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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

16
Fev09

Tipo passe

Bruno Vieira Amaral

Quando eu era pequeno, uma vez por ano, alguém batia à porta. Normalmente era uma rapariga. Perguntava à minha avó se havia crianças em casa. A minha avó dizia que sim. Então, aparecia um sujeito com uma parafernália de instrumentos e um bigode ridículo. Eram fotógrafos. A minha avó penteava-me, vestia-me a roupa mais decente que encontrava – e que era sempre a que me cobria de vergonha – e eu era fotografado como um índio tupi por um jornalista da National Geographic: Bruno a comer uma maçã, Bruno com um casaco verde a olhar-se ao espelho, Bruno a ler um livro (mas com um olhar para a objectiva que dizia “eu só estou a fingir que estou a ler”, técnica que fui aprimorando e que, ainda hoje, pratico com jactância no Metro) e a mais tautológica, Bruno com uma máquina fotográfica ao pescoço. A rapariga tratava das burocracias, corrigia-me o queixo, acalmava-me o cabelo, aprovava-me a fotogenia. O dono do bigode disparava. Iam-se embora e deixavam-me sentado na sala, calçado com os sapatos de sair, sem ter para onde. Estes fotógrafos itinerantes extinguiram-se ou foram para paragens mais verdejantes de crianças. Nunca mais apareceram. Desde então, o meu contacto com fotógrafos tem sido raro e nem por isso mais precioso. Fotografias tipo passe para os documentos, casamento e fotografias com o meu filho. Os documentos vão sendo subsituídos. As fotografias do casamento, tal como o próprio, deverão ter encontrado um final pouco feliz. Restam-me as fotografias com o meu filho. Acontece que, da mesma forma que o fotógrafo ao domícilio desapareceu, o fotógrafo sedentário também se encontra ameaçado. A notícia vem no Público e eu nem teria prestado muita atenção se não fosse por esta frase: “não existe nenhuma hipótese de darmos volta à questão da fotografia tipo passe em Portugal”. Eis a dura verdade dos factos. Eu desconhecia que a fotografia tipo passe tivesse sido elevada a questão, mas para isso é que serve a leitura diária de jornais. Em 2004, o governo começou a instalar equipamentos fotográficos nos registos civis e, a partir daí, começou o lento e inexorável declínio da actividade. Solução? O Estado tem de compensar o sector. O Estado. O Estado. O Estado. Bem, vou ali levantar as fotografias do meu filho, se o fotógrafo não tiver declarado falência.

16
Fev09

Dúvida

Bruno Vieira Amaral

 

 

 

 

 

 

 

A adaptação cinematográfica de "Dúvida", feita pelo autor, John Patrick Shanley, é competente. Shanley fez algumas alterações porque, como o próprio reconhece, seria estranho se a criança não aparecesse no filme. Seria um pouco como "Closer", adaptado de uma peça de Patrick Marber, em que as personagens, por muito bons que sejam os diálogos, parecem vir de lado nenhum e são fixadas num cenário artificial. O mérito de Shanley é não inventar. A sorte é que os actores são tão bons que não é preciso inventar mesmo nada.

 

A acção decorre em 1964. A irmã Aloysius (Meryl Streep), reitora do Colégio de São Nicolau, convence-se de que o Padre Flynn (Philip Seymour Hoffmann) terá abusado de uma criança (o primeiro e único aluno negro da instituição). Não tem provas que o possam incriminar, mas tem a certeza. Uma certeza que nasce de impressões subjectivas. A irmã Aloysius é autoritária e antiquada. O padre Flynn é afável, moderno e eloquente. Entre eles está a irmã James (Amy Adams), uma jovem professora idealista e ingénua. Aloysius vê no padre Flynn uma ameaça. Ele representa uma igreja nova, em mudança, aberta ao mundo, mas também uma igreja que é, hierarquicamente, um mundo de homens (ver as cenas dos jantares dos padres e das freiras). Para a irmã Aloysius, o padre Flynn representa um novo mundo e uma nova igreja que ela não aceita. As motivações da irmã Aloysius não nos são nada simpáticas. Ela é movida por um preconceito e o espectador, quando se apercebe disso, já criou os seus próprios preconceitos: a irmã é detestável, o padre é inocente. Mas existem as zonas de sombra: a ingenuidade com que a irmã James lida com os alunos torna aceitáveis os métodos rígidos de Aloysius. Esta, por sua vez, dá mostras de humanidade na relação com as outras freiras. O padre Flynn é, no mínimo, ambíguo (o desvelo com as unhas compridas) e o casting de Seymour Hoffmann - pedófilo não é palavra que vá mal com aquela cara - só aumenta a dúvida. E, na melhor cena do filme, a conversa-confronto entre a irmã Aloysius e a mãe do miúdo (Viola Davis esmagadora) faz-nos repensar o nosso próprio preonceito. E se a irmã Aloysius tiver razão? Nós não queremos que ela tenha porque não aderimos emocionalmente às suas motivações e porque a sua crença na culpabilidade do padre dispensa provas. No entanto, o padre Flynn poderá ter abusado daquela criança. Em que ficamos? Preferimos uma certeza que nos sossegue ou uma dúvida que nos atormente? A resposta está mesmo na última cena do filme.

 

 

P.S: quem teve a sorte de, há dois anos, assistir à exibição da peça no Teatro Maria Matos, não poderá esquecer o sermão do boato na voz de Diogo Infante.

 

 

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