"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
21.2.17

O primeiro indiano que conheci estava a dormir. O segundo também. Isto é mentira ou, melhor dizendo, é parcialmente verdade. O primeiro indiano que conheci foi o do serviço de estrangeiros e fronteiras no aeroporto de Mumbai, pelo que hesito entre considerá-lo indiano ou burocrata diligente, embora um tanto ensonado. A burocracia, apercebo-me quando viajo, não tem nação. É um conjunto universal de esgares, suspeitas e carimbos contrariados. O funcionário não me fez perguntas, pediu-me apenas para olhar para a câmara e pôr todos os dedos, à excepção do polegar, num aparelho. Agora sei que as minhas impressões digitais estão registadas e armazenadas numa gigantesca base de dados, pacientemente à espera do dia em que eu cometa um crime de alcance internacional.

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Recolhi a minha bagagem. Já passava das quatro da manhã, embora o movimento de carros e pessoas fosse frenético. Lá fora, encontrei Arun, motorista que segurava uma folha A4 com o meu nome e o logótipo do festival literário de Hyderabad. Fomos para o carro e perguntei-lhe quanto tempo era a viagem até ao hotel. Abanou a cabeça e não me respondeu, o que, em linguagem corporal local, significa entre 45 minutos e uma hora. No trajecto, Arun conduziu essencialmente com a buzina e os máximos. Não cheguei a perceber se conduzia pela esquerda e ultrapassava pela direita ou vice-versa. Era conforme. A única certeza é que, pelo menos àquela hora, os sinais vermelhos são facultativos. Arun passou vários sem qualquer comoção, sem aquela espécie de deliberação exasperada que exibimos quando passamos um sinal que acabou de ficar vermelho. Na verdade, ele passava os sinais vermelhos como se nem estivessem lá. Talvez eu é que não estivesse a ver bem as coisas. Nos dias seguintes, no meio do incessante trânsito caótico de Hyderabad – com rickshaws, motorizadas, SUV, autocarros obsoletos, carrinhas de transporte de mercadorias e peões aparentemente suicidas – perguntei-me se aquelas pessoas estariam mesmo a dirigir-se para algum lado – como quando alguém apanha o 732 porque quer ir para o Hospital de Santa Maria – ou se estariam apenas a circular até encontrarem um sítio onde lhes apetecesse ir ou onde percebessem que tinham alguma coisa para fazer.

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 Finalmente, perto das cinco da manhã, chegámos ao Plaza Hotel. O sossego era absoluto. A recepção estava praticamente às escuras. Reclinado na cadeira, um jovem dormia. Quando falei, deu um salto, limpou a boca, sorriu e foi chamar alguém lá dentro. Do interior de uma sala, veio um rapaz de cabelo desgrenhado, olhos de sono e que tratou logo de procurar o meu nome na lista do festival quando lhe disse que era um dos convidados. Após uma pesquisa infrutífera, encontrámos uma segunda lista na qual constava o meu nome. Tirou uma cópia do meu passaporte e lá fui eu para o quarto no sétimo andar. O hotel, percebi nos dias seguintes, era um bloco de cimento com humidade nas paredes e a atmosfera geral não de um lugar de lazer mas de uma sinistra colónia de férias para funcionários públicos. Os empregados pareciam ter todos entrado há pouco tempo ao serviço, como se o hotel estivesse apenas a funcionar para nos receber e fosse desactivado logo a seguir, reaproveitado para instalações do ministério da educação ou de um instituto de prevenção rodoviária. Nos dias que ali passei, a piscina só foi frequentada por pombos, que caminhavam cautelosamente à volta como se estudassem uma forma de a atravessar a nado, e por um indiano gordo (a propósito, saiu uma notícia num jornal local que indicava que as crianças de Hyderabad eram as mais obesas do país) que, no domingo de manhã, deu umas braçadas complexas, num esforço testemunhado pela mulher e um casal amigo.

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Na quinta-feira de manhã, após pouco mais de quatro horas de sono, tive o meu primeiro embate com a gastronomia indiana em condições que me eram francamente desfavoráveis: encontrava-me em desvantagem numérica e linguística, estava com jet-lag e, para não ofender ninguém, tinha decidido que teria de comer tudo aquilo que pusesse no prato. Cheguei pouco antes das dez e meia, hora a que acabava o pequeno-almoço, facto que me foi lembrado com autoritarismo pelo primeiro empregado com que me cruzei. Apressei-me a recolher alguma comida, não só fatias de pão branco, um ovo cozido e fruta fresca, mas também algo que, pelo aspecto, devia ser altamente nutritivo, mas que se revelou apenas insuportavelmente picante. Com um inequívoco ar de sofrimento que tentei transformar num ricto de dignidade, pedi ao empregado uma chávena de café. Olhou para o relógio e desapareceu por umas portas de saloon. Naquele momento, eu tentava negociar com o sabor inédito que me queimava a língua, o interior das bochechas, o esófago, fazendo-me derramar umas lágrimas breves de comoção pela dor que tinha de sofrer em silêncio. É indescritível a alegria que de mim se apoderou quando o empregado me trouxe uma chávena de um péssimo café que, pelo simples facto de ser café, me devolveu ao prado refrescante dos sabores familiares e me fez regressar mentalmente a esses lugares costumeiros em que me sinto em casa: uma pousada numa aldeia histórica, o adro de uma igreja na província, os barcos da Soflusa.

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Depois de me cruzar com um sujeito que carregava às costas um equipamento de desinfestação, cheguei ao quarto com a sensação de alívio de um pugilista amador que sobreviveu ao primeiro assalto contra o campeão do mundo de pesos-pesados. O almoço, apesar de todos os meus cuidados, não correu muito melhor, mesmo tendo levado para a refrega um litro de água mineral. Às três estava marcada uma visita guiada pela cidade. O nosso grupo era composto na sua maioria por escritores filipinos – o país convidado da oitava edição do festival – um dos quais exibia um rabo-de-cavalo que lhe dava o ar distinto de organizador de lutas clandestinas de cães na cidade de Manila. Programada pelo festival, a visita teve como guia um senhor ainda não vencido pelos anos que gritava bastante e era estranhamente parecido com Boutros Boutros-Ghali, o antigo secretário-geral das Nações Unidas. De vez em quando interrompia o discurso, não sei se para recuperar o fôlego ou se para se mostrar indignado por ninguém lhe estar a prestar muita atenção. Após quase uma hora de viagem, chegámos ao destino, não muito longe do Charminar, o ex-libris da cidade. Para começar, visitámos o Palácio de Chowmahalla, residência do último nizam de Hyderabad (até depois da independência, Hyderabad foi um principado governado pelos nizams). Eram muitas as famílias que se passeavam pelos magníficos jardins e pelas salas dos edifícios onde pudemos contemplar porcelanas dos séculos XVII e XVIII vindas de Inglaterra, da China e dos Países Baixos, uma colecção impressionante de armas brancas – adagas, cimitarras, espadas, punhais, cutelos, floretes – e retratos não muito favoráveis das várias gerações de nizams. No exterior, protegidos por um vidro de segurança, vimos os veículos de luxo que tinham servido os monarcas, incluindo um Rolls Royce Silver Ghost, de 1912, que segundo o guia não teria feito mais de 400 quilómetros, pois só tinha sido usado em ocasiões muito especiais. De todos os espaços, o Durbar Hall, local da coroação dos nizams, era o mais imponente, com as suas colunas de mármore e os 19 candelabros de cristal belga pendentes do tecto.

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link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 16:55  comentar

 
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