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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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28
Jul17

Brian “Kato” Kaelin: a primeira estrela da reality tv

Bruno Vieira Amaral

Durante anos, Kim Philby, agente dos serviços secretos britânicos, passou informações confidenciais à União Soviética. Esteve quase a ser apanhado por diversas vezes. Philby tinha estado na Guerra Civil de Espanha como correspondente do The Times. Apesar de desconfianças iniciais que recaíram sobre si, após sobreviver a um atentado que vitimou três outros jornalistas, Philby acabou condecorado pelo regime de Franco com a Cruz Vermelha de Mérito Militar, em Março de 1938. Dois anos depois, um dissidente soviético relatou às autoridades britânicas que havia um agente duplo nos serviços secretos que tinha estado em Espanha como jornalista. A informação não deu origem a qualquer investigação e Philby pôde prosseguir a sua actividade.

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Harold "Kim" Philby

 

Noutra ocasião, Philby esteve quase a ser denunciado quando o vice-cônsul soviético em Istambul pediu asilo ao Reino Unido, prometendo revelar o nome de dois agentes infiltrados no Ministério dos Negócios Estrangeiros e outro nos serviços de informação. As autoridades soviéticas conseguiram levá-lo de volta para Moscovo e Philby, que tinha sido incumbido de o interrogar, escapou uma vez mais.

Em 1949, foi destacado para a embaixada britânica em Washington, onde exerceu o cargo de primeiro secretário. Guy Burgess, outro espião britânico a soldo dos soviéticos, foi fazer companhia a Philby em 1950. Em Washington já se encontrava Donald McLean, o principal suspeito de passar informações da embaixada britânica para Moscovo. Com o cerco a apertar-se sobre este último, Philby encarregou Burgess de levar McLean para a União Soviética. O desaparecimento dos dois diplomatas gerou enorme falatório, mas quando se soube que estavam em Moscovo e, como tal, tinham estado a trabalhar para os soviéticos, as atenções viraram-se para Philby. Este negou sempre que fosse o “terceiro homem”, mas foi obrigado a demitir-se do MI6 em Julho de 1951. Sem acesso a informações relevantes deixou de colaborar com os serviços de inteligência soviéticos. Em 1955, deu uma conferência de imprensa em que, pela enésima vez, se declarou inocente das acusações de ser um espião. Só oito anos mais tarde, na sequência das revelações de um diplomata soviético dissidente é que se confirmou que Philby era mesmo o terceiro homem. Em Julho de 1963, a URSS concedeu-lhe asilo político.

Há várias teorias para explicar o facto de Philby nunca ter sido detectado, mas o certo é que nunca foi. Em certas situações, teve sorte. Noutras, engenho. Mas se em 1955, quando Philby deu a célebre conferência de imprensa, Paul Ekman já tivesse desenvolvido o seu sistema de análise de micro-expressões faciais, talvez o espião tivesse sido desmascarado na altura. Analisando o comportamento e as reacções automáticas e involuntárias de Philby, Ekman concluiu que havia indícios claros de que ele estava a mentir. Pode argumentar-se que é fácil acertar no Totobola à segunda-feira, mas se virmos as imagens da conferência de imprensa é difícil não concordarmos com a análise de Ekman: há um momento em que a expressão de Philby é, sem sombra de dúvida, a do “gato que comeu o canário”:

 

Conferência de imprensa de Philby em 1955

 

Outro dos exemplos que Ekman costuma dar de alguém cujas emoções são denunciadas pelas micro-expressões faciais é o de Brian “Kato” Kaelin. Em 1995, este aspirante a estrela de Hollywood, na altura com 36 anos, foi uma das testemunhas no julgamento de O. J. Simpson, acusado do homicídio da mulher, Nicole Simpson, e de Ron Goldman. Questionado pela advogada de acusação, há um instante em que a expressão de Kaelin denuncia um sentimento de aversão que ele procura ocultar pelo discurso. Esse momento está aqui, analisado pelo próprio Ekman:

 

 

Os casos de Philby e de Kaelin são ambos mencionados por Ekman no livro Blink, de Malcolm Gladwell, um misto de reportagem e ensaio sobre o conhecimento instintivo, o poder das primeiras impressões e tudo aquilo que sabemos sem sabermos que sabemos.

 

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O nome de Kato (alcunha com origem na personagem desempenhada por Bruce Lee, na série de final dos anos 60, The Green Hornet, “As Aventuras de Bruce Lee”) Kaelin surge apenas como exemplo da teoria de Ekman e também há quem diga que ele não passou de uma nota-de-rodapé bizarra no julgamento mais mediático do século XX nos EUA. Mas essa nota-de-rodapé foi suficiente para Kaelin ter os seus 15 minutos de fama. Transmitido em directo pela televisão, o julgamento tinha uma estrela inquestionável, o réu, mas rapidamente formou um elenco notável de secundários, desde o advogado de Simpson, Johnnie Cochran, ao juiz Lance Ito, do agente da polícia Mark Fuhrman a outro dos advogados da equipa de Simpson, Robert Kardashian, o patriarca do clã que ainda não dominava agenda mediática.

Deste rol de secundários, Kato Kaelin foi dos que mais se destacou, tornando-se numa “celebridade menor” durante o julgamento. Para isso contribuiu o seu aspeto de surfista perplexo, entre o perdido e o receoso, uma espécie de The Dude avant-la-lettre a quem tivessem cortado o abastecimento de marijuana. Kaelin era uma testemunha importante porque estava em casa dos Simpson na noite em que os homicídios foram cometidos, 12 de Junho de 1994. Aliás, Kaelin era hóspede permanente embora, segundo o próprio, não pagasse renda porque O. J. lhe tinha dito que não queria o dinheiro dele. Kaelin e Nicole Simpson eram amigos desde o início da década de 80 e quando Kaelin tentou a sua sorte em Los Angeles, a mulher de O. J. deu-lhe uma ajudinha. Segundo Kaelin, terá sido depois o próprio O. J. a convidá-lo para ficar a viver na mansão durante uns tempos.

 

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Brian "Kato" Kaelin no papel de uma vida

 

Em 1987, Kato Kaelin tinha sido protagonista de um filme intitulado Beach Fever que não lhe trouxe grande notoriedade, mas que, até ao momento do seu testemunho em tribunal, era o ponto alto da sua carreira de actor. Entrevistado em 2001, Kaelin mostrou-se desagradado com o facto de ser reconhecido sobretudo pelo julgamento de O. J. Simpson:

“Não gosto de ser conhecido pelo julgamento de O.J. e agora estou a tentar ultrapassar isso. Já passaram seis anos e tenho cartão do sindicato de actores há dezassete. As pessoas deviam ter em conta que, já em 1986, fiz um anúncio da Coca-Cola. Portanto, como vês, ando nisto há muito tempo.”

A declaração é involuntariamente cómica e involuntariamente injusta porque há poucos actores que tenham tido uma oportunidade de brilhar tão intensamente quanto Kaelin brilhou durante o interrogatório. A sua perplexidade, desorientação e incómodo são palpáveis e, de certo modo, comoventes. A certa altura, o público desata às gargalhadas com uma das suas respostas (“we were not going for the same parts”) e Kato Kaelin não sabe se há-de rir, talvez com receio que isso seja entendido como uma ofensa ao tribunal. Ali está um actor falhado, sem grandes perspectivas de futuro, a viver da generosidade alheia, no maior palco do mundo, a televisão, mas com a espada da justiça a pender sobre ele. Vale a pena ver cada minuto da “actuação” dramática de Kato Kaelin porque ninguém, sobretudo os fãs de filmes de tribunal, lhe poderá ser insensível:

 

  

A defesa de O. J. Simpson tentou desvalorizar o testemunho de Kaelin, considerando-o um parasita (“a freeloader”), e na verdade era isso que ele era e é precisamente isso, e a sua visível vulnerabilidade, que gera uma imediata empatia com os espectadores (em declarações a Oprah Winfrey, em 2012, Kato Kaelin disse que as pessoas julgaram-no de forma errada e que ele nunca viveu como um parasita porque esteve sempre a trabalhar).

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 Brian Kato Kaelin, 22 anos depois dos 15 minutos de fama

 

Para muitos o julgamento de O. J. Simpson marcou o início da reality tv e, nesse caso, Kato Kaelin foi uma das primeiras estrelas da televisão da vida real. Tinha a vantagem de poder ser confundido com um desses galãs de melenas leoninas de séries televisivas como Dinastia ou Falcon Crest (afinal, era um actor). Mais do que uma pessoa que, por acaso, se viu envolvida no julgamento do século, Kato Kaelin foi visto e julgado como uma personagem e, por essa razão, teria sido justo tê-lo premiado pelo desempenho de uma vida. A vida real.

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