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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

06
Dez09

Sweet Smell of Success

Bruno Vieira Amaral

 
 
Camomila engole dissertações sobre aviários. Atrasos obscuros remendam sucata. Rios antropófagos (esta até pode ser considerada poesia) desmascaram colírio. Virginia Blackburn é a autora da biografia de Robert Pattinson. Pattinson é aquele rapaz dos filmes de vampiros. E alguém escreveu uma biografia. Não autorizada. Resumindo: o rapaz não existe, pesem embora os inúmeros posters em quartos de adolescentes, tal como pude comprovar através de uma investigação no terreno. Não-Pattinson estudou no Harrodian, “sito em 25 acres de terreno” (p. 30), um colégio misto, frequentado por pessoas reais e por Pattinson. Uma vez que Não-Pattinson tinha duas irmãs mais velhas “estava bem habituado ao sexo oposto” (p. 31). Não-Pattinson ter-se-á habituado ao sexo oposto com as duas irmãs? O que é isto? Este rapaz não se contenta em não existir como se aproveita do facto para se habituar ao sexo oposto com as irmãs. Página 37: “Todo um panorama de novos aspectos se abria diante dele. Mas decerto que não eram apenas as raparigas a contribuir com toda a quantidade de novos segmentos que se estavam a introduzir na sua vida.” Um panorama de novos aspectos e a quantidade de novos segmentos a introduzirem-se na vida de Não-Pattinson são imagens dignas de Rui Santos. Não-Pattinson não é apenas um perito em inexistência, mas também um ectoplasma táctico.
 
Depois, arrumei o livro e comecei a ver Sweet Smell of Success, de Alexander Mackendrick, com Burt Lancaster e Tony Curtis. Um filme de canalhas com “scruples of a guinea pig and the morals of a gangster”. Não admira que o colunista Lancaster, capaz de erguer e destruir carreiras, respire fundo e diga “I love this dirty town.” Uns anos mais tarde, haveria de aparecer um taxista com vontade de limpar as ruas. Aqui é diferente. Estão todos “immersed in the theology of making a fast buck.” É um grande filme sobre a ambição, o egoísmo, a corrupção, o desdém pelo outro. E um dos grandes filmes, de entre tantos, sobre a cidade de Nova Iorque, cidade nocturna. Os clubes de jazz (a banda sonora de Elmer Bernstein a levar o filme), o fumo, as esquinas morais. Curtis brilhante como réptil. Lancaster com a solidez dos grandes: pérfido, egocêntrico, dominador e, no fim, impotente. O plano final, as ruas lavadas pela manhã que se anuncia, Curtis a rastejar, a irmã que se liberta de Lancaster, é um triunfo. Mas os nossos pensamentos vão para os derrotados.
06
Dez09

A Porta dos Infernos

Bruno Vieira Amaral

 
Publicado no i
 
 
Se as boas intenções não salvam nenhuma alma do inferno, também não chegam para fazer um grande romance. Laurent Gaudé, um dos nomes da nova literatura francesa, desceu ao inferno e voltou de lá com um livro menor nas mãos. A culpa é do pesado caderno de encargos a que se lançou: a dissolução de um casal que perde o filho, o desejo de vingança que não se concretiza por falta de coragem e um pai que se sacrifica para resgatar a alma da criança, numa recriação do mito de Orfeu. Junte-se o quarteto extravagante de personagens secundárias, que inclui um travesti de bom coração e um padre subversivo, e o resultado é uma espécie de viagem ao inferno de Dante, com Almodóvar no lugar de Virgílio.
 
Pippo, o filho de Giuliana e Matteo, é atingido mortalmente por uma bala perdida durante um tiroteio entre clãs da Camorra. Para mitigar a dor, Matteo vagueia pelas ruas de Nápoles como uma sombra sem destino nem consistência. É a vontade de vingança alimentada pela mulher que o traz de volta à realidade. Na impossibilidade de reaver o filho, Giuliana exige a Matteo que encontre e mate o assassino de Pippo. Mas quando finalmente tem oportunidade de o fazer, Matteo acobarda-se e regressa a casa sem o sangue do carrasco. Desesperada com a fraqueza do marido, Giuliana abandona-o. A sua forma de lidar com a dor é através do esquecimento. Esquecer o marido, a vida que teve e o filho que perdeu. Matteo regressa às deambulações nocturnas e é então que conhece o grupo de personagens excêntricas que, inesperadamente, acaba por guiá-lo ao inferno e à redenção.
 
A combinação entre o real e o fantástico, entre as ruas de Nápoles e as profundezas do Reino dos Mortos, entre a monstruosidade física de Grace (o travesti) e a amargura silenciosa de Matteo, requer versatilidade. Mas a solução de Gaudé passa por empilhar, sem grande subtileza, blocos de mitologia solene, realismo visceral e tragédia familiar, sepultando a verosimilhança e as boas intenções. De todas as personagens, incluindo as que não se distinguem de uma caricatura grosseira, é a de Giuliana a que corporiza os defeitos do livro. As manifestações da sua dor – as imprecações revoltadas, os bilhetes que coloca entre as pedras das igrejas e a auto-mutilação – são artificiais e quase burlescas no arremedo de pathos bíblico. “Quando voltares, lavarei a tua roupa suja de sangue” e “Restitui-me o meu filho, Matteo. Restitui-mo ou, se não puderes fazê-lo, entrega-me pelo menos aquele que o matou!” são falas que colocam o leitor a salvo de qualquer ameaça de compaixão. Em vez de demonstrar o desespero de uma mãe enlutada, Gaudé encena o sofrimento com requintes litúrgicos, como se a personagem não fosse mais do que uma múmia literária a simbolizar o arquétipo da mater dolorosa. Não convence, nem comove.
 
Sempre demasiado explicativo, Gaudé vai arriscando alguma filosofia ao longo do livro: a vida pode ser um verdadeiro inferno; a dor pode transformar um homem numa sombra; esquecer os que partiram é condená-los a uma segunda e definitiva morte. Boas intenções, misticismo sofrível. Por vezes, o melhor é deixar os mortos em paz.

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