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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

25
Jul17

Os olhos azuis do tio Zé

Bruno Vieira Amaral

A alegria é um dom e a felicidade é uma arte. Não sei quem o disse, não me lembro onde terei lido a sentença, se é que a li e não a sonhei ou nela pensei a caminho da praia num dia ventoso, mas se nela acreditarmos, e é tão fácil, quase imperioso, acreditarmos em certos aforismos sedutores, é justo dizer-se que o meu tio Zé tinha o dom da alegria.

Não convivi com ele o suficiente para saber se dominava a arte da felicidade, mas a alegria, sempre mais espontânea e exuberante, detecta-se mais facilmente, enquanto a felicidade, tantas vezes secreta e subterrânea, exige uma sabedoria de vedor de águas, quer para a encontrarmos para nós, quer para a distinguirmos nos outros. Ora, a alegria do tio Zé era tão visível como um desses fenómenos que não deixam dúvidas quanto à sua natureza. Era, desde logo, uma alegria fisionómica, nas suas faces rubicundas, nos seus olhos que lembro azuis, onde até um ar grave adquiria uma certa leveza: nenhuma tristeza, e é impossível passarmos pela vida sem as experimentarmos, lhe terá afluído ao rosto ao ponto de o marcar para sempre.

Das últimas vezes que nos vimos (era meu tio-avô), o tio Zé chorava sempre, mas mesmo essas lágrimas, não sendo de alegria, como quem chora após uma conquista, eram de reconhecimento, bondade e satisfação. O meu caso não era único. No velório, alguém disse que o tio Zé tinha lágrima fácil, era um sentimental. Apesar de sinceras e ditas com a melhor das intenções, algo nestas palavras trai aquela que, para mim, era a essência de um homem, com quem, ao longo da minha vida, terei estado uma dúzia de vezes. Dito daquela forma, parece que o tio Zé era um incontinente lacrimal e chamar-lhe sentimental quando sabemos que o sentimentalismo mais não é do que a encenação do sentimento é um tanto condescendente. Pois acredito que as emoções imediatas do meu tio eram uma manifestação nobre de sentimentos reais e tão próximos quanto se pode estar da expressão física do sentimento sem se cair no sentimentalismo.

Penso e não encontro outra palavra: alegria. Porque limpadas as lágrimas, o tio Zé encaminhava-nos para a cozinha, promovendo um salutar convívio através da partilha dos prazeres da mesa com a comida por ele confeccionada que pouco tinha que ver com dotes culinários, com a sua reconhecida mão para a cozinha: era apenas a alegria de receber, os outros, e de dar, aos outros.

Após a morte da minha avó, a sua irmã mais velha, o tio Zé emocionava-se mais quando me via, como se se reencontrasse não só comigo mas com os mortos que eu lhe evocava. Essas emoções perpassavam naquele abraço forte, suado. São raras as pessoas a quem a nossa presença provoca tantas emoções, mesmo admitindo que se dirijam menos a nós, enquanto indivíduos, do que a tudo aquilo que representamos: a memória de uma irmã, de uma casa, de uma temporada em África.

Na minha infância, o meu tio Zé era aquela casa com uma figueira e um tanque, no fim da mesma rua na Beirã, concelho de Marvão, onde veio a morrer. O tio Zé teve uma morte fulminante de que logo soubemos os pormenores numa dessas narrativas de exorcismo da dor que pontuam os velórios: estava na horta, nas traseiras da casa, a sachar as batatas, e a mulher disse-lhe que viesse para dentro, ao que ele respondeu que ia ficar ainda mais um pouco. Minutos depois, o dono do café em frente da casa viu-o caído no chão e correu para avisar a minha tia. Estava morto.

Creio que a sua morte, cruel para a família, está de acordo com a imagem que dele guardamos pois é-me impossível imaginar aquele homem vital a definhar numa cama ou a morrer aos poucos até que a alegria se esvaísse do seu rosto solar, dos seus lindos olhos que recordo, ainda que não tenha a certeza que fossem, azuis.

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