Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

15
Fev10

Gestas e Varas

Bruno Vieira Amaral

 

O que eu gostava mesmo de escrever, se talento tivesse para tais empreitadas, era uma gesta. O texto primordial da nação, a bíblia do patriotismo, acessível a qualquer filho-da-mãe que, após a leitura, verteria lágrimas de arrependimento, amaria profundamente a pátria, os seus heróis e cada uma das pedras, vetustas ou lá colocadas na altura da Exposição do Mundo Português, dos castelos, saberia o nome dos rios e o cognome dos reis, onde nascem as fronteiras e desaguam as tragédias, a árvore genealógica da família real e os brasões das casas de má fama, as ínclitas gerações e os barões assinalados, as proclamações de independência e os murmúrios de dependência, os terramotos e as reconstruções, os filipes e as conchas, os duartes, os sidónios e os possidónios, os sidosos e os sifilíticos, os comunas e os regicidas, saberia tudo de todos e alegrar-se-ia de ser ele também fruto da árvore frondosa (aquela que contornamos no início do filme do Oliveira), antiga e invencível, sob a qual descansam os ricos e bons homens do morgadio e a cujos ramos trepam os macacos de aldeia e seus acólitos, lá vem o taberneiro, traz duas pipas cheias e duas filhas zarolhas, uma mulher sem dentes carregada de pastéis de bacalhau, tira-os da algibeira e joga-os aos cães e aos pobres, que a eles se lançam como gato a bofe, sete cães a um osso, estala o foguetório, “Ah, Bodas de Camacho!”, bons eram os tempos, boa e velha árvore, que a nós nos dás sombra e bolotas aos porcos. Mas tarde cheguei à nação, que já por aí andava ao deus-dará quando eu nasci, espetaram-lhe colheradas de democracia mas aquilo caiu-lhe na fraqueza, engasgou-se e pôs-se a arrotar restos de europa, a bolçar expos e euros e agora é assim como vedes, calhou-nos este moisés das beiras, de vara na mão a apascentar varas de sócrates, que o seguem mal e porcamente, que o Mar Vermelho é já ali e mesmo sem o bafo dos exércitos do faraó nos pescoços hão-de afundar-se, que isto de apartar águas não é para todos.
15
Fev10

Férias

Bruno Vieira Amaral

As férias, não o trabalho, são a coisa mais burguesa que existe, ainda mais do que as batatas pré-fritas e os sacos do aspirador. Suponho que sejam uma das conquistas de Abril, mesmo quando são gozadas em Fevereiro. O trabalhador, reza a legislação, tem o direito inalienável às férias, como um escravo mal comportado tem direito a um intervalo entre a 25ª e a 26ª chibatadas. Recebe o subsídio de férias que apenas serve para o manter afastado das imediações do local de trabalho. As férias começam com os habituais “finalmente”, “já não aguentava aquilo”, “estava pelos cabelos” e a ladainha prolonga-se durante a primeira semana. A segunda semana é pródiga em “como é bom estar longe daquela gente”, “e os outros a ter de aturar filas e transportes”. Com a terceira semana vem o tédio, outra invenção burguesa. O dinheiro escoou-se e resta-nos A Praça da Alegria e o Opinião Pública. Seguem-se as revelações e as boquiaberturas de espanto: o sorriso da Sónia Araújo depois de ter ficado sem um Jaguar, vítima, ao que parece, de um daqueles casos de combustão espontânea muito comuns na área metropolitana do Porto. No Opinião Pública discute-se a liderança do PSD, mas um telespectador aproveita para insultar a convidada, Inês Serra Lopes, referindo-se ao processo Casa Pia. Leio o Sol (poderá a isto chamar-se heliomância?). Concordo com a Ana Cristina e percebo o título do jornal: O Polvo. Aqueles dois são cefalópodes (e por mais do que um motivo). Muito mais grave do que não haver liberdade de imprensa, é a liberdade de impensa estar ameaçada por...aquilo. É óbvio que aqueles tipos têm de se mover em águas profundas, na sombra dos gabinetes. Se assomam à superfície, acabam em salada. A sério. Para que o tráfico de influências se possa credibilizar, é necessário arranjar umas caras decentes. Na preparatória, eu tinha colegas com caras daquelas e uma coisa posso garantir-vos, nunca lanchavam. Aproveito para deixar registado que nada disto melhora as minhas férias.

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D