Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

19
Nov15

Caminhando entre ruínas

Bruno Vieira Amaral

monastery-ruins-in-the-snow.jpg

 

 

Um certo escritor francês, daqueles cujo nome evoca passeios na Bretanha, aristocratas melancólicos e queijos, afirmou que todos os homens têm uma secreta adoração por ruínas. Porém, na época em que o visconde de Chateaubriand viveu, o fascínio pelas ruínas nada tinha de secreto. Era uma autêntica epidemia cultural. Poetas procuravam inspiração no meio dos escombros de capelas, filósofos extraíam daí os seus pensamentos crepusculares, pintores, como Caspar David Friedrich, faziam das ruínas um dos seus principais motivos.

Estes amadores de ruínas admiravam-lhes a honestidade absoluta. Ainda que possuidoras de um estranho magnetismo e de uma beleza devastada, as ruínas mostravam-lhes o que o tempo reserva às vãs construções do homem. Confrontados com a sua própria mortalidade encontravam nessa certeza um consolo paradoxal. Como escreveu o filósofo escocês Lord Kames, as ruínas afirmavam “o triunfo do tempo sobre a força, um pensamento melancólico mas nem por isso menos agradável.” Enquanto no género pictórico conhecido como vanitas – onde ecoavam as palavras do Eclesiastes, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” – os pintores utilizavam caveiras, frutos apodrecidos, relógios e instrumentos musicais para ilustrar a efemeridade da existência humana, os românticos contentavam-se com as ruínas. Para que os homens nunca se esquecessem da futilidade essencial da vida e aceitassem serenamente a sua condição mortal.

Esse reconhecimento de que nascemos para morrer nunca impediu o homem de negociar com o tempo e com a morte. Quando, no auge do romantismo, certos senhores mais abastados mandavam erguer nas suas vastas propriedades castelos já em ruínas, ruínas novinhas em folha, era já neste espírito de negociação com o tempo, de exorcismo do fantasma do futuro, que o faziam. Conscientes de que não se poderiam furtar aos efeitos do tempo, antecipavam-se-lhe, criando a ilusão de que o controlavam e podiam manipular a seu bel-prazer. Agiam como os homens que inventam para si mesmos genealogias ilustres: criavam um passado com os olhos postos no futuro.

O género de futurologia a que se dedicavam era infalível: bastava dizer que tudo acabaria em ruínas. A este ramo confortável da adivinhação dedicou-se, por exemplo, Sir John Soane, o responsável pelo projeto do edifício do Banco de Inglaterra. Juntamente com o projeto, apresentou três desenhos do edifício: acabado de construir, desgastado pelo tempo e, finalmente, em ruínas. Mas antes que o tempo pudesse aplicar o seu martelo, a parte mais importante do contributo de Soane foi demolida quando, em meados do século XX, o edifício foi reconstruído. Outro arquitecto que quis antecipar-se ao tempo foi o infame Albert Speer, o arquitecto do Nazismo. Foi ele o criador da Teoria do Valor Ruína, segundo a qual os edifícios construídos pelo III Reich deviam ser pensados, desde logo, como futuras ruínas e, para tal, era preferível a utilização de materiais nobres como a pedra e não de materiais mais modernos como o aço e o vidro. Como o legado mais visível dos impérios do passado eram os edifícios, Speer tinha a esperança que, dali a mil anos, o mundo ainda pudesse testemunhar a grandeza do Reich através das ruínas que lhe sobreviveriam. Nesta negociação, se assim lhe podemos chamar, havia uma arrogância de criador todo-poderoso. A exemplo de Sloane, Speer fez desenhos dos seus edifícios em ruínas, para provar a Hitler que nem mil anos de desgaste apagariam a herança do Führer. Hitler, que não podia ser acusado de não ser megalómano, aderiu à ideia como um moribundo a quem prometessem a eternidade. Mas o tempo, uma vez mais, mostrou-se intratável. Hoje, quando passaram perto de oitenta anos dos delírios de Speer, o que resta do palco do centro de congressos de Nuremberga que ele desenhou está coberto de vegetação. Tal como Speer imaginou, mas de uma forma mais célere do que desejava.

É nas ruínas deixadas pelos crimes de Hitler e do nazismo que se passeiam algumas personagens de W. G. Sebald, que alguns definem como o último escritor romântico. Os protagonistas de Sebald são como fantasmas a vaguear por um mundo que já não lhes pertence. Fantasmas que assombram não as ruínas de uma casa, mas de um continente inteiro. Há nos seus livros um interesse pelos vestígios de um mundo que desapareceu ou está em vias de desaparecer. Como o homem é um ser para a morte, Sebald entende que também certos edifícios são, pela sua dimensão desumana, objetos para a ruína: “a arquitectura habitacional abaixo do tamanho normal […] é aquela que exprime um vislumbre de paz, ao passo que ninguém no seu perfeito juízo dirá que um edifício grande como, por exemplo, o Palácio da Justiça de Bruxelas, no velho Monte da Forca, lhe agrada. Quando muito, fica-se espantado, e esse espanto é já de si uma forma antecipada do horror, pois de algum modo sabemos naturalmente que os edifícios ultradimensionados lançam já a sombra da sua destruição, concebidos que são desde a origem com vista a uma existência futura enquanto ruínas.” Nesta passagem do seu romance mais célebre, Austerlitz, concentra-se a filosofia de Sebald, a sua cosmovisão da perda. Homens, lugares, edifícios, fotografias estão todos sujeitos à erosão do tempo. Sebald é o cartógrafo desse lento desgaste da humanidade. Faz sentido falar dos seus romances como exercícios de reconstrução a partir dos escombros. Procedem, à distância de cinquenta anos, à reconstrução do indivíduo que saiu da segunda guerra mundial. Mais do que testemunhos do horror, são deambulações pelas ruínas da cultura, por uma terra devastada que guarda a cicatriz daquilo que já foi.

Neste romances, o tempo não transforma a natureza dos objetos e das pessoas, revela-a, porque a essência (o princípio degenerativo – a erosão da paisagem natural, a ruína dos espaços e o envelhecimento e a morte dos seres humanos) habita-os desde o primeiro momento. Foram concebidos para a decadência e para o esquecimento, e não para a glória e a salvação. Sebald responde ao que Kundera chama, em A Arte do Romance, o apelo do tempo: “o romancista deixa de limitar a questão do tempo ao problema proustiano da memória pessoal [e] a alargá-lo ao enigma do tempo coletivo, do tempo da Europa, a Europa que se volta para olhar o seu passado, para fazer o seu balanço, para aprender a história, tal como um homem velho que abarca com um único olhar a sua própria vida decorrida.” Ao caminhar entre as ruínas, o herói de Sebald procura o mundo que se desvaneceu porque na decifração desse mundo está a chave da sua identidade. E tal como o Palácio da Justiça em Bruxelas contém a semente do seu próprio fim, também a fotografia de Austerlitz em criança carrega tudo o que lhe há de acontecer. No rosto daquela criança já está inscrita a marca irrevogável da morte e do esquecimento.

E a verdade é que não há ruínas mais comoventes do que os rostos. É por essa razão que a série de fotografias tiradas ao longo de 40 anos às irmãs Brown nos emociona tanto. Servem-nos de espelho. Fazemos o percurso que vai das promessas da juventude à sabedoria da idade, sentimos a dor do avanço do tempo e, por fim, acedemos à beleza e à sabedoria. Sabedoria que, por exemplo, encontramos no expressivo e monumental rosto de Samuel Beckett. Nele, tudo é ruína exceto o olhar, de uma vivacidade inquietante. Devemos então acreditar que há em nós um lugar a salvo do tempo e dos seus efeitos? Se acreditássemos nessa possibilidade então tudo o que as ruínas teriam para nos ensinar seria a arte da desesperança. Se acreditássemos num paraíso inviolado, imune à ruína e à erosão, então o fascínio que as ruínas exercem em nós seria meramente estético e o seu valor pouco mais que pornográfico.

Quero acreditar que o nosso fascínio pelas ruínas não se explica apenas pelas lições existenciais e históricas que encerram ou pela sua fealdade bela; que não nos servem apenas de medida do tempo, como defendia Chateaubriand; que contam mais do que a brevidade certa da existência. Haverá um núcleo secreto que nos atrai irresistivelmente para as ruínas e nesse núcleo encontraremos as histórias. Percebe-se melhor a ideia se compararmos as ruínas a certos edifícios, como o palácio de Bruxelas de que falava Sebald, cuja frieza e monumentalidade são desumanas, não só porque se projetam para um futuro que já não iremos testemunhar mas porque lhes faltam as histórias que os humanizem. Essas histórias que só as ruínas podem contar dizem-nos que é possível reconstruir o mundo a partir dos escombros. Ao tempo do lamento e da meditação melancólica pelo que se perdeu, sucede-se o tempo da certeza feliz de que depois de nós virão outros, depois das nossas histórias outras histórias, depois das ruínas um novo mundo.

 

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D