Em nome do pai
Ribamar, vencedor do prémio Jabuti 2011, não é um romance sobre a relação de um filho com o pai, mas sobre a Relação-com-o-Pai. Logo no início, o narrador lança a âncora literária: Franz Kafka e a sua Carta ao Pai. Esta âncora oferece segurança mas não deixa que o romance navegue. Torna-o claustrofóbico: “Sufocado entre estes três vultos, [Kafka, o pai de Kafka e o seu próprio pai] luto para existir.” Luta inglória.
A ligação do narrador com o pai é lida num vaivém estático de referências que remetem para a obra de Kafka numa ligação literariamente contaminada e literariamente paralisada. Mais do que descrita, a relação com o pai é interpretada. É, desde a primeira linha, simbólica, uma terapia. A angústia reiterada pelo narrador nunca parece real, porque o narrador está num modo terapêutico, psicanalítico, freudiano, a lidar com duas sombras que o enfraquecem: a do pai e a do pai literário. Tudo é simbólico, daí que ele se veja frequentemente como um animal (ave, insecto, cão) e procure sinais, coincidências, como se a vida fosse um livro, um texto para ser descodificado. As dúvidas sobre o propósito da escrita e da utilidade daquilo que se escreve são questões que qualquer escritor deve resolver à partida mas que constituem uma parte significativa deste romance: “Escrevo para preservar esse segredo”; “Não, pai, não escrevo para me desforrar”; “Escrevo para chegar mais perto de você”; “Por que escrevo?”, “Para que escrever um livro?”. Num momento de auto-reflexão, Castello escreve: “As notas que tomo para o livro que escreverei formam uma prosa difusa, que não é nem reflexão, nem confissão, nem ficção, e é tudo isso um pouco.” Porém, o livro não é suficientemente forte para ser isto tudo e acaba por não ser nada. É apenas uma prosa indecisa, virada para dentro de si mesma, como o livro de instruções de uma máquina que não existe. Ainda que narrado a partir do interior do protagonista, Ribamar procura sempre apoios exteriores – “estou sempre preso a redes literárias”, confessa o narrador. Kafka significa gralha e ele sonha com pássaros. O médico a que o pai o levou quando ele era criança chamava-se Zwang, que mais tarde ele descobre ser um termo usado por Freud para se referir à compulsão. Ao vomitar pensa que talvez isso represente o início do livro, uma espécie de parto literário.
José Castello não sabe para onde o livro vai e esse desconhecimento é o sumo do livro. O próprio romance está em terapia. A relação com o pai nunca é muito nítida, nunca chegamos perto dela, está sempre à distância de um livro, de uma citação, de um sinal. Como tudo pode ter a mesma importância, nada é realmente importante: “Tudo o que me acontece entra no livro. Pensamentos, sonhos, eventos de minha vida pessoal, mal-estares, coisas que ouço ou que leio.” Falta-lhe o critério, a hierarquização dos factos, dos pensamentos e dos sentimentos que faz com que a literatura não seja apenas o balde onde tudo isso se despeja. O verdadeiro trauma não é o pai, mas o escrever sobre o pai, a dificuldade e a utilidade da escrita. Neste pântano lôbrego, à sombra castradora de Kafka, que impede que o sol rompa e brilhe sobre a prosa, só podia nascer uma flor difícil, um símbolo débil que celebra apenas a sua dificuldade, a sua debilidade.
