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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

22
Ago14

Barcelona

Bruno Vieira Amaral

Foi no estertor do casamento que viajámos para fora do país pela primeira vez. A lua-de-mel tinha sido na Régua, num hotel ao lado da estação de comboios, na altura maioritariamente ocupado pela equipa de filmagens de uma telenovela. Todas as manhãs tomávamos o pequeno-almoço perto de um actor popular, de uma ex-modelo a tentar a sorte na representação, ou de um tipo que ninguém conhecia mas que transportava um confiante sorriso de galã. Jantávamos numa pizzaria no centro da vila onde também ia um rapazinho que era a estrela da telenovela. As outras crianças – autóctones – pediam-lhe autógrafos a meio da refeição, tratavam-no como se fosse personagem. Voltámos a casa para quatro anos de casamento. Depois, naquele cruel mês de Abril, fomos a Barcelona. Ficámos instalados num hotel modesto na Via Laietana. Durante o fim-de-semana, comprámos fruta no mercado La Boquería, visitámos o museu Picasso, comprei um livro de Gore Vidal na feira de domingo de manhã. Não fizemos sexo. Passeámos pelo Parque Güell. Numa livraria de um centro comercial, ofereciam flores a quem comprasse livros. Tudo por causa do dia de Sant Jordi, padroeiro dos livros, ao que parece. Como andámos muito nesses dias, chegávamos ao hotel exaustos, quase sem forças para tomar um banho. Não fizemos sexo. Creio que já o disse. As filas para a Sagrada Família eram gigantescas, nipónicas. Desistimos. No sábado de manhã visitámos uma biblioteca local. Li os jornais. Da parte da tarde, depois de um almoço frugal num café triste, fomos até ao Museu do Palácio Nacional. Passámos pela exposição de naturezas-mortas e, mais à frente, depois de contemplarmos os restos de uma igreja do século XIII, tive uma epifania. Ao entrar numa das salas, deparei, do lado direito, escondido, com o São Francisco de Assis, de Zurbáran. Foi a primeira vez na vida que chorei ao ver uma obra de arte. Nessa tarde, lanchámos num Starbucks perto da Praça da Catalunha. Tirámos fotografias nas Ramblas. Não há o mínimo vestígio de felicidade nessas imagens. Vimos os batoteiros e as floristas, os artistas de rua, as crianças, os vendedores de kebab, as inglesas de calções claros, a estátua de Colombo, um teatro antigo, gente a tirar fotografias com os telemóveis. As duas últimas horas em Barcelona foram passadas no aeroporto, à espera. Voltámos para Lisboa no domingo à tarde. Separámo-nos dois meses depois.

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