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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

28
Jul10

Quando tudo se desmorona

Bruno Vieira Amaral

Publicado no i

 

 

“As coisas começaram a desmoronar-se em casa quando o meu irmão, o Jaja, não foi comungar (…)” O começo de A Cor do Hibisco remete-nos implicitamente para um dos romances seminais da literatura africana, Quando Tudo se Desmorona, de Chinua Achebe. No seu romance de estreia, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora do aclamado Meio Sol Amarelo, reclama a sua parte da herança e prolonga a fusão entre a literatura ocidental e as raízes africanas ou, adaptando, inglês correcto com sotaque e imaginário ibo.

 

A convivência entre as duas culturas nem sempre resultou na amálgama sólida de que é feita a literatura de Achebe e de Adichie. Neste romance, é a figura do pai de Kambili, a narradora adolescente, que representa a impermeabilidade dos dois mundos. Educado numa missão católica, o pai é “um puro produto do colonialismo”, alguém que obliterou a sua identidade africana e que exige o mesmo dos filhos, mesmo que tenha de recorrer a constantes abusos físicos e psicológicos. No entanto, este homem de uma severidade extrema é capaz dos gestos mais altruístas em benefício de estranhos e é proprietário de um jornal que denuncia corajosamente a corrupção do governo. Kambili tem dificuldade em conciliar as duas imagens do pai: o herói público e o monstro privado, que castiga os filhos com água a ferver, que espanca a mulher e que despreza o próprio pai. A ideia de pecado ensombra toda a existência de Kambili que só tem um vislumbre de uma outra vida quando vai visitar a tia. A casa de Ifeoma é um santuário de liberdade e de riso. A tia mostra-lhe que o avô não é um pecador pagão que mereça as chamas do Inferno e os olhos de Kambili abrem-se para esse novo mundo que existe para lá da disciplina paterna.

 

Para romance de estreia, A Cor do Hibisco revela uma autora surpreendentemente madura. O ponto de vista da narradora é coerente e temas que são lançados num determinado momento são recuperados mais à frente (as aparições em Aokpe, a visita ao monte Odim), criando um efeito de perfeição circular. A maturidade também se expressa nas personagens, agulhas de um sismógrafo que capta a turbulência social. A derrocada familiar é consequência dos abalos políticos. A forma como Adichie entrelaça os dois planos, sem excesso de melodrama e sem proselitismo político, é o grande trunfo do livro e um feito admirável para um primeiro romance.

28
Jul10

Mãos

Bruno Vieira Amaral

Ainda em A Vida Verdadeira, há uma personagem que decepa a mão esquerda. Em 2666, também há um artista que corta a própria mão. Artista esse que me recordou o poeta Leopoldo María Panero e que é bem possível que tenha inspirado Bolaño. O artista do romance é internado num manicómio (não tenho a certeza que seja o de Mondragon) e Panero é autor do livro Poemas do Manicómio de Mondragon.

28
Jul10

Leituras

Bruno Vieira Amaral

“Hoje sou adulto e não sei nadar. Os outros, os que não foram tão protegidos, sabem nadar, o que lhes pode valer em situações críticas (perigo no mar, naufrágios, inundações). Se um dia me vir em perigo no mar, não estará lá a minha mãe para me proteger. Mas quando esteve ela foi imensa, total, infalível.”

 

Este excerto do romance de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira, lembrou-me uma cena de O Livro do Riso e do Esquecimento*, de Milan Kundera. O rapaz é um péssimo nadador e, ao ver a namorada a nadar como uma profissional, tem um acesso de litŏst, uma espécie de auto-compaixão melancólica. Quando a rapariga sai da água, ele dá-lhe uma estalada com o argumento que ela correra um grande risco ao nadar daquela maneira. Na verdade ele não estava preocupado com a segurança da rapariga, mas o desembaraço aquático da namorada tinha sido uma humilhação tácita que ele não podia suportar.

 

O protagonista do romance de Vasco Luís Curado tem o nome de Vergílio e lendo o excerto que se segue percebemos porquê: “Sentia-me íntimo do mistério das coisas, seja isso o que for. Tudo, agora, repentinamente, me parecia claro, coerente, o Universo era uno e esplendoroso sem deixar de ser terrível. Pela primeira vez na minha vida, achava-me lúcido. E tudo porque me reconciliei comigo próprio.” Obviamente, Vergílio é vergiliano.

 

Outra passagem vergiliana é quando Irene, a irmã de Vergílio, reflecte sobre o próprio nome: “Quando pensas em mim […] eu sou um nome nos teus pensamentos ou um vulto, uma imagem? Pensas a Irene ou pensas em mim não com um nome? É que o nome capta a essência da coisa, torna-a individual e única.” Carolino, o Raskolnikov alentejano de Aparição, também mastiga as palavras (pedra, pedra, pedra) até ao caroço. O mesmo que Antoine Doinel faz em Beijos Roubados, de Truffaut, quando, em frente do espelho, repete o nome inúmeras vezes (antuáneduánel, antuáneduánel, antuáneduánel). A discussão poderia avançar para o racionalismo vs. empirismo / nominalismo (matéria que, tal como o sexo em grupo ou a filmografia de Bergman, me interessa, mas que não domino), ou levar-nos até ao poema de Jorge Luis Borges, El Golem:

 

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

 

ou a uma passagem de Orlando, de Virgínia Woolf, em que @ protagonista descobre a diferença entre o verde na Natureza e o verde na Literatura. É sobre isto que Vergílio fala quando diz: “As rosas e as tulipas que deixei murchar só existem para mim enquanto palavras” ou “O real, para nós, era o verbal.”

 

A Vida Verdadeira tem também um episódio sobre a viagem enquanto cosa mentale, algo que dispensa a deslocação física para se realizar, para se tornar real. A viagem acontece nos preparativos. Há um poema, cujo nome a minha memória não quer recordar, de Fernando Pessoa, ou de um dos seus heterónimos, que conclui o mesmo. Sei que tenho isto apontado no último capítulo do livro de Fernando Savater, O Conteúdo da Felicidade, mas infelizmente estou na hora de almoço e muito longe dos meus livros.

 

* corrigido

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