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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

08
Mai14

Meia-hora

Bruno Vieira Amaral

O filho dormia. Mariana tinha-lhe lido uma história. À cozinha chegava o som entrecortado da televisão. O marido tinha o hábito, que ela não apreciava, de ver televisão no quarto antes de dormir. Era a pior altura do dia. O momento em que fechava pela última vez a torneira do lava-loiça. Ainda faltava meia-hora. O tempo custava a passar. Às vezes não aguentava e tomava o comprimido. Noutros dias ia para o quarto do filho, sentava-se no escuro, só com a cintilação das estrelas coladas na parede. Escutava a respiração da criança. Tinha a ideia de que assim o tempo passava mais depressa. Não pensava em nada. Também era capaz de ir para a casa-de-banho, onde ficava sentada na tampa da sanita, com a luz acesa, o espelho, os frascos de perfume, tudo o que lhe oprimia o peito porque, sem que o soubesse explicar, experimentava uma sensação de artifício e mentira.

 

A última opção era ir para a cama. O marido beijava-a, perguntava-lhe se trouxera o comprimido. Ela mostrava-o, segurando-o entre o indicador e o polegar. Sorria. Pegava num livro. Demorava meia-hora a ler três páginas. Desde que tomava os comprimidos tinha algumas dificuldades de concentração. Não era só por causa dos medicamentos. Tudo o que lhe acontecera depois de deixar a comunidade – o casamento, o filho, aquilo – afectara as suas qualidades. Lembrava-se de quando era mais nova, criança, atenta e perspicaz. A primeira a responder às perguntas dos professores. Tinha sido há muito tempo. Antes da comunidade. Antes de tudo. Recordava-se de como era então, mas não existia um vínculo afectivo com a Mariana do passado. Estava demasiado afastada. Talvez a culpa fosse mesmo dos comprimidos. Provocavam um efeito de afastamento em relação aos outros. Já lhe acontecera olhar para uma criança e demorar um pouco até perceber que era o seu filho. Era rápido. Nunca se preocupou com isso. Sentia o mesmo quando olhava para fotografias dos pais. Sentia o mesmo quando pensava na rapariga esperta e viva que ficara para trás.

 

Os comprimidos. Às vezes tinha vontade de os deitar fora, fingir que os tomava. Mas depois tinha medo. Não sabia como iria reagir. E se tivesse uma crise? Lá na comunidade isso não a incomodava. Nunca pensou se estava a agir correctamente, nem nas consequências das suas acções. Quando tinha alguma dúvida, havia sempre alguém para a ajudar, para a tranquilizar. Essa certeza fazia com que os momentos de dúvida fossem passageiros. As coisas fluíam. Em casa era diferente. O marido ficaria muito desiludido se soubesse que ela não tomava os comprimidos. Mais do que desiludido, talvez a repreendesse. E tinham um casamento tão bom. Um filho tão lindo. Seria uma estupidez deitar tudo a perder por tão pouco. Então, tomava-os para não ter problemas, para não ter alegrias. Só tinha de aprender a lidar melhor com aquela meia-hora terrível em que parecia readquirir uma consciência aguda do mundo à sua volta, duas vezes mais sensível a tudo.

 

Na comunidade, lembrava-se bem, a hora que se seguia ao jantar era uma hora feliz. Naquele lugar, todas as horas tinham sido felizes, mas Mariana recordava com muito agrado aqueles momentos em particular. Talvez por isso ainda lhe fosse mais difícil suportar esta hora tão sombria. Lá, na casa grande protegida pelos pinheiros, era a hora da meditação. Juntavam-se em grupos de três ou quatro e, guiados por uma lanterna,
embrenhavam-se pelo bosque até encontrarem um local onde se pudessem sentar. Cada grupo tinha o seu ponto preferido. Ouvia-se ao longe o som da rebentação, a guitarra de um dos membros da comunidade, a voz jubilosa das raparigas. Era tão feliz, tão completa. A vida fazia sentido. A tristeza que deixara para trás era lixo, um tumor maligno. Estava rodeada de pessoas que a amavam, seus irmãos de coração, pessoas que não a julgavam, que não lhe faziam mal. Nessa altura não precisava dos comprimidos.

 

Naquele período feliz não tinha emprego, nem marido, nem filho. Era livre. Quando os pais a foram buscar disseram-lhe que não, mas ela sabia que sim. Era livre. Agora não. Era uma escrava da necessidade de combater a tristeza. A dor era tão forte. Não aguentava. Abria o móvel da cozinha e, de dentro de uma caixa de café, tirava uma lamela. Engolia um comprimido, punha a boca debaixo da torneira do lava-loiça e esquecia-se de tudo. Fazia-o por amor ao filho. Ele não tinha culpa. Se lhe dissessem que o bem-estar dele dependia de ela tomar os comprimidos até ao fim da vida estava disposta a fazê-lo. Conhecia o valor do sacrifício. Tinha sido na comunidade, com o homem, que aprendera que o amor pelos outros, o altruísmo puro, por vezes exige de nós pesados sacrifícios. Podemos nem sempre entender as razões mas não devemos questionar a sua necessidade. O que tiver de ter explicação, terá. Era assim que o homem falava. Mariana recordava-se de tudo. Estas palavras antigas consolavam-na, faziam-na aguentar os momentos em que não reconhecia nem o filho, nem o marido, nem a casa. Os momentos em que, por todas essas coisas que não reconhecia, era obrigada a repetir aquele gesto. Quando começava a sentir o efeito, a luz do quarto apagava-se. Mais calma, adormecida no esquecimento, Mariana lavava-se. De seguida, ia ao quarto do filho. Sentava-se aos pés da cama. Ouvia-lhe a respiração. Não sentia nada. Lembrava-se das noites em que o homem fazia o mesmo que ela estava a fazer agora. Ia até ao quarto dela. Sentava-se aos pés da cama. Ouvia-lhe a respiração. Nessa altura, Mariana ainda sentia tudo.

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