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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

12
Ago09

Caras & Crimes

Bruno Vieira Amaral

Miguel Sousa Tavares, no Expresso, diz que a cara de Isaltino “condiz com o que o tribunal o acusa de ter feito”. Concordo. Há caras para todos os crimes e até há caras que, por muitos cremes que lhes ponham, são verdadeiros crimes. Mais: exige-se um enquadramento penal para quem fuma charutos com aquela desfaçatez à porta de um tribunal. O charuto, como se sabe, evoca corrupções várias, oligarquias e nepotismos. O homem que expele o fumo do charuto faz recair sobre si a nuvem da suspeição. Há ali, no mínimo, peculato, um apalpão furtivo à secretária, uma mariscada conspirativa. Mas se a cara de Isaltino exclama delitos autárquicos, o que nos confidenciam as caras dos nossos políticos? Poderão os dentes alvíssimos de Paulo Portas sugerir outros branqueamentos? Embora não seja um crime, não há no prognatismo de Jerónimo uma ameaça de licantropia? A magreza trostkista de Louça e a fronte eclesiástica suada de Ideal não denunciam uma predisposição sádica para o espancamento de banqueiros? O estilo carygrantesco de Sócrates e a sua agilidade remetem para roubos de jóias na Riviera. Como é português, adivinham-se desvios menores: roupões em spas, lenços na Hermés e amostras de cremes, enquanto folheia revistas no supermercado. Manuela Ferreira Leite transparece seriedade, portanto só a imagino a envenenar um adversário político.

11
Ago09

Agosto ou um post franciú

Bruno Vieira Amaral

Agosto. Casais apaixonados beijam-se apaixonadamente no metro. Exibem ternuras e afagos, lábios tremem, mãos seguram, não te vás, ainda é Agosto, é cedo, fiquemos aqui, estátuas efémeras do desejo. No Inverno, lêem Murakami, lêem policiais, tudo o que sirva para aprender o ofício da solidão e suportar-lhe os dentes. Com o Verão vêm os corpos, as despedidas longas para breves desencontros – ela para o Marquês, ele para o Campo Grande -, pode ser que logo à noite esteja tudo acabado e que, subitamente, o Inverno se desprenda sobre o calor de Agosto.

07
Ago09

Aznavour

Bruno Vieira Amaral

 

 

 

 

 

 

 

Nous avions vingt ans,

Toi et moi,

Quand on a sous le même toit,

Combattu la misère ensemble,

Nous étions encore presque enfant,

Et l'on disait en nous voyant,

"Regardez, comme ils se ressemblent",

Nous avons la main dans la main,

Surmontés les coups du destin,

Et résolu bien des problèmes,

Le ventre vide en privation,

Tu te nourrissais d'illusions,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Nous avons lutté tant d'années,

Que la fortune s'est donnée,

Et l'âge a pris ton insouciance,

Tu te traînes comme un fardeau,

Et ne ris plus à tout propos,

Et pleurs ton adolescence,

Et passe du matin au soir,

Des heures devant ton miroir,

Essayant des fars et des crèmes,

Et moi, je regrette parfois,

Le temps ou pour forger tes joies,

Il et suffisait que je t'aime.

 

Si je le pouvais mon amour,

Pour toi j'arrêterais le cours,

Des heures qui vont et s'éteignent,

Mais je ne peux rien y changer,

Car je suis comme toi logé,

Tu le sais à la même enseigne,

Ne cultive pas les regrets,

Car on ne récolte jamais,

Que les sentiments que l'on sême,

Fait comme au temps des années d'Or,

Et souviens qu'hier encore,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Pour moi, rien n'a vraiment changé,

Je n'ai pas cesser de t'aimer,

Car tu as toujours tout le charme,

Que tu avais ce jour bénit,

Où devant Dieu tu as dit oui,

Avec des yeux baignés de larmes;

Le printemps passe et puis l'été,

Mais l'automne a des joies cachées,

Qui te faut découvrir toi même,

Oublie la cruauté du temps,

Et rappelle toi qu'à vingt ans,

Il te suffisait que je t'aime .

07
Ago09

O corno na literatura - apontamentos para um ensaio

Bruno Vieira Amaral

O azar do corno na literatura é ceder o nome de família para os títulos dos romances. Eça lá se lembrou de frontispiciar o Basílio, primo que veio com libertinagens tropicais enquanto o coitado do Jorge mordia o pó que o diabo amassou nos caminhos poeirentos do Alentejo, entre engenharias várias e as mamas pênseis e o olhar oblíquo da taberneira. Olhar oblíquo de cigana era o de Capitu, Capitolina, cabra de olhos de ressaca, grandes e enfeitiçantes, Capitu-Giovanna Antonelli na novela de Manoel Carlos. E foi o mulato Machado a quebrar as tradições e a honrar o corno com o título, duplo título aliás, Dom Casmurro, embora esse não tenha sido o nome dado à pia, mas o mais beato Bento Santiago, glória a Deus nas alturas. É raro ouvir a história pela boca do corno mas sucede que nem o próprio o soube de ciência certa, nem nós, leitores, mais de cem anos depois, podemos jurar pela fidelidade de Capitu ou atirar-lhe, com a convicção dos justos, a pedra castigadora. Quer isto dizer que se ainda não sabemos, nem sabemos se seremos os últimos a saber, os corneados fomos nós pela matreirice de Assis. O lenço de Otelo de Bentinho, a prova possível da traição suspeitada, foi, maldito sejas entre os homens, amaldiçoada seja a semente do teu baixo e mais abaixo ventre, o próprio filho, o filho do homem, no dizer do bíblico José Dias (personagem com a boca cheia de superlativos e que morre a suspirar um: “Lindíssimo!”), o pequeno e profético Ezequiel, tão igual, nas mãos e no jeito de arremessar a cabeça, ao amigo Escobar. Que um homem descubra a traição por uma carta, um bilhetinho guardado numa caixa lacada, entre folhas e suspiros, num sonho em que a mulher geme o nome do amante, tudo isto são truques mais ou menos ao alcance de qualquer um. Que o corno se certifique da traição na pessoa, corpo, gestos e palavras do filho, isso é de génio. Tudo fica em águas de bacalhau porque o suposto amante morre afogado (tal como o Lulu Banzo Pombeiro, marido de Kianda, divindade aquática, no último romance de JE Agualusa), talvez suicídio, talvez azar. Regressemos aos cornos de facto, como Charles Bovary, outro que emprestou o apelido à infâmia, mesmo que o próprio nome contenha uma sugestão bovina (lembremos que há 3 madames Bovary no livro: duas virtuosas e uma que lia o que não devia). Este Bovary futuramente bovino desde as primeiras páginas em que se apresenta na escola com as mãos brutas a esmagar o boné e a balbuciar o nome tem o destino traçado, não por culpa própria, mas por escolha pobre da segunda mulher (mulher de Potifar, é o que era). Nisto da traição feminina o corno nunca tem culpa, esposo amantíssimo, pai exemplar, mesmo o infeliz Clifford Chatterley que foi à guerra e de lá voltou com o hemisfério sul inutilizado, não tinha culpa, que podia ele fazer (se tivesse visto Em Carne Viva poderia aprender alguma coisa com o Bardem mas podia argumentar com igual justiça que nem o esforço maxilar de um estropiado sossega os ardores de uma mulher, mas que a ars linguae de um homem pode despertá-los não reste a menor dúvida, lembremos Basílio, autor material do primeiro cunnilingus da literatura portuguesa, o que poderá ser desmentido por mentes mais lidas do que a minha que recordarão um qualquer minete medieval nas barbas de Dom Dinis, que de bom poeta tinha tanto que ficou para a história como o lavrador por ter mandado plantar o pinhal de Leiria, o que significa que mais valor damos ao pau do que à língua e que a expressão langue de bois talvez não seja tão despropositada), a mulher que se deixasse ganhar os ângulos ossudos da semivirgindade. Se uns se indignam com a traição, o desgraçado Clifford, sabedor da sua incapacidade para cumprir os conjugais deveres, indigna-se, à inglesa, com o rebaixamento social implícito na relação de Constance com um assalariado. A aristocracia e a fleuma britânicas têm destas coisas. O estropiado aceita a traição desde que consumada nos salões e não na cavalariça. (continua um dia destes).

07
Ago09

Sudoeste

Bruno Vieira Amaral

 

Se não penso em voltar a viver com outra pessoa é por ter horror a multidões. O que é assustador na ideia de Inferno não são os eternos tormentos mas a sobrelotação do espaço. Há doze anos, venci os meus receios e, com três amigos, parti para a Zambujeira do Mar. Foi o primeiro Sudoeste. Levávamos muita esperança e muito atum mas, ao contrário dos outros festivaleiros, nenhuma tenda. Foram três dias de intenso convívio com a Natureza, um conceito que nestas alturas se alarga para incluir vodka do Lidl mas que pode ser sintetizado no acto libertador de aliviar os intestinos ao ar livre. Houve muita música. Blur, Xutos, Marilyn Manson, Suede. Alguns concertos deram azo a que se falasse em “comunhão total” entre as bandas e o público. Ora, o mais perto que eu estive da “comunhão total” com alguma coisa durante aqueles três dias foi quando um cetáceo, a comungar totalmente, aterrou na minha espinha ao som do Song 2, dos Blur. Se era para comungar, distribuíssem hóstias. Após os concertos, esperava-nos sempre a aventura de procurar o lugar onde teria ficado a nossa tenda, se a tivéssemos levado. Pelo caminho, destruíamos as tendas dos incautos, o que nunca nos trouxe problemas porque àquela hora estava tudo a comungar com Jah, com Diónisos ou com Príapo. No Domingo, após o último concerto, fomos a pé para a Zambujeira e dormimos no adro da Igreja. Um final santo para três dias infernais.
05
Ago09

Sandrine

Bruno Vieira Amaral

 

 
Eu ainda era adolescente quando vi Sandrine Bonnaire pela primeira vez. Nessa tarde tingida por um desespero juvenil, apaixonei-me por Sandrine. O filme era “Aos nossos amores”. Se o quiser catalogar, posso dizer que o acontecimento é pueril mas apenas na medida em que todo o amor o é por sempre se dirigir a alguém que não existe (é esta a desgraça de Alonso Quijano). Embora consideravelmente menos táctil, Sandrine era tão real como as deflagrações anatómicas que aos 16 anos, não sem exagero, chamamos de namoradas. Tento reconstituir os meus sentimentos por Sandrine mas tudo o que era vivo e real sedimentou-se na memória: o meu amor por Sandrine é um fóssil. Embora sem provas, posso dizer desse amor o que posso dizer da tarde em que nasceu: existiu.
03
Ago09

Um link

Bruno Vieira Amaral

E agora sou um blogger de pleno direito porque vou linkar um texto da Ana Cristina Leonardo e com isto espero acabar de uma vez por todas, não com o Bonifácio (deixo a tarefa para fãs dos The Killers e sócios do Belenenses) mas com o caso homónimo. Tenho dito. É este o link.

02
Ago09

O conservador de recordações

Bruno Vieira Amaral

 

Publicado no i

 

Pode um crítico literário, ensaísta e professor de literatura comparada em Oxford ser uma celebridade fora dos círculos académicos? Pode, mas convém que se chame George Steiner. Nos tempos da celebração do efémero, a sabedoria livresca de Steiner (n. 1929) é, paradoxalmente, a razão do seu reconhecimento. A sociedade que pressente a importância dos clássicos, mas que não tem tempo para os ler, precisa de um sábio de outras eras que se dedique a essa tarefa, que seja o guardião da sabedoria universal. Os seus leitores, mesmo os de uma obra tão exigente como Antígonas, viajam a reboque pela cultura ocidental, deslumbrados com as pontes entre Homero e Shakespeare, entre Sófocles e os grandes romancistas russos do século XIX. A resposta da academia a esta erudição monumental com uma veia pedagógica balançou entre a condescendência e o menosprezo. Para os micro-especialistas, pós-doutorados com teses sobre os cavaleiros do lago de Paladru, a dispersão apaixonada de Steiner, o temerário desafio de se lançar aos grandes “titãs”, são encarados como diletantismo inconsequente ou exibicionismo pedante. Errata: revisões de uma vida, sendo uma súmula dos “vícios” e “virtudes” intelectuais do autor, é também, por esse motivo, uma resposta aos seus detractores. Mais do que uma autobiografia, é um ensaio com “gatilhos” autobiográficos. Steiner nunca se expõe e contorna sem esforço as incursões ostensivas na intimidade. Em que outra autobiografia poderíamos encontrar um capítulo consagrado ao mistério da música, onde Steiner conclui, entre o fascínio e a decepção, que “face à música, as maravilhas da linguagem são também as suas frustrações” (p.83)? É como se a máscara pública de Steiner escondesse uma réplica idêntica, com a qual partilha o nome e as perplexidades. Em Errata, Steiner volta a questões como o convívio aparentemente contraditório entre a alta cultura e a barbárie ou os limites da linguagem para circunscrever todos os fenómenos da experiência humana, que já aprofundara nos seus ensaios sobre o Holocausto e que são indissociáveis da sua condição judaica. Filho de judeus austríacos que, prevendo os tempos sombrios que se aproximavam, emigraram para França, Steiner foi educado no ambiente do judaísmo secularizado. É essa a origem da “reverência hipertrofiada pelos clássicos”, do multilinguismo e da submissão do impulso criador à hermenêutica, características sem as quais a sua obra e a sua “persona” não são concebíveis. O conservadorismo clássico de Steiner e a sua rejeição veemente do pós-modernismo e do “caos relativista” implicaram, por outro lado, uma cegueira obtusa perante expressões artísticas modernas, como o cinema ou a música popular. Entre várias lamentações – uma especialidade judaica – Steiner assume, porém, a sua devoção aos clássicos e ao ensino, a sua verdadeira vocação. Até na autobiografia, um género mais propenso ao memorialismo ou à romantização, a vontade de partilhar significados e o prazer de ensinar sobrepõem-se ao resto. É isso que faz de George Steiner, mais do que uma celebridade académica, um mestre no sentido clássico da palavra.

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