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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

07
Ago09

Aznavour

Bruno Vieira Amaral

 

 

 

 

 

 

 

Nous avions vingt ans,

Toi et moi,

Quand on a sous le même toit,

Combattu la misère ensemble,

Nous étions encore presque enfant,

Et l'on disait en nous voyant,

"Regardez, comme ils se ressemblent",

Nous avons la main dans la main,

Surmontés les coups du destin,

Et résolu bien des problèmes,

Le ventre vide en privation,

Tu te nourrissais d'illusions,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Nous avons lutté tant d'années,

Que la fortune s'est donnée,

Et l'âge a pris ton insouciance,

Tu te traînes comme un fardeau,

Et ne ris plus à tout propos,

Et pleurs ton adolescence,

Et passe du matin au soir,

Des heures devant ton miroir,

Essayant des fars et des crèmes,

Et moi, je regrette parfois,

Le temps ou pour forger tes joies,

Il et suffisait que je t'aime.

 

Si je le pouvais mon amour,

Pour toi j'arrêterais le cours,

Des heures qui vont et s'éteignent,

Mais je ne peux rien y changer,

Car je suis comme toi logé,

Tu le sais à la même enseigne,

Ne cultive pas les regrets,

Car on ne récolte jamais,

Que les sentiments que l'on sême,

Fait comme au temps des années d'Or,

Et souviens qu'hier encore,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Pour moi, rien n'a vraiment changé,

Je n'ai pas cesser de t'aimer,

Car tu as toujours tout le charme,

Que tu avais ce jour bénit,

Où devant Dieu tu as dit oui,

Avec des yeux baignés de larmes;

Le printemps passe et puis l'été,

Mais l'automne a des joies cachées,

Qui te faut découvrir toi même,

Oublie la cruauté du temps,

Et rappelle toi qu'à vingt ans,

Il te suffisait que je t'aime .

07
Ago09

O corno na literatura - apontamentos para um ensaio

Bruno Vieira Amaral

O azar do corno na literatura é ceder o nome de família para os títulos dos romances. Eça lá se lembrou de frontispiciar o Basílio, primo que veio com libertinagens tropicais enquanto o coitado do Jorge mordia o pó que o diabo amassou nos caminhos poeirentos do Alentejo, entre engenharias várias e as mamas pênseis e o olhar oblíquo da taberneira. Olhar oblíquo de cigana era o de Capitu, Capitolina, cabra de olhos de ressaca, grandes e enfeitiçantes, Capitu-Giovanna Antonelli na novela de Manoel Carlos. E foi o mulato Machado a quebrar as tradições e a honrar o corno com o título, duplo título aliás, Dom Casmurro, embora esse não tenha sido o nome dado à pia, mas o mais beato Bento Santiago, glória a Deus nas alturas. É raro ouvir a história pela boca do corno mas sucede que nem o próprio o soube de ciência certa, nem nós, leitores, mais de cem anos depois, podemos jurar pela fidelidade de Capitu ou atirar-lhe, com a convicção dos justos, a pedra castigadora. Quer isto dizer que se ainda não sabemos, nem sabemos se seremos os últimos a saber, os corneados fomos nós pela matreirice de Assis. O lenço de Otelo de Bentinho, a prova possível da traição suspeitada, foi, maldito sejas entre os homens, amaldiçoada seja a semente do teu baixo e mais abaixo ventre, o próprio filho, o filho do homem, no dizer do bíblico José Dias (personagem com a boca cheia de superlativos e que morre a suspirar um: “Lindíssimo!”), o pequeno e profético Ezequiel, tão igual, nas mãos e no jeito de arremessar a cabeça, ao amigo Escobar. Que um homem descubra a traição por uma carta, um bilhetinho guardado numa caixa lacada, entre folhas e suspiros, num sonho em que a mulher geme o nome do amante, tudo isto são truques mais ou menos ao alcance de qualquer um. Que o corno se certifique da traição na pessoa, corpo, gestos e palavras do filho, isso é de génio. Tudo fica em águas de bacalhau porque o suposto amante morre afogado (tal como o Lulu Banzo Pombeiro, marido de Kianda, divindade aquática, no último romance de JE Agualusa), talvez suicídio, talvez azar. Regressemos aos cornos de facto, como Charles Bovary, outro que emprestou o apelido à infâmia, mesmo que o próprio nome contenha uma sugestão bovina (lembremos que há 3 madames Bovary no livro: duas virtuosas e uma que lia o que não devia). Este Bovary futuramente bovino desde as primeiras páginas em que se apresenta na escola com as mãos brutas a esmagar o boné e a balbuciar o nome tem o destino traçado, não por culpa própria, mas por escolha pobre da segunda mulher (mulher de Potifar, é o que era). Nisto da traição feminina o corno nunca tem culpa, esposo amantíssimo, pai exemplar, mesmo o infeliz Clifford Chatterley que foi à guerra e de lá voltou com o hemisfério sul inutilizado, não tinha culpa, que podia ele fazer (se tivesse visto Em Carne Viva poderia aprender alguma coisa com o Bardem mas podia argumentar com igual justiça que nem o esforço maxilar de um estropiado sossega os ardores de uma mulher, mas que a ars linguae de um homem pode despertá-los não reste a menor dúvida, lembremos Basílio, autor material do primeiro cunnilingus da literatura portuguesa, o que poderá ser desmentido por mentes mais lidas do que a minha que recordarão um qualquer minete medieval nas barbas de Dom Dinis, que de bom poeta tinha tanto que ficou para a história como o lavrador por ter mandado plantar o pinhal de Leiria, o que significa que mais valor damos ao pau do que à língua e que a expressão langue de bois talvez não seja tão despropositada), a mulher que se deixasse ganhar os ângulos ossudos da semivirgindade. Se uns se indignam com a traição, o desgraçado Clifford, sabedor da sua incapacidade para cumprir os conjugais deveres, indigna-se, à inglesa, com o rebaixamento social implícito na relação de Constance com um assalariado. A aristocracia e a fleuma britânicas têm destas coisas. O estropiado aceita a traição desde que consumada nos salões e não na cavalariça. (continua um dia destes).

07
Ago09

Sudoeste

Bruno Vieira Amaral

 

Se não penso em voltar a viver com outra pessoa é por ter horror a multidões. O que é assustador na ideia de Inferno não são os eternos tormentos mas a sobrelotação do espaço. Há doze anos, venci os meus receios e, com três amigos, parti para a Zambujeira do Mar. Foi o primeiro Sudoeste. Levávamos muita esperança e muito atum mas, ao contrário dos outros festivaleiros, nenhuma tenda. Foram três dias de intenso convívio com a Natureza, um conceito que nestas alturas se alarga para incluir vodka do Lidl mas que pode ser sintetizado no acto libertador de aliviar os intestinos ao ar livre. Houve muita música. Blur, Xutos, Marilyn Manson, Suede. Alguns concertos deram azo a que se falasse em “comunhão total” entre as bandas e o público. Ora, o mais perto que eu estive da “comunhão total” com alguma coisa durante aqueles três dias foi quando um cetáceo, a comungar totalmente, aterrou na minha espinha ao som do Song 2, dos Blur. Se era para comungar, distribuíssem hóstias. Após os concertos, esperava-nos sempre a aventura de procurar o lugar onde teria ficado a nossa tenda, se a tivéssemos levado. Pelo caminho, destruíamos as tendas dos incautos, o que nunca nos trouxe problemas porque àquela hora estava tudo a comungar com Jah, com Diónisos ou com Príapo. No Domingo, após o último concerto, fomos a pé para a Zambujeira e dormimos no adro da Igreja. Um final santo para três dias infernais.

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