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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

09
Dez10

Revisores de Texto

Bruno Vieira Amaral

Onde é que iria encontrar um revisor de texto a uma hora daquelas? Lembrou-se então de descer as escadas. Quando chegou à porta do prédio, fechou os olhos e rezou para que lá fora estivesse um desses autocolantes com o número de telemóvel de um revisor de texto, mas só encontrou o de um canalizador e o de um gajo que dava aulas de escrita criativa a crianças hiper-activas, uma merda que envolvia cães e leitura de excertos de A Educação Sentimental. Nada de revisores de texto. E agora? Havia sempre a Diamantina que, depois de ter ido para a cama com todos os jornalistas culturais do país e com os poucos desportivos que citavam Galeano e Rodrigues, tinha-lhe dado uma oportunidade de mostrar o que valia ou de, pelo menos, pôr a pila em terreno anteriormente percorrido pelos membros viris de sumidades como aquele tipo espertinho que escrevia essencialmente sobre autores japoneses e o outro que agora era correspondente de uma revista semanal em Maputo, Luanda ou noutro sítio qualquer cheio de pretos e de empreiteiros tugas montados em jeeps e com quatros seguranças à volta enquanto mamam camarões e exibem o grande regresso em estilo colonial, é isso. As coisas tinham corrido tão bem que nos cinco meses seguintes a comunicação, se se pode chamar comunicação a ele enviar-lhe mensagens a horas impróprias e ela não responder, estagnou. Diamantina, coitada, a Diamantina que andava toda contente por ter uns livrinhos autografados (mormente compilações de crónicas publicadas em jornais gratuitos) e ao fim de engolir vários litros de esperma intelectualmente sobredotado lá aprendeu a dizer Derrida com uma pronúncia que não a envergonhava, a Diamantina era a última esperança dele naquela noite. “Sim, conheço um que é capaz de estar disponível.” E foi assim que às duas da manhã de uma quinta-feira particularmente fria, Mário acabou numa bomba de gasolina em Fernão Ferro à espera de um revisor de texto conhecido no meio como o Fronhas, vá-se lá saber porquê, que finalmente chegou no meio de uma nuvem de fumo com que o seu Renault 19 de 92 se fazia anunciar. “Ouve, para me fazeres vir aqui a uma hora destas é bom que seja por um excelente motivo.” Mário olhou-o, pensou na falta que uma Ordem dos Revisores de Texto fazia e, sem demoras, entregou-lhe um manuscrito, o manuscrito. O Fronhas pegou no caderno e depois de uma olhadela disse-lhe: “Estás a gozar comigo? Sabes que há umas quantas pessoas capazes de matar para ter isto, não sabes? E para que não fiques a pensar que eu sou um parvo qualquer, digo-te já que as conheço todas e que sei de cor os números de telemóvel e a música preferida de cada uma delas. Posso ficar com isto?” Mário hesitou mas conseguiu disfarçar a falta de opções com uma convicção postiça. “Preciso disso pronto amanhã.” O outro esboçou algo entre um sorriso e um atestado de incapacidade intelectual permanente. “Para amanhã posso escrever a continuação dos Lusíadas. Isto, só daqui a duas semanas.” “Preciso do texto pronto amanhã ou então tenho de procurar outra pessoa.” “Outra pessoa? Queres dizer um revisor de texto minimamente competente, às duas da manhã, nos arredores de Fernão Ferro?” “Posso ir a Lisboa” “Claro que podes. E podes fazer muita coisa em Lisboa e até podes encontrar muita gente em Lisboa, mas ninguém que te possa ajudar com o material que tens aqui.” (cont.)

09
Dez10

Temporada de Prémios Literários

Bruno Vieira Amaral

Prémio Aldo Duscher

 

Atribuído todos os anos ímpares, o Aldo Duscher premeia obras de escritores argentinos que tenham passado pelo Sporting, mesmo que não tenham alinhado em partidas oficiais. Os dois finalistas deste ano são: Leyenda de un portero porteño, de Leandro Romagnoli e Sueños de Tripoli, de Beto Acosta. O aclamado Verguenzas, romance-sensação de Jorge Burruchaga, ficou fora da selecção final por decisão unânime do júri constituído por Teolinda Gersão, Dias Ferreira e um representante do Real Massamá.

 

 

Prémio Francisco Sá-Carneiro

 

Criado este ano, o prémio Sá-Carneiro visa a divulgação junto do grande público de obras poéticas no âmbito da social-democracia. Só podem concorrer militantes do PSD com as quotas em dia ou, excepcionalmente, autores com trabalho reconhecido na área, cuja entrada depende de avaliação curricular. Entre os favoritos contam-se ADSE, conjunto de poemas concretistas da autoria de J. Ramalho; União, de Agostinho Branquinho Júnior, relato em verso livre das principais incidências dos congressos do PSD; 12 Sonetos para Cavaco, obra dividida em quatro partes (3 sonetos de Betão, 3 Sonetos de Tabu, 3 Sonetos de Belém, 3 Sonetos para a Eternidade); e o poema épico As ondas de Neptuno – Ascensão e Queda de Rui Gomes da Silva, da autoria de um colectivo de Celorico da Beira.

 

Prémio Revista Maria

 

O mais prestigiado prémio na área do conto feminino. Nos últimos três anos tem sido o que os ingleses chamam de one-horse race, com a vitória de Núria Macedo: Prazeres Proibidos, Sentimentos e Emoções e o fenomenal Vícios Discretos, sobre duas irmãs que disputam os favores sexuais de um candelabro, tornaram Núria a rainha incontestada do género.

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