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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

05
Jul09

Confiança

Bruno Vieira Amaral

" I never liked you. You know why? You don't curse. I don't trust a man who doesn't curse. Not a "fuck" or a "shit" in all these years. Real men curse."

 

Raymond J. Barry para Robert Duvall em "Um dia de raiva", um filme que esteve a um final decente de ser grande

 

05
Jul09

Identidade Misteriosa

Bruno Vieira Amaral

 

Publicado no i

 

Vivemos em Democracia mas não vivemos a democracia no dia-a-dia, no exercício das nossas liberdades, na rejeição das pequenas tiranias que nos sufocam e paralisam. Aceitamos tudo porque só assim nos podemos queixar de tudo. São essas as nossas armas: a queixa, a inveja e a arte de viver nas fendas que é o chico-espertismo.
“Em Busca da Identidade – o desnorte”, o filósofo José Gil atribui à doença da identidade, ao excesso de identidade, a nossa paralisia social e cívica. “Somos portugueses antes de sermos homens” (p.10) e o peso dessa identidade afecta os percursos individuais e degrada o espaço público. O excesso de identidade conforta e imobiliza, somos o que somos e isso desculpa-nos, exime-nos do debate, protege-nos do conflito e empurra-nos para o queixume. Transferindo “mecanismos psicanalíticos para o colectivo”, José Gil detecta traços neuróticos nos portugueses durante o Estado Novo como, e cita Ferenczi, “a atenuação do sentimento de responsabilidade”, “o adiamento de todas as acções” e “a crença na realização das ideias só porque são pensadas”. Estes traços permanecem no português do pós-25 de Abril como estratégia de sobrevivência, de adaptação a uma realidade que não era imediatamente dada, que tinha de ser construída. A liberdade colocou problemas de identidade, que levaram a que os portugueses se refugiassem em “antigos moldes que forneciam segurança e paz interior”. Décadas de salazarismo não só afastaram os portugueses do espaço público de debate mas também criaram uma identidade avessa ao conflito e à discussão. A identidade do português não estava preparada para a realidade democrática, para o exercício da cidadania, para a expressão livre. Para José Gil, este conflito entre a identidade e a realidade explica “a nossa dificuldade actual em nos desviarmos de uma via única”. É a nostalgia da ordem salazarista, de um sossego existencial característico dos regimes ditatoriais, de uma paz claustrofóbica que vai respirando pelo tubo do “queixume delirante”.
José Gil desmonta a retórica da “via única” do primeiro-ministro José Sócrates, do discurso reformista que, quando embate com a realidade, prefere a cosmética à transformação dessa realidade. É a institucionalização do chico-espertismo. As tácticas de sobrevivência quotidiana que constam do manual do chico-esperto são, enfim, consagradas pelo próprio Estado. A vontade de mudança permanece como “aspiração flutuante”, impossível de satisfazer, enquanto que, na prática, prevalecem truques como o estudo da OCDE que não era da OCDE. A propaganda da “via única” também procura contornar o conflito ou, quando ele é inegável, desinscrevê-lo do real. A atitude do governo relativamente à contestação dos professores é disso o melhor exemplo. Reconhece-se o direito à manifestação mas retira-se-lhe qualquer significado político, como se 120.000 professores, zombies ou couves fossem a mesma não-coisa. “Assim começa a interiorização da obediência” no país do respeitinho, onde, como afirma José Gil, “estamos ainda longe de praticar a democracia”.
02
Jul09

Tour

Bruno Vieira Amaral

 

O fim do secundário foi penoso. Enquanto toda a gente sofria com a possibilidade de não entrar na faculdade ou de escolher um curso sem saída, eu preparava-me para enfrentar a vida sem poder acompanhar o Tour. O trabalho nunca me assustou mas imaginar-me num call center enquanto o Marco Chagas comentava os últimos 40 kms de uma etapa do Tour fez-me ponderar a hipótese de me dedicar à mendicância ou ao jornalismo desportivo. A vida de Julhos sem tardes livres era um cenário desolador. Tirar férias nessa altura era pouco menos do que um embuste burguês. Cheguei a pensar no suicídio, e brandia O Mito de Sísifo, mas depois li Durkheim e não quis acabar como nota-de-rodapé estatística de uma tese de mestrado no ISCTE. Como poderia sobreviver sem experimentar essa reedição do eterno confronto entre o Bem e o Mal com os anjos da Banesto de um lado e os nazis da Deutsche Telekom do outro? Depois de Indurain, as minhas esperanças transferiram-se para esse Indurain que não ganhava tempo suficiente nos contra-relógios para poder ser carregado pelos companheiros Alpes acima sem perder a camisola amarela e a quem chamavam Abraham Olano. Bjarne Riis e Jan Ulrich, o equivalente velocipédico de Ivan Drago, trataram de acabar com o meu sonho de uma Banesto eternamente vencedora. Passaram-se anos e, inevitavelmente, o Tour acabou-se, pelo menos para mim. Até que o ano passado, instigado por um tio cicloturista, dei por mim a comprar uns calções de lycra almofadados, uma camisola justinha e um capacete para me lançar naquilo que me disseram ser um passeio mas que rapidamente se transformou num suplício. A manhã começou prazenteira. À excepção de uns quantos maníacos de óculos escuros, que bebiam powerade e comiam barras de chocolate como se se preparassem para atacar o Alpe d’Huez, o ambiente era familiar. Uns velhotes barrigudos, uns miúdos e, o que me animou bastante, umas rapariguitas. O percurso era de 60 kms e eu, apesar de nunca ter feito nada semelhante, estava convencido que as pernas estariam à altura do desafio. O “passeio” começou tranquilo e até dava para ir no meio do pelotão a contemplar os sobreiros e restante flora típica da Margem Sul. Quando, aos 30 kms, fizemos uma pausa, não só as minhas pernas, como o meu cérebro e sobretudo aquela parte que se estende do períneo à nuca, estavam dormentes. Olhei para os velhotes, para os miúdos e para as rapariguitas, todos com um ar muito saudável, e eu, confirmei no espelho de um carro, podia ser confundido com um tuberculoso internado num sanatório a quem tinha sido concedido um último e estúpido desejo. O meu tio estava a conversar animadamente com os amigos enquanto eu me entregava com total concentração à solitária tarefa de respirar. Nada me assustava mais do que a ideia de ainda ter de percorrer 30 kms. Mas por fé, teimosia ou incapacidade de raciocinar, lá me fiz à estrada. Muitos de vós não conhecerão, e eu não vos culpo por isso, um viaduto que há ali para os lados do Pinhal Novo. É um viaduto como tantos outros, sobre uma auto-estrada como tantas outras mas, na minha lenda pessoal, aquele é o lugar da vergonha e da ignomínia: o lugar onde parei para observar, com a melancolia permitida pelo cansaço, o pelotão colorido que se afastava de mim num ritmo sereno mas constante. Olhei para o lado e senti o desespero do carro-vassoura. Atrás de mim, apenas uma ambulância. Aproveitei a inclinação do viaduto para voltar ao selim e cumprir o percurso restante, com toda a tristeza de quem está perfeitamente equipado para uma prova que está para além das suas forças. Nunca tive tantas saudades do tempo em que me contentava em ver as bicicletas no sossego da minha sala. 

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