"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
3.12.15

«Há quem seja tocado pela nostalgia apenas ao revisitar velhas fotografias de família, onde se constata que a morte, afinal, estivera desde sempre entre nós, ou os objectos sentimentais que nos recordam um tempo, uma pessoa, uma união. Porém, para mim o tempo reflui ao lembrar-me do armário mural (“de construção em aço inox com uma prateleira intermédia, fechado com portas de correr”) que me custou 600 euros e que vendi por 150 a um tipo que vivia destes negócios de ocasião e que me pagou em notas contadas com modos rapaces de negociante de feira, desapartando-as com um dedo sujo humedecido de saliva. Era acompanhado por um rapaz corpulento. Estacionaram a carrinha à porta do café. Desmontaram e carregaram o material com a ausência de sentimentos dos cangalheiros, e na lembrança do momento em que saíram vejo que o brilho final desse armário arde em mim com o fulgor das paixões humanas. Sinto o mesmo pelo frigorífico (“frigorífico misto branco com congelador e refrigerador”) que vendi à D. Laura, eterna vizinha da minha mãe. De todos os objectos daquele tempo, só não consegui vender uma caixa registadora. As banquetas que sobraram, ofereci-as ao Gouveia para decorar uns apartamentos que ele, sempre com um olho nos negócios, planeava arrendar a turistas. Uma ficou lá por casa e, de vez em quando, o meu filho usava-a como cavalo imaginário. A registadora permanece a um canto do quarto da minha adolescência, em cima de um pequeno móvel, em casa da minha mãe. Há pouco, reencontrei um dossiê com os despojos do meu fracasso: facturas, ementas, guias de remessa, fotocópias de cheques, talões bancários, folhas com o “recebi” e a rubrica do Dr. Nunes da Rocha. Pergunto-me se este memorial imprevisto terá alguma utilidade. A arrumação pode ser uma forma delicada de esquecimento. E, no entanto, as coisas estão ali. Vivas. Regresso a elas como um arqueólogo que já conhece a história. Nada é apenas plausível, hipotético. Aconteceu. Servem como prova os nomes das empresas, dos fornecedores, das ruas onde estacionei o carro, as salas onde fechei negócios, as datas em que autorizei, com a minha assinatura, que a desgraça se materializasse. Só depois desses factos duros regressam as impressões indocumentadas: um cão majestoso, a astúcia tranquila do Gouveia, um papagaio sonolento, o rasto efémero do capote esvoaçante do Toureiro, a memória imaginada de um tigre a passear-se num chão de ladrilhos, o corpo fantasmagórico de Magda e o amor que eu ainda sentia por ela desvanecendo-se em simultâneo ao ritmo de canções melancólicas que ela detestava e das palavras cruas que aprendera a recitar.»

 

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Excerto de Para Mal dos Meus Pecados, publicado na Granta nº 5

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:22  comentar

 
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