Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

31
Jul17

A fé intelectualizada em Silêncio

Bruno Vieira Amaral

Mais do que a questão de se saber se o Cristianismo poderia prosperar no terreno pantanoso do Japão ou se, prosperando, ainda seria o mesmo Cristianismo ou, ao invés, uma versão de tal forma adulterada e niponizada que já nem poderia ser considerada a mesma religião, o verdadeiro confronto no livro (e no filme) é entre a fé intelectualizada dos padres (nomeadamente de Sebastião Rodrigues) e a fé simples, porém avassaladora, dos crentes japoneses. Para Rodrigues, fé e apostasia são conceitos teóricos. Para os Kirishitan, são experiências. Por isso, a apostasia de Rodrigues é mais expectável e natural do que a apostasia dos camponeses. Ele está mais próximo da visão dos inquisidores que lhes dizem que aquilo não passa de uma formalidade. Ora, aqueles para quem a fé é algo que se manifesta totalmente nos rituais, não há diferença entre a renúncia formal e a renúncia genuína, de coração. Só para aqueles que separam os conceitos – e Rodrigues é um deles – o pisar de uma imagem de Cristo pode ser diferente de pisar o próprio Cristo. Aos camponeses, que tinham sido introduzidos em mistérios como os da transubstanciação, não se lhes podia simplesmente exigir que esvaziassem o acto de pisar o fumi-ye da substância divina da imagem. O corpo de Cristo tanto está na hóstia como no objecto que devem pisar.

A dissonância entre Rodrigues e os japoneses expressa-se de forma mais integral na cena em que, encarcerados, falam sobre o paraíso. Rodrigues faz um esforço para se adaptar à literalidade dos crentes para quem o paraíso não é uma ideia, uma aspiração vaga, é uma realidade imediata que os espera. A única forma que Rodrigues tem de suportar o seu martírio é o de, uma vez mais, o intelectualizar, vendo, neste caso, o seu sofrimento à luz do calvário de Cristo. Esse orgulho e essa vaidade não passam despercebidos aos inquisidores dos quais, na verdade, Rodrigues está bem mais próximo do que dos camponeses. Rodrigues é levado às portas do martírio não pelo despojamento e pela humildade, mas pelo orgulho, pela racionalização. E é precisamente por esse motivo que fica à porta do martírio incapaz de dar o salto (ou mergulho, como no caso de Garupe) de fé.

silence-garfield-scorsese.jpg

 

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D