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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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15
Fev16

Elif Shafak: «Na Turquia, o desejo da liberdade de fazer perguntas é um ato político.»

Bruno Vieira Amaral

Entrevista à escritora turca Elif Shafak, publicada na LER 137, Março 2015

 

Elif Shafak é a escritora mais popular da Turquia e também uma das mais polémicas. A Bastarda de Istambul, publicado agora em Portugal, valeu-lhe um processo em tribunal, em 2006, por insultar a identidade turca. Motivo: uma das personagens, uma rapariga de ascendência arménia, falava abertamente sobre o genocídio dos arménios pelos turcos, em 1915. Apesar de garantir que as questões políticas e sociais não são o seu guia, Elif Shafak aproveita os seus romances para falar de questões atuais que afetam não só as comunidades turcas na Europa como as minorias em geral: de género, étnicas, culturais ou religiosas. A escritora, que divide o seu tempo entre Londres e Istambul, teme que a sociedade turca esteja a regredir em questões tão essenciais como a liberdade de expressão e de imprensa.

 

Duas das personagens deste romance – Armanoush e Asya – relacionam-se de forma muito diferente com o respetivo passado. Uma está profundamente ligada a esse passado e quer saber mais sobre ele. A outra não sabe e não quer saber.

Interesso-me por estas questões da memória e do esquecimento, da memória e da amnésia, porque penso que a sociedade turca é uma sociedade amnésica. A nossa relação com o passado teve muitas ruturas, foi quebrada em vários sentidos. Creio que a memória é importante e acarreta uma responsabilidade. Devemos aprender com a História, devemos aprender com os erros que foram cometidos para que não os voltemos a cometer, devemos honrar a História. Ao mesmo tempo, acho que é igualmente importante que não fiquemos presos à História, é importante avançar, mas para avançar é necessário ter memória. Por isso, através de Asya e Armanoush quis discutir esta questão da memória e da amnésia.

No caso de Asya, trata-se de alguém que prefere não conhecer o seu passado. Acha que isso, ignorar o passado, não será o melhor em algumas circunstâncias?

Especialmente quando o passado é doloroso, quando há mágoa nesse passado, as pessoas preferem ignorá-lo, esquecê-lo. O mesmo acontece com os países. Mas isso é artificial, não é uma abordagem saudável. Temos de lidar com o passado, temos de o enfrentar, mesmo que seja doloroso, e então depois avançar. Os extremos não são saudáveis. Não é bom ignorarmos completamente o passado mas também não é saudável que a nossa identidade seja toda ela baseada no passado.

É isso que acontece com os personagens arménios deste romance? Estão presos a uma identidade e a um passado e não são capazes de avançar?

Para os arménios o passado está cheio de dor, de tragédias, de histórias por contar. Gostaria que, a longo prazo, as pessoas fossem capazes de esquecer um pouco, mesmo que só um pouco, mas para que eu possa esperar que os arménios esqueçam um pouco, em primeiro lugar, enquanto turca, tenho a responsabilidade de lembrar. Se eu não recordo como é que posso esperar que o outro esqueça? Como tal, em primeiro lugar está o dever de lembrar porque só então podemos pedir ao outro que esqueça um pouco. Esquecer, neste sentido, não significa ignorar, não me interprete mal, só que é necessária uma certa dose de esquecimento e de perdão. Contudo, insisto, o primeiro passo deve ser o da memória, e esse passo tem de ser dado pelos turcos. Se os políticos turcos não dão esse passo terão de ser os turcos, enquanto indivíduos, a fazê-lo.

E como poderão fazê-lo?

Enquanto escritora posso dar esse passo. Uma bailarina poderá fazer uma coreografia. Talvez alguém possa fazer um filme sobre o assunto. As histórias são sempre melhor do que os silêncios. E na Turquia tem havido muitos silêncios sobre o passado. Está na hora de falarmos sobre esses silêncios.

Disse em entrevista que a Turquia vive uma espécie de amnésia coletiva. No entanto, neste livro há um personagem arménio que diz que acontece o mesmo com todos os países. Os Estados-nação criam os seus mitos e as pessoas agarram-se a esses mitos. Concorda que esta não será uma característica exclusiva da Turquia?

Claro que não é uma característica exclusiva da Turquia ou do Estado turco. Se pensar nos Estados-nação, na Alemanha, em Israel, na Itália, até no nacionalismo escocês, todos os nacionalismos são criados retroativamente e somos levados a crer que as coisas sempre foram assim. E as coisas nem sempre foram assim. Há toda uma literatura académica que demonstra que muitos desses mitos são recentes, são modernos, não vêm dos tempos antigos.

Como no livro The Invention of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Sim, e o Belated Modernity [livro de Gregory Jusdanis sobre as literaturas nacionais], ou o Imagined Communities [livro de Benedict Anderson sobre os nacionalismos]. Há uma literatura vasta sobre o assunto que me interessa bastante e que mostra que todos os Estados-nação têm estas características. Mas é importante que se diga que quando há liberdade de expressão e democracia os historiadores podem dizer: «Esperem lá, deixem-me mostrar-vos as coisas de uma outra perspetiva.» E dessa forma uma sociedade tem no seu interior vozes distintas que se equilibram. Visto que na Turquia a liberdade de expressão não tem feito progressos, há muitas vozes que têm sido silenciadas, e isso é um problema. Ou seja, há muitas semelhanças entre a Turquia e outros Estados-nação mas o que interessa saber é se há liberdade de expressão, multiplicidade de vozes, pluralismo. Por exemplo, em Inglaterra há muitas pessoas que criticam abertamente o passado colonial da Grã-Bretanha e não vão a tribunal por causa disso, enquanto que na Turquia as pessoas são processadas.

 

elif.jpg Foto: Pedro Loureiro

 

Foi o que aconteceu consigo quando este livro saiu na Turquia. Foi processada por «insultar a identidade turca». Como é que na altura lidou com isso?

Eu sabia que ia receber críticas mas não estava à espera de ser processada por causa de um romance. Foi a primeira vez que isso aconteceu, em 2006. Foi surreal porque em tribunal o meu advogado teve de defender personagens de ficção.

Porque um dos personagens usava o termo «genocídio».

E por criticar o passado da Turquia. Foi muito surreal. Ele tinha de relembrar as pessoas que se tratava de ficção, de imaginação. Acho que atualmente todos os poetas, jornalistas e escritores têm noção de que podem ter problemas por causa de uma palavra. Escrevemos sempre com essa consciência, o que resulta em muita autocensura.

Há coisas que não escrevem por recearem as consequências?

No que diz respeito aos acontecimentos de 1915, as deportações e os massacres, houve alguns progressos. As pessoas falam cada vez mais sobre isso, têm saído mais livros sobre o assunto. Em comparação com o que acontecia há 10 ou 15 anos há progressos na sociedade civil, conferências, debates, documentários, filmes. A sociedade não está calada. As pessoas escrevem e debatem mais do que há uns anos, mas ainda assim trata-se de um assunto complicado e a verdade é que, em termos gerais, no que diz respeito à liberdade de expressão a Turquia recuou. No índice da liberdade de imprensa caímos [em 2002, a Turquia ocupava o 99º lugar e em 2014 tinha caído para 154º]. Centenas de jornalistas ficaram sem emprego, muitos aguardam julgamento, outros continuam presos. Além disso, há muita autocensura e perdeu-se por completo a diversidade na comunicação social.

Mas num caso como o seu, o facto de o Estado processar um escritor não funciona contra o Estado? Afinal, toda a gente acaba por falar sobre isso.

Sim, mas ninguém deseja esse género de publicidade.

Não me refiro a publicidade mas ao facto de se falar sobre um assunto supostamente proibido.

Claro. Tem toda a razão. Quando fui processada, houve mais pessoas a ler o livro, a partilhá-lo e a escrever sobre ele. Mas a comunicação social foi muito agressiva. Na altura, recebi muito amor e muito ódio. A reação dos leitores foi incrível, muito positiva, maravilhosa. E eram leitores das mais diversas origens, turcos, arménios, curdos, judeus. Só que a reação da elite foi muito cruel, muito agressiva, nacionalista.

A elite que escreve na imprensa?

A elite que escreve nos jornais, que comenta na televisão. Eram menos mas faziam mais barulho.

Voltando ao romance e às personagens: todas elas, e não apenas as duas que referi, parecem estar em conflito com o passado, incluindo Mustafa, que tem uma educação privilegiada, é mimado e tratado como um príncipe. Corresponde ao típico homem turco?

Eu interesso-me muito pelas questões de género e sou muita crítica da forma como as mulheres colaboram na manutenção de uma sociedade patriarcal, portanto não se trata apenas de homens a oprimir mulheres. As coisas não são a preto e branco, é muito mais complexo.

Por isso é que lhe perguntava sobre o peso da educação dos rapazes no comportamento que eles têm mais tarde em relação às mulheres.

Bem, a história de Mustafa é a história de um indivíduo mas através dela eu queria abordar estes assuntos porque numa família típica da Turquia os rapazes são tratados de forma diferente, são privilegiados, e infelizmente as mães dizem aos filhos que eles têm o direito de vigiar as irmãs, e por isso crescem com a ideia de que são superiores, de que são os sultões da família. Quando um dia mais tarde casam, tratam as mulheres da mesma forma. Como é que quebramos este ciclo? A opressão das mulheres é em parte reforçada por coisas que as próprias mulheres fazem. É necessário quebrar esta cadeia que passa de geração para geração. Fiz parte do movimento feminista mas para mim o feminismo ou o pós-feminismo exige que nos foquemos não apenas nas mulheres mas também nos homens. Nas sociedades patriarcais não é fácil ser-se mulher mas também não é fácil ser-se um rapaz, especialmente se for um rapaz com talentos pouco habituais, se for gay. Se não se enquadrar numa certa definição de masculinidade as pessoas ridicularizam-nos, afastam-nos e as mulheres também contribuem para isso. Temos de ver qual é o papel das mulheres neste jogo e alterá-lo.

No livro Black Milk [obra de não-ficção sobre a criação literária e a maternidade, que Elif Shafak escreveu após o nascimento do primeiro filho e da depressão pós-parto que sofreu] conta o seu encontro como uma escritora turca e que ela lhe disse que as escritoras não são as maiores fãs umas das outras. Acha que quando uma mulher atinge o sucesso, por exemplo, na literatura, acaba por se virar contra as outras mulheres, culpando-as por não serem capazes de fazer o que ela faz?

Infelizmente é isso que se passa na Turquia porque o meio literário é tão pequeno, concentrado em Istambul, que abundam as coscuvilhices, as calúnias. É quase impossível encontrar dois escritores que gostem um do outro e isso é ainda pior com as escritoras.

Mas vive um pouco afastada desse meio.

Sim. Uma das coisas que me abriu os olhos foi quando estive em Boston, no Mount Holyoke College, e me apercebi que havia um grande sentimento de fraternidade, em particular entre as afro-americanas. E eu fiquei encantada com isso. Elas partilham as memórias das lutas que as mães e as avós travaram. Apoiam-se mais entre si, falam mais sobre este sentimento de união e isto despertou-me. Desejo que chegue o dia em que haja este tipo de solidariedade entre as mulheres turcas, curdas, judias, arménias, entre todas as mulheres mas especialmente entre as mulheres desta região porque vivem em sociedades patriarcais e se passam a vida a competir entre si e a magoar-se isso não beneficia ninguém. Só beneficia o próprio sistema patriarcal.

Disse numa entrevista que não se pode dar ao luxo de ser apolítica. Acha que isso é válido para todas as escritoras de países que enfrentam os mesmos problemas?

Claramente. Uma escritora da Nigéria, do Paquistão, do Egito, do Líbano, não se pode dar a esse luxo. Enquanto escritora turca sei que não me posso dar a esse luxo. Mas isto não quer dizer que a política seja o meu guia. Não é. O meu guia é a imaginação, a literatura, contar histórias, porém os meus livros falam de questões políticas. Não tenho respostas, nem quero ensinar ninguém, mas quero continuar a fazer perguntas. E, na Turquia, o desejo de ter a liberdade de fazer perguntas é, em si, um ato político.

Não acha que nos países onde não existe liberdade de expressão a literatura acaba por ser ainda mais importante do que nas democracias, onde a literatura corre o risco de se tornar irrelevante?

Essa é uma questão muito importante. Eu penso nisso. Por exemplo, na América todos os meses são publicados muitos livros que também desaparecem muito rapidamente. Na Turquia, a liberdade de expressão é menor e enquanto escritores enfrentamos mais obstáculos, mas de certa forma os livros permanecem, não se evaporam e são importantes para as pessoas. O mesmo exemplar é lido por cinco ou seis pessoas. Dizem-me que na Índia o mesmo exemplar chega a ser lido por nove ou 10 pessoas. Imagine: o livro é partilhado, alguém o lê e passa à tia, a tia passa-o à vizinha, funciona muito o boca a boca. Faz-se parte de uma família. E o resultado é que os escritores são figuras destacadas. Esse é o bom lado da questão: aquilo que escrevemos e que dizemos tem importância. O lado mau é que se está sempre a desejar ser livre. Tudo acaba por ser politizado. Estão sempre à procura de mensagens ocultas, à procura de teorias de conspiração. Até chegam a dizer que há mensagens nas capas dos meus livros. Porque é para isso que estão treinados, para procurar inimigos. Chega uma altura em que os artistas precisam de autonomia, de espaço, de liberdade.

Por causa dessa tendência de procurar significados ocultos devo dizer-lhe que encontrei um blogue que compila todas as referências culturais neste livro, de Johnny Cash a Jackson Pollock, e em que os leitores acabam por fazer as suas próprias interpretações que, na minha opinião, às vezes são um pouco exageradas. Como já disse que os escritores nem sempre pensam no que escrevem queria perguntar-lhe o que pensa destas leituras da sua obra.

Há um excesso de interpretação, é verdade. A minha opinião é que um escritor nem sempre está a controlar a história que está a contar. Às vezes escrevemos uma palavra só porque a palavra anterior a pede. Creio que há dois tipos de escrita: uma é quase engenharia, mais matemática, em que o escritor sabe o que cada personagem vai fazer. Conheço escritores assim, respeito o que fazem, mas esse não é o meu estilo. Gosto de me sentir inebriada ao escrever, mais irracional, de não saber o que vai acontecer dali a seis páginas. Gosto de ser surpreendida por um personagem porque dessa forma o leitor também será surpreendido. Como para mim a escrita é um mistério acho que as pessoas não devem interpretar em demasia.

Uma das coisas que me impressionou neste romance foi a ideia de que o amor pode ser opressivo. Em Black Milk conta uma lição que a sua avó lhe ensinou, de que para destruir alguma coisa basta cercá-la, rodeá-la. Será que esses muros que destroem podem ser feitos de amor?

Digamos que sem verdadeira liberdade não há verdadeiro amor. O sentimento de posse não combina com o amor. Um ego muito forte não combina com o amor. Onde há muito amor tem de haver pouco ego. Mas o que queremos é ter um grande amor e um grande ego, de uma forma muito possessiva. Oiço as pessoas a dizerem «a minha mulher», «o meu marido», «a minha noiva», e a ênfase é no pronome, mas essa pessoa não nos pertence, essa pessoa é um universo diferente. Como tal, esse sentimento de posse perturba-me e encontra-se muito na Turquia, especialmente da parte dos homens, que não veem as mulheres como indivíduos.

A sua intenção é a de contar histórias que foram silenciadas, de dar voz a quem não tem voz. Para este livro, falou com arménios e turcos que viveram na época que descreve. Mas quando escreve sobre épocas em que já não é possível recorrer a testemunhos, como é que faz? Usa apenas a imaginação? Porque os excluídos não tiveram oportunidade de deixar a sua versão da História.

Isso é muito importante porque a História tem sido quase sempre contada do ponto de vista dos homens. Na Turquia os indivíduos raramente são mencionados e quando falamos de História é quase sempre acerca das guerras, dos tratados, dos territórios conquistados e perdidos, esse tipo de coisas que decoramos. Os poucos indivíduos sobre os quais se fala são quase sempre os xeiques, os sultões, a elite. A mim não me interessam as pessoas do centro, do poder.

Nem para contar versões alternativas dessas histórias?

Sim, se for para contar uma História alternativa, mas não me interessa o discurso oficial da historiografia porque já o ouvimos vezes sem conta. Quero ouvir os silêncios dos excluídos, das minorias. Interesso-me muito por personagens desse género, desempenham um papel muito importante nos meus livros. Só que a minha definição de minoria é muito ampla, pode ser uma minoria sexual, étnica, cultural ou qualquer pessoa que num dado momento histórico se tenha sentido o outro. Então, quero ouvir as histórias das margens, da periferia. E isso faz-se através da imaginação e da empatia, mas para que isso seja possível em primeiro lugar tenho de ler e de pesquisar. Sem isso não se consegue imaginar. Depois pode-se voar para onde se quiser mas em primeiro lugar tem de se fazer o trabalho de casa.

É necessária uma base.

Sim, construir de baixo para cima. Faço muita pesquisa, levo isso muito a sério. Para escrever este livro li muitas obras, consultei arquivos, documentos históricos, falei com muitas pessoas de origens muito diferentes e todo esse conhecimento também me transformou. A minha mãe era diplomata e quando estávamos em Madrid, a organização terrorista arménia, ASALA [Exército Secreto Arménio para a Libertação da Arménia] tinha como alvo diplomatas turcos e, como tal, tenho memórias muito negativas da palavra «arménio», da palavra, não do povo arménio. Era a palavra em si que tinha conotações negativas e eu tive de fazer uma viagem interior para me livrar dessa conotação negativa e olhar para a História com empatia. Enquanto indivíduos todos temos de fazer as nossas próprias viagens interiores.

Tem dito que os seus muitos leitores têm origens muito diferentes mas a verdade é que as pessoas podem ler os mesmos livros e, na vida real, voltarem às suas trincheiras, sem qualquer alteração. Será que a literatura não é tão poderosa quanto gostaríamos que fosse?

Acredito que a literatura é poderosa e, mais do que isso, tem a capacidade de transformar as pessoas. Como é que eu sei? Porque eu fui transformada pela literatura.

Em A Bastarda de Istambul os livros são importantes para os personagens e também disse, em Black Milk, que os livros a salvaram.

Salvaram-me, transformaram-me, mudaram-me em tantos aspetos. Não quero romantizar mas foi o que me aconteceu e acredito que acontece com outras pessoas. Naturalmente, em escalas diferentes. Por exemplo, por vezes falo com leitores que são bastante homofóbicos e acabam por me dizer que adoraram um personagem gay de um dos meus livros. Ou pessoas que gostaram muito de um personagem turco, arménio ou judeu, pessoas que eu sei que são xenófobas no dia a dia. Como é que isto se explica? Na minha opinião, o fascismo é uma doença coletiva. Somos sempre mais reacionários, menos tolerantes e menos liberais quando estamos acompanhados. Quando estamos juntos, em sociedade, gozamos com os outros, vamos na corrente, mas quando estamos sozinhos é diferente, há um espaço interior que se abre. O romance dirige-se a esse espaço porque exige que o leitor esteja só. Vamos juntos ao cinema ou a um concerto, mas lemos sozinhos. Não interessa se o lemos no Kindle ou em outro dispositivo. E dentro desse mundo privado há um enorme potencial transformador.

Não acha que a diferença é que o leitor quando lê vê o mundo através dos olhos do escritor e que, na vida real, nunca tem oportunidade de conhecer os outros de um modo tão profundo?

Tem toda a razão. No dia a dia não conhecemos as histórias. Acontece o mesmo com os noticiários, é tudo reduzido a números. Morrem duas mil pessoas e não estabelecemos qualquer ligação emocional mas depois lemos a história de uma dessas pessoas e nasce uma ligação. É compreensível que assim seja e é por isso que temos de pegar nessas histórias cada vez mais. Até no jornalismo é preciso cada vez mais contar histórias.

Neste romance há muitas coincidências, aquilo a que chamou «sinais» noutro dos seus livros. Acredita nas velhas qualidades do romance, com um tão grande número de coincidências ou sinais?

Interesso-me muito pelo sufismo [corrente mística e contemplativa do islão], e não apenas pelo misticismo islâmico; interesso-me pelo misticismo judeu, pelo misticismo cristão, para mim são muito idênticos, dizem coisas muito parecidas. E as pessoas que seguiram estas correntes sempre estiveram na periferia das suas religiões e muito interessadas no que não se vê, na essência. Não são tanto as leis e as regras à superfície que lhes interessam, mas o significado oculto, e esse significado é universal. Os sufis acreditam que estamos todos ligados, que as nossas histórias e destinos estão ligados entre si. Hoje isso percebe-se melhor porque após o 11 de Setembro vimos que o que acontece a uma pessoa num determinado lugar afeta as pessoas no outro lado do mundo. Existem estes fios invisíveis que nos ligam. Não me importo de dizer que sou uma pessoa irracional, acredito que na vida há magia, que há coincidências ou sinais. Há coisas que não podem ser explicadas apenas pela lógica. Isso não faz com que eu seja religiosa, não sou religiosa, e faço questão de distinguir a espiritualidade da religiosidade. A religião é uma coisa organizada, com hierarquias e que divide o mundo entre nós e eles, enquanto que um místico, na minha opinião, não divide o mundo entre nós e eles.

Mas essa falta de organização faz com que permaneçam na margem das próprias religiões.

Não só por isso. Não nos podemos esquecer que alguns desses movimentos foram perseguidos e eliminados pelas narrativas dominantes em cada religião. Os cátaros, os bogomilistas, os bektāshîyahs na Anatólia partilham muitos traços comuns e nunca tiveram contacto entre si. Detesto a arrogância e o pensamento absolutista – e os ateus também podem ser bastante arrogantes –, por isso prefiro o agnosticismo, o misticismo. Precisamos da fé e da dúvida, de elementos de ambas. Respeito a fé mas também respeito a dúvida e creio que podem andar lado a lado. É esta a dualidade que me interessa e não a dualidade entre religião e ateísmo, porque ambos podem ser absolutistas e arrogantes.

A literatura prospera na incerteza?

Na incerteza, na ambiguidade. São coisas muito valiosas para um escritor. Tchékhov disse que para um escritor as perguntas são mais importantes do que as respostas. E tinha muita razão. As pessoas que têm muitas certezas estão sempre a tentar mudar os outros enquanto que as que não têm tantas certezas procuram transformar-se a si mesmas. Dou mais valor a isso.

Quando escreveu Black Milk sobre o desafio de conciliar a escrita e a maternidade, mencionou várias escritoras do passado e as dificuldades por que passaram. Mas ainda hoje se temos um grande escritor que é um péssimo pai, o que nos interessa é a obra, enquanto se houver uma grande escritora que é uma mãe negligente o que nos interessa é que é uma mãe negligente. Concorda?

Absolutamente. É assim em todo o lado mas ainda mais em sociedades patriarcais, como a Turquia, onde uma escritora, aos olhos da sociedade, dos críticos, é, em primeiro lugar e antes de mais, uma mulher, e só depois é vista como escritora. Já um romancista é em primeiro lugar um escritor e talvez alguém fale dele enquanto homem, mas é raro. Até a linguagem dos críticos, quando se trata de uma escritora, é diferente.

São mais condescendentes?

Sim, condescendentes, olham de cima para baixo. No verão passado, estava a ler uma crítica a um dos meus livros num jornal turco e era assim que começava: «Vamos lá ver o que é que a nossa kizimiz, que significa «filhinha», «escreveu desta vez», e depois passava para a crítica. E eu olho para este homem que me trata por «nossa filhinha» e somos da mesma idade. Não estou a falar de um crítico de 90 anos, de uma geração diferente. Somos da mesma geração mas só por ser homem e eu mulher, ele vê-se lá em cima e a mim vê-me aqui em baixo. Podíamos pensar que o meio literário na Turquia, por ser composto por intelectuais, artistas, seria menos sexista, mas não é. Há muito glamour à superfície mas se rasparmos um pouco vemos como é incrivelmente sexista e paternalista.

Como contacta com muitos escritores estrangeiros em festivais e outro tipo de eventos acha que se passa o mesmo noutros países? Veem-na como uma companheira de letras?

É uma questão problemática. Na América a cultura existente é a de olharmos para o que alguém fez e tentarmos fazer melhor. É isso que ensinam aos jovens. Na Turquia, é diferente. Se alguém consegue ter sucesso, por exemplo, no cinema, a ideia é de que está a roubar o lugar a alguém. Então essa pessoa passa a ser odiada. Acontece o mesmo na música...

De certeza que não está a falar sobre Portugal?

[Risos.] Então temos de mudar isso, porque ninguém fica a ganhar. A cultura é uma acumulação de conhecimento. Quando um autor vende muito, isso vai gerar um aumento das vendas de livros em geral. Na Turquia é muito difícil falar sobre estas coisas. Tenho uns amigos irlandeses que dizem que na Irlanda acontecia o mesmo na década de 60: era uma sociedade pequena e havia muita tensão política. Talvez na Turquia haja um fardo político que faz com que as pessoas não se ajudem entre si.

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