro de que me lembro. Nesse mundial, bastou um golo para que Manuel Negrete registasse o seu nome na história do futebol. O golo certo na hora certa. No exterior do Estádio Azteca, palco de duas finais de mundiais, onde, numa tarde memorável, Maradona disfarçado de Deus e Diabo desfez a selecção inglesa, uma placa assinala aquele golo. O México, a jogar em casa, tinha esperanças de chegar longe no torneio. A preparação tinha sido meticulosa, com um grupo de jogadores escolhidos pela federação treinado para não desiludir. Naquele Domingo, 15 de Junho, jogavam-se os oitavos-de-final e o adversário da equipa da casa era a Bulgária. Era uma oportunidade de ouro para o México fazer boa figura. Mas o que aconteceu aos 35’ foi mais do que isso. Negrete, à entrada da área, deu a bola para Javier Aguirre que, sem a deixar cair, devolveu-a a Negrete. Depois, foi um segundo, nem tanto. Quando a bola inicia a trajectória descendente, Manolo já sabe o que vai fazer: um voo, um salto, um pontapé de moinho e, a próxima vez que a bola bater no chão, já será dentro da baliza da Bulgária, defendida por Borislav Mihaylov, mago da regeneração capilar. Hoje, 28 anos depois desse mundial, os golos que se recordam são os de Maradona contra a Inglaterra, mas o que todos os miúdos queriam era marcar um golo à Negrete. Na relva em frente do meu prédio, voávamos de lado, procurando repetir a coreografia que víramos, espantados, na televisão. Mesmo quando a bola não vinha a jeito, dávamos-lhe um toque a mais para merecer dos mais velhos a aprovação definitiva: “parecias o Negrete”. Quando, nesse ano, o jogador mexicano foi contratado pelo Sporting, a sua fama excedia largamente o seu talento. Não era que lhe faltasse talento, mas a fasquia era aquele golo único, superlativo. A proeza colou-se-lhe à pele e tudo o que fosse menos que aquela acrobacia era como que uma traição. Mas nenhum jogador do mundo poderia repetir ou sequer aproximar-se do que acontecera naquele momento esquisito, muito menos ao ritmo semanal dos jogos de campeonato. O mundial de 2014 ainda não nos ofereceu um golo assim. Um golo autónomo do resto do jogo, capaz de deixar na sombra toda uma carreira, uma ilha impossível, um golo maior que o seu autor, um golo como aquele que foi o zénite e a maldição de Manuel Negrete Arias, um homem que viverá para sempre no minuto 35 no Estádio Azteca, numa certa tarde de Junho.

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23.6.14

Cá estamos de novo. E, ao contrário dos que nos querem fazer crer, a depender não da matemática certa, que não admite sentimentalismos, mas à espera do sobrenatural que nos acuda. Tínhamos a vida resolvida, o destino traçado e aquele golo de Varela veio acender esperanças insensatas, fazendo os mais líricos sonhar com goleadas ao Gana, o que, pelas amostras de futebol, só conseguiremos caso os nossos jogadores entrem em campo de mota. O irracional é tão invasivo que algumas cabeças, já certas de vitória gorda sobre o Gana, começaram de imediato a culpar alemães e norte-americanos na eventualidade de estes se abotoarem com um empate. Enfim, nada a fazer. O jogo desta noite, mais do que qualquer outra coisa, fez-me ter saudades do tempo das vitórias morais, do nosso futebol de rodriguinhos, sem balizas, estéril mas muito palrador, ao qual faltavam trinta metros mas que no resto do campo era senhor ufano. Muitas vezes injustamente apontada como uma fraqueza nervosa, uma tibieza de espírito, a vitória moral era, só agora compreendemos, o nosso consolozinho, a nossa mantinha sobre os joelhos. A vitória moral era uma vitória. Agora já só conseguimos empates imorais. O golo de Varela só mereceu celebrações tristes. Em vez de bandeiras desfraldadas, sacámos todos das santas calculadoras e das invocações a Nossa Senhora do Ábaco. Paulo Bento nem reagiu. Foi o golo mais murcho da nossa história. Explicações? Não tarda elas surgirão. Alguém, um qualquer irresponsável federativo, chamará a si os holofotes com promessas de revelações escandalosas que, inevitavelmente, envolverão putas de Campinas. É só esperar. A onda de lesões musculares já não é do domínio da medicina desportiva mas da bruxaria. Os nossos jogadores dividem-se entre os que estavam a recuperar de lesões, os que se lesionaram, os pré-lesionados e os que escaparam por milagre a uma lesão. Psicologicamente, nem sequer fomos capazes de aproveitar o estímulo de um golo caído do céu. Ao longo dos noventa minutos, fizemos tudo para parecer um conjunto de onze pessoas com problemas musculares que tivessem acabado de se conhecer. Depois, claro, Paulo Bento. Vendo que o seu plano inicial – e que deu bons resultados no euro’2012 – não funcionava, Bento fez aquilo que só ele seria capaz de fazer: insistir nesse plano. O destino vingou-se de forma cruel. Com a lesão de André Almeida, foi obrigado a fazer entrar William Carvalho e a expor assim toda a sua inépcia táctica ao mundo. Um treinador que se dá ao luxo de prescindir da inteligência de William Carvalho em nome da coesão, do espírito de grupo e desse fenómeno fisiológico conhecido como “balneário” não merece outra sorte. Vamos agora enfrentar o Gana que, a exemplo dos EUA e para citar António Tadeia, tem jogadores “rápidos e velozes”. Os nossos, pobrezinhos, estão lentos e parados. E ou temos uma conjugação de resultados que, a acontecer, seria um acontecimento cósmico só ao nível do big bang ou, na próxima quinta-feira, os nossos heróis estarão de regresso à Pátria, garantindo ao povo que este grupo de jogadores não só vai levantar a cabeça como também vai dar a volta.

 

- Estes resultados sofríveis têm um efeito positivo: permitem-nos olhar para a história da nossa selecção sem exageros patrióticos. Limitemos a análise às nossas participações em mundiais. Até 2002 conseguimos ir lá duas vezes, o que até para um país que não se gabe de ter uma grande tradição futebolística é patético. O problema foi o sucesso de 66 que distorceu por completo a percepção dos portugueses sobre as capacidades da selecção. O apuramento para o mundial de 86 foi uma daquelas gestas improváveis em que a um golo absurdo de Carlos Manuel se juntou a sobrevivência ao maior assalto militar desde a batalha de Estalinegrado e um resultado favorável no jogo dos nossos adversários directos. Bem vistas as coisas, desde 86 até ontem o nosso historial inclui derrotas com Polónia, Marrocos, EUA e Coreia do Sul e vitórias sobre Angola, Irão e Coreia do Norte. A campanha de 2006 foi realizada sob os auspícios de Nossa Senhora do Caravaggio e, mesmo assim, terminou com uma derrota clara contra os alemães. Em 2010, sobrevivemos ao grupo da morte num tal estado de depressão que caímos logo a seguir, obedientemente, contra a Espanha. Afirmar a nossa superioridade teórica sobre os norte-americanos quando os resultados demonstram um empate é uma daquelas erupções cutâneas do espírito português que pedem mais Padre António Vieira e Eduardo Lourenço e menos Luís Freitas Lobo e António Tadeia. Valemos mais do que estes resultados dão a entender? Sim, mas não muito.

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22.6.14

Já em 2010 tinha sido assim. Na altura, era a primeira vez que dois irmãos jogavam um contra o outro num campeonato do mundo. Pela Alemanha, Jérôme Boateng. Pelo Gana, Kevin-Prince Boateng. Este último tinha jogado pelas selecções jovens da Alemanha, mas alguns conflitos com treinadores e com a federação levaram-no a aceitar o convite para jogar pelo Gana. Jérôme, menos exuberante que o irmão, talvez mais germânico, manteve-se incógnito na mannschaft, um lateral regular que sobe pela certa e arrisca pouco. Kevin-Prince, não sendo genial, tem génio e namorada de passerelle, uma Melissa italiana que promove as proezas sexuais do seu macho onde deve ser: nas redes sociais. Marca golos fabulosos, embora raros. Ontem, uma vez mais, não estiveram à altura do potencial bíblico do recontro. Abel e Caim, Esaú e Jacó, José e os irmãos. Ao intervalo, Joachim Löw deixou Jérôme a reflectir no balneário. O treinador do Gana, James Appiah, só se deve ter apercebido da falta do lateral alemão oito minutos após o reinício do jogo e para que Kevin Prince não se ficasse a rir do irmão substituiu-o nesse momento. Não podemos desculpar os fraternais Boateng. Tínhamos aqui uma tragédia pronta a ser encenada e, no final, nem uma falta mais dura, nem um insulto, um indício de zanga, nada. Nenhum se destacou. Acabaram substituídos. Consta que irão passar férias juntos em Miami. E algumas pessoas ainda se perguntam para que serve a ficção. Serve para incendiar os factos quando a realidade é morna.

 

A segunda parte do jogo de ontem mostrou-nos que a poderosa selecção da Alemanha é menos poderosa quando defronta equipas que não estão interessadas em cometer suicídio. Mostrou também que o futebol é mais forte que o sangue e a terra. Quem é que, em Portugal, não ficou contente com o segundo golo dos ganeses? Ninguém olhou para a tabela classificativa. Eu não olhei. Uma selecção como a de segunda-feira não faz falta a este campeonato do mundo. E não vale o sofrimento dos adeptos.

 

A dimensão de um erro de arbitragem é mais evidente quando não estamos a torcer por nenhuma das equipas. Vemos a meridiana injustiça do erro, a sua influência funesta, sem a ambiguidade do beneficiado e sem a indignação exagerada de quem é vítima de roubo. O golo anulado a Edin Dzeko doeu-me não porque estivesse a torcer pela Bósnia ou porque algo me movesse contra a Nigéria mas por ter sido uma injustiça. Até em casa vi, sem repetição, que o homem estava em jogo. Ao que parece, a visibilidade da linha lateral em Cuiabá não era das melhores. Perante tão óbvia injustiça, que só me levou a pensar “isto não se faz”, dispensam-se as teorias tão aproveitadas nestes momentos, das conspirações contra os países mais pequenos às manobras de platinis maquiavélicos. Foi injusto porque há coisas que podem só acontecer uma vez na vida. E, ontem à noite, em pleno Pantanal, Dzeko pode não ter marcado o seu único golo em mundiais.

 

Messi marcou um golo à Messi. Klose marcou um golo à Klose. O mundo é o que é.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 15:33  ver comentários (1) comentar

21.6.14

- Estaremos perante a primeira selecção francesa da qual é lícito gostar? Ainda não consigo responder à pergunta, mas ver a forma como reduziu a Suíça a uma curiosidade etnográfica, um esboço multicultural, é um bom augúrio. Benzema está a pagar liberalmente a paciência dos adeptos que acreditaram sempre que o lugar dele era entre os melhores do mundo e não nas fileiras dos jihadistas na Síria. Matuidi e Pogba já são grandes jogadores e, ao contrário de Lilian Thuram, não aparentam ter aspirações intelectuais. A discrição e o cabelo de Lloris asseguram-nos que nunca teremos de assistir a rituais tão desagradáveis como o que Laurent Blanc e Fabian Barthez deram ao mundo em 98. Didier Deschamps, apesar de um certo ar agricultural, quase nos faz esquecer o tempo em que a França foi orientada pelo astrológico Domenech, um dos treinadores mais detestáveis da história do futebol. Isto é muito interessante porque a forma como os franceses chegaram ao mundial e o facto de serem franceses, tornava-os, à partida, os candidatos perfeitos a ocupar o trono do ódio de estimação do torneio. Assim se demonstra que o futebol praticado em campo pode corrigir sentimentos, tornar melhores os adeptos de coração duro, derrubar preconceitos. Pelo menos até que os franceses voltem a ser franceses.

 

- Porque é que os suíços jogam à bola? Não deviam estar todos a lavar dinheiro nas montanhas?

 

- A Costa Rica é conhecida como a Suíça da América Central mas, tirando isso, é um país simpático. Todos nós devíamos saber três coisas sobre qualquer país do mundo para estarmos prevenidos no caso de acordarmos, sem razão aparente, em Tegucigalpa ou Bratislava. As três coisas que, até este mundial, sabia sobre a Costa Rica eram: 1) que a capital é a formosa San José, 2) que a ficção escolheu o país como o lugar certo para ressuscitar dinossauros e 3) que, num Sábado remoto, a Checoslováquia eliminou sem misericórdia a selecção da Costa Rica que chegou aos oitavos-de-final no mundial de 1990; dessa equipa, lembro-me de Luis Gabelo Conejo, bigodudo guarda-redes, e de Hernán Medford, nome de realismo mágico caribenho. Desconheço se alguma destas informações me seria útil em caso de necessidade. Porém, a campanha dos ticos neste mundial, duas vitórias sobre dois ex-campeões do mundo e apuramento para os oitavos-de-final à segunda jornada, é um manancial de informações extra sobre o pequeno país da América Central, cuja moeda é o colon e que desde 1948 não tem exército, o que torna improvável a existência de um golpe militar nos próximos tempos. Bryan Ruiz, Keylor Navas e Joel Campbell são cromos que irão durar tanto na memória dos miúdos de 10 anos como os seus antecessores de 90, mesmo que a sorte lhes reserve nova eliminação nos oitavos-de-final, num sábado qualquer.

 

- Este mundial é tão estranho que até num Honduras-Equador se vê bom futebol.

 

- Mesmo em poucos segundos e mesmo sendo Balotelli, Balotelli devia ter percebido que a qualidade do passe de Pirlo era de tal ordem que as probabilidades de concluir a jogada com um chapéu sobre o guarda-redes eram praticamente nulas. A parte perfeita da jogada já existia. A Balotelli pedia-se apenas um remate burro para dentro da baliza.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:36  ver comentários (1) comentar

20.6.14

Ontem, os assinantes da SportTv puderam assistir a uma das mais memoráveis exibições individuais deste torneio. Mesmo quando a Inglaterra marcou, o homem foi capaz de se recompor e oferecer a quem o ouvia pérolas como “dentes de coelho, olhar de predador”, “Godín lá no alto, a falar com os pássaros” e “são três milhões de uruguaios naquele remate.” Falo, é óbvio, de Luís Freitas Lobo, que ontem ascendeu ao panteão onde, até agora, só moravam Rui Tovar, Gabriel Alves e José Nicolau de Melo (este só para fazer a limpeza). O segundo golo de Suárez deixou-o num êxtase que merecia uma estátua de Bernini. Antes disso, enquanto o jogo esteve empatado a uma bola, notava-se-lhe a irritação. A certa altura, quando o narrador se embrenhava em complexos cálculos aritméticos (“ora, se a Costa Rica ganhar à Itália, melhor, se a Itália não ganhar à Costa Rica…”), Freitas Lobo, francamente exasperado pela forma como a pujança dos números estava a minar todas as oportunidades para a poesia, recomendou-lhe em tom ameaçador: “Não faças contas.” No final do jogo, perante o rosto de Suárez em lágrimas, Freitas Lobo balbuciou um ambíguo “lindo”, que não sabemos se foi pensado como adjectivo, substantivo ou advérbio de modo ou se foi apenas um refluxo verbal incontrolável. As imagens de Suárez abraçado a um companheiro no banco motivaram-lhe uma série de comentários sobre o que é e como se deve sentir o futebol e a medicina desportiva. Enfim, foi mesmo um grande espectáculo que só falhou por ter sido transmitido à mesma hora do jogo entre Inglaterra e o Uruguai, eclipsando, em parte, Suárez e o seu monólogo com o destino (chupem, poetas!).

 

Monólogo, sim. Ao longo dos tempos, comentadores, professores de ginástica, catalães de esquerda com responsabilidades em La Masía e idiotas em geral (grupo no qual me incluo por uma frase que escrevi ontem), têm tentado convencer as massas ignaras de que o futebol é um desporto colectivo. De um ponto de vista marxista, é uma ideia simpática que até podia ser abordada num livro a ser escrito por Thomas Piketty e José Neves. Na verdade, é uma falácia. O futebol é, mesmo, um desporto individual. A prova, que não é necessária mas que terei todo o gosto em apresentar, é o facto de os portugueses, ao fim da primeira semana de campeonato do mundo, estarem mais habilitados a reconhecer o tendão rotuliano de Ronaldo do que Rafa se, por acaso, se cruzassem com qualquer um deles na rua. Esta ideia rebuscada do desporto colectivo só serve de atenuante às grandes estrelas quando, por acaso, não conseguem render o que delas se espera nestas competições. É o caso de Ronaldo, Messi e Rooney que juntos, em três mundiais, conseguiram marcar o mesmo número de golos que Tim Cahill, e nenhum melhor do que aquele que o jogador australiano marcou contra a Holanda. Quer isto dizer que Cahill é melhor que aqueles três? Não. Quer dizer que Messi é um golo maradoniano nos quartos-de-final da Taça do Rei contra o Almeria ou o Levante e Maradona é um golo, de então para cá designado de maradoniano, contra a Inglaterra nos quartos-de-final de um campeonato do mundo. Luis Suárez teve uma época extraordinária no Liverpool. Mas golos ao Stoke City e ao Fulham são uma coisa e os golos de ontem são outra, e só têm em comum as assistências de Gerrard. São golos como os de ontem que, a exemplo dos comentários de Freitas Lobo, imortalizam um jogador: em jogos decisivos, nos maiores palcos, contra os maiores adversários.

 

Notas:

 

- Há uns meses, um defesa imprudente do Newcastle lesionou Suárez. Os patriotas uruguaios responderam com a fleuma que reservam para estas situações delicadas e ameaçaram o homem de morte, acusando-o de ter inutilizado a grande referência da selecção celeste. Ontem, como se viu, ficou demonstrado que, a ter existido, o plano era tudo menos absurdo. Com Suárez em campo, o Uruguai é diferente. Cavani, que no primeiro jogo parecia órfão, encontrou uma família de acolhimento na cabeça, nas pernas e nos dentes de Suárez. Uma família muito moderna, feliz e cheia de histórias para contar aos netos.

 

- Steven Gerrard escolheu o crepúsculo da carreira para elevar a arte de assistir os adversários nos momentos mais inoportunos – uma arte cujas regras foram imortalmente fixadas por Secretário, lateral-direito contemporâneo do escultor Kálamis – a patamares desconhecidos.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 10:06  ver comentários (1) comentar


 
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