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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

11
Jan09

Diário de um agente em Nicósia - Dia 2

Bruno Vieira Amaral

Acordei com uma terrível dor de costas. No chão, Ms. Novak praticava um exercício de concentração que me pareceu uma mistura de Alan Kardec, Paulo Coelho e vegetarianismo. Mais tarde, já depois de eu a muito custo me ter levantado, ela explicou-me que aquela é a única maneira de não sentir remorsos pelos actos terríveis que comete. Disse-me também que tonifica os glúteos e garanto que, pelo menos neste item, a técnica resulta. Perguntou-me se eu tinha alguma técnica semelhante e calculei que não se referisse aos glúteos. "Famous Grouse, sem gelo", respondi, enquanto me esforçava para endireitar a espinha. Ms. Novak saiu. Foi para a praia. Correr, ver as gaivotas, ouvir as ondas, sei lá. Mergulhei numa invulgar crise existencial de origem lombar. Quando desci, o gerente estava dobrado sobre uma matrona com não menos de 130 quilos. Olharam-me com uma indiferença repulsiva ou uma repulsa indiferente, isto é, não tinham gostado do facto de eu ter aparecido mas estavam dispostos a ignorar-me. Saí. O dia estava mais ou menos, que é como me parecem todos os dias em que acordo com uma dor destas. Levei comigo um guia turístico, que acabou por não ser de grande utilidade porque era de Reiquiavique, e o meu fraco sentido de orientação. Já tinha ouvido falar do relicário que guarda as lágrimas de Santa Sofía de la Piedad mas preferi ficar por uma esplanada. O empregado não falava inglês. Ainda tentei explicar, através de mímica, o que é e como se prepara um Long Island Iced Tea; imitei uma perdiz ou um faisão ou que raio de pássaro é aquele. O empregado riu-se muito e, demonstrando simpatia, começou a cacarejar, enquanto pulava em cima de uma cadeira. Desisti. Pedi uma cerveja, apontando para a torre de imperial. "Ah! Bíare!", gritou o autóctone. Sim, uma cerveja, meu bom e imbecil rapaz. Peguei num jornal local. É nestes momentos que me sinto estrangeiro. Quando confirmo que tudo aquilo que é importante para nós simplesmente não quer dizer nada para os outros. Aqui ninguém sabe que o Toy se divorciou. E eu não faço ideia de quem é esta Cynthia Larissa, mas deve ser famosa porque a história dela ocupa 3 páginas do suplemento dedicado ao espectáculo. Pode ser o suplemento de economia. Hoje em dia já não dou pela diferença. Enquanto pensava nisto, Ms. Novak, vinda sabe Deus de que centro espírita, sentou-se ao meu lado. Ficámos ali meia-hora durante a qual não trocámos uma única palavra, embora estivéssemos a pensar no mesmo. "Sabes? Em Creta, devíamos ter sido mais discretos. Alguém vai descobrir o corpo".

11
Jan09

De Miami a Monrovia: a incrível história de Chucky Taylor

Bruno Vieira Amaral
11
Jan09

O estranho caso de Bénard da Costa

Bruno Vieira Amaral

  Bénard da Costa, acabadinho de nascer

Bénard da Costa, trinta e tal anos depois

 

 

Só contactei com Bénard da Costa uma vez na minha vida. Foi na Cinemateca e, na sua majestade de paquiderme, Bénard da Costa pisou a mão de um espectador que, à falta de melhor lugar, se sentara nas escadas. Dois factos arruinaram-me aquela noite: o filme era de Alexander Sokurov e a mão pisada era a minha. Não protestei e Bénard da Costa não se desculpou. Permitam-me, pois, que não simpatize com o senhor. Declarado o meu interesse, reconheço que a Cinemateca, tal como a conhecemos, é Bénard da Costa. Quando uma instituição se confunde com a pessoa que a dirige o prejuízo é sempre da instituição. No entanto, a Cinemateca Nacional é para o público de cinema aquilo que o Teatro Nacional D. Maria II deveria ser - e não é - para o público de teatro: uma casa onde se ensina a perceber uma arte recorrendo, sobretudo, aos clássicos. E esse mérito pertence a Bénard da Costa. Só à luz deste contexto de poder absoluto e obra feita é que se pode compreender que a nomeação de Pedro Mexia tenha sido tão pacífica. Tendo o poder para nomear o seu sucessor (coisa estranha), Bénard da Costa não escolheu um cineasta, não escolheu um "especialista", não escolheu um gestor; escolheu-se a si próprio, um Bénard da Costa em novo, alguém da nova geração em quem ele se revê: conservador, culto e católico. A sucessão de Bénard da Costa mais não é do que a síntese do seu longo consulado: um despotismo iluminado alicerçado no seu gosto pessoal.

 

Ler aqui e aqui. Concordo tendencialmente com os dois, embora deva dizer que outro, nomeado em circunstâncias idênticas, já teria tido as entranhas lançadas aos cães.

11
Jan09

Um país à prova de tudo

Bruno Vieira Amaral

O principal assunto das nossas televisões são as vagas. Uma vaga, seja de que espécie for, garante, sem grande esforço, 30 minutos de noticiário. Com um debate a coisa pode chegar a uma hora. Sempre em directo. O jornalista de cartão com gorro e luvas dá lugar ao jornalista de cartão com colete à prova de bala que dá lugar ao jornalista de cartão em mangas de camisa que dá lugar ao jornalista de cartão de bata branca e máscara. Os cenários variam: a serra com neve, a serra a arder, o banco de urgências, o banco com reféns. O tom mantém-se: o apocalipsimo em directo. O país não funciona: os limpa-neves não chegam (o país necessita de um limpa-neves por cada concelho), os Cessna não chegam (um por cada corpo de bombeiros seria o ideal), os polícias não chegam (um em cada banco e o país estaria seguro), os médicos não chegam (um por cada português com gripe para que o tempo de espera não seja superior a cinco minutos). E no meio das vagas há sempre portugueses indignados: o condutor retido no Marão há 4 horas (mas que nem correntes tinha) e a senhora com uma depressão que aguarda uma consulta de urgência há mais de 12 horas e que estava mesmo a passar-se.  Os noticiários prosperam com as vagas, alimentam-se com os infortúnios de desleixados, hipocondríacos e viciados na indignação. Na verdade, hora e meia é pouco. Há material para meses de programação.

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