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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

13
Jul10

Vómitos

Bruno Vieira Amaral

Seja em que circunstâncias for, o vómito é uma capitulação ignóbil, um Tratado de Versalhes assinado com as entranhas, um harakiri sem a dignidade dos samurais. A euforia da embriaguez é derrotada pela convulsão involuntária do corpo; o entusiasmo de uma excursão às Minas de Serra d’Aire soçobra perante a confissão visceral de um estômago sensível à trepidação e às curvas. O vómito, como qualquer incontinência, humilha-nos. A bandeira admite empréstimos e doações de sangue, suor e lágrimas, mas não há pátria que solicite aos seus filhos o sacrífício de um vómito. Enjoos maritimos não fazem a grandeza de uma nação, nem mesmo das que se dizem de marinheiros. A Bíblia adverte: homem que reincide no pecado é como o cão que volta ao próprio vómito. E nós, por muito pecadores que sejamos, não somos cães e não invejamos o prazer canino de regressar ao que se expeliu sem nobreza.

 

Alípio Abranhos, eterno conde, mestre na oratória parlamentar, quando se viu na iminência de um duelo, circunstância que lhe pedia mais da coragem do que da retórica, teve um achaque de donzela, uma revolução gástrica que lhe dobrou os joelhos e o fez expelir uma substância esverdeada onde certamente estava escrita a sua verdadeira natureza flébil. O vómito do conde foi físico e moral, idêntico ao do jovem Marcus Messner, personagem de Indignação, de Philip Roth. Após uma longa e tensa conversa filosófica com o deão, o pobre Marcus vomita para cima da carpete, da cadeira e de uma moldura. Conclui resignadamente que “não tinha estômago para enfrentar o deão dos alunos, como não tinha estômago para enfrentar o meu pai ou os meus companheiros.” O vómito confirma-o.

 

Que a prosa de Céline chafurdava em merda e pústulas é uma verdade universalmente reconhecida. Mas os prazeres escatológicos do Doutor Destouches nunca terão sido levados tão longe como na célebre cena do vómito colectivo em Morte a Crédito. Uma viagem de barco transforma-se numa orgia de vómito cujo climax é um momento que nem as reticências atenuam: “Ela então vira-me aquela cabeça de uma assentada a favor do vento...Toda a vaca estufada que lhe gorgolejava no gasganete ela ma chimpa em cheio nas ventas...Fica-me tudo nos dentes, os feijões, o tomate..eu que já não tinha mais nada que vomitar!” Purga, catarse ou simples divertimento celineano, a cena é um espectáculo cru da humanidade no mais abjecto e inimputável da sua existência; um quadro de exagero irreal que faz dos passageiros artistas de vaudeville numa dança grotesca. Que futuro poderá haver para uma espécie que se vomita e que escreve sobre isso?

13
Jul10

Azul

Bruno Vieira Amaral

Era tudo complexo e azul, árvore marítima, crustáceo, celofane e orgulho. A concha afirmava, em leque, que aquele era um dia de praia. Começou mal, angústia e motor, o carro não pegava, a família, mulher, dois filhos e impaciência. Orlando prometera. No último Verão quebrara a promessa, usou uma desculpa melancólica, um súbito horror a multidões, o que entristeceu os filhos, a pele transparente. E agora, no dia em que ele capitulara, o carro não pegava. Orlando ignorava mecânica, só lhe restava esperar, absorto. Podia sair do carro, abri-lo, espreitar as peças, as ligações todas que não entendia, mas ele não queria dar esperanças. Dependia tudo da vontade do carro. Ele, pai, inocente, isento de culpas. Vamos tentar mais uma vez. E o carro pegou. Gritos, alegria, exasperação feminina. Orlando retrovisou os filhos, os gritos, a alegria. Não tinha o direito de lhes negar a exibição franca de estupidez. Foi então que, pela primeira vez, avistou o leopardo. Estava mesmo atrás do carro. Orlando esperou. O leopardo saltou para cima da árvore e a família seguiu, felina, para a praia. Cheia, cheia. As crianças saíram do carro e correram para a areia. Irene olhou para o marido. Ele procurava o leopardo. Rodeou o carro. Nada. Até que o viu, a caminhar na areia, perto dos filhos. Olhou para a mulher, imperturbável, sangue frio. Chamou os filhos, cuidado, mas eles já tiravam a roupa, sem medo, o leopardo tão perto. Quero lá saber. Tirou os sacos da mala do carro, chapéu-de-sol, olhou outra vez, os miúdos a correr para a água, o grande felino deitado, a bocejar sol, a vontade de chamar os filhos, arrumar as coisas, voltar para casa. A mulher desceu. A submissão pôde mais do que o medo e Orlando avançou, deu tempo para que o leopardo desaparecesse, fantasma, mas o leopardo permanecia, estátua, e Orlando, líquido, suava. Irene. Leva as coisas. Preciso de um café. Irene já nem estranhava. Foi ter com os filhos e, Orlando bem a viu, sentou-se ao lado do leopardo, acariciou-o, fêmea, lânguida. Era tudo complexo e azul. Havia um café ali perto, mas Orlando continuou. Centenas de pessoas. Toalhas, o odor enjoativo a creme, sal. Sempre em frente. Orlando podia caminhar o dia todo que não chegaria ao fim. Uma extensão interminável de areia semeada de crianças, uma avioneta a rasar a água, tão azul, tudo tão azul e outra vez o leopardo, à beira-mar, Orlando à distância. Um belo animal, pensou, sem dúvida, real, soberano, desviava-se das pessoas com uma elegância racional, milimétrica, infalível. Orlando tirou os sapatos, depois a camisola, as calças, finalmente. Pousou tudo e continuou a andar, mas já não via o leopardo. Olhou para trás, a mulher e os filhos, nevoeiro, nada. Prosseguiu. Pessoas a rarear, mais mar, mais céu e o leopardo, agora à frente, uns vinte passos, a indicar-lhe o caminho, as pegadas desapareciam. Estava longe, longe. Correu atrás do leopardo. Sabia, porém, que nunca o iria alcançar, por muito que corresse. Exausto. Caiu de costas, o céu. Fechou os olhos, o leopardo. As mãos enterraram-se na areia, uma concha, em leque, aquele era um dia de praia. Azul.

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