04
Fev10
Domingo desportivo
Bruno Vieira Amaral

Quem ao desporto associa competitividade, emoção, hordas de fanáticos em êxtase, nunca viu o 70x7 das modalidades ditas amadoras: o Desporto 2. A narração é emoliente, como se, em vez de falar, os comentadores espreguiçassem a voz durante meia hora. A transmissão avança, sonolenta, de uma intensa prova de triatlo em Abrantes para o não menos excitante Grande Prémio Hípico “Terras d’Ouro”, onde Fanny Mountbatten von Hoppenheimer monta graciosamente o alazão Triple Rescue. Por vezes temos direito a um campeonato nacional de iniciados em ténis ou um challenger em Santa Maria da Feira com um prize money de 250 euros e uma sandes de torresmo. Isto, é claro, se naquele fim-de-semana não houver um concurso de parapente na serra da Gardunha ou o sempre muito aguardado festival internacional de papagaios de papel em Alcochete. As câmaras da RTP também chegam a colóquios subordinados a temas como “Distensões musculares em xadrezistas: recomendações para o novo século”, com a presença do Dr. Domingos Gomes, ou “As novas tecnologias e os matraquilhos: deve ser permitida a roleta?”, com intervenções do Prof. Manuel Sérgio e de um representante da Associação de Proprietários de Salões de Jogos. O tiro desportivo também não é esquecido. É-nos apresentado o pentacampeão mundial da modalidade, um daqueles senhores que, quando chega a altura dos Jogos Olímpicos, queixam-se de não estar habituados ao mediatismo, ao público nas bancadas e à irritante pontaria dos adversários bielorrusos, factores que contribuem para eliminações prematuras que muito ofendem a nação. No entanto, este devia ser um desporto mais acarinhado pelos portugueses, até porque uma das provas é a fossa olímpica, uma imagem concisa e poética das nossas participações.
Quando sobra algum tempo, a RTP não se esquece de modalidades em franco desenvolvimento no nosso país como o corfebol, o kitesurf e a pesca submarina indoor. Os praticantes destes desportos sofrem o unânime desgosto de não lhes ser dada a devida atenção pela comunicação social, sempre empenhada em ouvir as declarações sagazes de um Ruben Micael, em filmar os bonés cor-de-laranja de um José Mota, mas ignorando a beleza lepidoptérica do badmington (um desporto inventado a pensar nos fãs tailandeses de Nabokov) e a sorridência estridente da natação sincronizada (um desporto que só deveria ser praticado por golfinhos).
Estas transmissões têm o inegável - e único - mérito de impedir uma nova vaga de programas do Júlio Isidro e do Luís Pereira de Sousa. São uma espécie de diques contra a subida das águas da rtpmemorialização nas tardes de domingo. Aquilo não tem nada de belo, mas não deixam de ser obras de engenharia televisiva extremamente úteis. Teria todo o gosto em dedicar estas últimas linhas a uma diatribe contra o futsal e contra todos os desportos de praia (incluindo a apanha de bivalves na praia do Barreiro), mas não me é possível.
