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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

16
Jul18

Como arde o corpo de um inocente

Bruno Vieira Amaral

Aconteceu há muito tempo, mas lembro-me bem porque foi no dia do meu décimo-segundo aniversário e nos nossos aniversários, no meu e no dos meus irmãos, os pais levavam-nos sempre em passeio, fazíamos um piquenique nas redondezas, julgo que em sítios que o pai conhecia desde criança e que tinham nomes como Sweetwater Creek, Woods Valley ou Basket Creek e outros assim, e ele costumava contar uma história que se passara naquele lugar, às vezes coisas que lhe tinham acontecido, parvoíces a que só os meus irmãos achavam graça, coisas de rapazes, com fisgas e armadilhas e correrias, e ele, ao ver que eu não sorria, beliscava-me a bochecha e dizia-me: “ri-te lá, parvinha”, e eu ria-me contrariada e depois com gosto e um pouco zangada comigo mesma porque o truque resultava sempre; noutras vezes, contava histórias que tinha ouvido, e punha uma cara séria e tremenda de contador de histórias, e eu sabia logo que era patranha, os meus irmãos é que não, mas escutávamos todos em silêncio porque eram histórias de meter medo, violentas e assustadoras, e ouvir o pai a falar sobre homens degolados por bandos de salteadores ou de crianças raptadas de que só se encontrara uma peça de roupa ou um boneco dias depois enchia-nos de medo e reconfortava-nos porque enquanto o pai nos contasse aquelas histórias nenhum mal nos aconteceria; a mãe é que não gostava nada e se às vezes só o censurava com o olhar ou com uma palmadinha na coxa enquanto nos espiava pelo retrovisor, quando, no seu entender, ele ultrapassava certos limites – como quando o pai contou o caso da filha dos Carson, e nem sequer sabíamos quem eram os Carson porque nunca os tínhamos visto e eu, pelo menos, nunca conheci ninguém dessa família, mas senti muita pena e chorei muitas lágrimas por esses infelizes que talvez nem existissem por causa do que o meu pai dizia que tinham feito à filhinha deles – falava com rispidez, “queres parar com isso de uma vez por todas?”, como nunca falava com o pai nem com ninguém, e ele, como também não era da sua índole, calava-se, “bem, meninos, já sabem tudo o que há para saber”, e nem os pedidos histéricos dos meus irmãos para que continuasse o demoviam; eu também queria que ele contasse mais, mas não me atrevia a pedir, porque não queria parecer infantil e ainda era porque lembro-me bem que tinha vergonha dos meus pensamentos e dos meus desejos, não que na altura os soubesse distinguir, todo o meu conhecimento era o da escola dominical e das lições da mãe, “se duvidas que é pecado é porque é pecado”, pois os pensamentos inocentes são “límpidos como as águas de um regato e turvas são as águas da dúvida e do pecado”, isto dizia o reverendo Cranford, e a mãe, por hábito e profilaxia, repetia-lhe as palavras, ao que o meu pai sorria porque temia a Deus, mas achava vãs as palavras dos homens, mesmo as de homens tão bons e piedosos como o reverendo Cranford.

Naquele dia, já tínhamos acabado o piquenique e cantado os parabéns, regressávamos a casa por uma daquelas estradas que só o pai parecia conhecer, pois nunca nos cruzávamos com ninguém, quando o carro parou e, apesar dos esforços do pai para remediar a situação, ele que gostava de passar horas de volta do capot aberto e sujar as mãos de óleo mesmo que de mecânica nada soubesse, não voltou a andar, “tenho de ir à estação de serviço”, a sete milhas de distância, eu era para ficar lá com a minha mãe e os meus irmãos, mas recusei-me, disse “vou com o pai” e assim partimos os dois, estrada fora, ele a distrair-me com canções e adivinhas, “a Sally tem duas no mesmo sítio…”, e eu, “essa é velha, a letra L”, até que após uma hora de caminho vimos muitos carros parados à beira da estrada, e deles saíam famílias inteiras, famílias inteiras caminhavam bosque adentro, para lá das árvores, e, curiosos, fomos atrás delas, atrás da grande multidão a cada passo maior, eu a segurar a mão do meu pai, a andar como que hipnotizado, sem reagir aos empurrões de mulheres e adolescentes, rapazes e raparigas pouco mais velhos que eu à procura do melhor sítio para ver aquilo que ia acontecer, “o que se passa aqui?”, perguntou ele a três pessoas que o olharam como se fosse louco e não carecesse de resposta, até que, sentado num toco, vimos um velho a rasgar as páginas de um livro antigo, tranquilo como se já lá estivesse antes da chegada da multidão e por ali fosse continuar depois da debandada, e foi ele que nos disse que tinham vindo para queimar o monstro, e então vimos homens com latas de querosene e tochas e tábuas e estacas e galhos e restos de postes a abrir caminho, afoitos como se voltassem de uma jornada de trabalho, e atrás deles vinham outros a arrastar um homem vendado, um negro, que logo acorrentaram ao tronco de um pinheiro numa clareira e, aos urros da gente que assistia, arrancaram-lhe as roupas, camisa e calças, sapatos não tinha, e à volta das partes íntimas enrolaram-lhe um pano e aos pés dele amontoaram as tábuas e estacas e galhos e restos de postes, e os miúdos, incitados pelos mais velhos, cuspiram-lhe na cara, esmurraram-no, deram-lhe bofetadas, atiraram-lhe pedras e injuriaram-no. Eu mal o conseguia distinguir por entre as fileiras de corpos, mas ao longe não me parecia a besta de que fala a Bíblia, nem monstro nenhum, apenas um rapaz amedrontado, um anjo negro, com o rosto cheio de lágrimas e sem chorar.

Como que ao som da trombeta invisível de um dos anjos da Revelação todas as vozes se calaram e daquele silêncio universal e maligno emergiu um homem grande como um rochedo que tirou do bolso uma navalha e abriu-a e chegou-a ao rosto do negro que só então acordou do estupor em que até aí se encontrava e, olhando em volta e não vendo misericórdia nem compaixão, pediu que fizessem o que tinham de fazer, que fossem rápidos na vingança e jurou a sua inocência e afirmou que, por ser inocente, não temia a morte e que bem depressa entraria no Reino dos Céus onde poderia louvar o Senhor pela eternidade, ao que alguém gritou “blasfémia!” e o homem que segurava a navalha, movido pelo grito de acusação, cortou-lhe as duas orelhas e mostrou-as à turba, que rugiu como uma besta que se erguesse do abismo, e logo sobre o negro se precipitaram homens enfurecidos e ávidos e seguraram-lhe os braços enquanto lhe decepavam os dedos de cada mão e de cada pé, e o sangue das feridas escorria pelo corpo do negro e manchava as roupas deles e dos seus filhos, então retiraram-lhe o pano que lhe cobria as partes íntimas e o homem que lhe cortara as orelhas golpeou as suas coxas e o meu pai virou-me para trás para que eu não visse mais nada pelo que só ouvi os gritos de pavor do negro e tudo o que testemunhei foram as centenas de rostos deformados pelo prazer mórbido do sangue, todos os rostos, até os das crianças, que os pais seguravam pelos ombros para que assistissem a cada segundo da agonia do monstro, participavam dessa felicidade bestial e eu e o meu pai já nos afastávamos, temendo por nós, quando ouvi a voz de um homem a pedir que não despejassem querosene a mais para que o negro não ardesse “como um fósforo”, como um fósforo foi o que disse, como se já tivesse visto mil vezes o corpo de um homem a arder, “queimem o preto e espalhem as cinzas ao vento para que não ressuscite no dia do Juízo Final!”, ouvi uma mulher dizer, uma senhora tão devota quanto a minha mãe, e enquanto o meu pai me levava pela mão para longe daquele pesadelo, para longe daquela visão de fogo e sangue, pude ainda olhar para trás, como a mulher de Loth, e ver o momento em que as chamas lhe lamberam as pernas, e ouvir o desgraçado anjo a gritar “Deus do céu!” e era como se os seus lábios libertassem nem injúrias nem impropérios, mas o mais doce dos salmos, num protesto pela sua inocência e com a promessa de contar as maravilhas do Senhor mesmo após a morte e, naquele segundo, nunca mais pude esquecer, vi do seu flanco em chamas uma pomba a desprender-se e a levantar voo, subindo, subindo e subindo até não ser mais que um rasto de fumo nos céus.

Quando despertei, vi o azul do céu e o ocre da ladeira e o verde da erva agitada pelo vento, a boca sabia-me a ferro e a sangue, com a língua tacteei as pedrinhas que a preenchiam e ia para tossir quando senti a dor como se uma lâmina de aço me rasgasse a carne e me quebrasse as costelas e me roubasse o ar, virei a cabeça para o lado em busca de repouso e através das ervas vi o fumo e, em baixo, as chamas e, para lá das chamas, um pequeno corpo debruçado na janela do nosso carro e então fechei os olhos e veio até mim um anjo negro de asas flamejantes que me disse com a sua voz de cítaras e de lágrimas e de sal que Deus permitira que da minha casa só eu sobrevivesse para dar testemunho destas coisas que vi e sonhei.

24
Mai18

Rentes de Carvalho e a ética da raiva

Bruno Vieira Amaral

Texto lido na sessão de homenagem da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia ao escritor J. Rentes de Carvalho

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“Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. E encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo assim como as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da casa do meu Pai uma casa de negócio.»” Haverá quem, do Jesus Cristo retratado pelos evangelistas, prefira o orador cativante do Sermão da Montanha, o semi-deus capaz de trazer os mortos de volta à vida ou de transformar a água em vinho ou o homem que enfrenta com serenidade sobre-humana os seus algozes e recomenda a Pedro que embainhe a espada pois aquele que tomar a espada, na espada morrerá. A mim, não me fascina menos o menino de doze anos a argumentar com os sábios no templo, o defensor de prostitutas e desvalidos e até o Jesus que, em criança, segundo um evangelho apócrifo, fazia pombas de barro que, ao bater das suas palmas, ganhavam vida e voavam. Porém, nenhum Jesus me parece tão real e tão humano como o da passagem que comecei por ler. Aquele Jesus, capaz de indignação e fúria, é um homem sujeito às paixões e aos humores humanos.

Aos que, aqui presentes, já se perguntam se estarão no lugar certo, se não terei trocado o panegírico pela homilia e que terá Nosso Senhor Jesus Cristo que ver com o cidadão que viemos aqui homenagear, recomendo a leitura da última crónica do livro Mazagran. Intitulada “Para Deus”, termina assim: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade.” Ao contrário da oração que Jesus ensinou aos homens e que os cristãos devotos têm repetido nos últimos dois mil anos, Rentes de Carvalho não pede a Deus o pão nosso de cada dia, o perdão das dívidas, nem que nos livrai do mal. Pede a Deus que lhe dê raivas. Pede a Deus que mantenha viva a capacidade de se enfurecer. Pressinto que o Jesus da preferência do escritor, se é que tem algum, seja o que fez um chicote de cordas e, furioso, expulsou os vendilhões do templo.

É verdade que desde que conheço Rentes de Carvalho, faz agora sete anos, nunca o vi virar do avesso nenhum templo, nem sequer uma biblioteca, templo dos homens de letras, embora já tenha sido testemunha de algumas fúrias logo devidamente aplacadas com uma posta mirandesa ou uns deliciosos camarões al ajillo saboreados na cervejaria Ribadouro, templo da sua breve juventude lisboeta. Indignações e perplexidades, testemunhei várias: com companheiros de ofício que não entende, pasmado perante leitores que o não entendem, envergonhado perante jornalistas que o não leram e perplexo perante mim que, graças aos caprichos da fortuna, o conduzi várias vezes entre Lisboa e Estevais, viagens onde, por mais de uma ocasião, terei dado mostras de inapelável ignorância. No final, são e salvo na aldeia dos seus antepassados, o bom humor recuperado, lá nos despedíamos com afecto, o que me recordava uma das máximas da sabedoria popular a que nunca deixei de dar crédito: mau feitio, bom carácter.

O mau feitio tê-lo-á herdado do pai, homem de repentes que, no fim do jantar, atirava punhadas e rosnava ameaças, e da avó intempestiva que, numa daquelas horas que dizem do diabo e são bem dos homens, pisou aos gritos o corpo da filha. Porém, talvez o mau génio possa também ser um dom cuja renovação se pede a Deus em crónica literária. “Torna-me sábio”, pedia o salmista. “Dai-me raivas”, pede o escritor. A raiva que pede é de natureza diferente da cólera que nasce da frustração ou da fúria que emerge, sem hora e sem sentido, das mais negras profundezas da alma. A raiva que pede é o cordão tenso e vital que o liga ao mundo, que o mantém vivo. O contrário de estar vivo não é estar morto. É viver sem raivas.

Raiva foi o combustível do livro que o celebrizou na Holanda, o país que o acolheu. Com os Holandeses não é uma agradável crónica de costumes, o elogio de um povo perfeito e de uma sociedade idílica, o agradecimento curvado de um imigrante escrito com a humildade cabisbaixa de que sofre o português, sobretudo quando fora do rectângulo do seu conforto e da sua miséria. O país ali desenhado é a antítese da aguarela pastoril pintada por Ramalho Ortigão, que não quis ver além da superfície de moinhos e tulipas. Rentes de Carvalho atreveu-se a olhar para os holandeses como seus iguais para, assim, de cabeça levantada e olhos nos olhos, escandalizar com a lista de defeitos - desde os hábitos inofensivos à avareza, a um certo desinteresse pelos prazeres e, ao contrário da mentalidade que “tanto gosta de apregoar igualdades e fraternidades”, à indiferença pela sorte dos outros – sem deixar de apontar as virtudes. O que a uns terá parecido arrogância, injustificada para mais num imigrante vindo de um país pobre do Sul, naquela altura amordaçado por uma ditadura de décadas, era apenas a rejeição da humildade doentia, da subserviência atávica e dos complexos de inferioridade incapacitantes que nunca foram nem poderão ser os materiais com que se constrói uma relação digna entre seres humanos.

Se o livro tem na raiva o combustível, nunca se transforma numa peça de ódio, num acto de ressentimento. Como escreveu o autor, “não é queixume ou libelo acusatório, antes uma tentativa de compreensão.” O Outro – essa ficção mansa que serve para apaziguar tantas consciências – é aqui, como em toda a obra de Rentes de Carvalho, alguém com quem se convive e contra quem se combate. Rentes de Carvalho não lhe vira a cara, mas também não lhe oferece a condescendência das “aceitações que crescem com a idade.” Investe contra ele, ataca-o e, dessa forma, honra-o porque se honra mais o outro no confronto aberto do que na indulgência que, furtivamente, insulta, amesquinha, ridiculariza.

A lenga-lenga benemérita do Outro tornou-se um depósito de boas intenções da literatura: escritores que escrevem para alcançar o outro e para que os leitores aceitem o outro acabam por criar um caldo pastoso e morno de tolerância que se compraz numa abstracção do outro, sempre fascinante, enquanto se esforça por não ver o outro concreto, tantas vezes repulsivo. Esse outro é uma criação aberrante, todo feito de qualidades artificiais, sem defeitos e sem vida. Para Rentes de Carvalho, a tolerância implícita na criação dessa ficção de alteridade é uma forma de indiferença, uma expressão de superioridade cultural transformada em virtude. A célebre tolerância holandesa é, na verdade, um sentimento misto de superioridade e de indiferença, de uma superioridade que se funda precisamente na indiferença. Quando pede que Deus lhe dê raivas, o que Rentes de Carvalho pede é não ser contaminado pela tolerância que reduz o outro a uma ficção da nossa imaginação, a um títere na nossa farsa humanitária. A raiva suplicada não é cegueira, é, ao invés, o discernimento de se escrever, como diz o autor, ao nível da pele, do sensível. A raiva é essa capacidade de sentir um incómodo físico pela injustiça, pela hipocrisia, pela condescendência alheia. Não é a raiva do impropério cobarde ou a raiva inócua de que falava Miguel Torga quando se referia aos portugueses como uma “comunidade pacífica de revoltados.” Pressente-se na escrita de Rentes de Carvalho que ele sabe que o primeiro passo para nos reconciliarmos com o mundo e com os outros é declarar-lhes guerra.

A prova de que esta raiva não é apenas uma variante literária da popular resmunguice, de que é séria e produtiva, de que se inscreve sobre um fundo ético, é a possibilidade de a virarmos contra nós e os nossos. E a raiva de Rentes de Carvalho nunca é tão justa, tão acutilante, tão necessária, como quando a vira contra os seus. Diga-se em louvor do homenageado que nos seus livros não tem feito outra coisa, quer nas obras de ficção, quer nos diários, crónicas e reportagens, como Portugal, a Flor e a Foice. Nesse livro escrito no pico da febre revolucionária, na época em que todos ostentavam cravos e se declaravam, no mínimo, socialistas, em que os defensores do Antigo Regime desapareceram como que por magia e até os jovens monárquicos se afirmavam revolucionários, já Rentes de Carvalho expunha as falhas da nossa democracia que hoje todos reconhecemos. Mas hoje é fácil. Naquela época, havia um preço pessoal a pagar por quem se atrevia a desafiar com a voz do pessimismo os trinados optimistas dos amanhãs que cantam, para quem ousava destoar do coro esmagador, unânime e burro das grândolas. Apesar disso, honra lhe seja feita, Rentes de Carvalho nunca recuou.

Há uns meses, um leitor muito preocupado com as declarações polémicas de Rentes de Carvalho sobre as eleições holandesas e sabendo que eu o defendera, perguntou-me, já em desespero de causa, se eu não achava que teria sido melhor ele não dizer nada para, ao menos, não perder leitores. Pobre homem, não saberá ele que, quando alguns se prostram e rebolam para os conquistar, perder leitores é coroa de glória? Durante décadas, Rentes de Carvalho viveu como um desconhecido para os seus compatriotas. Quando, nos últimos anos e para benefício de todos nós, isso mudou, nunca se viu nele o revanchismo daqueles a quem bálsamo do reconhecimento tardio não alivia as chagas dos agravos pretéritos, embora certamente não lhe tenha escapado, porque poucas são as coisas importantes que lhe escapam, a ironia de ver uma obra como O Rebate, tão castigada aquando da primeira publicação, ser considerada agora uma obra-prima. Mas a gratidão não pode ser uma mordaça perfumada. O apreço dos leitores não pode ser o punhal traiçoeiro que docemente se crava nas suas costas. Se deve servir para alguma coisa é para reforçar a liberdade do escritor e não para o agrilhoar.

“Não devo nada aos leitores”, declarou, e esse nada sabemos bem o que significa. O escritor não deve obediência aos seus leitores e, graças aos deuses e à segurança social holandesa, Rentes de Carvalho não depende da bondade alheia nem da generosidade dos leitores para viver os seus últimos anos em total liberdade de espírito, com as raivas que Deus tenha a misericórdia de lhe conceder. Seria de uma trágica ironia que um homem que durante décadas viveu à margem dos seus contemporâneos visse agora a sua liberdade cerceada pelo apreço destes, pelas exigências dos que súbita e tardiamente, como é o meu caso, se tornaram devotos dos seus livros. Ao autor a liberdade de escrever o que quer, aos leitores a liberdade de lerem o que bem lhes aprouver e que Deus dê raivas a todos para que possam enfrentar o mundo.

O mundo. Escreve Rentes de Carvalho que Deus criou o mundo numa tarde quente de Maio de 1930, aqui bem perto de onde nos encontramos. Nesse mundo maravilhoso visto do Monte dos Judeus por uma criança de binóculo, o mundo do palácio do bispo e da sé, dos arvoredos do Palácio de Cristal e dos telhados dos armazéns de vinho, dos cargueiros gigantescos na barra e dos homens da estiva à cabeça, neste mundo colorido e confuso, terno e trágico Rentes de Carvalho provou pela primeira vez o sabor amargo da humilhação e aprendeu a lição, nem sempre colhida a tempo, de que o mundo é o lugar dos que nos amam, mas também daqueles que nos ferem, dos que nos aplaudem, mas também daqueles que nos humilham, e que muitas vezes são os mesmos. “A humilhação. Deve ser um dos grandes motores da História. Deve ser o que mais se lembra para a história de cada um. Os pais que se tiveram e os castigos que nos infligiram, as simples pugnas com os camaradas e em que se ficou por baixo.” Isto escreveu um escritor que pouco agrada ao nosso homenageado. Mas é verdade o que escreveu. A humilhação é um dos grandes motores da História, da história de cada um. Não era a humilhação de, estrangeiro e pobre, ouvir os insultos dos holandeses que o levava a chegar a casa à noite e sentar-se a descrevê-los, “anotando os gestos, as palavras, os nomes”? Terá percebido que o animava o mesmo espírito de antagonismo que dele se apoderou no momento da primeira humilhação?

Naquele tempo em que o mundo tinha nascido havia pouco, o pequeno José Avelino entretinha os camaradas com histórias mirabolantes, em que aos guiões dos filmes vistos no cinema acrescentava as voltas da sua imaginação, com viagens de submarino até terras de África, aventuras no Amazonas, episódios de gelar o sangue no castelo do Drácula. Até que um dia, após conluio infantil, os outros miúdos, com a maldade que, na infância, se desculpa com a inocência e que, por isso, nunca mais é tão pura, desfizeram a fantasia do grande contador de histórias e atiraram-lhe à cara a palavra mais dura, dividindo correcta e acintosamente as sílabas, como numa cantilena cruel: al-dra-bão. A humilhação sofrida, por ele, que já intuíra que contar histórias não é o mesmo que mentir, levou-o a declarar uma guerra ao mundo que, de certo modo, ainda hoje continua a travar. Assim, graças ao insulto dos seus involuntários criadores, nasceu um escritor. Se temos de agradecer ao avô José Maria o ter-lhe ensinado as primeiras letras, àqueles companheiros de infância, cujos nomes a história apagou, temos de lhes agradecer um carácter: o de um homem que, já entrado em anos, ainda pede a Deus que lhe dê as raivas para poder combater o mundo e, através da escrita, chegar ao lugar onde se ajustam as contas e se vingam as humilhações.

Vila Nova de Gaia, 18 de Maio de 2018

04
Mai18

A minha curiosa carreira de futebolista

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ - Julho/Agosto 2017

Agora que os jogadores de futebol que têm a minha idade são apenas a reserva moral dos seus clubes ou há muito se dedicaram ao futebol de praia e à restauração, resolvi fazer um balanço da minha carreira enquanto futebolista. Foi uma carreira modestíssima. Os palcos onde exibi o meu escasso talento foram recreios de escola, campos improvisados em baldios, o pedaço de relva em frente ao meu prédio, o Arregaça e qualquer um desses lugares dos subúrbios onde se pudesse fazer um rectângulo de jogo e inventar balizas com recurso a pedras, árvores ou postes.

Fui guarda-redes e, por brincadeira, chamavam-me Manuel Xadrez, numa homenagem ao príncipe das balizas que era Vítor Damas. Mais tarde, quando os confrontos entre Mozer e Fernando Couto eram o ponto alto dos clássicos, joguei a central, varrendo todo o meu raio de ação com entradas que, em relva, já seriam temerárias, mas que, no alcatrão, tinham algo de suicida. Até que, numa fase tardia desta minha carreira esquecida, me fixei como ponta-de-lança. Aí especializei-me na arte da estocada final, com frequência desvalorizada porque o avançado “só tem de encostar a bola para o fundo das redes.” Como se isso fosse fácil.

Antes de escapelizar glórias da minha vida enquanto artilheiro, devo reconhecer que, a ter tido algum futuro no futebol, é bem provável que o meu destino tivesse sido a baliza. Durante não mais de duas épocas, no final da década de 70, o meu pai tinha defendido com algum engenho a baliza dos juniores do Barreirense. Ainda hoje, quando encontro alguém desses tempos, é normal falarem-me dessas proezas menores como se eu próprio as tivesse testemunhado. O certo é que eu tinha jeito para a baliza, como comprovam as comemorações dos meus colegas do 8º ano numa tarde em que, graças às minhas defesas impossíveis, jogámos várias horas ao roda-bota-fora sem sairmos.

Mas há nos festejos à volta de um guarda-redes, como quando defende um penálti, por exemplo, ou faz uma defesa extraordinária no último minuto, algo que está mais próximo da agonia do que da alegria. Se há alegria, esta é uma alegria pesada e, diria, quase triste, cheia de feridas e contusões, que sobe à garganta em urros pré-históricos de resistentes cavernosos. A excelência de uma defesa é e será sempre a excelência de um obstáculo e a alegria que poderá proporcionar será sempre a alegria defeituosa de se ter evitado a alegria maior do adversário.

Isto para dizer que nenhuma defesa que fiz nestes jogos de muda aos 2 e acaba aos 4, se compara àquele golo duvidoso que, na minha memória, foi o primeiro que marquei na escola primária. Tinha aulas à tarde e, antes disso, ocupávamos o tempo a jogar à bola, quando alguém levava uma. Os postes eram paralelepípedos e o golo foi marcado à boca da baliza, bastou-me encostar. No entanto, parece que a bola passou muito perto da pedra e não houve consenso quanto à validade do golo. Já havia em nós algo destes aborrecidos comentadores de segunda-feira, que drenam do futebol toda a vitalidade com as suas discussões taciturnas sobre faltas e foras-de-jogo.

Mas da alegria pura, espontânea e universal daquele golo, nunca duvidei. Quando me redescobri como ponta-de-lança das manhãs de sábado no nosso Arregaça, divertia-me a estudar todas as declinações da felicidade do golo e a experimentar os diferentes graus do êxtase consoante o golo surgia depois de uma finta, na sequência de um cruzamento de um colega, após uma jogada de contra-ataque, numa bomba chutada de longe, num raro cabeceamento. Há uns meses, na Índia, em Cochim, fiquei a ver um grupo de miúdos da escola a jogarem num descampado enorme. Jogavam com uma bola de ténis e levantavam grandes nuvens de poeira vermelha quando a disputavam. Depois, do meio da confusão, emergiu o portador da bola, que correu imparável para a baliza e, logo a seguir, deu-se a explosão, aquele momento que Fernando Gomes comparava a um orgasmo mas que é na verdade muito mais do que esse espasmo animal, é uma flutuação do espírito, um acordo momentâneo entre todas as coisas, um segundo em que todos os obstáculos são removidos e a alegria não parece apenas um prémio fortuito, mas o fim último da existência.

Não posso saber que alegrias esqueci, mas sei bem que esta alegria do primeiro golo é tão real como naquele dia e, por isso, não os posso considerar, ao golo e à alegria, como menores. E talvez haja nesse momento longínquo o brinde de uma lição: às vezes não é preciso inventar, basta ter a audácia infantil de encostar para o fundo das redes.

20
Mar18

Estudo sobre o homem ciumento

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ

 

No final da adolescência tive um amigo que, volta e meia, sem que a conversa se prestasse a tais conjecturas, jurava que se um dia fosse traído pela namorada, matava os dois, a rapariga e o amante. Ninguém podia duvidar da certeza dos seus intentos porque, apesar do ambiente descontraído onde geralmente nos encontrávamos, anunciava-os com a resolução inequívoca de quem escolheu um destino. Os anos passaram. Há tempos reencontrei-o. Era uma quarta-feira. Ele, divorciado e com uns quilitos a mais, passeava no centro comercial com o filho, fruto único do casamento com aquela remota namoradinha. A conversa foi de circunstância. Cumprimentámo-nos com um abraço, despedimo-nos com um aperto de mão. Não sei se para o fim daquele casamento terá concorrido alguma traição, mas quaisquer conflitos existentes terão sido resolvidos num grande sossego de conservatória.

Na pequena parcela de sociedade em que vivo, aquele homem de quem as mulheres do bairro diziam, com admiração e terror, que era “muito ciumento”, extinguiu-se. Era produto de uma época e de uma cultura de que o meu amigo, quando verbalizava os seus desígnios, terá sido dos últimos herdeiros. Era uma estirpe um tanto pré-histórica, ingénua e terrível, que desconhecia o pudor e o cálculo que hoje impede certas afirmações coléricas. Os seus descendentes refinaram-se e o homem ciumento, que nunca deixou de existir, passou a ser de um único género, o atormentado a quem o ciúme dilacera e a impossibilidade de o manifestar desabridamente mortifica.

Mesmo que o não saiba, o homem ciumento moderno descende de Pózdnichev e de Bentinho, personagens respectivamente criadas pela imaginação de Lev Tolstói e de Machado de Assis. O conde russo explicava, pela voz da sua criação, porque é que numa sociedade cheia de espartilhos de salão o ciúme é mais cruciante: “Uma das coisas mais torturantes para os homens ciumentos (ora, na nossa vida social, todos os homens são ciumentos) são determinados convencionalismos mundanos que admitem uma grande e perigosa proximidade entre o homem e a mulher. Seremos objectos de gozo se tentarmos impedir uma tal proximidade nos bailes, ou entre o médico e a paciente, ou em sessões de arte, de pintura e, sobretudo, de música.” A proximidade não pode ser contestada sob pena de o ciumento revelar, inadvertidamente, que a traição já aconteceu. Não na realidade, mas na sua imaginação, o lugar onde acontecem mais coisas ao ciumento.

Muito antes de se casar com Capitu, Bentinho sofre com as fantasias mórbidas do seu ciúme. Desterrado no seminário, onde chora abundantemente pela separação, Bentinho recebe notícias de uma Capitu alegre. Ele sofre, ela ri. Na ausência da amada, na discordância de estados de espírito, medra o ciúme. Uma Ponta de Iago é o título do capítulo, pagando o tributo a Shakespeare. Uma frase transtorna-o particularmente: um abstracto “peralta da vizinhança” inquina-lhe o coração. “Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível, mas certo.” O facto? Só um, a alegria de Capitu. O resto é o trabalho da imaginação no tear do ciúme: “se ela vivia alegre, é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e…”E… sentado numa carruagem, a viajar para longe da mulher, Pózdnichev também não controla a imaginação: “quanto mais contemplava aquelas cenas imaginárias, mais acreditava na sua realidade.” Sem provas, basta-se com um indício incerto, um sorriso “quase despercebido” trocado entre a mulher o suposto amante.

Obrigado, pelo temor do ridículo, a silenciar as suas suspeitas, o ciumento é torturado pelos instrumentos da imaginação, da dúvida e da culpa. Porque, sem factos que provem o delito conjugal, há a hipótese de a mulher ser inocente ou, ainda mais tenebrosa, a possibilidade de ter sido o ciúme a desencadear a tragédia. No final de Dom Casmurro, surge a advertência tardia: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.” Pózdnichev sabia-o bem: “Vi logo, nesse primeiro encontro, que os olhos dela tinham um brilho especial e, pelos vistos com a ajuda do meu ciúme, estabeleceu-se entre eles uma espécie de corrente eléctrica […]”

Ao imaginar a traição, todo o ciumento deseja secretamente que o acto imaginado se concretize. Pode, então, planear a vingança homicida, como Bentinho (“A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue…”), ou perpetrá-la, como o marido de A Sonata de Kreutzer, (“sabia que ia assestar o golpe abaixo das costelas e que o punhal entraria por ali.”). A alternativa mais civilizada será ainda passear tranquila e divorciadamente com o filho num centro comercial suburbano numa quarta-feira à noite.

16
Dez17

Um País a Céu Aberto

Bruno Vieira Amaral

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Convidado a apresentar um livro em que o autor cita abundante e justificadamente, permitam-me que comece esta apresentação com uma citação longa e, na minha humilde opinião, justificadíssima. Diz assim: “O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral centro e norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam «Valha-me Nossa Senhora!» é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes que ficaram em parte por alcatroar, é o território das oficinas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o territórios dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruadas a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas auto-estradas, o território onde, à beira de cada estradeca, no sopé de cada encosta, convenientemente escondidas dos olhares pelas silvas e pelos tufos espessos de arbustos, há milhares – literalmente milhares – de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade – embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).” Paulo Varela Gomes, Ouro e Cinza.

 

Deixo-vos aqui outra citação, esta igualmente longa, mas menos justificada, visto que o autor do texto é a pessoa que agora vos fala. Está no romance que publiquei este ano:

 

“A fim de nos afastarmos da morte de João Jorge, decidimos aceitar o convite de uns amigos para passar um fim-de-semana fora. Vivem numa povoação perto de Torres Vedras, um pouco isolados, sitiados pela paisagem de moinhos antigos, modernas hélices de produção de energia eólica, topos brancos piramidais de tendas instaladas em quintas onde os noivos da cidade vêm casar-se. De cada vez que vou para aqueles lados a hibridez da paisagem causa-me um certo desconforto. Para onde quer que se olhe há um ar de abandono industrial, mesmo nas fábricas em actividade e, paradoxalmente, na paisagem natural, um tanto incompleta, um estaleiro de obras da natureza, com as suas elevações semelhantes a esboços de montanhas, os sucessivos montes como uma cordilheira abandonada a meio por um deus impaciente. Há uns anos fui coagido pela empresa onde trabalhava a participar num desses eventos destinados a fomentar o espírito de equipa e a pró-actividade, um rally paper precisamente nos arredores de Torres Vedras. Passámos por lugarejos, trilhos alagados, canaviais de uma exuberância selvagem e, a par desta respiração verde assobiada por tentilhões e andorinhas, havia pausas de ferro e de cimento, os carris da linha do Oeste, os postes de alta tensão coroados por ninhos de cegonha que, naquela altura do ano não se viam, um viaduto sobrenatural, um aglomerado de vivendas, arrecadações de madeira e oficinas com cheiro a tinta e óleo de motor, um conjunto tão irregular que, em vez de pensado e construído, parecia ter sido ali despejado. Repousámos debaixo do viaduto de dimensões fenomenais. À nossa volta, dominava aquela espécie de vegetação múltipla e indecisa, o lugar ideal para se ocultar um cadáver. Imaginei aquele local dali a milhares de anos, se a construção humana subsistisse. Os pilares gigantescos em contraste com o viço daninho, espontâneo, lá em baixo. Imaginei que aquelas obras tivessem sido planeadas para um futuro que já não viveremos, sonhadas pela mente de um engenheiro sentimental, leitor de ficção científica. Eis a alarmante paisagem do Oeste: um aspecto provisório ou abandonado, de beira de estrada, onde tudo, até a natureza, é desmontável, precário, alcatrão e mata, silos desactivados, restaurantes desproporcionais onde aos fins-de-semana se servem buffets e se sorteiam Ferraris usados, vendas de loiça sanitária e stands de carros em segunda mão, produtores de melão e batata a venderem directamente o produto aos consumidores. Nada disto se via da casa dos meus amigos. Só a paisagem era a mesma, indecisa, incompleta, híbrida.”

 

Nas páginas iniciais desta Volta a Portugal, Álvaro Domingues expõe-nos ao pensamento de António Ferro, homem que não queria que vissem a bela fealdade do nosso país, a que se alude nos excertos que li. Na Cartilha da Terra Portuguesa, o propagandista do Estado Novo queria dar a conhecer aos turistas os “mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias.” Mas, mais do que informações úteis, a cartilha devia ser um breviário destinado a “todos os devotos da nossa Pátria”, desejosos de se iniciarem no catecismo da “sua Beleza”, com letra maiúscula. Portugal como religião e santuário. Em Vida e Arte do Povo Português, Ferro, embriagado de lirismo, cantava os “jardins onde a nossa alma colhe flores” e as “planícies onde o sonho galopa, onde o silêncio mora.” Neste país bucólico e sagrado, “casa de Deus”, vive o povo que “trabalha, sofre, ama e canta”. Mas o verdadeiro sofrimento, a miséria, a pobreza e os conflitos não cabiam neste quadro singelo de honrada e humilde portugalidade.

 

Na Visão História, o jornalista Pedro Caldeira Rodrigues descreve a origem e intenções desta corrente país-realista.

“A nova elite política, católica, conservadora, militarista e nacionalista, almejava expurgar a «desordem republicana» através de um novo figurino de emoções e referências provenientes da pureza campestre, em oposição à cidade impura, cosmopolita, anárquica. […]O campo, bucólico, hierárquico, conservador, opunha-se à cidade, proletária, caótica, maçónica, impura. O meio rural passava a ser sinónimo de autenticidade, o espaço urbano um lugar degenerado e transgressor.”

 

Inspirados pelo nacionalismo francês de Charles Maurras, os conservadores portugueses também quiseram criar – e criaram – o seu próprio país real em oposição ao país legal, ao país das instituições e do poder central concentrado em Lisboa. Ganhava finalmente contornos políticos a tendência de opor o campo à cidade, tendência tão velha que remontava a tempos bíblicos, mas que o Romantismo, com o seu culto da paisagem como eixo da identidade nacional, recuperou e popularizou. Em Almeida Garrett, Júlio Dinis, Fialho de Almeida e até no bom Eça, a cidade é impura, fétida, decadente e caótica, e é no campo, ordenado, puro, autêntico e saudável, que o homem pode encontrar a cura para a doença da civilização. Como se lê no livro O Crime em Lisboa no século XIX: “A cidade emerge como um espaço desorganizado, caótico e de difícil controlo e, por isso, propício à prática de ilegalidades e do crime, enquanto os espaços rurais são percepcionados como locais onde se desenvolvem modos de vida mais harmoniosos, simples, equilibrados e salutares, permitindo assim o afastamento de problemas sociais, como a criminalidade.”

Em Volta a Portugal, lê-se a certa altura: “De tanto martelado o assunto, o mito e a ficção tornaram-se mais presentes do que a realidade.” É caso para dizer que o país real alojou-se de onde é mais difícil extirpá-lo: não da realidade, mas da imaginação. O mito enraizou-se no imaginário colectivo da nação. Ainda há trinta anos, o Portugal ensinado na escola primária era esse país imobilizado, pitoresco, de casinhas típicas, trajes tradicionais e gastronomia regional, de alfarrobas a secar nos telhados dos Algarves, dos socalcos vindimados do Douro, dos pastores da serra nevada e dos campinos da lezíria, dos moliceiros e dos rabelos. Hoje, mantém-se vivo nos programas de domingo à tarde, com forró das beiras e barrigas de freiras, cavacas e cavaquinhos, adufes e marafonas, vira que já não vira e torna a virar, nas eleições das aldeias mais portuguesas de Portugal e do mundo e nos panfletos turísticos assinados já não com mão de ferro, mas com a mão de veludo dos estrategas e dos marqueteiros, criadores de Allgarves e South Bays, dispostos a vender Portugal como paraíso intocado, reserva espiritual e natural onde ainda se criam portugueses – seja para consumo interno ou para exportação – e destino prime entre os destinos low-cost.

 

É mais do que óbvio que o país real – quer na versão de António Ferro e do Estado Novo, quer na versão moderna do país que está na moda – é menos real do que parece. A realidade na expressão “país real” não é intrínseca ao país que alegadamente descreve. Ou é tão intrínseca como o conceito de exotismo é intrínseco aos países e regiões ao qual é aplicado. “Reality lies in the eye of the beholder”, que é como quem diz, “quem imaginário ama, real lhe parece”, como na história do célebre Cavaleiro da Triste Figura. Por exemplo, a paisagem é sempre mais ordenada nos discursos sobre a paisagem do que na própria realidade. Aliás, para isso mesmo serve a linguagem, para ordenar a realidade que se nos apresenta caótica. O conjunto de coisas – práticas, objectos, tradições – que constituem essa realidade é escolhido a dedo, quando não criado de raiz: romarias, doçarias, monumentos, castelos, pelourinhos, ranchos folclóricos, centros históricos e ar puro.

 

A narrativa aguenta-se até o verdadeiro país real irromper, sem pedir licença, no quotidiano televisivo das desgraças. Nesse momento, a ilusão do país de sucesso desfaz-se em pó e cinzas e o país real passa a ser o dos cem mortos em incêndios, do desordenamento do território, da desertificação do interior, do abandono e do desleixo, dos Palitos e dos eucaliptos, o país envelhecido, tombado para o litoral, sem futuro e sem esperança, à espera da morte natural e anunciada. Então percebemos que o campo inculcado na nossa imaginação já só existe em pequenas unidades geríveis e rentáveis, sejam de turismo rural ou do agro-negócio, e só interessa conservar o que à volta contribua para a ilusão precária (não é preciso mais porque os turistas não se demoram) de que aquilo não é apenas um cenário.

 

Mas entre as duas imagens do país real, a do segredo mais bem escondido da Europa e das vergonhas mais mal escondidas do mundo, há um, por assim dizer, terceiro país real que permanece no ângulo morto e não cabe quer nos discursos triunfais, quer nos discursos apocalípticos. Um país que não encaixa em nenhum discurso de ordenamento do pensamento sobre o território. Neste país, certas construções humanas parecem espontâneas como ervas daninhas, tão depressa ferem a paisagem como são assimiladas por esta, proporcionando imagens que vão do kitsch ao surrealismo. Este é o país embargado e incompleto como uma ideia que se teve mas que não se pôde concretizar. Prospera no espaço de transição entre o campo e a cidade, entre o passado e a modernidade, entre o autêntico e o sofisticado (ambos falsos), entre o natural e o artificial. É narrado em parte pelas rotundas monumentais que sabotam a própria dignidade a que almejam, construídas como símbolos do progresso e que acabam como prova incriminatória do nosso atraso.

 

Este Portugal não cabe nos planos estratégicos para o interior, nem nos rios de dinheiro que desaguam nas áreas metropolitanas. Imune a programas Polis e a operações de cosmética, é um país a meio caminho, terra de ninguém onde o campo se rarefaz e a cidade ainda está por se materializar, povoado por antigos aldeões e aspirantes a citadinos que transportam as suas memórias do campo para o novo território de cimento e alcatrão criando um híbrido que provoca dissonâncias cognitivas, autênticos rasgões na realidade, como outdoors chineses nas estradas secundárias do Ribatejo.

 

Resistente a todos os esforços de domesticação, impróprio para venda, consumo e promoção, este é o país que gostaríamos de esconder no quarto das arrumações quando recebemos visitas, mas que tem o inconveniente de ser um a céu aberto. Esse país não pode ser escalado, nem surfado, tem muitos buracos que não servem para golfe e as águas que por ele correm são tudo menos terapêuticas. É um gigantesco baldio onde as autoridades se esqueceram de pôr o aviso: “é proibido vazar entulho”.

 

Álvaro Domingues conhece-o bem porque escreve: “Entre as aldeias típicas e os centros históricos”, cujo denominador comum é o passado extraordinário e a afirmação de supostas genuinidades, sobram territórios extensos e paisagens sem identidade física, sem memória. Paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca.” Mas são essas paisagens que pedem reflexão, que imploram, no seu abandono, por um discurso. O olhar de Álvaro Domingues, visível nas fotografias que não apenas ilustram o livro, como são a sua essência, é já um discurso sobre esses não-lugares naturais que constituem grande parte do território português.

 

Por vezes, as suas legendas lacónicas e motejos subtis soam-nos a sarcasmo, ao divertimento impudico do citadino que se delicia com os pitorescos cartazes autárquicos, com a toponimia ambígua ou os erros ortográficos nos menus. Mas tanta e tão reiterada atenção ao feio, ao invulgar, ao inesperado, pressupõe uma reflexão, uma educação, para não dizer uma filosofia, do olhar, e um sentimento que poderá não ser amor, mas denuncia encanto. Ao ver as imagens deste livro, lembrei-de de imediato dos dois textos que citei no início, porque foi como que um reencontro com um país que conheço, reconheço e me fascina. O país que, no seu estado de desenvolvimento selvagem, resultado de megalomanias, incúria, falta de verbas e crises, resiste a ser integrado no grande parque de diversões e de actividades de lazer ou o centro de dia de reformados nórdicos que parece ser o único futuro viável para Portugal. Este terceiro país não pode ser levado à Unesco para aprovação e saudação, não é fado, nem cante, nem chocalho, nem bonequinhos de Estremoz, não é praia, nem resorts de luxo na costa alentejana, nem hotéis de charme no interior ressequido.

 

Álvaro Domingues, geógrafo (e veja-se como o seu olhar quase sempre evita a presença humana e quase nunca os vestígios que esta semeia ou com que polui a paisagem) assume-se como cronista vagabundo deste país de tanques de pedra e caravelas de gesso, de blocos erráticos e interrompidos, de santinhas e moinhos de vento, de azulejos e castelos de reis Ghob, de cemitérios de sanitas e de serras pontuadas de palmeiras. Tem o olhar treinado para o híbrido, para os painéis fotovoltaicos ao lado de hortas visigóticas, as antenas parabólicas que vigiam rebanhos de cabras semi-urbanas, o xisto moderno e o alumínio tradicional da infatigável marquise, o tijolo nu encimado por telha verde, quase-gótica. Imagino-o a varrer a paisagem à procura não da harmonia e do enquadramento perfeito, mas do erro que ela inevitavelmente terá. E esse erro é que é sublime. Álvaro Domingues cita Edmund Burke: “tudo o que suscita de alguma maneira as ideias de dor e perigo, isto é, tudo que de alguma forma é terrível, tudo o que diz respeito a objectos terríveis ou age de forma análoga ao terror, isto é, capaz de produzir a mais forte emoção que o espírito seja capaz de experimentar.”

 

Com a banalização da paisagem, antigamente matéria de estudo para o espírito cultivado e hoje cenário para ser fotografado e partilhado aos pontapés, e o embaratecimento do sublime, só os erros que o olhar de Álvaro Domingues tão bem capta parecem ser capazes de emocionar: o espírito experimenta o terror sugerido por certas sombras ominosas dos quadros de Chirico, pelos seus objectos incongruentes, as suas formas ameaçadoras. Talvez porque não haja nada que inspire mais terror do que o vazio, e estas fotografias estão cheias desse vazio, de sentido, de gente, de memória, de palavras. Ao mesmo tempo, estão repletas de qualquer coisa profundamente nossa, como se representassem a parte da nossa identidade para a qual ainda não encontrámos as palavras. António Ferro falava dos jardins onde a alma colhe flores, mas não sabia que quase toda a nossa alma é baldio e que aqui só se colhe ferro-velho e azulejos partidos.

 

Há meses, em viagem por Terras de Basto, vi à porta de uma vivenda moderna um horrível anjinho em pedra com um Audi em fundo. Emocionou-me a fealdade evidente, a piedade vulgar e a terrível solidão do quadro, numa mistura atroz e sublime de recursos financeiros, mau gosto e sentir genuíno. O nosso sentimento religioso, aliás, raramente subiu a esferas mais elevadas, como se vê nesse lugar de devoção tétrica e comércio piedoso que é Fátima. Se Portugal tem de ser alguma religião, há-de ser esta, de anjinhos terríveis e silos que parecem catedrais, cujo breviário o irmão Álvaro teve a caridade de nos oferecer.

 

Texto lido na apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues

15
Dez17

É difícil amar os outros

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Junho de 2017

 

Estávamos naquela idade em que ainda exploramos os limites do mundo, ou seja, os limites da nossa crueldade. Passou por nós um cão. Tentámos atirá-lo para uma vala. O cão fugiu. Tão grande era a nossa estupidez que não desistimos de imediato dos nossos intentos. Atraímos o cão com um chamamento amigável. Ele veio, dócil, manso, confiado nos animais que o chamavam. E, como estava escrito desde o início dos tempos, lá o atirámos para a vala com um pontapé.

Quase no final de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreve o seguinte: “Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. […] Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara.” Para Kundera, a bondade do homem só se pode manifestar “em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma”, os animais. Seguindo esta lógica, também a verdadeira crueldade só se poderia manifestar quando exercida sobre os animais, aqueles que, por decreto divino ou humana soberba, temos à nossa mercê. Essa crueldade seria como que um prenúncio da (ou um treino para) crueldade sobre os seres humanos. Se somos capazes de magoar quem não nos ameaça porque não o faríamos contra aqueles que nos podem resistir? Kundera conta que, na Checoslováquia, antes de passarem aos alvos humanos, os russos organizaram campanhas de extermínio de cães com o argumento de que estes sujavam os passeios e constituíam um risco para a saúde infantil: “era preciso consolidar essa agressividade […]. Era preciso primeiro treiná-la contra um alvo provisório. Esse alvo, foram os animais.”

A violência gratuita sobre os animais como antecâmara do homicídio está presente em duas cenas da literatura que, em parte, moldaram a minha sensibilidade. Em Aparição, Carolino sente uma vertigem de poder quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui. No livro O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”, pensa um dos adolescentes. Mais tarde, em cada uma das histórias, os adolescentes acabam por assassinar alguém.

Mas se a maldade dirigida contra os animais pode indiciar uma falta de misericórdia que facilmente encontra um novo alvo nos nossos semelhantes, a bondade que manifestamos em relação aos animais, por ser pura e gratuita, não se traduz necessariamente em compaixão pelos outros seres humanos. A maldade contra um animal desumaniza-nos, mas a compaixão por um animal não nos humaniza, no sentido de nos tornar mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos. Aliás, aquela bondade, radical, absoluta e que não exige qualquer contrapartida, pode tornar-nos indiferentes ao sofrimento humano mais próximo de nós, em cuja avaliação está sempre envolvido um julgamento moral (por exemplo, pensarmos no que a outra pessoa terá feito para se encontrar naquela situação de sofrimento).

O argumentista Jean-Claude Carrière lembra um episódio da Revolução Francesa narrado por Restif de La Bretonne que o impressionou fortemente. Um condenado à morte é levado para o cadafalso e é seguido pelo seu cão. O homem segura o cão e pede que alguém tome conta dele. A multidão insulta-o. Os guardas impacientes tiram-lhe o cão das mãos e executam o homem na guilhotina. O cão lambe o sangue do dono que escorre pelo chão. Os guardas matam o cão à facada e a multidão grita: “Assassinos! Que mal é que o cãozinho vos fez?” A multidão, que momentos antes tinha exigido e festejado a morte de um homem (muito provavelmente um criminoso), enche-se de compaixão pelo pobre animal. Há uns tempos, numa esplanada, enquanto comia um suculento pastel de Chaves, aproximou-se de mim, silenciosamente, uma cadela. Não ganiu, não abanou a cauda, não ladrou. Cravou em mim uns olhos cheios de palavras que não podia dizer. Uns olhos humaníssimos que suplicavam o pão. Senti por aquele animal o que nunca sinto quando aquele homem, habitualmente à porta do supermercado onde faço as compras, me pede uns trocos para comer qualquer coisa porque não consigo evitar julgar o meu semelhante. Se, de certa forma, a crueldade contra os animais é mais censurável, a bondade que lhes dirigimos também é menos louvável. É mais fácil amar um cão que sofre do que um homem que nos pode ofender.

Regresso ao cão do início da crónica. Saiu rapidamente da vala. Terá esquecido o episódio e terá entregado novamente a sua confiança a outros humanos dela merecedores. Eu é que nunca mais o esqueci e nunca mais voltei a confiar em mim. Queria sentir por pessoas que magoei o que sinto por aquele cão. E não consigo. É difícil amar os outros.

20
Nov17

Como um pássaro cheio de luz

Bruno Vieira Amaral

“Passado o primeiro claustro do Hospital de S. José, galgada a escadaria até ao segundo andar, temos outro claustro, onde a luz do dia anoitece e é sempre a mesma. Ao nosso lado, a vestimenta de ganga de um empregado que nos acompanha. Os dois, eu e ele, pouco seguros, pizamos os degraus de uma escada de ferro. A porta à direita abre sobre a enfermaria de Santo António. Começa a parte dramática, a visão da dôr escondida sob os cobertores, fria e abandonada. O rancho das duas horas róla numa carrinha. Odôr insuportável, que faz vómitos. A vidraça; a enfermaria longa onde a luz é muito pálida e o sol entra com um sorriso triste. A primeira figura de dôr é um homem que passeia, com um braço erguido por um triângulo de madeira. O empregado de vestimenta de ganga põe-se a conversar; deixa-nos à vontade e nós vamos conversar com os incomunicáveis, os que estão ali presos e feridos, como supostos bombistas. A polícia apura, não se devem lançar culpas sobre quem não pode falar. A palavra supostos, está, pois, bem. Aquilo é muito triste. Há doentes que fumam e não volvem os olhos, corpo enterrado e imóvel no meio dos lençóis sujos, quando passamos. Um rostinho de criança exangue, todo tocado de oiro antigo, onde a dôr tem resignação, cansada já. E a enfermaria é alta e triste, de janelas de vidros pálidos de luz. Conhecem a Soror Filomena dos irmãos Goncourts? Pois é assim aquilo, tal qual, com muito menos carinho, muito menos branco. Esta côr não existe naquela enfermaria. Os varais da cama, com a chapa de esmalte… esta é a 44… estão sujos; a almofada, onde a cabeça do doente descansa, gravada com as letras H.S.J., é amarela. O branco das barrelas e dos oito dias de uso gastou-se, envelheceu. Colunas que seguram a abóbada, escarradores, as camas alinhadas à parede e a carrinha do rancho que deslisa, distribuindo o arroz aguado, com pretos de coágulos de sangue. Mas nem todos os doentes estão deitados. Alguns ensaiam os primeiros passos, tropeçando os pés, como se tivessem regressado à infância, quando na relva dos jardins, a mão segura na mão da mãe que era carinhosa, que o devia ser, tentavam andar. Não há feridas à mostra; só há rostos cavados, quasi caveiras, tanto as carnes estão descarnadas.

44! O primeiro suposto bombista. Tirou a colcha; o cobertor de lã, listrado a vermelho e azul, sobre-lhe só meio corpo. Está sentado na cama. O seu estado é grave; um estilhaço duma das bombas que foi arremessada contra um eléctrico na Avenida Almirante Reis, ontem, rasgou-lhe o ventre, extravasou-lhe os intestinos num mar de sangue.

— Eu?... José… Godinho.

É um moço ainda. Pálido, o olhar húmido de tristeza, um grande perdão nas pupilas. A dôr igualou-o a todos nós. Fala-nos baixinho, a muito custo. Cara rapada, o buço está crestado de pólvora e na face branca, esquálida, a dôr murmura e fala por ele. Quando chegámos junto da sua cama, pisámos um jornal.

— Inocente?

— Sim… Eu… estou.

E aludindo ao jornal:

— Esse jor… mentiu. Não con…fe…ssei.

Não! O seu falar brando, sciciado, morre a pouco e pouco. Os lábios não aquecem a palavra. Inclinamo-nos sobre o ferido.

— Onde foi?

— Aqui. Com dôr: no baixo ventre…

— É das Juventudes?

— Sou, murmura mais baixo. Não…tenho…nada…passou…Perdi… o vapor…

E a cabeça róla triste, tristemente, muito branca. Mais nada. Saímos da enfermaria. Outra, a de S. Francisco. Há menos camas, uma pequena mesa, ao meio, onde o enfermeiro aquece qualquer remédio. Mais sossego, recolhimento, velado o sorriso do sol, distante dali. Cada cama é uma mesa anatómica; tem um corpo esfacelado. Só os corpos vivem e traduzem para nós o horror da dôr. Também não há feridas.

— Como te chamas, meu pequeno?

Um nome. Este está alegre, brinca com uma lapiseira, uma carteirita e tem muitos fascículos de romance na mesa de cabeceira. É um marçanito, cabelo preto, olhos negros que rolam, que saltitam, que ardem de alegria – a bela alegria da mocidade.

— Melhor?

— Oh! Muito melhor!

— E porque estás preso?

— Falava com um rapaz quando a bomba estalou… Foi há dias, a primeira que estalou na rua da Palma. Mas eu estou inocente…

E muito vivo, embriaga-se de falar, como um pássaro cheio de luz:

— Não estou preso… Mesmo que estivesse não me importava… a verdade saber-se-há…

O ferimento é leve: um buraco nas costas, do comprimento, do comprimento…

— Desta lapiseira.

Cama nº… não importa, esqueceu.

O cobertor tapa-o todo. A descoberto apenas a cabeça. Dorme? Talvez não, mas tem os olhos cerrados. É moreno, os ângulos do rosto estão negros, cheios de sombras que a dôr poz ali e que não desvanecerá tão cedo. É uma cabeça forte, um bronze, talhado em linhas violentas e enérgicas. As pálpebras mexeram-se; olha-nos.

— Então?

— Braços e pernas partidos.

Sobre a cama, desdobrado o jornal A Batalha, numa afirmação. Fala de seguida, triunfando da dôr a sorrir-se.

— Fizeram-me a operação esta madrugada. Não havia  meio de cloroformizarem-me… Até disse aos médicos que aquilo não prestava… três injecções de soro anti-tetanico… Queres ver como estou?

O corpo aparece, com os braços enfaixados de ligaduras.

— São aparelhos, gesso e madeira…

— Como se chama…

— … Carrascalão.

— Ontem à noite…

— Ia a passar…

Fala e nem uma dôr à superfície do rosto, uma palavra que indique tristeza. Aconteceu. Não o sabe ele porquê.

Aquele rosto fica, cavado de sombras, enérgico, todo ele na sombra, sem arestas nem brancos. É uma forma de sofrer, esta, a de reagir."

Notícia publicada no Diário de Lisboa de 11 de Março de 1922.

06
Nov17

A Beleza da Destruição

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Maio de 2017

 

Já sobrevivi ao fim do mundo. Foi há mais de vinte anos, num domingo. Nas semanas anteriores, uma astróloga cujo nome não recordo previu um grande terramoto para Lisboa. Ainda não vivíamos na era da Internet, nem das notícias falsas, mas o Jornal do Incrível era incrivelmente popular, com os seus extra-terrestres e bezerros de duas cabeças. Assim, aquele domingo foi vivido com uma sombra de angústia, o risinho nervoso de quem não acredita em bruxas pero que las hay… O dia passou, e foi um radioso domingo de sol, o mundo não acabou e o terramoto não aconteceu, nem sequer o mais leve tremor de terra, daqueles que só são sentidos pelos sismógrafos mais sofisticados e pelos periquitos mais sensíveis.

Comecei pelo fim do mundo para chegar à notícia da publicação do segundo volume da monumental tradução da Bíblia grega por Frederico Lourenço. Depois dos evangelhos, o leitor recebe o que faltava do Novo Testamento. Peço desculpa se já vos perdi no início da minha homilia. Aos resistentes digo que pretendo apenas falar do último livro, o Apocalipse ou Livro da Revelação, esse documento estranho, escatológico, profético, visionário, psicadélico, caleidoscópico, aterrorizador e, como afirma o tradutor, escrito num grego excêntrico. Um dos grandes mistérios da feitura da Bíblia é o de se saber como é que o Apocalipse nunca foi retirado do cânone. No século III, um discípulo de Orígenes de Alexandria declarou-o apócrifo e a igreja teve de se empenhar na luta contra as interpretações literais do texto.

Ateus, agnósticos e padres com vocação poética costumam apontar como livro preferido da Bíblia o Eclesiastes (o grande tratado do pessimismo), o Cântico dos Cânticos (a celebração do amor físico) ou o Livro de Job (essa oportunidade para apontar o dedo a Deus pelo sofrimento que deliberadamente traz aos que o servem). Eu prefiro o Apocalipse, um livro para os loucos, os criadores de cultos, os quiliastas, os místicos, os iluminados, os que acreditam que a verdade só pode ser encontrada nas margens da razão. Depois das epístolas ortodoxas de Paulo, o Apocalipse é como um rebentamento de liberdade e loucura, um manifesto selvagem e espiritual, repleto de imagens de fogo e morte mas também com a promessa paradisíaca de um novo tempo. É uma orgia sensorial, com os seus cordeiros, anjos, leões, sangue, pragas, ídolos dourados, dragões de sete cabeças e dez chifres, livros amargos, babilónias e “relâmpagos e vozes e trovões e um sismo e um imenso granizo.”

O lado demencial e de “fim do mundo” é tão marcante que a palavra “apocalipse”, que significa revelação, passou a ser sinómino de destruição total. A ideia de aniquilação é estranhamente fascinante porque traz com ela uma promessa de recomeço e renovação. A Bíblia tem outros exemplos, desde o dilúvio ao castigo de fogo sobre as cidades pecaminosas de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, a humanidade não precisa de recuar aos tempos bíblicos para se assombrar com o fogo. Basta recordar os bombardeamentos das cidades alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, de que W. G. Sebald fala em História Natural da Destruição, ou a bomba atómica sobre Hiroxima, cujo relato pormenorizado se encontra na reportagem clássica de John Hersey para a New Yorker. O horror dessas destruições é atenuado porque os alvos foram os “maus” daquela guerra. Queremos acreditar que as bombas largadas sobre o inimigo eram inevitáveis e, até, justas, como justo terá sido o castigo sobre os habitantes libertinos de Sodoma e Gomorra. Não foi por acaso que à operação sobre a cidade de Hamburgo pela Royal Air Force foi dado o nome de “Gomorra”.

Outra das razões do fascínio é mais mórbida e tem que ver com a beleza perversa e espantosa da própria destruição. Perto do final da guerra, os nazis, em debandada pela Ucrânia, foram queimando todas as aldeias por onde passavam. Numa carta enviada para casa, um soldado escreveu que aquela era uma “imagem aterradoramente bela”. Um dos sobreviventes de Hiroxima, na altura uma criança, conseguiu escapar a tempo de ver a nuvem que se elevava nos céus, recebia os raios de sol e projetava de volta as cores do arco-íris: “E que Deus me perdoe se disser que era um lindo espectáculo”, disse ele anos mais tarde.

Não sei o que haverá de tão atraente na possibilidade de destruição total: será o domínio convulsivo do terror? O ruído impossível da catástrofe? A luz e o calor mortais? A simples atração pelo abismo? O vislumbre de um novo mundo nascido das ruínas? Sei que, na minha memória, no céu azul daquele domingo em que o mundo não acabou permanece uma radiante nuvem de enxofre e que um dia, sem que saibamos a hora, ela cairá sobre nós.

06
Out17

No escurinho do cinema

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Abril de 2017

 

Ah, a nostalgia de tudo! De certeza que já houve um poeta, publicado ou por publicar, celebrado ou anónimo, a escrever palavras idênticas. Um poeta que se lembre do sabor do pão com manteiga e açúcar, de um carrinho verde numa varanda de verão, de uns desenhos animados em que um passarinho tingia as pétalas de uma flor com o sangue sacrificial do seu peito, da luxemburguesa de olhos verdes que venceu o Eurofestival em 1983, de Debra Winger a despedir-se dos filhos numa quarta-feira de Lotação Esgotada, enfim, das quatro salas de cinema do Feira Nova, ali no Lavradio, onde certamente esse poeta terá passado a adolescência no escuro a voar com Goldie Hawn nas margens do Sena, a enfrentar aracnídeos num planeta distante, a assistir deliciado aos gritor de puro pavor de Neve Campell.

Já regresso ao cinema porque, como diz ali em cima, a crónica deste mês é sobre cinema e não quero frustrar as justas expetativas do leitor habituado a confiar nos títulos (podia falar de quão enganadores são alguns títulos de filmes, mas não é o momento para isso). Antes, devo referir que há umas semanas estive na Índia, facto nada extraordinário visto que a Índia é habitada por mais de mil milhões de almas e visitada anualmente por 8 milhões de turistas. Nada extraordinário a não ser para mim, gota perecível num mar de gente, mas ainda assim gota individual e com memórias, que é o que conta. Bem, foi na Índia que conheci Javier Montes, escritor espanhol, e o ouvi a ler um excerto em inglês do seu livro mais recente, Varados en Río, que, como o título indica (confiemos no título, uma vez mais), é sobre o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, de encantos mil, pela qual este asturiano loiro se apaixonou sem ver correspondida a sua paixão – deve ser isto a globalização. No referido excerto, o narrador conta uma insólita ida ao cinema. Viu o anúncio de uma sessão no jornal, dirigiu-se ao local para descobrir com algum espanto e inquietação que a sessão era exibida na sala classe média de uma casa particular. Mais perplexo que temeroso, deixou-se ficar na companhia de desconhecidos para ver o filme e compara essa experiência à dos cristãos primitivos nas catacumbas. Prossegue com a analogia religiosa dizendo que, assim que as luzes burguesas da casa “muy vivida” se apagaram, ouviu na sua cabeça as palavras daquele homem que nunca escreveu nenhuma: “onde estão dois ou três reunidos em meu nome…”

Regresso, pois, ao meu cinema, após esta breve excursão cine-místico-tropical ma non troppo, ao cinema de quatro salas do Feira Nova, já encerrado e pelo qual ninguém chorou, ninguém fez petições, ninguém organizou vigílias como é habitual sempre que encerra um desses cinemas monumentais, de arquitetura majestosa e cortina bíblica. Não, as salas do Feira Nova eram acanhadas, idênticas a tantas outras salas comerciais por esse mundo fora e, no entanto, foi ali que, em muitas tardes de segunda-feira, com os bilhetes a 350 escudos, vivi, viajei e comunguei do sonho que é a essência da religião do cinema. Muitas vezes, quase sempre, sozinho, rodeado de desconhecidos, porém com essa certeza reconfortante de que estávamos imbuídos do mesmo espírito, que partilhávamos a mesma fé, que quando regressávamos à luz do dia e a primeira coisa que víamos era o interior devoluto do que havia sido uma hamburgueria vínhamos transfigurados, com os olhos a habituarem-se à claridade, como se tivéssemos bebido um pouco de verdade, mesmo que o filme fosse medíocre.

Durante alguns anos, e não os mais infelizes, cultivei esse hábito de ir sozinho ao cinema. Foi assim que vi Buffalo 66, Felicidade e Disponível para Amar, no King, A Corda e Mãe e Filho, na Cinemateca, Conto de Outono, no Nun’Álvares e Vertigo no exíguo espaço do Cine-Clube do Barreiro, numa sessão quase tão doméstica e clandestina como a que Javier relata no livro dele. Há poucos dias voltei a ir ao cinema sozinho, o que já não acontecia há oito anos, quando fui ver Gran Torino nas salas que vieram substituir as do Feira Nova. E lembrei-me dessas segundas-feiras sagradas em que apanhava o autocarro perto de casa, saía na rotunda do Lavradio, caminhava até ao cinema, comprava o bilhete com o dinheiro certo, assistia a um filme qualquer e, no final da liturgia, regressava ao mundo real pairando acima dessa realidade. Como Goldie Hawn nas margens do Sena.

18
Set17

As manhãs são mais perversas do que as noites

Bruno Vieira Amaral

Pequeno-almoço no hotel. Mesa redonda para seis pessoas ocupada por três, casal de meia-idade e a filha a caminho do final da adolescência. Cruzo-me com a rapariga que leva um prato com pedacinhos de melancia e abacaxi. Cedo-lhe passagem no corredor apinhado, trocamos um olhar rápido de cortesia. Não é o olhar que um homem e uma mulher trocariam porque ela, não sendo inocente – não há inocentes neste mundo –, ainda não conhece o pecado a ponto de o desejar ou temer. “Um dia também eu irei pecar” (é o que ela diz ou eu oiço), pensamento que lhe acode ao espírito sem pressa nem excessiva convicção, sem entusiasmo nem temor, como quem pensa “um dia estarei aqui como hoje estão os meus pais.” A mãe é alta, bonita, arranjada e com certas marcas do tempo que na mulher madura não são apenas admissíveis mas desejáveis. O marido, esse, grisalho e anafado, parece um urso doméstico ou um corpulento e preguiçoso cão de guarda. Falta-lhe a competição interna no corpo de um filho varão. Sem esse acicate, a sua virilidade foi lentamente suavizada. A filha, esqueci-me de dizer, não é muito bonita e, como não conhece o pecado nem o deseja, ainda não tem vaidade. A vaidade é prerrogativa da mãe que, palpito, continuará a ofuscar a filha durante muitos anos e será uma preciosa fonte de angústia para o futuro genro. Estão os três a olhar para os respectivos telemóveis. É sábado de manhã, o céu está limpo e não há nada que se compare à perversidade latente de uma família normal.

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