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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

20
Fev09

Ruy Castro

Bruno Vieira Amaral

Peço desculpa, este é o último auto-roubo, mas estou a ler a biografia de Carmen Miranda e apeteceu-me repescar isto:

 

 
No Rio de Janeiro só estive em livros e, creio, numa música do baiano Caetano (a quem a cidade de São Paulo deve a música mais bela que sobre as suas avenidas foi composta). Isto acontece porque os livros são, salvo excepções em edição de luxo, mais baratos do que as viagens, porque neles se viaja sempre em executiva e porque, segundo consta, são bêbados incorrigíveis os melhores comandantes. É verdade que um livro não bronzeia nem traz com ele bilhetes usados de metro como souvenir. Um livro é sempre fraco como prova material e bem pode o presumível homicida jurar que às dez horas do dia 24 estava no Brasil, mais precisamente na página 183 de um Rubem Fonseca. Em tribunal, o melhor que tem a fazer é dar-se como inimputável por excesso de leitura.
 
Há quem, no entanto, prefira os livros. Em tempos conheci uma personagem (o termo é exacto porque fui eu quem a inventou) que era capaz de falar durante horas sobre cidades onde nunca estivera. Por outro lado, o seu discurso sobre as poucas cidades que conhecia fisicamente era tão desapaixonado que quem o ouvia ficava com a impressão de estar perante um mentiroso sem convicção. Apesar de viver em Lisboa, muitos dos seus amigos não acreditavam que ele alguma vez lá tivesse estado. Quando falava sobre Nova Iorque, Genebra e, o mais extraordinário, Macondo, o único espanto que causava era por ninguém saber onde arranjava ele o tempo e o dinheiro para tantas viagens.
 
Eu queria escrever sobre a biografia do Rio de Janeiro, da autoria de Ruy Castro, mas, desculpem-me os leitores, é Verão nas páginas que acabei de ler e só me apetece vadiar.
20
Fev09

Crónica da minha última vez no Estádio da Luz

Bruno Vieira Amaral

Benfica vs. Oliveira do Bairro - uma experiência (2007)

 

 
Chego ao estádio no momento em que se festeja o primeiro golo. Perdi a dramática águia Vitória e já só me resta a entrada teatral de Mantorras, que só deverá acontecer na 2ª parte. Como o desfecho do jogo não está em causa, faço antropologia social. O treinador do Oliveira do Bairro arrisca sair do banco para dar indicações aos seus jogadores. Um desperdício. Tinha uma hora e meia para ler um livro, contemplar a arquitectura do estádio, ir às compras no Colombo, dormir. Prefere dar indicações perceptivelmente imperceptíveis.
 
O Benfica não consegue fazer uma jogada decente. Desconfio que algo se passa em termos de periodização táctica ou talvez seja a presença de Kikin Fonseca a obstruir a fluidez de jogo. O problema dele é óbvio: remata sempre com o pior pé; umas vezes com o esquerdo, outras com o direito. Duvido que alguém, à excepção do José Eduardo Moniz, o queira contratar.
 
Uma adepta do Benfica recomenda ao treinador visitante que regresse ao banco. Como domina a retórica da bancada rosna uma súmula de disciplina e afecto, exemplo clássico de mediocritas latina: "Vai pá barraca, cão!"
 
O jogo prossegue. O Benfica marca mais dois golos, ambos por Nuno Gomes, que poderiam ter sido marcados, com igual eficácia, por um poste eléctrico, por um juvenil ou por uma personagem de ficção (penso em Raskolnikov).
 
Intervalo. O público devora sandes de torresmo. A voz ominosa de António Manuel Ribeiro ecoa por todo o estádio. Rui Costa chora no écran gigante o pior golo da vida dele. São quinze minutos de desgraças a que o regresso do nº 10 aos relvados põe fim. Aplausos frenéticos. Desmaios. Distúrbios no mítico 3º anel. Algum irresponsável, na sua fúria civilizadora, resolveu instalar cadeiras nos estádios de futebol e, ainda pior, numerá-las. Resultado: pancadaria. Portugal é o único país do mundo em que o conflito floresce na organização e fenece no caos.
 
Pelo que consigo ver, a entrada de Rui Costa ilumina a equipa. Até ao fim do jogo mais dois golos. Finalmente, Kikin Fonseca rematou com o melhor pé. Mantorras entra mais cedo do que é habitual. O desvio litúrgico diminui a intensidade da fé. Apesar disso, os aplausos são claramente desproporcionais em relação à produtividade do angolano. Antes do final, um petiz sentado no maternal regaço arremessa um copo de plástico na direcção do banco de suplentes do Oliveira do Bairro. A mãe, enlevada, repreende-o com um sorrisinho modesto.
 
O jogo chega ao fim. O speaker pede aplausos para os forasteiros. O público, convicto da sua superioridade moral e futebolística, acede ao pedido. Tudo acaba bem. Ser do Benfica é uma alergia imensa.
20
Fev09

O insulto como compensação trágica de uma carência bélica

Bruno Vieira Amaral

Post roubado a mim próprio:

 

A forma como homens crescidinhos recorrem ao insulto verbal um tanto cobardolas só quer dizer uma coisa: o país precisa de uma guerra. Com o 25 de Novembro perdemos (eu não, que sou pacifista!) uma bela oportunidade de resolver este país. Como oportunidades daquelas não surgem todos os dias é provável que nos próximos cinquenta anos tenhamos de nos aturar com "bons dias" e "boas tardes, senhores doutores" rangidos e biliosos. É triste ter de dizer isto, sobretudo num Sábado de manhã, mas faz-nos falta uma guerra civil. Enfiar baionetas (desculpem-me o anacronismo) nos nossos vizinhos, enviar transmontanos e albicastrenses para campos de concentração em sinistros autocarros da Barraqueiro, rebentar com a Basílica da Estrela, assim é que uma sociedade se regenera.

 
Em vez do acima descrito passamos o tempo sentados no conforto burguês das redacções a atirar sumptuosas figuras de estilo à cara do colega de profissão que protesta com gritinhos de virgem deontológica; como demonstração de masculinidade digamos que é assim um pouco para o francês. Como é que vamos defender a civilização ocidental, o país, o T4 na Expo, alimentados a chá, croissants e filmes do François Ozon?
 
Neste momento de crise seria irrealista referendar a organização de uma guerra civil. Como já nem alfaias agrícolas temos, seríamos obrigados a recorrer às obras completas de Júlio Dinis (corpos tombados na lezíria ao lado de edições de luxo d' A Morgadinha dos Canaviais). A verdade é esta: por razões orçamentais, culturais e por défice de varonil vigor não estamos em condições de nos andarmos a matar uns aos outros. É pena.

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