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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

20
Ago14

Um orçamento devidamente contextualizado

Bruno Vieira Amaral

Texto publicado originalmente na revista Ler:

 

 

O relatório do orçamento do Estado para 2013 é um daqueles documentos fundamentais que qualquer português culto e moderadamente sensual deveria ler. Os restantes podem continuar entretidos a comer salsichas e atum enquanto engordam os números do desemprego. Estas páginas – expressão imorredoira do génio de Vítor Gaspar – são o paralelo 39 entre dois modos de vida, entre o Portugal alavancado pela poderosa engrenagem comunitária e o Portugal possível onde o bife de vaca é artigo de luxo. É o fim da utopia da classe média e o regresso ao Portugal dos remediados, um país sem remédio. E estas páginas são também um exercício de literatura tecnocrática. Por momentos podemos imaginar um dos membros do Oulipo a escrever um documento espartilhado por este constrangimento: ser o mais desinteressante possível cumprindo os critérios mínimos de legibilidade. O resultado não andaria muito longe deste relatório.

 

A primeira coisa que sobressai nesta obra notável é a tónica no esforço. Desde logo, o esforço dos trabalhadores do Ministério das Finanças que, segundo o ministro, é “desinteressado” e sem o qual não teria sido possível apresentar a proposta de orçamento a tempo e horas. Ou seja, para cumprir prazos o Ministério das Finanças tem de se valer do esforço desinteressado dos seus trabalhadores o que, traduzido para português, deve significar horas extraordinárias não pagas. É um louvor sentido e, para além disso, revela mestria no uso do eufemismo. Mas o esforço não se fica por aqui, sendo mesmo possível considerar este um orçamento esforçado, como aqueles jogadores de futebol sem talento natural mas que correm muito. Segundo o relatório é preciso mais esforço, de preferência “persistente” e repartido equitativamente. Há o esforço contributivo e o esforço na poupança, com incidência no “esforço de contenção nas despesas com pessoal” e na redução dos “encargos brutos com as Parcerias Público-Privadas”, o esforço fiscal e o esforço coletivo, o esforço financeiro e o esforço de simplificação, o esforço de revisão e o esforço de coordenação. Pedem-se, numa aritmética singular, esforços adicionais que subtraem, esforços acrescidos que reduzem e refere-se um esquisito “esforço deliberado” que cria, por contraste, uma nova e contraditória categoria semântica, a do esforço involuntário. A enxurrada de esforços é tão grande que os esforços até se sobrepõem como no caso de “um esforço acrescido no esforço de consolidação.”

 

Palavras como corte e reduções são cortadas e reduzidas ao mínimo possível, substituídas pelo mais neutro “ajustamento”. O ajustamento, sendo um emagrecimento forçado tem, ainda assim, uma proximidade semântica a algo que é justo e, como tal, necessário e benéfico. Neste relatório, o ajustamento é “muito exigente e persistente”, embora o que já foi feito seja muito “significativo.” Já os sacrifícios permanecem no lugar de eixo moral e religioso deste orçamento. A via é difícil e estreita – é a nossa via crucis rumo à redenção final, quando não mais necessitaremos de ajuda externa e atingiremos a beatitude celestial da autonomia política. Não a podemos percorrer sem sacrifícios. Estes são inevitáveis e enormes mas evitam “sacrifícios futuros bem superiores.” Ou seja, se não queremos mais sacrifícios temos de fazer mais sacrifícios, o que nos deixa numa situação bem ingrata e, para utilizar um adjetivo muito popular neste relatório, “difícil”. De facto, aqui é tudo muito difícil. Portugal “atravessa um episódio difícil da sua história”, esta é uma “difícil situação”, a sustentabilidade das finanças públicas é “tão difícil”, a consolidação orçamental é uma via “difícil” e até o diagnóstico, a caracterização do ponto de partida, é difícil devido, louve-se o humilde reconhecimento das limitações, “à escassez de competências técnicas adequadas no Ministério das Finanças”. Como se não bastassem tantas dificuldades, o relatório avisa-nos caridosamente que o “caminho que temos que percorrer não é fácil.”

 

Para mitigar as dificuldades, vale-nos o facto de o governo ter um rumo e saber perfeitamente o que quer e para onde vai. Vejamos, por exemplo, a aposta na divulgação de Portugal enquanto destino para turismo residencial: lê-se no relatório que “importa desenvolver um enquadramento que favoreça a residência de estrangeiros em território nacional”, o que é uma medida muito coerente com os apelos à emigração dos jovens qualificados. No fundo, trata-se de substituir portugueses por estrangeiros para ver se isto começa a melhorar. E como é que o governo pensa desenvolver aquele enquadramento? Simples: com um pacote “para a promoção do turismo residencial que incentiva a atração de turistas residenciais”. Não é dito se o pacote inclui bronzeador, mas é revelador de bom senso e de alguma moderação nos objetivos que um pacote de promoção de turismo residencial vise atrair turistas residenciais e não, por exemplo, refugiados do Norte de África. O projeto vai ainda mais longe porque pretende atrair particularmente “turistas residenciais seniores” e os “respectivos rendimentos” que é para ninguém pensar que só os queremos cá por serem estrangeiros. Nada disso. Também têm de ser velhos e trazer o dinheirinho. Sandálias e meias brancas são dispensáveis. Para 2013, o relatório dá conta de um Governo apostado em várias coisas como desenvolver, reorganizar, reformular, agilizar, rentabilizar, promover e, sobretudo, requalificar. O Património será requalificado e o mesmo acontecerá com as “infraestruturas e equipamentos da Administração Interna”. Em relação à RTP, promete-se “um serviço público de conteúdos de rádio e de televisão consequente com a ambição de mudança que o Governo está a levar a cabo em prol de uma sociedade moderna, aberta e cosmopolita.” Fica por dizer como é que este projeto popperiano se articula com João Baião pois estamos em crer que naquele serviço só há espaço para um dos dois.

 

Outro aspeto em que o relatório revela determinação para manter o rumo é nas medidas de incentivo ao emprego que são equívoca e divertidamente libidinosas (Programa Impulso Jovem, Programa Vida Ativa, medida Estímulo 2012) e criam a legítima dúvida se o Governo quer reduzir efetivamente a taxa de desemprego ou se está apenas a tentar levá-la para a cama. Se assim for, propomos medidas adicionais como o Programa Titilação Prolongada (destinado a desempregados de longa duração) e o Programa Maduras (apoio a desempregadas com mais de 50 anos). Outras medidas como o “IVA de Caixa” ou o “Guichet Aberto” rivalizam com a nomenclatura mais inspirada das operações da GNR e da Polícia Judiciária. Na área da Reabilitação urbana, construção e imobiliário há uma atrevida Iniciativa Jessica, em honra da campeã de vendas de imóveis na ERA do Seixal.

 

Ao longo deste brilhante texto, é criada uma atmosfera vagamente conspirativa com a disseminação de inúmeros acrónimos. Aos já familiares BCE, FMI e TSU, juntam-se a GERAP, o RFAI, o CTUP, o PAEF, a EMPORDEF (que não é um programa de emprego destinado a deficientes mas a prosódica Empresa Portuguesa de Defesa), o MAMAOT (canal para adultos que não deve ser confundido com Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), o desvairado NUTS (Nomenclatura das Unidades Territoriais Estatísticas), o esotérico POPH (Programa Operacional do Potencial Humano) e o paciente SPER (Sector Empresarial Regional). Há também um SIRCA não aconselhável a crianças (Sistema de Recolha de Cadáveres de Animais Mortos na Exploração). A profusão de acrónimos é de tal ordem que até permite ao ministro uma referência oblíqua e um tanto jocosa à “queda acentuada dos CDS”.

 

Outro pormenor interessante é o da designação das pessoas a quem se destina o Orçamento, os portugueses, ou, em orçamentês, os contribuintes. Neste relatório o cidadão português é salomonicamente dividido em dois: o português, a quem o governo apela sentimentalmente, pedindo um esforço adicional, reconhecendo que este é um orçamento difícil que envolve sacrifícios para todos; e o contribuinte, que paga os impostos. Com os portugueses (que aqui são, por vezes, grafados com maiúscula, os Portugueses), o governo fala mansinho e pede-lhes ajuda na “prossecução deste desígnio nacional.” Com os contribuintes, que só conhece de número, é mais impessoal e tecnocrático: “20% dos contribuintes com salários mais altos”, “contribuintes que auferem rendimentos superiores ao salário mínimo”, “aplicável apenas aos contribuintes que auferem rendimentos mais elevados.” Esta estratégia de serem os contribuintes a auferir em vez dos portugueses é muito astuta porque põe os portugueses a desejar o pior aos contribuintes, esses auferidores de um raio!

 

Lendo o relatório só não se consegue perceber por que razão Portugal não contacta diretamente com quem manda nisto, que é o contexto (os gráficos também não se percebem mas isso é uma falha da minha formação em Humanidades). Afinal, tudo depende do contexto. O contexto é omnipresente e muito versátil: pode ser, como o clima, favorável ou desfavorável; beneficia de condições desconhecidas para a maioria dos portugueses, como a possibilidade de ser promovido (o relatório diz que se deve “promover um contexto adequado à criação”); e o ministro chega mesmo a reconhecer que pede conselhos ao contexto (“o contexto económico e financeiro atual aconselha à revisão das regras”), o que significa que, no contexto da coligação, o contexto vale mais do que o CDS. Tudo indica que sairemos desta crise muito mais pobres e extraordinariamente contextualizados.

01
Ago14

Oceano

Bruno Vieira Amaral

Fomos até uma esplanada de onde se via a praia, o Oceano Atlântico no seu fim ou no começo. Bebemos uma cerveja, falámos sobre as nossas vidas, sem aprofundar. Discutimos superficialmente o valor das rendas, o processo de compra de casa, evitando as intimidades, e quando demos por nós estávamos a salvo, a divagar sobre a sociedade em geral, a escola pública, a forma pouco civilizada como os portugueses cuidam do que é seu, felizes por evitarmos o caminho da mágoa. Só que a mágoa estava lá. Sempre esteve e nós sabíamos, e fingíamos que não estava para que pudéssemos prosseguir. Ignorar a mágoa que, todavia, existe, é uma arte que eu e o meu pai dominamos como ninguém. Ela está connosco em cada momento: quando passeámos pelos vinhedos do sul de França, quando a minha madrasta me ofereceu um porta-chaves comprado na loja de recordações do castelo de Palmela, quando corremos pelas ruas frias de Kandersteg no único Natal que passámos juntos. A mágoa esteve sempre lá, de vigia, controlando o que dizíamos, cortando a manifestação expansiva de sentimentos, trabalhando o nosso cinismo até que este se tornasse uma pedra perfeita de engaste, valiosa e inútil. Descemos até à praia. Eram quase oito horas. Eram poucas as pessoas no areal. Na água, chapinhava uma criança solitária. Pareceu-me que o meu pai tinha vontade de se lançar à água e nadar, nadar, nadar. Uma vez contou-me os problemas que teve numa prova aquática na Legião. Quase morreu afogado. “Deve ser um medo de família.” Eu não sei nadar mas não gosto de falar disso. Ele também prefere não falar sobre o assunto. Incomoda-o. Que o filho  não saiba nadar é, para ele, a prova irrefutável da sua ausência, o dedo acusador. Não quero falar disso. Estávamos muito perto da água. Muito perto daquilo que nos magoava. Decidimos que estava na hora de regressar a casa, onde quer que fosse.

01
Ago14

Carrossel

Bruno Vieira Amaral

A minha contribuição para o Carrossel da Flanzine:

 

 

 

É impossível ter certezas sobre certos acontecimentos. A proliferação de versões não conduz a uma verdade. Leva à incerteza e, por fim, como alívio, ao esquecimento. Hoje, é estranha a afirmação de que, naquela noite, ninguém viu nada, porque havia centenas de pessoas no recinto das festas e, nos dias que se seguiram, muitas falavam sobre o que tinham visto, sobre o que tinham ouvido, sobre o que outros mais bem informados tinham visto, sobre o que outros em lugares mais próximos da tragédia tinham ouvido.

 

Havia, como sempre, um barulho geral, eléctrico. Uma embriaguez, visão turva. Talvez por isso certos testemunhos com cópia de pormenores tenham sido desacreditados. Não porque lhes atribuíssem má-fé ou neles houvesse a intenção de desviar o curso das investigações, mas porque o diletantismo era denunciado pela volúpia no relato, pela forma mítica como descreviam as quedas das crianças nos castelos insufláveis, as camisolas piratas do Ronaldo e do Messi, o cheiro a gasóleo dos geradores, as unhas amarelas dos pés dos vendedores de estatuária africana, desenhando círculos de fábula à volta de um centro que nunca poderiam – e nem queriam - atingir. Seis meses durou o frenesi narrativo. Até que a falta de resultados das investigações policiais fez com que as pessoas começassem a evitar o assunto. Não por cansaço, nem pelo tipo de desinteresse que afecta mentes habituadas aos estímulos das novelas da imprensa da felicidade, mas por receio de que a verdade, a ser apurada, se revelasse tão terrível que ninguém que tivesse estado nas festas naquela noite a poderia suportar. Hoje, quando por distracção se menciona aquela noite desagradável de Junho, de imediato alguém avança com um conjunto de pormenores patéticos que a diluem numa espécie de corrente perpétua de memórias das festas: as alcateias de adolescentes muito pintadas a dedilharem mensagens e soltando “Foda-ses” que já não indignavam ninguém; um homem gordo e suado a cantar os números do bingo que hão-de ser a sorte de um infeliz; uma mulher gorda e suada a cortar a massa das farturas com uma intencionalidade oblíqua que sugere ódios persistentes, dívidas, traições; a rapariga que, na zona das bancas sofisticadas, oferece ginjinhas em copos de chocolate; o homem que, durante os sete dias de festa, dançou sozinho no terreiro, ao som de um acordeão nervoso, abraçado a um par invisível.

 

Lembro-me que, alguns meses depois, alguém amarrou uma coroa de flores a um poste. Não tinha qualquer mensagem. Ainda hoje não se sabe quem foi o autor do gesto. O que este revela é que, no meio de um desejo colectivo de amnésia, alguém ousou cravar um prego na nossa consciência. Podia ter sido uma homenagem de intenções puras. Talvez. Mas a coroa de flores assim exposta foi sentida como uma acusação à nossa alegria fútil. E só isso justifica que, na noite seguinte, a coroa tenha sido retirada por mãos anónimas, furtivas, e que reafirmavam a vontade maioritária de esquecer tudo o que acontecera. Até porque o Verão estava quase a chegar, as primeiras festas já tinham acabado e não faltava muito para regressarem as pistas de carrinhos de choque, o dragão mágico, as roulottes de cachorros e bifanas, os vendedores de tapetes, a morte de outros inocentes.

30
Jul14

Carta de Nicósia

Bruno Vieira Amaral

A pedido do correspondente da  Ler em Nicósia, João Óscar Braz, publico a carta que enviou para o nº de Junho da revista:

 

Em Memória de Nikos Kyriazis

 

No dia em que cheguei a Nicósia, há cerca de três anos, fiquei quatro horas no aeroporto até receber uma chamada do sujeito que supostamente estaria à minha espera, Nikos Kyriazis. Aos berros num inglês criativo explicava-me que surgira um imprevisto. Pedia-me que fosse ter com ele a um bar chamado Poison, perto da praça Eleftheria. Eu nunca tinha estado em Chipre e não estava consciente das implicações daquela situação. Perguntei-lhe, com alguma ingenuidade, como é que fazia para me deslocar para o dito bar e, do outro lado, em resposta ao meu desamparo, só ouvi uma gargalhada sonora, quase ofensiva: “go outside, speak Hazar, the cab driver”. Era a primeira vez que eu estava sozinho fora do meu país e dependente de um taxista chamado Hazar. Senti-me um pouco ridículo a olhar para os taxistas lá fora a tentar descobrir qual deles seria o Hazar. Até que me enchi de coragem e fui falar com um taxista de meia-idade que, não sei bem porquê, me inspirou confiança. Perguntei-lhe em inglês se me podia ajudar. Fixou-me, como que a estudar o anormal à frente dele, cuspiu para o chão e apontou para um tipo que estava encostado ao pior táxi da praça: “That guy is Hazar.” Aproximei-me dele e disse-lhe que Nikos estava à minha espera no Poison e me pedira para falar com ele. Foi impecável. Carregou as minhas malas e, no final, disse-me que não tinha de pagar nada. O Poison era um bar que cheirava a anos 70. Durante os oito meses que estive em Nicósia, tinha sempre o mesmo cheiro a lixívia, Old Spice, Cointreau e cigarros Ritz. Naquela tarde, sentado numa mesa, rodeado de uma plateia atenta, estava Nikos. Tocava uma modinha de Catulo da Paixão Cearense. Como eu nada sabia da história pessoal deste cipriota, achei aquela cena completamente irreal. Eu tinha boas razões para o odiar, mas percebi naquele momento que era impossível odiar Nikos Kyriazis. Nunca conheci ninguém com aquela alegria, transparência e, tenho de o reconhecer, tendência para não cumprir o prometido. Ao balcão do Poison, vim a descobrir mais tarde, estava um empresário de futebol português, que depois de levar à falência uma discoteca em Freamunde, uma empresa de extracção de pedra e uma loja de artigos de caça e pesca apostara na exportação de jovens talentos do futebol. Naquela altura, tinha mais de 60 jogadores em carteira, todos genuinamente medíocres. Se falo deste sujeito não é porque o tivesse em grande conta mas porque a única pessoa com quem ele falava ali dentro era Nikos. Além disso só cumprimentava uma decadente beldade local – que, de acordo com Nikos, representara o Chipre no Festival da Eurovisão em meados dos anos 90. O engraçado é que Nikos nada tinha que o fizesse ser temido ou, mesmo, respeitado. Mas a verdade é que era respeitado e temido. E, não exagero ao dizê-lo, também era amado. Os melhores momentos da minha estadia em Nicósia foram na sua companhia – um derby no GSP, os finais de tarde no Plato’s refrescados com Vedett, os jantares prolongados no Zanettos – e ainda guardo os conselhos que generosamente me deu: mesmo hoje, se fosse a casa do adido cultural da Polónia, seria incapaz de beber outra coisa que não água engarrafada; é verdade tudo o que dizem sobre Cynthia, a Triste, e não vale a pena querer saber mais; nunca passar na rua Ledra antes das três da tarde. Apesar de ser uma fonte inesgotável de energia e boa disposição, era reservado no que dizia respeito à sua vida privada. Só quase no final da minha temporada em Nicósia soube um pouco mais sobre aquele homem. Era filho de um construtor civil riquíssimo mas escolhera ser livre. Não tinha casa própria, nem cartão de crédito, nem sequer conta bancária. Só amigos e admiradores. Um destes ofereceu-lhe uma viagem ao Brasil para ir à procura de uma mulher: Marília. Regressou sem Marília mas com as modinhas de Catulo na cabeça e nas mãos. Quando, há coisa de meio ano, soube da morte de Nikos, não fiquei surpreendido. Também não chorei. No entanto, uma semana depois, comprei um bilhete de avião para Nicósia. Vagueei durante quatro horas pelo aeroporto à espera de uma chamada que nunca chegaria, saí e vi um turco encostado ao pior táxi da praça e pedi-lhe que me levasse ao Poison. Subi as escadas, vi a mesa vazia e, ao balcão, um casal de turistas alemães a tentar decifrar a carta. Quando saí, trazia comigo o cheiro a Old Spice e a cigarros Ritz e a certeza de que em Nicósia encontrarei sempre o rasto invisível daquele homem inventado, Nikos Kyriazis.

17
Jul14

7700: final

Bruno Vieira Amaral

Pedindo desculpa pelo lamentável atraso, venho então encerrar estas crónicas mundialícias, já bronzeado e germânico. Não se fala de outra coisa. O futuro do futebol está na Alemanha. Comecem a baptizar a pequenada com nomes como Bastian, Miroslav e Thomas ou, se quiserem que a influência chegue diluída, Mesut, Jerome, Sami ou um equivocamente lusitano Manuel. Claro que os vossos filhos têm de comer muita Maizena para não se tornarem versões apenas ligeiramente mais volumosas do diminuto Moutinho; enquanto pais, o vosso dever passa por lhes dar banhos de água fria desde a mais tenra idade e oxigenar-lhes os cabelos para que os rapazes percam aquele ar sofrido do Patrício, de qualquer patrício, e adquiram a reluzente e ubermenschiana intrepidez, nas margens do nazismo, do Neuer. Depois é só juntar três camiões de dinheiro para investir em academias durante 14 anos e o resultado será um campeonato do mundo, uma taça, um planeta rendido à Alemanha, como Hitler sonhou mas não exactamente como Hitler sonhou. O labrego português pode questionar-se, com toda a sua argúcia mentalmente camponesa, se vale a pena investir tanto dinheiro para, no fim, ganhar apenas um pretexto para uma parada, copos e sexo com desconhecidos? A esta estupidez sul-europeia, tacanha e preguiçosa, própria de quem não sabe o que é um Centro de Alto Rendimento, não sabe o que é avistar a maravilhosa taça passeada em autocarro descapotável pelas ruas de Lisboa e não sabe nada de nada, incluindo o que são três camiões cheios de dinheiro eficientemente semeado por todo um país ao longo de 14 anos, o alemão responde lá do alto da estrela da Mercedes onde eles moram que isto não é apenas para ganhar é também para formar a juventude e mantê-la afastada das drogas e, com mais sucesso, da literatura. Que um meio-campo com Schweinsteiger, Khedira e Kroos não é apenas um acidente futebolístico, é o fruto de um projecto civilizacional que não deixa de fora filhos de imigrantes, negros e pessoas como Howedes. O que se celebrou no passado Domingo não foi a vitória de uma selecção sobre outra, foi o triunfo inevitável da vontade, da planificação, da estratégia, do trabalho a longo prazo sobre Gonzalo Higuain, que não só falhou aquele cabrão daquele golo como ainda esteve muito perto de ser assassinado pelo Neuer. Esqueçam tudo e Guardiola. Falem com o Nuno Crato e comecem a ensinar alemão às crianças desde o ensino básico. Imaginem Paulo Bento a falar alemão. Todas aquelas desculpas arrancadas a ferros – a língua portuguesa parece ter sido inventada para as pessoas pedirem desculpas –, justificações, eu-não-me-demitos, teriam o som marcial de uma declaração de guerra. Quando Löw fala são séculos de pensamento e de crítica, de Hegel e de Nietzsche, de zeitgeist, bildungsroman e sauerkraut, que desembocam naquelas palavras, quaisquer que elas sejam. Alguém que fale alemão só pode ser muito inteligente, tem de ser o resultado de um projecto longamente amadurecido, tenazmente executado e eu sei lá mais o quê. Quantas escolas de futebol não tiveram de ser construídas para se chegar a Götze? Quantas horas não foram passadas pelos mais brilhantes cérebros da Germânia para elaborar um Müeller, para conceber um Hummels, para realizar essa definitiva e indestrutível obra de engenharia social e futebolística que é a mannschaft? Pensando bem, para criar um Cristiano Ronaldo foi preciso apenas um ambiente social degradado e umas taponas da dona Dolores, o que me leva a pensar que, mais do que um investimento brutal em centros e planificações, o melhor é entregarmos os nossos filhos à mãe do Ronaldo e à Academia do Sporting.

09
Jul14

7700: 6'40''

Bruno Vieira Amaral

A goleada de ontem começou no dia 17 de Julho de 1994, em Pasadena, no momento em que um tal de Roberto Baggio, o mais brasileiro de todos os jogadores em campo naquela tarde, falhou o penalty que fez do Brasil tetra. “Ganhamos as três primeiras Copas jogando o que se passou a chamar de futebol-arte. Depois, perdemos a de 82, praticando um futebol que encantou o mundo, e ganhamos a Copa de 94 jogando um futebol que não era o nosso. Lembramos a escalação do timaço de 82, mas não tão facilmente a de 94. [...]Na verdade, desde 1986 que não temos uma Seleção que nos orgulhe, jogando bonito e sendo competitiva.” Quem escreveu isto foi Walter de Mattos Jr., editor do Lance! Não acredito que tenha sido necessário o massacre alemão para que os brasileiros chegassem a esta conclusão. O Mineirazo era um desastre escrito nas estrelas. Mais exactamente, nas duas últimas estrelas que os jogadores da canarinha orgulhosamente ostentam nas camisolas. A reboque dos grandes talentos individuais que nunca deixou de produzir e de uma ideia de organização que se resume a pôr no meio-campo dois tractores – uma marca do nefasto Parreira e que Scolari nunca renegou – esperando que a sua presença intimidadora liberte os génios lá da frente, o Brasil venceu dois campeonatos do mundo nos últimos 20 anos. Chegou para silenciar os críticos e para criar a ilusão de que o mundo de futebol teria sempre a decência de acompanhar o ritmo do Brasil para não causar embaraços ao país do jogo bonito, como um jovem que refreia o passo quando na companhia de um ancião. Esse tempo acabou ontem. Com decência, mas sem misericórdia. Com respeito pelas belas camisolas dos brasileiros, mas sem o respeitinho que inibiu chilenos e colombianos. A Alemanha, tal como a Espanha de há quatro anos, encontrou uma forma de organização colectiva capaz de potenciar as qualidades – e são tantas – dos seus elementos. O Brasil não o conseguiu fazer quando foi campeão em 94, não o conseguiu fazer quando foi campeão em 2002, e também não o conseguiu fazer em 98, 2006 e 2010. E nestes vinte anos, quantos génios não vestiram aquela camisola – Romário, Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo? Mas as desculpas apareceram sempre: o colapso de Ronaldo, o brilhantismo de Zidane, o frango de Júlio César. Havia sempre um pormenor para justificar a derrota do único detentor legítimo do ceptro. Em todos estes campeonatos do mundo alguém se lembra de uma exibição do Brasil contra grandes selecções em que os brasileiros tenham demonstrado 1/3 da superioridade que a Alemanha exibiu ontem? O problema do Brasil tem sido pensar as equipas em função dos carregadores de piano. Inverteu-se a lógica: os mais importantes são os mais limitados porque permitem que os génios se destaquem. Por isso, o Brasil tem jogado nestes vinte anos como duas equipas numa só: a equipa dos que defendem e a equipa dos que atacam, salvas pela capacidade individual de alguns jogadores especiais para preencher o espaço entre as duas. O que se viu ontem foi uma equipa partida, sem ligação, com um abismo entre os que defendiam e os que atacavam. Para agravar as coisas, os que defendiam, defendiam mal; os que atacavam, atacavam pior; os que defendiam queriam atacar mas prejudicavam a equipa; os que atacavam queriam defender mas não sabiam como. Os dois tractores do meio-campo tinham pavor de ter a bola nos pés. Mesmo que fossem craques já teriam dificuldade em combater a organização alemã, mas sendo fernandinhos era crueldade pedir-lhes que recebessem a bola, controlassem e distribuíssem. Olhava-se para a Alemanha e via-se a facilidade que qualquer jogador do meio-campo tinha em pegar na bola e avançar ou pegar na bola e fazer um passe de trinta metros. Ninguém tinha medo da bola. Aqueles 6’ 40’’ em que o Brasil sofreu quatro golos – uma cifra polinésia – ficam para a história como a maior destruição futebolística de sempre. Talvez por não ter recordações do mundial de 82, nunca gostei da selecção brasileira. Vi sempre selecções medianas com fulgurações de talento, sortudas, protegidas pelos árbitros, reverenciadas em excesso por adversários sem nome. Só que essas selecções ganharam dois campeonatos do mundo e, sendo assim, quem é que se convence que as coisas estão mal? Não quero ser injusto com os brasileiros: acho que o Brasil seria o único país do mundo capaz de apresentar três ou quatro selecções muito competitivas num campeonato do mundo. Mas essa quantidade absurda de talento não chega. É necessário alguém que a organize de uma forma um pouco mais sofisticada do que juntar dois pedreiros numa orquestra. Scolari acho que o jogo de ontem foi um acidente. Há quem ache que foi uma lição. Eu acho que não foi nem uma coisa, nem outra. Não foi um acidente porque – apesar dos números inusuais – uma vitória, e até uma vitória gorda, da Alemanha não espantava ninguém. E também não foi uma lição porque, tal como Scolari, muitos acham que foi apenas um acidente. Mas os acidentes aconteceram há mais tempo. Aquelas duas estrelinhas intrusas na camisola do escrete não deixam que os esqueçamos.

08
Jul14

7700: no dia da batalha meio-campal

Bruno Vieira Amaral

Os caminhos para a posteridade futebolística são incertos: muitos são chamados, poucos são escolhidos. De cada geração, escolhe-se um, dois, e é nestes que, por artes metonímicas, se concentram todas as qualidades de uma época. Por vezes, perduram os sistemas em detrimento dos executantes, os alfabetos tácticos no lugar dos jogadores e das suas contribuições individuais, únicas. Vive Eusébio, viverá talvez no futuro acompanhado pela maldição de um húngaro. Nessa altura, José Augusto, António Simões, Coluna, Jaime Graça, tantos outros, serão pasto para os bichinhos que devoram enciclopédias, meras recordações locais. Pense-se na quase extraordinária carreira de um extraordinário Paulo Futre, Deus dos pequenos, um dos melhores do seu tempo, símbolo de um Atlético sempre à cata das sobras dos grandes. Foi preciso uma surrealista e psicotrópica conferência de imprensa para recuperar a memória de um homem que, naquele fim de tarde no Prater, falhou por centímetros a entrada directa no panteão. Se Futre tivesse marcado aquele golo maradoniano a Bola teria sido de ouro e não de outro. Madjer, outro grande, é quase exclusivamente lembrado pelo seu insólito calcanhar na mesma noite de Viena. O tempo pode ser um grande escultor mas em todas as grandes obras que realiza há a história da pedra que fica no chão, a pedra que nasceu na altura errada, a pedra que falhou aquele golo, a pedra que não foi obra de arte. Hoje, que joga a Alemanha, e apesar de todos os elogios que lhe possamos endereçar à capacidade atlética e técnica, ao espírito competitivo, à fome de conquista, queríamos um Ozil que, até ao momento, só tem estado de corpo e táctica neste mundial. E é pela falta que nos faz Ozil que me lembro desse grande jogador alemão, baixinho, criativo, esquecido, que foi Thomas Hässler. Outros da sua geração tornaram-se simbólicos: Matthäus, Klinsmann, Möller, até defesas como Brehme e Kohler. Mas se quiséssemos ver o nosso futebol no meio dos bárbaros tínhamos de esperar que a bola chegasse a Hässler. Esta noite, em Belo Horizonte, em que tudo aponta para que o jogo se decida na batalha meio-campal entre gladiadores – Schweinsteiger, Khedira e Kroos contra Luiz Gustavo, Fernandinho e Paulinho (não se deixem enganar pelos diminutivos) –, em que teremos a energia de David Luiz e de Lahm, a raça de Daniel Alves, a elegância guerreira de Hummels, vamos sentir a falta de Hässler, vamos sentir a falta de Zico, vamos sentir a falta de Ronaldinho Gaúcho, vamos sentir a falta de Neymar e é possível que sintamos a falta de Ozil, se ele continuar longe dos trópicos, melancolicamente amarrado às tácticas.

07
Jul14

7700: Minha querida Argentina

Bruno Vieira Amaral

Minha pobre Argentina,

 

Escrevo-te de Portugal, feliz por estares de novo nas meias-finais, 24 anos depois de Diego ter chorado, triste por chegares assim, coxa, sem alegria, clandestina, como uma mendiga a entrar sorrateiramente numa festa. Querida Argentina, a festa é tua, tu és a festa. Não jogues assim, por amor de Deus! Triste, arrastada, com uma única ideia na cabeça – Messi – que maquilha a absoluta ausência de ideias. Bem sei que em Itália também chegaste à final aos trambolhões. Nesse campeonato, os teus adeptos festejaram cinco golos, menos um que o melhor marcador do torneio, uma coisa que aconteceu como certos cometas acontecem e que se chamava Salvatore. Cinco golos em sete jogos, querida Argentina! O teu herói, o nosso herói, foi aquele rapazito Goicoechea, guardião que só foi para a baliza após a lesão do mítico Pumpido e que defendeu penalties de toda a gente que vivia entre os Balcãs e a Sardenha, e só não pôde defender aquele miserável golpe do alemão. Mas essa equipa tinha o Diego, que já não era o Diego de quatro anos antes, era outro, mais lento, mais gordo, mais rato, capaz de quebrar milhões de corações transalpinos e continuar a ser adorado em Nápoles, mas ainda era o Diego, e nós queríamos que ele ganhasse, fosse lá como fosse. Nos mundiais seguintes, já queríamos que jogasses bem porque chegavas carregadinha de astros – Ortega, Redondo, Riquelme, Verón, Saviola, Aimar, Claudio Lopez, Simeone, Maxi Rodriguez, Carlos Tevez, Aguero, Pastore, Crespo, Batistuta – e já não havia Diego para te perdoarmos o mau futebol. Salvo um ou outro jogo, nunca te redimiste e acabaste sempre por cair, jogando melhor ou pior, antes das meias-finais. E agora é aí que te encontras empurrada pelos argentinos de nacionalidade que atravessaram a fronteira mas com os outros, argentinos de coração, de pé atrás por jogares tão pouco que se torna penoso assistir aos teus jogos, somente à espera que marques o golo que te há-de apurar, cada vez com menos esperanças que nos surpreendas e que jogues aquilo que sabes, aquilo que fazia com que valesse a pena chorar por ti quando perdias, querida Argentina. Vá lá, não é difícil, dá-nos só um cheirinho de futebol, só um poucochinho que nos engane, que alimente a nossa ilusão de que em campo és a mais bela, que te compadeces com o sofrimento do adepto que olha para as Alemanhas e para os Brasis e sente uma dor no peito por nunca poder amar aquelas selecções. Vá lá, Argentina, deixa-te de merdas e joga à bola.

05
Jul14

7700: scratch aleluia!

Bruno Vieira Amaral

Por motivos a que eu e a RTP somos alheios, tive de interromper esta crónica nos últimos dias. Deu-se o curioso caso de, há tempos, ter sido convidado para escrever um livro. Quem me fez o convite disse-me, quase ao mesmo tempo, que esse trabalho seria remunerado, o que me deixou de sobreaviso, temendo acabar os meus dias escravizado numa quinta de Trás-os-Montes ou como prostituto em Ayamonte. Confirmei, mais tarde, que a proposta era séria e, dessa forma, tenho dedicado os meus dias a fazer por merecer o dinheiro que me hão-de pagar. É uma história inverosímil mas, como disse alguém mais inteligente que eu, só as mentiras precisam de ser verosímeis.

 

Três dias sem escrever a crónica, criaram-me o problema do excesso de assuntos do qual fui salvo por aquilo que se passou ontem em Fortaleza. Lá chegarei. Perdi a oportunidade de escrever sobre Tim Howard e o seu conjunto de defesas patrocinadas pela CIA, o galope de Lukaku e o génio de De Bruyne, um grande jogador com cara de apanha-bolas, a minha pobre Argentina e o seu futebol unicelular e o equilíbrio em todos os jogos dos oitavos-de-final (à excepção do Colômbia-Uruguai) que animou os neutrais que, à qualidade rígida de um futebol rigoroso, preferem sempre as emoções, o suor e a incerteza. Veja-se como foi aborrecido o jogo entre Alemanha e a França, que os alemães ganharam quase sem transpirar, e cujo sentido filosófico pode ser encontrado naquelas duas defesas ultrajantes de Manuel Neuer. Mas Deus quis que, ao assistir ao Brasil-Colômbia, eu tivesse uma epifania. E tive. Ontem, ao ver a primeira parte do scratch e tentando perceber exactamente o que era aquilo, uma mistura de pressão diabólica, repelões, faltas, lances de bola parada e atabalhoamento geral que, por força do espírito e da crença, se vai acercando da baliza adversária, descobri que tipo de futebol é este. É com orgulho que anuncio ao mundo que esta selecção brasileira é a primeira equipa a praticar o futebol pentecostal. É isso. Ainda pensei caracterizar o futebol do Brasil como “uruguaio”. A minha ideia era chamar ao Brasil de ontem “Uruguai de amarelo celeste”. Mas o decorrer do jogo revelou-me a verdade. Isto terá a ver com o outro assunto sobre o qual estou a escrever. Ou seja, pode haver aqui um lado de sugestão, reconheço. Mas ofereço-vos este excerto de um livro da investigadora Clara Mafra: “Os ritos pentecostais estão pontuados de pequenas experimentações de transe – na oração forte, na expulsão dos demónios, na recepção do Espírito Santo, na glossolalia, no choro convulsivo diante de um Deus grandioso.” É ou não é este Brasil? Podem ter dúvidas sobre a glossolalia, mas já ouviram o David Luiz a falar inglês? Ou o Neymar a falar português? Depois, parece-me claro que ao cometerem a soma perfeitamente neanderthal de 31 faltas, os brasileiros andavam à procura de expulsar alguma coisa de campo, e aí só se pode dizer que o árbitro espanhol não estava numa de exorcismos, como se pôde ver no caso demoníaco do colombiano Zuñiga que após uma tentativa frustrada de incrustar a chuteira no joelho de Hulk ainda se manteve em campo o tempo suficiente para dividir o número 10 do Brasil em Ney e Mar. Scolari queixou-se, e com razão, do lance que lesionou o craque, mas não lhe convinha referir que a estratégia futebolística do Brasil passou por anular não só a influência de James mas anular a própria presença física do colombiano. Outra coisinha que encontrei no livro de Clara Mafra e que joga a favor da minha teoria: “No transe pode experimentar-se a imobilidade [Fred] ou mobilidade máxima [David Luiz]”. Sobre David Luiz não há muito que se possa acrescentar ao que Gary Neville disse: o central brasileiro parece controlado à distância por um miúdo de dez anos, em correrias loucas de 60 metros em que atropela toda a gente e, agora, em remates amalucados que acabam no fundo das redes. E o choro convulsivo? Meu Deus, os jogadores brasileiros não só se assemelham a um grupo de pentecostais como poderiam ser confundidos como um clube de leitura dos romances de Nicholas Sparks. O fenómeno não é apenas imparável é também muito contagioso. Viram as lágrimas de James? Com tudo isto, futebol feio e Espírito Santo em todo o lado, se o Brasil chegar à final acho melhor que transfiram o jogo do Maracanã para a igreja evangélica mais próxima.

01
Jul14

7700: a humidade, como tudo, é relativa

Bruno Vieira Amaral

Hoje, que já somos todos um pouco mais argelinos, convém reflectir sobre o que se passou em Porto Alegre, no estádio Beira-Rio, às 17 horas locais, com humidade relativa de 70% e temperatura de 30 graus centígrados, o que, tenho ouvido dizer, não contribui para a vontade de andar em correrias, futebolísticas ou outras. E o que é que se passou ontem? Já ouviram falar daquele livro em que Malcolm Gladwell defende que os fracos derrotam os fortes com mais frequência do que julgamos? Por acaso, tenho um exemplar aqui mesmo à minha frente. O livro intitula-se David e Golias – A Arte de Combater os Mais Fortes. O subtítulo está incompleto, claro. Falta o E Perder Quase Sempre. Foi isso que aconteceu ontem, no Estádio Beira-Rio, cidade de Porto Alegre, fundada em 1769 por Manuel Sepúlveda: o mais forte ganhou. Estávamos todos a torcer pela Argélia, não estávamos? Estávamos. E de alguma maneira que não conseguimos explicar através da ciência, as oportunidades da Argélia pareceram-nos mais oportunas do que as dezenas de oportunidades da Alemanha, que só tiveram uma utilidade benéfica, a de permitir ao guarda-redes argelino extraordinárias defesas, não foi? Foi. A partir da segunda parte percebemos todos como é que aquilo ia acabar, não foi? Sim. E, mesmo assim, quando a Argélia marcou aquele golo já no finalzinho pensámos que o que estragou tudo foi o golo do Ozil, não foi? Foi. Embora muito provavelmente se a Alemanha estivesse apenas a ganhar 1-0, aquele golo argelino e que Luís Freitas Lobo, que dedico a todos aqueles que verdadeiramente amam este desporto, atribuiu a Slimani (aliás, sempre que a bola passava para o meio-campo alemão, antes de ser recolhida por Mertesacker ou varrida por Neuer, os comentadores só viam Slimani), não teria existido, não é? É. A primeira parte foi equilibrada. Concedo. Até aos 35 minutos. A partir daí, a Argélia estoirou. Os jogadores chegaram de gatas ao fim da primeira parte e o grande mérito de Halilhodžić, o homem mais bonito em campo, foi o de ter conseguido que uma equipa comandada por Halliche tivesse a mais de cabeça o que tinha a menos de pulmões, devido à humidade de 83%, num jogo disputado na bela cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, Argentina, com mais de um milhão de habitantes e um número de cabeças de gado que, se colocadas em fila, dariam duas voltas ao mundo. A segunda parte foi um exercício de apneia futebolística, em que a selecção argelina vinha à superfície durante alguns segundos para logo de seguida regressar às profundezas do seu meio-campo. Quando ficavam à beira do colapso, aparecia M’Bolhi, um rochedo de gelo no deserto argelino (dedico esta a Luís Freitas Lobo e a todos aqueles que amam verdadeiramente a humidade), ou a inesperada misericórdia teutónica. Como diria José Maria Pedroto, jogaram ao ataque, fechadinhos lá atrás. Do outro lado, Golias dava-nos poucos motivos para simpatizarmos com o seu gigantismo e o melhor futebol que, naturalmente, apresentava. Viram o que aconteceu quando os jogadores alemães tentaram marcar um livre apalhaçado que incluía uma queda busterkeatoniana de Müeller? Imaginem os insultos, as considerações sociais e culturais a que seriam sujeitos os autores de uma brincadeira daquelas se, por um acaso, fossem oriundos de um país latino ou africano. O gozo sobranceiro da eficácia da Europa do Norte, o riso escarninho perante o número estéril, a criatividade falhada. Quando querem ter piada, os alemães não têm piada nenhuma e ficam sempre com aquele ar de turistas bêbados à beira de apanhar clamídia. Li no facebook que Neuer jogou a líbero, o que se deve, em partes iguais, a uma linha defensiva muito subida, à influência de Guardiola e à humidade que, à hora em que Neuer fez a terceira saída aos pés de Slimani, devia andar por volta dos 103%. Vá lá, 101%, valor a partir do qual os jogadores começam a respirar ao contrário. Para mim está claro que a influência de Guardiola tem sido funesta para o futebol alemão. Ainda não demoveu os alemães de chutarem à baliza de fora da área, mas vê-se que já lhes entortou a mira. A equipa de 2010 era uma maravilha de precisão em velocidade. A deste ano quer desenvolver uma espécie de tiki-taka em que a bola, na maior parte do tempo, é trocada entre Mertesacker e Boateng, esses Xavi e Iniesta da bacia do Ruhr. Já tenho poucas esperanças que a Alemanha volte aos níveis de há quatro anos. Quanto à Argélia, recordou os mais esquecidos da merda que foi a prestação portuguesa neste mundial.

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