"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
22.1.16

Texto inédito que ofereci à RUC:

https://www.mixcloud.com/inesrodrigues/radioteca-7/

 

E Maria Adelaide? Ah, esse caso fora um deslize indesculpável, um entusiasmo juvenil quando já tinha passado dos cinquenta, idade em que sentia o vigor, por então já episódico, como uma experiência avassaladora. Sentia-se um animal e quanto mais essa sensação violenta o dominava, mais o seu discurso amoroso se refinava, quase explodindo em expressões ameaçadoras, superlativos, adjectivos que lhe amarravam os uivos: “não vou medir as palavras: foi brutal”, “você falou de beleza interior mas a sua beleza exterior…tocou-me de uma maneira, abalou-me…você é uma mulher lindíssima, Maria Adelaide.” Maria Adelaide tinha trinta e nove anos, dois filhos adolescentes, um casamento terrível com um indivíduo indigno, várias depressões e uma tentativa de suicídio no quarto da casa de família na Barra, onde passavam férias há várias décadas. Foi aí que César a reencontrou. Lembrava-se da filha do juiz, mas nunca imaginara que se tivesse tornado nesta mulher belíssima e com a medida certa de tristeza para lhe provocar um desejo incontrolável. O juiz Souto de Almeida convidara-o para um almoço depois de se terem cruzado numa conferência sobre a reforma dos tribunais, em Águeda. Quando a viu, o efeito foi demolidor: “uma aparição, um anjo”, haveria de protestar mais tarde, justificando a loucura temporária que então o afectou. A languidez de Maria Adelaide atribuiu-a César a qualquer coisa de lúbrico, ignorando a quantidade de medicamentos que a deixavam naquele estado apático, de sorrisos atrasados, de pequenos comentários que não revelavam nem inteligência nem comedimento, antes a incapacidade de Maria Adelaide intervir atempadamente e a propósito nas conversas. César, tesudo como um cavalo, prometeu, ao fim daquele almoço decadente, que Maria Adelaide não iria sofrer mais. Ele não o permitiria. “Você tem de ser tratada como uma porcelana da China. Você é uma mulher sensível…hiper-sensível”. Cada palavra que lhe saía da boca era uma confissão de derrota, o reconhecimento da impossibilidade de traduzir para linguagem aquele torvelinho de pensamentos cavernícolas, a vontade de violar Maria Adelaide, de a foder com uma violência selvagem que a libertasse daquela languidez e a mantivesse naquele estado narcótico, que ela se viesse gritando que nem uma histérica e que logo se acalmasse subjugada pela sua masculinidade. A filha do senhor juiz, por amor de Deus! O juiz, com um vagar bovino, comia sem se dar conta da perturbação do convidado. Só a sua excelentíssima esposa, com a infalível perspicácia feminina, via através de César, as suas intenções animalescas, e aquilo afectou-lhe o estômago, como se aquele homem estivesse ali para cumprir um desígnio terrível: raptar, violar e matar-lhe a filha e, quem sabe, fazer o mesmo com ela. A tudo isto Maria Adelaide era indiferente. Habitava alturas inacessíveis. Durante horas, falou com César, fumou quase dois maços de tabaco e quanto mais César se desencontrava com palavras aveludadas que não serviam para expressar os seus tormentos, mais Maria Adelaide vogava para longe, aproveitando a ondulação da voz de César, dos seus exageros, das suas metáforas pobres, seráficas e cerâmicas, anjos e loiças, enfim, da vulgaridade irremediável de um homem escravizado pelo desejo de foder uma mulher triste. Despediram-se. Nesse Verão, César ainda ligou várias vezes para casa dos Souto de Almeida mas não voltou a falar com Maria Adelaide. Às vezes tem dúvidas sobre a realidade daquele almoço de sábado na Barra, do cheiro a velas no hálito da excelentíssima esposa do senhor juiz, dos dois labradores que o senhor juiz tinha no quintal, do olho lacrimejante do senhor juiz, do seu cabelo amarelado, dos braços langorosos da filha do senhor juiz expostos por um vestido doméstico, da maresia, das manchas verdes que cobriam a areia, do nome de Maria Adelaide.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:49  comentar

De Suzete Bito a 23 de Janeiro de 2016 às 21:56
Então e estas personagens e estes textos que escreves no blog, integras depois num ou mais do que um futuro romance?

 
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